Vírgula

O peso que carregas

Tenho pena que estas palavras não sejam capazes de abrandar-te o ressentimento. O lugar onde existem, onde são capazes de chegar, não toca o lugar onde conservas esse ressentimento cristalizado. Estas palavras e o teu ressentimento são como universos paralelos num filme de ficção científica, coexistem no tempo, mas são absolutamente paralelos, estão condenados a nunca se encontrar. Constato esta impossibilidade e tenho pena. Creio que aproveitarias melhor o tempo sem esse chumbo ou, pelo menos, sem algum do seu peso. Tudo isto te parece estrangeiro, não te diz respeito. Não chamas ressentimento a essa força que te faz cerrar os dentes, a esse incómodo, não vês motivos para ver-te livre dele ou, sequer, para abrandá-lo. Habituaste-te a ele, acreditas que faz parte de ti. 

Sentes que foi cometida uma injustiça em relação a ti. Essa injustiça pode ter acontecido efetivamente, pode ter sido bastante cruel, mas também pode não ter acontecido. Não é isso que importa, apenas conta sentires que foi cometida uma injustiça em relação a ti. Sentes que a injustiça te inferioriza, talvez não te tenham reconhecido como achas que merecias. Essa dor, ruminada durante anos, formou o ressentimento que conservas. 

Agora, o mal-estar é já uma condição física. Passou das emoções para a atitude e, logo depois, passou da atitude para o corpo. Agora, vês o mundo através do ressentimento, é como um filtro, cobre-te o olhar. E, por isso, só já consegues pensar por intermédio dele. Seriam necessários anos de intensa fisioterapia para retirar-te o ressentimento da postura. A nível interno, está diluído em todos os teus fluídos. Ao correr-te no sangue, chega às artérias mais finas, irriga-te todos os órgãos. 

Sentes que foi cometida uma injustiça em relação a ti. Acreditas que essa dor te confere direitos. Precisas de infligir essa mesma dor aos outros. Hão de sofrer como sofreste, como sofres ainda. Acreditas que os outros merecem essa dor. Afinal, são eles os privilegiados. A balança que te castigou, favoreceu-os a eles. Os “outros” podem ser um grupo mais ou menos restrito, com características definidas, ou podem ser o mundo inteiro. Em qualquer dos casos, estás convencido de que o cinismo te protegerá. Não voltarás a acreditar em ilusões, enganos tocados pela inevitável injustiça, que apenas têm o propósito de conduzir-te a nova dor. Mas não conseguirão fazer-te sofrer de novo, perdeste essa inocência para sempre. Agora, serão eles a sofrer. E assim te intoxicas nos vapores do veneno que julgas guardar para os outros. 

Tenho tanta pena que estas palavras não sejam capazes de abrandar-te o ressentimento. Imagino estas palavras a chegarem à tua compreensão e, ao serem entendidas, a dissolverem essa pedra que carregas no interior. Também as palavras têm uma existência simultaneamente imaterial e material. É por isso que alimento esta fantasia. Imagino estas palavras a desembaraçarem um equívoco que te paralisa. Como aquele leão feroz dos desenhos animados a quem tiram um pico da pata e que fica dócil de um momento para o outro. Sim, já sei que, pela lente do cinismo, “dócil” é um adjetivo para fracos, mas repara como todo o mundo é fraco pela lente do cinismo. É provável que estas palavras te pareçam estrangeiras, que aches que não te dizem respeito. Tenho pena que estas palavras sejam incapazes de dizer-te que não merecias essa injustiça. Ninguém merece essa dor. Ninguém merece esse ressentimento ou seja lá como for que prefiras chamar-lhe. 

José Luís Peixoto

Escritor

O mapa do território imaginado

Em 2012, quando fui a Macau pela primeira vez, surpreendi-me bastante. Já tinha ouvido inúmeras descrições, já tinha lido livros, já tinha visto documentários, mas o que testemunhei divergiu muito do que tinha sido capaz de imaginar. 

Uma das impressões mais intensas com que fiquei logo nessa primeira visita, e que se acentuou em cada regresso, foi a sensação de desconhecimento. Pareceu-me sempre que me faltava ver muito para conceber uma imagem minimamente completa deste lugar.

Assim me convenci de que a característica mais marcante de Macau é a complexidade. Este é um espaço caleidoscópico, constituído por uma imensidade de elementos em permanente mutação. Cada um desses elementos é, em si, bastante complexo, muitas vezes paradoxal, formado por múltiplos contrastes internos. Podemos dedicar a vida a aprofundá-lo e, mesmo assim, nunca chegaremos a esgotá-lo.

Como se essa exigência não fosse suficiente, trata-se de elementos separados por obstáculos muitas vezes herméticos, intransponíveis. Essas barreiras são de vária ordem: económicas, sociais, linguísticas, culturais, históricas, etc. Como ter acesso à realidade de um emigrante filipino e, em simultâneo, à realidade de um grande apostador nas salas VIP dos casinos? Como entender a língua filipina, estas palavras em português e, ao mesmo tempo, as minúcias do cantonês? E como conseguir contextualizar com rigor o entendimento que cada um desses mundos retira deste mundo condensado?

Em Portugal, toda a gente tem uma ideia acerca de Macau. Mas qual será a correspondência efetiva que existe entre essa ideia e a realidade deste território? Ou talvez seja melhor usar o plural: entre essas ideias e estas realidades? A partir de referências exclusivamente portuguesas e ocidentais, como chegar a entender Macau?

