“Macau simboliza o desejo de descobrir e percorrer o mundo até suas últimas distâncias”

Eduardo Gageiro

Foi numa viagem de avião para Macau que Sophia de Mello Breyner Andresen começou a escrever “Navegações”. Sophia esteve uma única vez em Macau, em 1977, a propósito das comemorações do Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. O PONTO FINAL recorda a viagem, a palestra e a obra da poetisa que este ano completaria 100 anos. “A única vez que uma viagem de avião me deu a sensação de navegação foi quando fui a Macau”, disse um dia Sophia.

André Vinagre

andrevinagre.pontofinal@gmail.com

“Navegámos para Oriente / A longa costa / Era de um verde espesso e sonolento”. “Navegações”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, é a obra que nasce da viagem da poetisa até Macau, em Junho de 1977. Ainda no avião, Sophia pensa naqueles que ali chegaram “sem aviso prévio, sem mapas, ou relatos, ou desenhos ou fotografias que os prevenissem do que iam ver”, contou mais tarde a escritora. É a 11 de Junho de 1977 que Sophia passa pelo Teatro Diocesano de Macau, a convite do Conselho da Revolução, para participar nas cerimónias de comemoração do Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. Sophia diz: “Macau simboliza o desejo de descobrir e percorrer o mundo até suas últimas distâncias, o desejo de descobrir e encontrar a múltipla diversidade dos povos, dos lugares e das culturas”.

Integrada no programa das comemorações do Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, realizou-se na noite do dia 11, no Teatro Diocesano, a “Noite Portuguesa”, recorda a edição do dia 15 de Junho de 1977 da Gazeta Macaense. Na plateia estava o ministro de Estado do I Governo Constitucional pós-25 de Abril de 1974, Henrique de Barros, o governador de Macau, Garcia Leandro, e “as principais entidades oficiais, civis, militares e religiosas e numerosas pessoas das mais diversas categorias sociais”, lê-se na Gazeta Macaense.

FOTOGRAFIA EDUARDO MARTINS

Também o semanário Clarim fez menção à passagem da poetisa pelo território, na sua edição de 12 de Junho. “A par do seu lugar ilustre no vanguardismo da Literatura Portuguesa, ocupa igualmente posição de destaque como deputada do actual Governo Português”, descreve o jornal. Sophia de Mello Breyner foi também deputada à Assembleia Constituinte, eleita pelo Partido Socialista (PS), pelo círculo do Porto, em 1975, abandonando o hemiciclo em 1976.

Na cerimónia, para além da palestra proferida pela escritora, que é este ano homenageada no Festival Literário de Macau – Rota das Letras, actuaram os “Pequenos Cantores” do Colégio D. Bosco e ainda um outro homenageado nesta edição do festival: Adé dos Santos Ferreira, “o maior cultor do ‘patois’ [patuá] macaense”, descreve o jornal. O poeta de Macau declamou um “desfile de quadras populares”.

Mas o ponto alto da noite era Sophia. Beatriz Basto da Silva, professora do Liceu Nacional Infante D. Henrique e membro da Comissão Organizadora desta “Noite Portuguesa”, anuncia o “momento mais brilhante da noite”, a palestra de Sophia de Mello Breyner Andresen. “Quisemos oferecer alguns números que foram já executados e que significam, com muita amizade, um pedestal simbólico que antecede a sua actuação”, cita a Gazeta Macaense.

MACAU, LUGAR DA “MÚLTIPLA POSSIBILIDADE DE CRIAÇÃO HUMANA”

“E foi por entre calorosa salva de palmas que a poetisa e escritora Sophia de Mello Breyner subiu ao palco, pronunciando em seguida a seguinte palestra”, anuncia o jornal, passando a citar a intervenção. “É com extrema emoção que falo aqui, em Macau, que, para mim, nascida na praia mais ocidental da Europa, é o cabo do mundo”, começa por dizer, acrescentando: “No entanto, sempre Macau esteve no meu pensamento e é por isso que, no segundo livro que publiquei, aparece um poema intitulado ‘Gruta de Camões’, poema onde Macau é invocado”. O poema de que Sophia fala está inserido no livro “Dia do Mar”, editado em 1947: “Dentro de mim sobe a imagem dessa gruta / Cujo silêncio ainda escuta / Os teus gestos e os teus passos / Aí, diante do mar como tu transbordante / De confissão e segredo / Choraste a face pura / Das brancas amadas / Mortas tão cedo”.

“Desde a infância e desde a escola associamos o nome de Camões e o nome de Macau. E desde as apaixonadas leituras da adolescência o mundo que Macau é está presente para nós nos poemas de Camilo Pessanha. E desde a infância, desde o fundo do nosso mais antigo imaginar, Macau simboliza o desejo de descobrir e percorrer o mundo até suas últimas distâncias, o desejo de descobrir e encontrar a múltipla diversidade dos povos, dos lugares e das culturas”, recordou Sophia.

De seguida, o foco da palestra passa a ser Camões. “Camões diz-nos que deixou sua ‘vida em pedaços pelo mundo repartida’. Por isso hoje, e agora e aqui, o invocamos e em seu nome celebramos o dia das comunidades portuguesas”. Em Macau, Sophia descreve “Os Lusíadas” como “a epopeia de um povo que ousou ir ver o que havia mais para a frente, e passou através dos temporais e das lendas do mar-tenebroso”. “O homem é um animal que se pôs de pé para ver melhor. Os Lusíadas são o canto dos homens que saem de sua terra para ir ver a terra inteira”, afirma.

