De Lisboa a Macau. De comboio. Sempre que possível

Jorge Duarte Estevão
FOTOGRAFIA: Jorge Duarte Estevão

Deve chegar em Dezembro. Seis meses depois de partir de Lisboa. Quer estar na RAEM quando se assinalarem os 20 anos da transição. Sempre que possível, vem de comboio, mas pelo caminho mais difícil. Uma viagem que vai sendo decidida pelo caminho, em função das dificuldades que forem aparecendo.

João Paulo Meneses

putaoya@hotmail.com

Jorge Duarte Estevão é um jornalista e fotógrafo português que deu início, no dia 10 de Junho, a uma viagem que o trará de Lisboa até Macau. “A verdade é que essa efeméride (dos 20 anos da transição da Região Administrativa Especial de Macau para a China) foi um dos pontos que pesou na escolha deste projecto de viagem para 2019. E havia outros. Por isso, sempre foi um objectivo estar em Macau em Dezembro”, diz Jorge Estevão ao PONTO FINAL, num email enviado algures entre a Bulgária e a Turquia.

FOTOGRAFIA: Jorge Duarte Estevão

“Em termos de organização da viagem teria sido mais fácil viajar de Macau para Portugal, mas iria estar à hora certa no local errado. E, para um cidadão português, viajar ‘De Macau a Portugal’ faz menos sentido do que viajar ‘De Portugal a Macau’, que é precisamente o nome que deu ao projecto e que vai revelando quase diariamente no seu blogue https://www.lugaresincertos.com.

Jorge revela que “Macau sempre me despertou um enorme interesse – tanto que ponderei nos últimos anos aí viver. Quero ficar por algum tempo, conhecer bem a região, provar a gastronomia, perceber como vivem ou convivem comunidades tão distintas. E, também, visitar alguns amigos que escolheram Macau como lar permanente”.

De comboio

Uma das particularidades deste projecto é que Jorge Estevão – que viaja com a companheira – quer fazer o máximo possível da viagem de comboio. Não é uma condição exclusiva, mas a verdade é que promete abdicar da ferrovia apenas quando não tiver alternativa.

Entrar em Macau a pé, depois de ter deixado o comboio em Gongbei, nem será dos maiores problemas. “Desde que entrei em França, até chegar à Turquia não foi necessário sair do comboio para passar fronteiras. Apenas foi preciso esperar pela ‘invasão’ dos guardas fronteiriços para a verificação dos documentos e, depois, seguir viagem. Mas, por exemplo, ao passar da Turquia para a Geórgia, pelo Cáucaso, não existem ligações ferroviárias (de passageiros) entre os dois países. Pelo que sei, deverá estar pronta este ano ou no próximo. E, se por lá passar, irei ser forçado a abdicar temporariamente do comboio”.

FOTOGRAFIA: Jorge Duarte Estevão

Jorge Estevão antecipa outro problema: “Depois, mais à frente, no Quirguistão – um país que há muito tempo está na minha lista pelas paisagens de montanha incríveis – apenas existe ligação de comboio até Bishkek e nada mais. Aí, provavelmente, terei de ‘furar’ pelo Cazaquistão para seguir viagem”.

“Não haverá qualquer problema se tiver de viajar por outro meio, mas apenas o farei se a isso for obrigado por força das circunstâncias. Neste caso optarei pelo autocarro, barco, bicicleta, pelos próprios pés e, só em último caso, o avião,” adianta, na troca de mensagens como o PONTO FINAL. “Não por receio de viajar de avião, mas porque a bordo de uma aeronave raramente se encontram boas histórias para contar”.

Para chegar de Lisboa a Macau, Jorge Estevão tinha uma alternativa fácil: em Moscovo apanhava o Transiberiano e depois o Transmongoliano até Pequim. Na capital chinesa seria fácil manter-se na ferrovia até Cantão e apanhar depois a ligação para Zhuhai/Gongbei. “Curiosamente, essa foi uma rota que excluí logo à partida. Por vários motivos, mas principalmente porque era demasiado simples e fácil, com bastante menos contrastes do que se atravessar os Balcãs, Turquia, Irão, Quirguistão, etc. Isto permite-me contactar com culturas bem mais distintas e contrastantes do que apenas viajar milhares de quilómetros por um único país”, explica. “Seria fácil e cómodo comprar um bilhete único de comboio, pedir o visto da Rússia, da Mongólia e da China e fazer grande parte do percurso dessa forma”, revelando que, em tempos, chegou a ter essa viagem planeada. “Não digo isto por desinteresse pelo Transiberiano ou Transmongoliano. Pelo contrário”.

FOTOGRAFIA: Jorge Duarte Estevão

Sem planos definidos

Como se percebe, Jorge Estevão e a companheira partiram de Lisboa com a viagem em aberto. “Poderia ter escolhido inúmeras rotas para viajar entre Portugal e Macau. É uma viagem definida em conjunto com a minha companheira de viagem e com critérios de datas, rotas e custos dos quais temos apenas estimativas”.