A já referida multiplicidade de elementos, faz com que as tentativas de retrato sejam fortemente determinadas pela sua perspectiva: tanto pelas facetas incluídas, como pelas que, por decisão ou ignorância, são deixadas de fora. Em Portugal, como seria de esperar, a imagem mais difundida é a que se fixa na passagem e na presença dos portugueses. Quem pisou Macau neste século sabe que é absurdo considerar essa narrativa como única. 

Também esse é um desafio: como explicar Macau contemporâneo a quem saiu de Macau nos anos noventa? Como ter essa conversa sem ferir sensibilidades? É triste concluir que as nossas recordações correspondem a um passado que terminou. A irreversibilidade do tempo confronta-nos com a finitude, com o efémero do que valorizamos. Todos temos de enfrentar essa dor. Indiferente, o mundo avança. No caso de Macau, no entanto, a distância intercontinental permite a ilusão de uma cristalização do passado. Como explicar-lhes Cotai? Como explicar-lhes o Venetian ou o Galaxy? Como explicar-lhes a ponte para Hong Kong?

Em Portugal, a primeira vez que a maioria das pessoas ouviu o nome de Macau foi numa lista que incluía Moçambique e Timor, por exemplo. Em Portugal, é residual o número de pessoas que sabe o que é Zhuhai. Da mesma forma que temos dificuldade para distinguir os contornos tonais da língua cantonesa, custa-nos identificar ínfimas subtilezas num espaço de violentos contrastes. A interpretação de Macau é multidisciplinar, multidimensional, ou é incompleta, parcial, serve de muito pouco. Além disso, com frequência, o maior obstáculo à compreensão de Macau são aqueles que juram conhecer Macau, que afirmam saber tudo e que, assim, distorcem Macau, reduzem os seus contornos, tentando ajustá-los aos contornos da sua ignorância.

José Luís Peixoto

Escritor

 

Bola de cristal

Cada instante tem à sua frente um cruzamento. O tempo pode seguir por uma ou outra direção. Enquanto ainda não aconteceu, o tempo não existe. É necessária essa concretização física, esse ser e estar, para que o tempo chegue a considerar-se tempo. Ainda assim, sem recorrer a cartomância, astrologia, numerologia ou qualquer uma das artes daqueles professores que resolvem problemas de inveja, dívidas ou amarrações amorosas, estou em condições de afirmar desde já que, independentemente do desfecho de qualquer um dos dilemas atuais, aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

Logo que se ouviu falar pela primeira vez do vírus, ouviu-se também falar em vacina. Houve um período em que se afirmava que pouco demoraria até que estivesse concluída, houve outro momento em que se começou a dizer que, afinal, talvez não fosse assim. Há a vacina da Europa, dos Estados Unidos, da China, da Rússia e, provavelmente, outras que desconheço, não procurei informação aprofundada sobre o assunto. Como a maioria das pessoas, suponho, apercebi-me de que havia um tempo em que a vacina seria a solução para todos os problemas levantados pelo vírus e, mais tarde, apercebi-me de que, afinal, talvez não fosse assim. No entanto, posso desde já garantir que, seja qual for a solução para este tema, aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

Todos usamos máscara. Ou, neste momento, acreditamos que devemos usar. Se temos memória, lembramo-nos de, há meses, escutar gente informada a dizer-nos que podíamos dispensá-la. Ao mesmo tempo, noutros países, são fortes os movimentos que recusam as máscaras, evocam toda a espécie de argumentos. Em qualquer dos casos, há perguntas, por exemplo: será viável que o mundo use máscaras para sempre? Só aparentemente esta é uma pergunta de sim/não. Acredito que haverá pessoas a encontrar todo o tipo de respostas, inclusivamente pessoas que estudaram este assunto a fundo, pelos mais diversos ângulos. Em qualquer dos casos, há uma garantia que posso dar neste momento: aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim.

Não sabemos todos os contornos da crise económica que se aproxima, que já chegou. É preciso considerar múltiplas variantes, não apenas ao nível económico e financeiro, mas também ao nível de diversas áreas que têm efeitos diretos sobre os números do dinheiro. As contas que uns e outros fazem dependem das suas crenças. Por mais objetivos que pareçam, fazendo uso de fórmulas, cada um desses exercícios tem como base uma interpretação política do mundo e das várias sociedades que o constituem. Em última análise, essas previsões económicas exigem uma perspectiva sobre o ser humano, o seu comportamento, a sua moral, a sua propensão para fazer uma ou outra escolha. No entanto, entre tanta imprevisibilidade, é certo que, aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

Vai ficar tudo bem, escreveram as crianças nos papéis onde desenharam arco-íris. Concordo com quem lhes disse para fazê-lo, ninguém merece olhar para um futuro nublado, um amanhã pior do que hoje, sobretudo crianças, com toda uma vida para imaginar. Mas, nós que já não somos crianças, não conseguimos calar a dúvida interior: será que vai ficar tudo bem? Em conversas, deixamos escapar a expressão “quando tudo voltar ao normal”, mas também essa dúvida: será que tudo vai voltar ao normal? Ou ainda com mais inquietude: o que é “o normal”? No meio das preocupações, uma coisa é certa: aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

José Luís Peixoto

Escritor

Precisar de ter razão

O meu filho de 15 anos raramente aceita alguma afirmação que eu faça. Eu, o velho, recordo com nostalgia o tempo em que conseguia convencê-lo de qualquer coisa. Agora, seja qual for o assunto, há sempre um ponto da conversa em que vai buscar o telemóvel e, em poucos segundos, encontra suficientes argumentos no google para me contradizer. Com mais ou menos truques de retórica, nunca se dá por vencido e, incrivelmente, chega mesmo a haver casos em que tem razão. 

