AL 2009 | Opinião

Declaração de voto

Ricardo Pinto

As eleições do próximo domingo vêm encontrar Macau numa encruzilhada. O modelo de desenvolvimento seguido nos últimos anos, assente num liberalismo económico praticado quase no seu estado puro, gerou índices de crescimento sem precedentes mas deixou também a descoberto algumas falhas gritantes. O fosso entre ricos e pobres agravou-se de forma notória, a especulação desenfreada no mercado imobiliário tornou a vida bem mais difícil a milhares de famílias, e sucederam-se os atentados contra o património e o ambiente. Devido à crise, e em resultado também do escândalo Ao Man Long, Macau vive agora um período de acalmia no ritmo do seu crescimento, mas nada garante que as coisas não voltem a ser como eram antes mal surjam sinais consistentes de recuperação económica. Nestas eleições, discute-se, entre outras coisas, se Macau deve voltar a esse caminho ou enveredar por um outro.
A Assembleia Legislativa não tem hoje competências que lhe permitam impor à sociedade local este ou aquele modelo de desenvolvimento. Não passa por lá a viabilização dos governos e não lhe é permitido intervir em matérias orçamentais, nem fazer aprovar reformas políticas a que o executivo não tenha dado o seu aval. Tudo isso lhe está vedado pela Lei Básica. Mas o hemiciclo dos Lagos Nam Van funciona, frequentemente – e pode funcionar ainda mais –, como tribuna para defesa dos anseios da população. Nesse contexto, a pergunta que aqui levanto, e que à minha maneira tratarei de responder, é quem são os candidatos que melhor saberão defender essa outra via de desenvolvimento que não seja insensível a toda a espécie de danos colaterais que testemunhámos ao longo dos últimos 10 anos.
Comecemos então este exercício por exclusão de partes. Listas ligadas aos casinos ou ao mundo do empresariado em geral são muitas, as mais importantes das quais aparecem lideradas por Chan Meng Kam, Angela Leong e Melinda Chan – tudo gente do universo SJM mas com grandes clivagens entre si. O que prometem é mais do mesmo; indiscutivelmente, estão entre as candidaturas a quem mais interessa a manutenção do actual estado de coisas. À parte isso, o mundo dos negócios está já muito bem representado no sufrágio indirecto (10 deputados em 29) e ficará ainda melhor quando o Chefe do Executivo nomear os seus representantes no hemiciclo (sete). Para quê mais então?
As listas tradicionais, de operários e moradores, estão ideologicamente distantes do modelo de sistema político que gostaria de ver implantado em Macau. São também, à sua maneira, defensoras intransigentes do actual status quo, com esta ironia histórica que não pode deixar de se notar: são agora as formações mais à esquerda no espectro político de Macau o principal suporte dos governos ‘pró-business’ da RAEM. Tanto operários como moradores fazem um trabalho importante no dia-a-dia, admito, mas podem continuar a fazê-lo sem precisarem para isso de maior representação na Assembleia Legislativa. Aí, embora Kwan Tsui Hang se tenha distinguido como uma das deputadas mais interventivas e eficientes, as duas forças limitaram-se praticamente a carimbar todas as iniciativas do governo. Também neste caso, não deixarão de reforçar o seu peso na AL através do sufrágio indirecto e da nomeação de deputados pelo Chefe do Executivo.
Nas duas listas com fortes ligações à comunidade portuguesa, a da Nova Esperança é a única com reais hipóteses de eleger um deputado, podendo mesmo ter um segundo. Admiro a combatividade de Pereira Coutinho e tiro-lhe o chapéu pela sua tenacidade na defesa de algumas causas que subscrevo, nomeadamente na área dos direitos, liberdades e garantias. Tivesse sabido abrir a lista a sectores da sociedade menos conotados com o activismo sindical, e seria opção a ter em conta. Não o tendo feito, não posso em todo o caso deixar de lhe desejar boa sorte.