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

A poetisa, que faria este ano 100 anos, debruça-se, depois, sobre o colonialismo e o imperialismo que “pertencem a um passado ultrapassado”. “Esperamos profundamente um tempo de convívio novo e recreador entre os homens de todas as nações, um tempo sem dominadores e sem dominados, um tempo sem vencedores nem vencidos”, aponta Sophia, voltando-se novamente para Macau: “E é por isso que Macau não é para nós uma relíquia do Império, uma sobrevivência do passado, mas sim o lugar onde se realiza cada dia esse convívio entre homens de diversas nações, diversos cultos e diversas culturas que é o projecto do nosso presente. Lugar de diálogo e convivência viva, onde as diferenças não significam separação, mas sim a múltipla possibilidade de criação humana”.

Macau é simultaneamente símbolo e experiência do reencontro entre oriente e ocidente, diz ainda Sophia. Em Macau, “o espírito interrogador e clarificador do Ocidente encontra a profundidade e a contemplação do Oriente”. “Aqui em Macau, nós, portugueses, estamos em relação com a maravilhosa civilização chinesa que através da sua cultura subtil e milenária conseguiu manter em si intacta a capacidade de transformação, recreação”, conclui.

A OBRA QUE NASCE DA VIAGEM

Da passagem de Sophia de Mello Breyner por Macau resultou “Navegações”. Editado em 1983, o livro compreende 25 poemas, agrupados em três capítulos: “Lisboa”, “As Ilhas” e “Deriva”. No primeiro poema de “As Ilhas”, a poetisa escreve sobre a viagem: “Navegámos para Oriente / A longa costa / Era de um verde espesso e sonolento / Um verde imóvel sob o nenhum vento / Até à branca praia cor de rosas / Tocada pelas águas transparentes / Então surgiram as ilhas luminosas / De um azul tão puro e tão violento / Que excedia o fulgor do firmamento / Navegado por garças milagrosas / E extinguiram-se em nós memória e tempo”. E prossegue, com a paisagem aérea avistada do avião: “Navegação abstracta / Fito como um peixe o voo segue a rota / Vista de cima tornou-se a terra um mapa / Porém subitamente / Atravessámos do Oriente a grande porta / De safiras azuis no mar luzente”. À frente, recorda os portugueses que ali tinham chegado no séc. XVI: “Navegavam sem o mapa que faziam / (Atrás deixando conluios e conversas / Intrigas surdas de bordéis e paços) / Os homens sábios tinham concluído / Que só podia haver o já sabido: / Para a frente era só o inavegável / Sob o clamor de um sol inabitável”.

“Navegações” começa a ser pensado por Sophia de Mello Breyner ainda no avião, antes de chegar a Macau. O comandante fez uso do microfone para informar os passageiros que sobrevoavam a costa do Vietname. “Corri uma cortina e vi um ar fulgurantemente azul e lá em baixo um mar ainda mais azul. E, perto de uma longa costa verde, vi no mar três ilhas de coral azul-escuro, cercadas por lagunas de uma transparência azulada”, contou a poetisa num discurso proferido na entrega do Prémio do Centro Português da Associação de críticos Literários, em 1984. “Pensei naqueles que ali chegaram sem aviso prévio, sem mapas ou relatos, ou desenhos ou fotografias que os prevenissem do que iam ver”.

Em 1986, numa entrevista a Eduardo Prado Coelho para uma revista do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP), Sophia de Mello Breyner Andresen recordou a viagem que fez a Macau: “A única vez que uma viagem de avião me deu a sensação de navegação foi quando fui a Macau”. “No avião uma pessoa é empacotada de um lado para o outro. Mas nessa viagem muito comprida, eu lembro-me de, depois de passarmos por cima do deserto e vermos aqueles poços de petróleo a arder, descermos na Arábia com imenso calor, – especialmente para mim, que vinha de Londres – de repente ter a sensação de ‘navegação’”, contou, recordando: “E escrevi ‘Navegações’ por causa disso e um pouco porque, quando eu ia no avião e de madrugada ouvi aquelas vozes celestiais que há nos aviões dizerem: ‘Estamos a sobrevoar a costa do Vietname’. E eu fui para o andar de cima (o avião tinha dois andares), espreitei e estava uma madrugada radiosa: Era a entrada na Ásia!”.

 

Gruta de Camões

 

Dentro de mim sobe a imagem dessa gruta

Cujo silêncio ainda escuta

Os teus gestos e os teus passos

 

Aí, diante do mar como tu transbordante

De confissão e segredo

Choraste a face pura

Das brancas amadas

Mortas tão cedo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

“Dia do Mar” (1947, Edições Ática; 3.ª ed. 1974)

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Navegámos para Oriente –

A longa costa

Era de um verde espesso e sonolento

 

Um verde imóvel sob o nenhum vento

Até à branca praia cor de rosas

Tocada pelas águas transparentes

 

Então surgiram as ilhas luminosas

De um azul tão puro e tão violento

Que excedia o fulgor do firmamento

Navegado por garças milagrosas

 

E extinguiram-se em nós memória e tempo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

“Navegações” (1977, Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda)

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