É igual a mim. Com 15 anos, eu também discordava de tudo o que os meus pais tinham para me dizer. Com a diferença de não dispor de google, o que enfraquecia bastante a minha posição. No entanto, para além do google, o meu filho usa sem dificuldade os tutoriais do youtube, passa os olhos por meia dúzia de verbetes da wikipedia em menos de um minuto, sem contar com muitas outras ferramentas que não sei identificar. Reconhece nuances na informação que encontra na rede de um modo que, provavelmente, nunca chegarei a aprender. 

É um rapaz deste tempo. As suas interrogações permanentes são do seu tempo, a adolescência, e desejo que as mantenha de forma saudável ao longo da sua vida, fazem falta em todas as idades. Ainda assim, espero que chegue um momento em que confie um pouco mais no conhecimento dos outros, daqueles que tiver diante de si e que, pela experiência ou pelo estudo, saibam mais do que ele acerca de determinado assunto. Também a humildade faz falta na vida, em todas as idades. 

Nesse aspecto, espero que não pertença a este tempo em que qualquer um, acerca de qualquer tema, desafia especialistas com uma leviandade despropositada. Haverá um ponto que assinala a fronteira em que a autoconfiança passa a ser arrogância, em que deixa de ser aceitável. Tanto a propósito dos efeitos de medicamentos, do formato do planeta, como de qualquer outro assunto, estabeleceu-se a ideia de que deixou de ser ridículo desafiar o conhecimento de gente que passou a vida a estudar determinada disciplina, contrapondo-lhe farrapos mal amanhados de teorias lidas na diagonal, vistas em programas de tv enquanto se fazia zapping ou, mais perigoso ainda, divulgadas na internet sem qualquer garantia técnica. 

Essa absurda postura de desafio dos especialistas ao nível das chamadas ciências exactas e naturais vai avançando, deixando escapar às vezes a face da sua ignorância, mas o que dizer dessa mesma postura em relação às ciências sociais e às humanidades? Difundiu-se a crença de que, para desautorizar conhecimentos de sociologia ou de antropologia, basta andar por aí.

Para além de ser patética, a constante teoria da conspiração envenena as relações sociais, o pacto que estabelecemos para viver uns com os outros, em dependência de instituições que criámos. A fiscalização é necessária, mas a suspeita de tudo e de todos alimenta um nível de ansiedade intolerável. Depois, no que diz respeito aos argumentos, a relativização permanente é uma desonestidade intelectual, inviabiliza qualquer debate. 

O conhecimento, no sentido mais profundo desse termo, não é uma coleção de dados soltos, apanhados aqui e ali, e ligados pela intuição; é uma estrutura, um sistema que requer visão genérica, contextualizadora, que seja capaz de reconhecer o papel de cada elemento no âmbito das múltiplas relações que estabelece. 

De forma irónica, a imensa difusão da informação criou ilusões que, em última análise, não passam de ignorância: a informação criou ignorância.

Para chegarmos à maturidade, precisamos ultrapassar a imaturidade. 

José Luís Peixoto

Escritor

Toda a gente a falar do mesmo assunto

Nasce de uma rebentação. Então, a água lança-se sobre a areia, estende-se numa camada vítrea, com mais ou menos espuma, avança nessa inclinação de areia lisa. É como uma pequena invasão ao longo de toda a lonjura da praia, natural e espantosa ao mesmo tempo. Em fins de tarde de Julho, esse mar não ameaça. Se estivermos descalços, deixamos que nos cubra os pés e, logo a seguir, os tornozelos. Cada vez mais fina, a água abranda no topo do declive, toca a linha da areia seca e volta a descer, mais rápida, como se o oceano quisesse aquela água de volta. Como se o oceano desse conta de que aquela água estava a escapar-se e a puxasse de volta. Mas, logo a seguir, nova rebentação e, de novo, a água lança-se sobre a areia, estende-se.

Hoje, os temas circulam no debate público através de um movimento muito comparável com este. As redes sociais criaram uma homogeneidade e uma rapidez inéditas no espaço mediático. Como as fases da lua influenciam as marés, a energia colectiva das redes contagia a comunicação social e, a partir de certo ponto, alimentam-se mutuamente. 

Perante um acontecimento que despolete eco colectivo, análogo à tal rebentação, estabelece-se um discurso, a água a estender-se na areia. Apresentará uma força proporcional ao ímpeto da sua unanimidade. Essa é a fase em que a grande maioria se sente à vontade para falar. Qualquer observação é recompensada com uma inundação de reforço positivo. Há um instante em que se chega mesmo a acreditar que toda a gente está de acordo com essa ideia. No entanto, quando já não consegue aguentar mais, há uma dessas fotografias num quadradinho que discorda. O primeiro instinto do grupo é o medo, ninguém se quer comprometer. Mas depois, porque existe ali uma nova lógica, por compensação ou apenas devido à lei da gravidade, mais e mais pessoas vão concordando com essa ideia nova, eis a água a recolher-se, até ao ponto em que todos os que se manifestam têm essa opinião. Logo a seguir, novo acontecimento, a água, a areia, etc. 