O mesmo tipo de consideração aplica-se, ipsis verbis, aos democratas. Ng Kuok Cheong é um homem que há 20 anos luta incessantemente pela democracia e que tem ideias muito claras sobre o que é necessário mudar em Macau para que se torne uma sociedade mais justa. Além disso, tem o mérito de se ter mantido sempre igual a si próprio, continuando a revelar hoje uma modéstia e rigor de princípios que raramente se vêem em dirigentes com tantos anos de vida política. Menos positiva é a forma como tem mantido a associação que dirige muito fechada a influências exteriores, sendo certo que se houvesse outra receptividade da sua parte, não faltariam cidadãos de formação democrática mas com diferentes origens, dispostos a juntarem-se à causa. Pior, no entanto, é a pressão política que exerce permanentemente sobre os trabalhadores não-residentes, julgando com isso estar a fazer uma melhor defesa dos residentes de Macau. Não está. Os trabalhadores não-residentes dão um grande contributo para o desenvolvimento de Macau e têm como paga não lhe serem reconhecidos alguns dos direitos mais elementares. Obrigá-los a usar crachás identificando-os como mão-de-obra importada foi só a mais grave das afrontas que lhes foram dirigidas – e, infelizmente, Ng Kuok Cheong não soube demarcar-se dessa triste iniciativa.
Nos antípodas desta postura vamos encontrar Paul Pun, o secretário-geral da Caritas. É um homem que sabe que a defesa que faz dos direitos dos trabalhadores não-residentes está longe de lhe render votos. Ainda assim, assume esse ónus político por dever de consciência, o que só pode merecer admiração e respeito. Fez também a diferença nesta campanha ao apresentar o seu programa em braile. Embora não haja mais do que uma centena de invisuais em Macau, é importante que alguém não se esqueça deles, já que o governo o faz: recordo que nestas eleições, mais uma vez, não haverá boletins de voto em braile. Também por isso, tivesse Paul Pun mais fortes hipóteses de ser eleito e seria outro forte candidato a contar com o meu voto.
Por exclusão de partes eis-me então chegado à candidatura do Observatório Cívico, liderada pela académica e jornalista Agnes Lam. É nela que vou votar, por razões pessoais e políticas que passo a enunciar.
Começando pelas primeiras, conheço Agnes Lam desde 1995, quando ingressou na redacção da TDM onde eu já estava há um par de anos. Impressionou-me desde muito cedo a sua paixão pelo trabalho jornalístico, a imensa curiosidade que revelava em todos os momentos, o companheirismo que dispensava aos colegas, a importância que atribuía a uma história bem contada. Foi em colaboração com ela que trabalhei num documentário sobre o Um, dois, três, a propósito do 30º aniversário dos acontecimentos da Revolução Cultural em Macau, cuja versão chinesa foi amplamente elogiada pela imprensa do território. (A portuguesa infelizmente ficou numa gaveta durante anos, sem que alguma vez me tivesse sido explicado esse acto absurdo de censura jornalística). O jornal Ou Mun rendeu-se ao trabalho apresentado por Agnes Lam e augurou-lhe uma carreira profissional de vulto. Eu, conhecendo-a bem, não podia senão concordar, claro.
As razões políticas passam pela defesa que faz do aprofundamento da democracia em Macau, de uma maior justiça social e de uma luta sem tréguas contra a corrupção. Mas não só. Essas, aliás, são bandeiras de várias outras listas também. O que falta a quase todas elas é a dimensão cultural tão abundantemente presente na lista do Observatório Cívico. Se Agnes Lam for eleita, não vai precisar de ser sensibilizada para os problemas que mais ameaçam a identidade de Macau: essa é já uma preocupação dominante desta lista. Nesta encruzilhada da sua história, em que são esmagadoras as pressões para que se retoma sem mais demoras um processo de desenvolvimento desenfreado e sem regras, a RAEM precisa de uma voz na Assembleia Legislativa que denuncie, em tempo útil, os vários atropelos que se forem cometendo contra o património histórico e cultural desta terra. Pela sua carreira, pelas pessoas que a rodeiam, até pelos seus dons de comunicação, Agnes Lam parece-me estar em condições ideais para assumir essa responsabilidade. E daí o meu voto.
Se decidi tornar pública a minha preferência eleitoral, foi por entender que não faz sentido estar diariamente nas páginas deste jornal a tomar posição sobre toda a espécie de problemas, e não o fazer justamente quando as questões em causa são mais relevantes.
Não se trata, porém, de uma recomendação de voto. É uma opinião pessoal e que, obviamente, não vincula qualquer outro funcionário desta empresa. Em tudo o que atrás ficou escrito, julgo aliás não faltarem também razões para que os (e)leitores optem por outras candidaturas. Mas o importante é que o façam em liberdade, sem pressões indevidas ou aliciamentos ilegais. O mais importante, em suma, é que votem em consciência. Como não deixarei seguramente de fazer.