Jorge explica que, “numa viagem desta duração, há situações que, de uma forma ou de outra, estão fora do nosso controlo. A questão dos vistos é uma delas, de facto. Seria mais oportuno partir de Portugal com todos os vistos na bagagem ou colados no passaporte, mas isso seria pouco prático, pois muitos vistos apenas nos dão uma pequena janela temporal para entrar no país de destino. Em vários casos, esse período é de apenas 30 dias. Por isso, é preciso ir ‘pedinchando’ vistos pelo caminho, sempre com a incerteza de serem aprovados ou não”.

Os vistos são, à partida, um dos grandes desafios, que se podem revelar também na rejeição de entrada, lembrando Estevão que “em alguns países, a situação é mais volátil que noutros. Quando saí de Portugal não havia qualquer ameaça de conflito com o Irão, não havia protestos diários na Geórgia, em Moscovo ou em Hong Kong. Nenhum destes é agora impeditivo, mas é preciso estar preparado para mudar a rota, se for necessário”.

O maior problema, à partida?

“Sendo que a maioria dos países por onde pretendo passar já dispõe de visto electrónico ou isenção de vistos para cidadãos portugueses, não prevejo demasiados problemas. Provavelmente os entraves acontecerão quando tentar sair da Turquia. É a partir daí que começam os maiores obstáculos em termos burocráticos e de segurança”.

Custos

A pergunta que muitos leitores estarão a fazer neste momento: quanto vão custar estes seis meses? Mas, como se percebe, essa é uma pergunta que o próprio Jorge Estevão também coloca. “O custo depende do tempo que dura a viagem, do nível de conforto, dos hotéis escolhidos, do percurso traçado, da velocidade a que se viaja, dos meios de transporte. Cada pessoa tem a sua forma de viajar. A minha é simples: quero viajar pelos pratos de todos os países, provar as comidas e bebidas locais. Nos hotéis que escolho, o mais importante é que estejam limpos, sejam confortáveis e – em cidades – bem localizados. Não interessa se é um hostel, apartamento, hotel ou tenda”, diz. “Mas viajar é também provar os vinhos e a gastronomia local. É tudo uma questão de opções”. 

O viajante reconhece que, do percurso feito até agora, esteve o mínimo de tempo possível em França ou que não parou na Suíça por razões financeiras. “Uma noite de hotel num desses países poderá ser suficiente para estar uma semana na Turquia”. 

FOTOGRAFIA: Jorge Duarte Estevão

Mas, então, os custos?

“Existe sempre um custo de viagem estimado, mas dizer até por alto quando custa é difícil, porque vão surgir imprevistos. Já houve locais onde gastei bem menos do que pensava e noutros o oposto. O custo total irá incluir o investimento em equipamento, seguros, transporte, vistos, alojamento, alimentação e algumas cervejas frescas”.

Ainda assim, o financiamento da viagem é garantido com algumas receitas do blogue e também com vários apoios de entidades ligadas ao turismo. Confessa que foi abordado por empresas privadas para se associarem ao projecto, “mas decidi rejeitar as parcerias pois, na minha opinião, não se enquadravam no perfil da viagem. Também o inverso aconteceu, pois contactei entidades empresariais e algumas, também de forma cordial, disseram que não”. Outra fonte de receitas é a cedência da licença comercial de algumas das fotografias que vai tirando durante a viagem.

E depois de Macau?

“Regressar de avião? Não sei. Talvez fique para ver como é o Natal em Macau,” responde ao PONTO FINAL. “Na verdade, começo a pensar que seis meses de viagem passam tão depressa como as duas semanas de férias que tiramos anualmente. E como gostava de revisitar alguns destinos da Ásia (onde estive recentemente) e também conhecer mais alguns como Timor ou as Filipinas, torna-se cada vez mais desafiador prolongar a viagem para além de Macau”, deixando em aberto a hipótese de regressar à Nova Zelândia ou Austrália “e explorar outra vez esses países numa autocaravana. Ou talvez regresse a Portugal de comboio, desta vez, atravessando a Mongólia e a Rússia. Talvez abrace um outro projecto, pois ideias não faltam”.

Voltemos ao planeamento da viagem, aos custos e ao prazer de viajar, o mais importante: “Na verdade, se houvesse meios financeiros faria tudo isso. O regresso de avião é a hipótese, nesta altura, menos atractiva”.


Viajante profissional? “Não”

Jorge Estevão viaja há muitos anos, mas só a partir de 2017 começou a pensar numa forma de poder agregar alguma informação que já produzira e que iria produzir em resultado das viagens planeadas. 2018 foi o ano oficial de arranque do blogue Lugares Incertos. Jorge é um viajante mas não gosta que lhe chamem viajante profissional. “Não diria que sou viajante profissional, nem sei exactamente o que é ser tal. Julgo que ao ser-se viajante profissional também se perde uma parte da autonomia e autenticidade e fica-se obrigado a visitar e a viajar para onde talvez nem nos apeteça. Sou apenas mais alguém que tem a enorme paixão de andar pelo mundo a conhecer lugares e pessoas, a escrever e a fotografar”. “Um site, sobretudo de viagens, é um projecto dinâmico e em constante mudança e nunca é um capítulo encerrado. Tal como diz aquele lugar comum: a viagem não é apenas o destino, mas o percurso para lá chegar”, pode ler-se em Lugares Incertos. J.P.M.

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