A reflexão colectiva em vagas tem bastantes inconvenientes. Se toda a gente se dedica apenas a um assunto, por muito nobre que seja, não sobra ninguém para reparar noutros assuntos. E, com frequência, a maior das injustiças é exatamente a falta de atenção. Em simultâneo, quando se cansa, quando encontra substituto, é bastante cruel a maneira como a opinião pública deixa cair o tema do momento. Ao contrário do que muitas vezes se diz, o esquecimento da internet é profundo e implacável. 

Apesar de se encontrar ritmo cíclico na natureza, parece-me que a forma como os temas chegam atualmente ao espaço público segue, ainda mais, outra cadência: o mercado, o consumo. Tal como as modas, que agora mudam muitas vezes dentro da mesma estação, os temas do debate público requerem uma atualização constante que, no entanto, dispensa uma atenção apurada. Basta-nos ler os títulos das notícias na internet, alguns comentários nas redes sociais, colecionar duas ideias daqui e dali, e acreditamos que já sabemos o que se passa no mundo. Se alguém mencionar um assunto fora dessa agenda, é de certeza um excêntrico, não nos sentimos mal por ignorá-lo, uma vez que é o que faz a maioria das pessoas. Estamos em sintonia com as pessoas normais. 

Não sou especialista em marés. Nasci no campo. O mar é um elemento que entrou na minha vida já durante a idade adulta. Talvez por isso, o meu estômago ainda não se conseguiu habituar a este balanço. 

José Luís Peixoto

Escritor

OS CIGANOS

Na memória, tenho imagens paradas de um casamento de três dias. Lembro-me das roupas garridas das mulheres, cheias de folhos, fazenda brilhante, cetim quase de certeza, sem vergonha do vermelho, do amarelo, do verde vivo. Lembro-me dos homens já de camisa aberta, a festejarem em voz alta, a conviverem de uma maneira que eu não conhecia com aquela cumplicidade de família imensa, como se todos fossem irmãos uns dos outros. Três dias durou esse casamento. As celebrações esmoreciam um pouco de manhã. Eu passava acompanhado por outros rapazes, abrandávamos o passo para olharmos ao longe, para tentarmos perceber o que estava a acontecer. Mas, logo a partir de almoço, com as mulheres de um lado e os homens do outro, a festa começava a animar. Ao fim da tarde, princípio da noite, atíngia o auge. Lembro-me das danças que levantavam pó na terra, as mulheres muito maquilhadas a baterem com sapatos finos na terra seca, os homens na fronteira de perderem a compostura, com a ponta do cinto solta das presilhas, como a cabeça de uma serpente, também a dançarem, também a baterem com sapatos novos na terra. E os rapazes da nossa idade, claro. É deles que me lembro melhor. Foram eles que nos chamaram para entrar, foram eles que nos puxaram pelo braço quando fizemos tenção de recusar, foram eles que insistiram, que nos foram buscar comida, que nos deixaram à vontade. 

Conhecíamos esses rapazes das temporadas que passavam na escola. Não tinham livros, a professora emprestava-lhes um caderno e sentava-os ao lado de alguém. Sabiam pouco de letras e da maneira como a professora dizia as coisas, o que sabiam de números não se escrevia no quadro com giz, mas eram os reis do recreio. Passávamos esse tempo a rodeá-los e ora fazíamos perguntas, ora ouvíamos as notícias mais incríveis. Eles conheciam o mundo, estavam ali apenas de passagem. Aproveitávamos ao máximo o tamanho da sua novidade.

Esse casamento de três dias juntou muitas famílias ciganas, vieram de todo o Alentejo, das Beiras, da Extremadura e da Andaluzia. Teve lugar no terreno em frente ao correio que, nessa época, tinha muito poucas construções em volta. Era um dos dois ou três lugares onde os ciganos costumavam montar acampamento. Os burros e as mulas ficavam presos aos troncos das oliveiras, aproveitavam esse descanso resignado, até ao momento em que fossem chamados a levar a carroça. E tanto podiam seguir pelas ruas da vila, o velho Durico rodeado por montes de camisas, a fumar a ponta de um cigarro que quase lhe queimava os lábios, a pele do rosto encarquilhada, os olhos quase fechados, o velho Durico a descer as ruas muito devagar e, às vezes, a ser rodeado por mulheres que tratava por freguesas. Ou esses burros e essas mulas podiam avançar por estradas nacionais, a puxar a carroça carregada, objetos empilhados, panelas, baldes, sacos cheios, e os homens, as mulheres e as crianças sobre esse monte, e os cães a ladrarem aos carros que se demoravam por um instante atrás deles antes de os ultrapassarem. 

Quando saí da minha vila, deixei de conhecer ciganos. Da mesma maneira, deixei de conhecer os meus vizinhos. Este é um lugar onde as pessoas não dizem bom dia quando se cruzam na rua. Para quem não conheça outra realidade, parece que o mundo é todo assim, habitado por desconhecidos. Há poucas semanas, perto de Estremoz, passei por uma carroça exatamente igual às da minha infância. 