Interessa em quem eu voto?

Larry So*

Nestes últimos dias, ao andar pelas ruas da cidade, a possibilidade de alguém me pôr nas mãos um panfleto tem sido muito elevada. Houve muitos que me foram dados. Alguns têm um bonito design, com impressão a cores, ao passo que outros não passam de meras folhas A5 sem qualquer espécie de design. Todos têm um contudo comum, no entanto, um manifesto ou plataforma política de diferentes grupos que concorrem a lugares na Assembleia Legislativa de Macau. São ao todo 16 listas, com 132 candidatos, para 12 lugares disponíveis na AL.
Numa leitura superficial desta literatura, chega-se à surpreendente conclusão de que apresentam conteúdos muito semelhantes, embora sejam obviamente de grupos diferentes ou até opostos. Slogans como “Oponhamo-nos ao conluio entre os empresários e o Governo e ao tráfico de influências”, “Contra a Corrupção”; “Regulamente-se o trabalho importado”, etc., podem ser encontrados em todas e cada uma das publicações das 16 diferentes listas de candidatos. Ora, como estes grupos são frequentemente descritos pela comunidade como sendo pró-governo, pan-democráticos, da oposição ou até “radicais”, deviam ter uma visão bem diferente sobre a governação. Porquê então este consenso?
Um manifesto é uma declaração política que reflecte a ideologia, os princípios ou mesmo o programa de um grupo político em particular. Estas declarações derivam da forma como os grupos políticos vêem os problemas da sociedade e se propõem resolvê-los. São um dos meios ao alcance dos grupos políticos para comunicarem com o seu eleitorado, procurando convencê-lo a votar neles. Em resumo, a função de um manifesto no caso das eleições para a Assembleia Legislativa de Macau é explicar à opinião pública de que modo um grupo político em particular reflecte as suas opiniões nas condições actuais da sociedade, e como podem ajudar a rectificar ou lidar com situações indesejáveis, como a corrupção.
A simples leitura destes panfletos que nos passam pelas mãos basta para que possamos concluir que a administração de Macau ao longo dos últimos dez anos esteve longe de ser totalmente satisfatória. As pessoas acham que o governo esteve envolvido numa operação de transferência de riqueza para os bolsos de grandes empresários, particularmente da indústria do jogo e do sector imobiliário. O caso infame de corrupção que envolveu Ao Man Long, e o esbanjamento de dinheiro que foram os Jogos da Ásia Oriental, ilustram o facto do governo não ter cumprido as suas obrigações para com a população de uma forma satisfatória. As queixas, entre outras, apontam para falta de transparência nos processos de decisão, o que permite a funcionários bem colocados na máquina administrativa tirarem partido de operações de “saco azul”.
O aumento massivo dos números de trabalhadores não-residentes, quando comparado com uma taxa de desemprego que se tem mantido constante nos 4 por cento, é outra preocupação ou mesmo fonte de insatisfação para o cidadão comum. As associações sindicais de Macau têm combatido de forma persistente nesta questão e têm procurado fazer aprovar legislação que remedeie o problema, mas até agora sem êxito. Esta questão, a par do tráfico de influências, entra facilmente nos manifestos eleitorais pois os grupos políticos querem que o eleitorado saiba que eles estão com o povo, e que não ignoram que este não está satisfeito com o governo. A mensagem é: “Se votarem por nós, a situação vai mudar”. Insisto, é a falta de transparência e de acção efectiva nas questões do trabalho importado que fornece munições aos grupos políticos para alvejarem o governo. Além disso, a existência de toda a espécie de entraves burocráticos na resolução desse tipo de problemas, só os agrava em vez de os atenuar. Ainda assim, o governo não abdica deles.
Se quiserem saber quais são as preocupações genuínas do povo, quais são os problemas que a comunidade enfrenta e como está a situação política em Macau, o meu conselho é que leiam os panfletos que vos são postos nas mãos todos os dias. Ficarão com uma ideia do que se está a passar.
Continuo a tentar perceber porque é que todos os grupos políticos têm declarações semelhantes nos seus manifestos sobre estes assuntos. Isto é, até mesmo os grupos apoiados pelas chamadas organizações tradicionais ou pró-governo falam a mesma linguagem das forças da oposição ou dos radicais. Porquê? Eu compreendo os grupos da oposição: eles têm que fazer melhor ou perdem penetração no eleitorado. Mas porque é que todos os grupos pró-governamentais partilham a mesma plataforma com os radicais? Estarão a tentar apenas conservar relações harmoniosas? Ou a situação relativamente aos assuntos antes referidos é tão má que não lhes podem fugir, sob pena de alienarem o eleitorado? Mas se assim é, porque é que o governo não vê que não está a fazer o seu trabalho como era suposto fazer? E se sabe disso, porque é que esses assuntos continuam ainda por resolver?
Uma coisa que me deixa descansado, depois de ter passado mentalmente por este labirinto de ideias, é a certeza de que não importa em que grupo político eu vote, terei sempre alguém pronto a monitorizar esses problemas e a tentar resolvê-los em meu nome! É isso que está lá, preto no branco, escrito em quase todos aqueles panfletos! Sim, sinto-me feliz e muito satisfeito. E pergunto, será que interessa mesmo em quem eu voto?