Nunca tive medo de ciganos. Apesar da maneira como, muitas vezes, via essa palavra ser utilizada: como uma ameaça. Quando éramos crianças, os meus amigos e eu sabíamos que os ciganos não eram iguais a nós, bastava-nos reparar em certos detalhes para sabermos isso. Mas essa diferenças não nos incomodavam. Sabíamos que se encontra sempre diferenças nas pessoas que apenas se vêem à distância e, ao mesmo tempo, porque sabíamos que os ciganos eram iguais a nós, bastava-nos conversar com eles para ter essa certeza absoluta. 

José Luís Peixoto

Escritor

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Com amigos destes

É uma marca deste tempo: chamamos amigos a demasiadas pessoas. A facilidade de comunicação abriu as comportas de uma grande quantidade de novas relações que não soubemos qualificar. Ou porque foi demasiado rápido, e não tivemos a mesma velocidade no poder de análise, ou porque os rótulos elementares que possuíamos ­— desconhecido, inimigo, conhecido, amigo, amante, familiar — deixaram de ser suficientes para classificar formas de relação com muito mais complexidade e subtileza. Chamar amigo a alguém é uma forma de generosidade e de simpatia ­­— como numa cena entre taxista e cliente: onde é que o meu amigo deseja ir? ­—, mas podemos pagar caro por essa imprecisão.

Apesar de todas estas formas contemporâneas de contacto, que nos permitem saber onde uns e outros passam férias ou, em certos casos, o que jantaram ontem, continua a haver aqueles amigos de quem se vai deixando de ter notícias. Fomos amigos, não havia nenhuma dúvida acerca disso, mas hoje, se nos encontramos mais ou menos por acaso, vemo-nos na obrigação de explicar essa amizade aos nossos filhos adolescentes. Entre o desinteresse e a desconfiança, os nossos filhos estranham essa familiariedade com pessoas que nunca viram ao longo da sua vida.

Nesse aspeto, os amigos são como barcos: se deixados à deriva, podem afastar-se ou aproximar-se, tudo depende das correntes e dos algoritmos. Há uma certa melancolia nesse afastamento, lembra-me o verso de um poema de Philip Larkin, mas a aproximação sem piloto nem sempre é desejável: há possibilidade de choque entre as embarcações. Um fenómeno semelhante a esse tem lugar quando encontro um certo amigo ­— talvez devesse usar aspas. Em cada um dos nossos dois ou três encontros anuais ­— ou talvez seja mais correto dizer: em cada uma das duas ou três ocasiões anuais em que, por acaso, nos cruzamos ­—, o tema que mais gosta de debater são “as pessoas que não gostam de mim”. Uso aqui as aspas porque o estou a citar palavra por palavra e porque é exatamente com essa formulação que introduz o assunto.

Sou sempre apanhado desprevenido e caio sempre nessa armadilha. Aflito, enquanto tento encontrar motivos para “essas pessoas” não gostarem de mim, esse meu amigo ­— aspas? ­— fica calmamente a assistir ao espetáculo. Só muito mais tarde, ao longo dos dias seguintes, enquanto rumino detalhes da conversa, começo a encontrar as respostas que devia ter dado e começo a questionar as suas intenções.

Uma vez que foi ele que levantou o tema, devia ter-lhe perguntado: mas quem são essas pessoas? O engodo principal é o carácter vago da consideração lançada para o ar. Saber que há pessoas que não gostam de nós, confronta-nos com os nossos próprios fantasmas. Se não questionarmos essa entidade informe, iremos necessariamente encontrar as suas razões nas nossas inseguranças. Antes disso, talvez seja pertinente perceber se “essas pessoas” nos conhecem o suficiente para terem uma opinião válida sobre nós. Ao mesmo tempo, talvez interesse saber também se os critérios segundo os quais “essas pessoas” nos avaliam coincidem com os nossos.

Em qualquer dos casos, é um terrível equívoco convencermo-nos de que precisamos de agradar a toda a gente. Se existimos, não agradamos a toda a gente. A pessoa que está atrás de nós na fila da caixa do supermercado está desagradada com a quantidade de compras que fizemos, está a insultar-nos mentalmente. Vale a pena deixarmos de comprar o que precisamos por isso?

Com muita probabilidade, quando nos reencontrarmos, já terei esquecido tudo isto e voltarei a ser apanhado de surpresa com a tal conversa sobre “as pessoas que não gostam de mim”. Não me preocupa, hei de chegar às mesmas conclusões. No entanto, talvez seja tempo de pôr entre aspas esse tal “amigo”.

José Luís Peixoto

Escritor

portoPortugal 1 e 2

“Portugal” e “Portugal” são dois substantivos homógrafos e homófonos. Um deles, “Portugal”, refere-se à grande Lisboa, ao grande Porto e às cidades do litoral. O outro, também “Portugal”, refere-se ao resto do país. São palavras idênticas, chegam a parecer a mesma palavra, mas têm diferenças muito significativas. Nos últimos meses, a propósito das fronteiras fechadas e da dificuldade de viajar para outros países, tem-se falado mais do que habitual neste segundo Portugal. Fala-se de descobrir Portugal.

Este capricho linguístico de utilizar dois termos tão semelhantes para nomear realidades tão díspares dá azo a todo o tipo de mal-entendidos. É muito comum que alguém fale de Portugal e se fique a pensar que está a falar de Portugal, o contrário também acontece com frequência. Para evitar esses equívocos, vou aqui usar as denominações Portugal 1 e Portugal 2. Não é particularmente elegante, mas é bastante prático. 

Assim, começo por dizer que é muito positivo que Portugal 1 demonstre esta intenção de descobrir Portugal 2. Estou convencido de que ficarão bastante surpreendidos com o que vão encontrar por lá. Como é sabido, a habitual presença de Portugal 2 no espaço mediático acontece uma vez por ano: durante os incêndios. Mas essa cobertura é bastante errática, depende literalmente dos ventos, e acaba sempre a mostrar paisagens negras e destruídas. Ao mesmo tempo, acredito também que vão ser muito bem recebidos. Ao contrário do que acontece em Portugal 1, as queixas acerca do excesso de turismo em Portugal 2 são residuais ou inexistentes. 

Não sei se é apenas a minha esperança a falar, mas parece-me mesmo que esta inesperada aproximação entre Portugal 1 e 2 poderá até contribuir para transformações ainda mais ambiciosas. Talvez Portugal 1 se aperceba de que os problemas de Portugal 2 também são os seus. Talvez chegue mesmo a entender que se houver oportunidades de vida em Portugal 2, as populações não serão forçadas a migrar em massa para Portugal 1, com todas as dificuldades que essa situação acaba por causar para todos: a sobrepopulação, as especulação imobiliária, a insatisfação suburbana de Portugal 1; e o envelhecimento, a desertificação, o desespero de Portugal 2. 

Durante as semanas que passámos fechados em casa, a sair apenas para ir ao supermercado, todos descobrimos espaços na nossa casa: sentámo-nos pela primeira vez a apanhar sol na varanda, percebemos que o chão do quarto é um excelente lugar para fazer ginástica, por exemplo. Aquilo que está a acontecer no país pode ser comparado com essa situação. Não faz sentido que, entre todas as divisões da casa, apenas limpemos e arrumemos a sala porque é lá que passamos a maioria do tempo. Até aqui, Portugal 1 tem sido a sala, Portugal 2 é aquele sótão atafulhado de objetos cobertos de pó, que não sabemos exatamente quando vamos utilizar, mas que temos pena de deitar fora. 

O sentido desta comparação assenta na constatação de que o nosso país é a nossa casa. Ou, pelo menos, é uma das nossas múltiplas casas. Talvez “casa” e “casa” também sejam dois substantivos homógrafos e homófonos. Em qualquer dos casos, parece-me aconselhável que não me estenda nessa análise. Alguém com mais conhecimentos do que eu poderá argumentar que não se tratam de dois substantivos, mas sim de um único substrantivo com duplo sentido. E talvez seja. Prefiro não entrar nesse tipo de conflito. As polémicas gramaticais são das mais violentas. 

Pessoalmente, apenas queria dizer que gostava de ver este assunto resolvido durante o tempo da minha vida.  Sonho com um país em que se diga “Portugal” e toda a gente, sem mal-entendidos, entenda “Portugal”. 