* Professor Associado do Instituto Politécnico de Macau

Os problemas da administração eleitoral no combate à influência do dinheiro na política

Eilo YU Wing-yat*

As eleições legislativas de Macau têm estado contaminadas pela influência do dinheiro na política ao longo da última década. E o público deu a conhecer a sua impaciência quanto à continuada compra de votos e outras irregularidades eleitorais depois das eleições de 2005. Em resposta à pressão popular, o governo introduziu várias reformas para evitar esse tipo de irregularidades, como o aumento das penas para a violação da lei eleitoral, o cancelamento dos cartões de eleitor e novos arranjos nas secções de voto. Por outro lado, investiu de forma significativa em propaganda anti-corrupção eleitoral para as eleições deste ano. Não há como negar, o governo deu mostras do seu interesse em combater a corrupção eleitoral.
No entanto, estas reformas não melhoraram substancialmente a capacidade das autoridades no combate a este tipo de corrupção, pelo que muitas irregularidades prevalecem ainda nestas eleições de 2009. Por exemplo, houve candidatos que começaram a fazer funcionar a sua máquina eleitoral e a mobilizar os seus apoiantes antes do arranque do período oficial de campanha. Associações deram oportunidade aos candidatos de fazerem a sua propaganda eleitoral através de reuniões de massas e banquetes, que poderão ter incluído a distribuição de prendas e cupões para somas em dinheiro. Ironicamente, o programa de subsídios da Fundação Macau abriu boas oportunidades a associações ligadas a candidatos através de actividades comemorativas do 60º aniversário da implantação da república Popular da China e do 10º aniversário da Transferência da Soberania em Macau.
Posters de candidatos foram exibidos em áreas proibidas pelas leis eleitorais. No entanto, nem a Comissão de Assuntos Eleitorais, nem as forças policiais, nem o Comissário contra a Corrupção agiram contra esse tipo de prática. A campanha eleitoral fez-se, independentemente do que possam pensar essas instituições.
Embora a Comissão Eleitoral (CAEAL) tenha recebido 25 queixas sobre irregularidades, não foram tomadas medidas concretas para punir as pessoas envolvidas. Declarou irregularidades em 5 dos 25 casos, mas não identificou as listas de candidatos envolvidas e nenhumas sanções lhes foram impostas. De forma ridícula, o presidente da CAEAL, Vasco Fong Man-chong explicou que as más condutas dos candidatos não tinham violado a lei eleitoral, mas tinham implicações na justiça do acto eleitoral. Além disso, Vasco Fong desencorajou a imprensa de noticiar essas acusações dizendo que isso poderia ainda ajudar a campanha dos candidatos envolvidos. No entanto, as autoridades esqueceram-se elas próprias de dar importância à questão da transparência nestas eleições e ignoraram o facto de que o eleitorado tinha o direito de formular juízos sobre as irregularidades apuradas e de castigar os candidatos envolvidos não lhes dando o seu voto. Nestas eleições, várias listas manifestam o seu apoio a uma governação mais transparente e supervisionada, mas as decisões da CAEAL vão justamente no sentido oposto. As explicações da CAEAL não são justificadas e podem projectar a imagem de que as autoridades não se atrevem a confrontar candidatos que estejam envolvidos em práticas irregulares. Mesmo que não intencionalmente, as decisões podem encorajar a prática de irregularidades eleitorais, já que as pessoas passam a ter a percepção de que não haverá qualquer tipo de punição para os candidatos, os quais não terão assim qualquer preço a pagar pela sua conduta errada.
Apesar das reformas eleitorais do governo da RAEM, as irregularidades dominam ainda nestas eleições de 2009. As novas medidas estão longe ainda de provar a capacidade das autoridades no combate às irregularidades eleitorais. A CAEAL é o principal órgão de gestão do acto eleitoral mas passa por ser um “tigre de papel” incapaz de pôr fim às irregularidades. As forças policiais e o CCAC não têm agido também de uma forma pró-activa contra práticas irregulares nestas eleições. E, tudo isto somado, as autoridades parecem sem saber o que fazer com tanta irregularidade. As reformas eleitorais não são o único ingrediente para o combate, tendo que ser combinadas com uma aplicação efectiva das suas normas. Contraditoriamente, as diversas intervenções das autoridades podem não estar a ajudar, antes prejudicar a existência de eleições limpas. Elas têm que analisar bem o problema e tomar medidas que desçam às suas raízes; caso contrario, a influência do dinheiro na politica eleitoral vai continuar a persistir em cada votação para a Assembleia Legislativa de Macau.