José Luís Peixoto

Escritor

Contemporâneos

Ao tentar descrever o século XIX na literatura francesa, sinto a cabeça invadida por adjetivos mas, quando os analiso um a um, parece-me que todos ficam aquém, falta-lhes justiça para descrever uma riqueza de tal tamanho. A Revolução Francesa teve o seu início no século XVIII, mas as suas consequências foram bem mais duradouras. Em França, o século XIX nasceu dessa explosão, dessa sequência extraordinária de acontecimentos. A natureza profunda do tempo é a continuidade. Nem mesmo as revoluções conseguem interromper a história. Nesse aspecto, a história da literatura não diverge da restante cronologia. O século XIX francês, para lá do romantismo, realismo e outras fronteiras artificiais, resulta daquilo que já se sonhava no século XVIII.
1860. De modo relativamente aleatório, escolho esta data. O que tento dizer é: em 1860, em França, estavam vivos os seguintes autores: Victor Hugo, Flaubert, Alexandre Dumas pai e filho, Zola, Jules Verne, Maupassant, Baudelaire, Verlaine e Rimbaud. É certo que atravessavam fases muito distintas das suas vidas: Maupassant e Rimbaud eram crianças, Verlaine era um adolescente, Victor Hugo e Alexandre Dumas Pai tinham 58 anos, os restantes andavam pelos trintas. Ainda assim, impressiona-me pensar que num determinado momento, em 1860, estes indivíduos estavam vivos ao mesmo tempo, todos eles circulavam por este planeta, tinham consciência de si próprios, havia alguma coisa a que cada um deles chamava “eu”.
Um modo prático de tentarmos conceber o que terá sido outro tempo é olharmos para o tempo que conhecemos, nomeadamente este em que estamos. Refiro-me sobretudo às pequenas marcas da existência, às características que, independentes de tudo o que localiza historicamente este momento, conferem realidade a estarmos aqui: a temperatura, a luz, a ansiedade, as imperfeições, a experiência dos sentidos. Admitir realmente a existência de Flaubert, por exemplo, implica imaginá-lo sob uma temperatura como esta, uma luz como esta, ansioso, imperfeito, com sentidos em funcionamento. Nesse caso, não se trata sequer de uma tarefa que exija um especial esforço inventivo, uma vez que Flaubert deixou muitíssimas impressões pessoais descritas na sua vasta correspondência.
Ainda assim, é mais fácil mitificar o passado, não resistir à inclinação natural que a passagem do tempo nos propõe. O passado é uma projeção intelectual, distorcida pela perspectiva de cada um. Essa margem permite polir-lhe as arestas, aperfeiçoá-lo de acordo com os nossos interesses ou com a nossa preguiça. Somos benevolentes com o passado, como somos benevolentes com os mortos. É muito mais fácil perdoar-lhes, os mortos já não ameaçam ninguém. Enquanto isso, o presente é muito mais cru. Abrimos os olhos e vemo-lo à nossa frente, repleto de imperfeições. O presente é sempre imperfeito, como nós.
No que toca ao enganador respeito produzido pela mitificação, os escritores vivos não têm outro remédio que não seja conformarem-se com o facto de que perderão sempre com os escritores mortos. A obra dos mortos está acabada, não pode ser corrigida. A obra dos vivos é volúvel, tem de defender-se em relação a todas as escolhas feitas. Os mortos são definitivos. Os vivos têm de responder perante todas as alternativas possíveis. Os mortos fazem a sua melhor pose em fotografias, gravuras e estátuas. Os vivos são quotidianos, estão mesmo aqui, com todas as suas misérias, tão perto. Os vivos são como eu e, por isso, falíveis, cheios de defeitos. Os mortos não são como eu.
Voltando ao século XIX da literatura francesa e à correspondência de Flaubert, é especialmente interessante a passagem de uma carta que dirigiu à sua irmã Caroline, em 1843, na qual descreveu o seu primeiro encontro com Victor Hugo: “É um homem como qualquer outro, com um rosto bastante feio e um exterior bastante comum. Tem dentes magníficos, tem ar de se cuidar e de não deixar nada ao acaso. É muito educado e um pouco rígido. Gosto do som da sua voz. Tive o prazer de contemplá-lo de perto (…), os olhos fixos nos dele, na mão direita que escreveu tantas coisas belas. Lá estava, portanto, o homem que mais fez bater o meu coração desde que nasci e, talvez, aquele de que mais gostei entre todos os que não conheço.” A admiração é clara, existe um deslumbramento pelo dono daquela “mão direita” e, no entanto, é curioso notar a forma como, ao vivo, em presença, não é indiferente à falta de beleza e à dentição. O sublime intelectual não fecha os olhos ao prosaico físico.
Com 28 anos, em 1961, Ruy Belo publicou no seu primeiro livro o breve e eloquente poema Epígrafe para a nossa solidão: “Cruzámos nossos olhos em alguma esquina/ demos civicamente os bons dias:/ chamar-nos-ão vais ver contemporâneos”. Não há dúvida de que a quantidade de desconhecidos com quem nos cruzamos constantemente é sinal de uma certa solidão, uma certa incomunicabilidade. Ainda assim, nestes três versos de Ruy Belo impressiona-me ainda mais a chamada de atenção para a incrível circunstância de partilharmos tempo, de estarmos todos aqui, neste preciso momento.

José Luís Peixoto

Escritor

Curso rápido para diretor de campanha

O primeiro passo é polarizar o universo eleitoral em questão. Se reduzirmos as opções de escolha entre “nós” e “eles”, aumentamos enormemente o nosso espaço potencial. Mesmo que o ponto de partida seja ínfimo pouco mais de um 1%, por exemplo —, ao conseguirmos generalizar o uso da dicotomia nós/eles, alcançaremos imediatamente os 50% ao nível formal. 

Se o eleitorado estiver previamente polarizado, apenas precisaremos de alimentar esse maniqueísmo, geri-lo com as estratégias simples que apresentarei em seguida e, sem dúvida, os resultados são garantidos. Se for necessário desenvolver esse trabalho desde o início, precisaremos de mais algum tempo, mais algum esforço, mas a concretização dos objetivos continua garantida. Nesse caso, será útil cumprir algumas diligências experimentais de modo a definir um “eles”. 

Como é evidente, o “nós” somos nós e, como também é evidente, o “eles” opõe-se a nós, ao “nós”. No entanto, nós podemos ser muitas coisas, essa elasticidade trará bastante proveito. Ainda assim, a primeira medida organizativa deverá ser a escolha das nossas características-base. A opção mais eficaz será definirmo-nos em função do “eles”. O “eles” que melhor se adequará aos nossos propósitos será aquele que conseguirmos culpar de tudo, absolutamente tudo. Esta premissa é fundamental, irá permitir-nos o argumento nuclear de todos os pontos do nosso programa: nós estamos certos porque eles estão errados. 

Todas as oportunidades de comunicação devem seguir apenas duas normas: simplicidade e provocação. 

  1. a) A simplicidade favorece um fácil entendimento e, como tal, a cobertura de um público mais amplo, nomeadamente aqueles que possuem dificuldades ao nível da literacia, que são uma enorme franja de eleitorado, tantas vezes perdida para a abstenção. De uma só vez, esse discurso simplificado transmite uma certa humildade e a ideia de se estar a dizer “as coisas como elas são”. Além disso, não são necessários termos muito elaborados para afirmar o que importa: nós somos bons, eles são maus. 
  2. b) A provocação é o método mais competente de alimentar a dicotomia nós/eles. Entre as várias formas possíveis de provocação, o insulto é muito aconselhável. Em qualquer momento, pode recorrer-se ao insulto com facilidade, garante uma boa cobertura mediática e deixa-os — “eles” — numa posição sem fuga: se não nos respondem, dão-nos implicitamente razão, o nosso argumento é único e último; se respondem, valorizam, também implicitamente, a nossa posição, trazem os nossos temas para a agenda do debate público e ainda podemos acusá-los de estarem a insultar-nos. 