* Professor Associado no Departamento de Administração Pública e Governo da Universidade de Macau

Penso, logo voto

Nuno Mendonça

Em Maio de 1998, enquanto preparava um documentário para a TDM e a RTP sobre o primeiro aniversário de Hong Kong enquanto Região Administrativa Especial, tive a oportunidade de entrevistar Jasper Tsang Yok-sing, então presidente da Aliança Democrática para o Melhoramento de Hong Kong (DAB, na sigla inglesa), o maior partido pró-Pequim da região vizinha.
A certa altura questionei-o sobre o processo de eleição na China e a impossibilidade dos cidadãos chineses se expressarem através do sufrágio directo. “Mas eles podem expressar-se claramente e as eleições são directas,” declarou Tsang. Surpreso, pensei que a pergunta não tinha sido entendida e repeti. Mas Tsang tinha percebido muito bem o que eu queria dizer e lá foi explicando com aquele ar irritantemente paternalista dos burocratas de Pequim, que o povo chinês se expressava através de células de base para a escolha de líderes locais e subindo a hierarquia, chegaríamos às altas esferas de poder, sempre legitimadas pela vontade popular, mas sem necessidade de sufrágio directo ao estilo ocidental. Pensei que, das três uma: ou ele era parvo, ou muito convicto, ou estava simplesmente a gozar comigo. Foi talvez um pouco de tudo isto que Tsang nesse momento expressou. Mas acima de tudo, considero que este episódio encerra muito do pensamento ortodoxo chinês de hoje em dia, quando torce o nariz à máxima “um cidadão, um voto.” Não posso também deixar de rir-me ao ver que o Sr. Tsang chegou a presidente do Conselho Legislativo de Hong Kong, e permita Deus e os eleitores da RAEHK que por aí se fique.
Não me venham com explicações culturais, escolhas populares à la Tsang ou falta de preparação cívica do povo para constantemente adiar o sufrágio directo e universal, nem aqui, nem em Hong Kong, nem sequer na China.
Sou de um país onde em 1975, durante o chamado PREC (período revolucionário em curso) se transformavam do dia para a noite ateliers de costura em fábricas de frigoríficos (ou vice-versa) em nome da revolução. Ficou o aparelho económico do país em cacos? Pois claro que ficou e Portugal pagou caro por tudo isso. Mas quando os portugueses foram convidados a votar livremente depois de meio século de ditadura, os mais impreparados eleitores do mundo, seguindo os argumentos daqueles que Macau dizem não ao sufrágio universal, mostraram uma maturidade democrática surpreendente, arrepiando caminho a uma ditadura comunista em construção e elegendo uma assembleia o mais equilibrada possível num cenário político onde os partidos nasciam como cogumelos.
Eu sei que isto sucedeu nos idos de 75/76, quando a ideologia imperava muitas vezes sobre o bom-senso, na altura considerado reaccionário. Mas ontem, como hoje o voto é uma arma, a mais efectiva para os cidadãos mostrarem quem querem que os governe, seja em Portugal, Macau ou na China. Tudo o mais são lindas cantigas para perpetuar oligarcas, cliques e um poder interessado em dividir muito por poucos e ignorar as necessidades da maioria.
Sem querer entrar nas milhentas explicações que levam os dirigentes chineses a temer o sufrágio universal, estou certo que se hoje Hu Jintao e Wen Jiabao decidissem submeter-se ao voto popular, ganhariam decerto por larga margem. Não contariam com o voto dos uigures ou tibetanos, mas na fria contabilidade eleitoral de um país como a China, são votos que não fariam diferença. Antes de mais porque os actuais líderes do país são a única forma instituida de organização politica que os chineses conhecem há 60 anos e que em 2009 “diz que é uma espécie de comunismo,” como diriam os comediantes portugueses “Gatos Fedorentos”.
Ora curiosamente é esta espécie de comunismo, que abraça a economia de mercado e não quer aceitar que com ela vêm atrelados anseios democráticos da população, que me permite votar. Não estou grato a Deng Xiao Ping por Tiananmen, mas tenho de o elogiar pela doutrina “um país, dois sistemas.”
Macau permite-me um direito, como cidadão português, que mais nenhuma ex-colónia portuguesa permite. E nem mesmo a União Europeia, um auto-declarado bastião da democracia, me autoriza mais que o voto nas eleições autárquicas se residir num país dos 25 que não Portugal. Ou seja, nos sete anos que vivi na Grã-Bretanha, era cidadão de primeira para pagar impostos, mas discriminado quando tocava a escolher quem me governava a nível nacional.
Resumo da história: não há sistemas perfeitos e Macau está decerto longe disso. Mas coloco-lhe, caro leitor, este desafio: se o voto directo conta apenas para decidir 12 lugares no parlamento local, não será muito para mudar a situação, mas é um começo. O debate do sufrágio directo está na rua, mesmo com os espartilhos que as leis e o governo impõem. Há que fazer uso do direito de voto, especialmente entre a comunidade portuguesa, como marca da identidade e diferença de Macau e como marca de uma comunidade que, acredito, quer que a sociedade em geral seja mais equilibrada e justa. Que os lugares comuns que ouvimos todo o ano façam diferença por uma vez, já este domingo. Vote por quem quiser, mas vote. O que não dá é andar todo o ano a queixar-se das incongruências políticas de Macau e depois negar-se aos poucos direitos que esta democracia sui generis lhe concede, porque foi passar o dia a em Coloane a banhos. Pense nisso.