Vivemos num tempo de internet e de redes sociais. Quem disser o contrário, está em negação ou adormeceu em 1997. Essa evidência leva-nos a escolher a internet como o nosso meio preferencial de ação. As vantagens são múltiplas, dois exemplos entre inúmeros possíveis: por um lado, a intensidade da nossa presença poderá dar a entender que somos muitos mais do que realmente somos; por outro lado, permite-nos produzir um número infinito de notícias que favoreçam as nossas posições. Esta utilidade é particularmente proveitosa, uma vez que, para além de contarmos com os benefícios de rumores que terão muita dificuldade em desmentir — se é que alguma vez conseguirão fazê-lo —, poderemos invocar mais tarde que a informação está viciada. Ou seja, viciamos a informação e, depois, quando mostrarem algum dado que não nos convenha, por mais inequívoco que seja, bastar-nos-á evocar que a informação está viciada. Tiramos o crédito à informação e, depois, dizemos que a informação não tem crédito. Repito esta ideia para que seja bem apreendida. 

Bem sei que dá trabalho passar horas na internet a comentar todo o tipo de publicações, dá trabalho inventar notícias, inventar estudos, inventar sondagens, trabalhar imagem e vídeo, etc. De onde virá dinheiro para montar toda essa operação? Não se preocupe com isso. O dinheiro aparecerá, e será suficiente, será de sobra.  

José Luís Peixoto 

Escritor

 

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Notícias do presente sem futuro

Estou cansado que me perguntem como é que estou a passar este tempo.

De repente, o tempo transformou-se neste tempo: um presente absoluto. O passado ficou incrivelmente distante, recordamo-lo como se tivesse acontecido a outras pessoas, como se o tivéssemos visto num documentário. Pior ainda, o futuro deixou de existir. Antes, naquele tal tempo que antecedeu este, dávamos o futuro por adquirido, chegaria na semana que vem, no mês que vem, haveria futuro em 2033, por exemplo. Agora, já não temos a certeza. Agora, o futuro é uma utopia ou uma distopia, dependendo do otimismo/pessimismo de cada um. 

Alguns, discípulos de Heráclito com 2500 anos de atraso, asseguram-nos que nada será como costumava ser. Estou cansado dos clichés deste tempo. Estou cansado de ouvir que a adversidade é uma oportunidade, é um desafio. Dispenso esse tipo de desafios. 

Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga. No entanto, repare-se no meu esforço por não utilizar certas palavras. Há certos verbos e substantivos que já não consigo ouvir, menos ainda pronunciá-los, menos ainda escrevê-los, vê-los impressos. 

Estou cansado dos especialistas. Cansa-me os que são realmente especialistas, os que se empenharam a fazer licenciaturas e pós-gaduações quando estas disciplinas não estavam na ordem do dia, quando não havia nenhum indício de que fossem chamados ao telejornal para dar o seu parecer. Mas cansa-me sobretudo os especialistas de ocasião, especialistas entre aspas de chumbo, leitores de internet, gente que não gagueja ao falar e que quer sempre falar.

Prefiro as minorias silenciosas, como é o caso de quem está em prisão domiciliária ou de quem sofre de agorafobia. Esses beneficiaram de uma trégua. As crianças deixaram de perguntar porque é que o tio tem uma pulseira na perna e nunca sai de casa. De certa forma, estes meses foram uma redução na pena. Ao mesmo tempo, quem sofre de agorafobia pôde sentir-se normal, não teve de escutar insistências para sair. Algo semelhante aconteceu com as aldeias do interior. Durante este período, foi normal que as ruas estivessem desertas. 

Estou cansado da condenação feita pelos puristas do isolamento social, sempre a medirem distâncias com os olhos. Passam dias inteiros à janela só para poderem chamar irresponsáveis aos outros e dizer: já viram isto? Eles nunca são irresponsáveis, eles estão sempre a ver tudo, com a exceção daquilo que preferem não ver, é claro. 

Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga”

Estou cansado da escola em casa, muito cansado. Estou cansado da ginástica em casa, toda a gente do prédio em frente a fazer agachamentos. Mas, mais do que qualquer outra coisa, estou cansado desta agressão aos velhos. Já tinham problemas suficientes: a palavra velho usada como um insulto, por exemplo. Já tinham sido obrigados a aceitar suficientes injustiças. Agora, por cima de todas essas, também esta injustiça.

Estou cansado. Com essa falta de ânimo, assisto ao início da crise económica que já chegou para alguns e, diz-se, tocará a todos, ou quase. Este quase tem enorme importância, mas não o estranhamos, há muito que nos habituámos à desigualdade, aprendemos a justificá-la. Vista daqui, também a desigualdade se apresenta como um eterno presente, uma inevitabilidade do ser humano, não mudou e ninguém prevê que esteja para mudar. 

José Luís Peixoto

Escritor (Portugal)