Os senhores que se seguem

Isabel Castro

Pela mudança conjuntural que se registou em Macau desde 2005, ano das últimas eleições legislativas, o sufrágio do próximo domingo desperta, naturalmente, interesse aos que prestam atenção a estas coisas da política. Mais do que mudanças significativas no seio da composição da Assembleia Legislativa, esta ida às urnas servirá de resposta a meia dúzia de questões sobre a percepção que a população de Macau tem sobre os seus políticos e a vida política.
Há quem entenda que, dada o tom crescente de contestação social nos últimos anos, é bem provável que a chamada ala democrata saia vitoriosa das eleições de 2009. Ou seja, a bancada pró-democracia crescerá, com os tradicionais Ng Kuok Cheong e Au Kam San a contarem não só com mais um deputado oriundo da sua própria base, mas também com outros parlamentares a defenderem princípios semelhantes.
Se este cenário se confirmar – a tendência de voto dos novos eleitores é o grande mistério de domingo – a Assembleia poderá ganhar uma nova dinâmica em termos de debate, mas a verdade é que, no que toca ao produto final, o resultado será mais ou menos o mesmo. E é aqui que, nestas coisas da política local, a matemática se sobrepõe. Sem alterações estruturais no sistema eleitoral, os 12 deputados que, em termos teóricos, representam a vontade popular, pouco ou nada poderão fazer caso os restantes 17, mais próximos do sector económico e do poder institucional, mantenham a posição que têm tido até agora.
Deste modo, as eleições são, principalmente, um barómetro à forma como a população vê a política. E não faltam indicadores para observar, da afluência às urnas à tendência de voto, passando pelo número de casos de corrupção eleitoral que se venham a contabilizar no futuro.
Não obstante, o facto da escolha destes 12 deputados não ter, a curto prazo, efeitos de grande monta em termos de produção legislativa não desvaloriza o sufrágio. Tal como aconteceu já em 2005, servirá para perceber que RAEM temos nós – se os eleitores se revêem nas opções do boletim de voto, se ainda há muitos que preferem trocar um direito essencial por algumas patacas, se há esperança de que o sistema um dia mude e as coisas da política passem a ser de todos e não apenas de alguns.
Quanto aos candidatos vencedores – os senhores que se seguem na Assembleia Legislativa – seria bom que, ao contrário do que tem acontecido em vários casos, valorizassem realmente o facto de terem sido eleitos pela vontade popular. Que tivessem vontade de acabar com as quintas e quintais de que Macau não precisa, mas de que infelizmente é feito. Que se lembrassem de levar questões que dizem respeito a todos ao órgão legislativo da RAEM. Que tenham sempre em mente as funções para que foram eleitos. Que sejam deputados, um termo que vai além da palavra que pomposamente se escreve nos cartões de visita.

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