“Dias de Macau”: Receitas macaenses, poesia de Brian Castro e pintura de John Young

Receitas tradicionais da cozinha macaense são a massa que liga a poesia de Brian Castro e a pintura de John Young no livro “Dias de Macau: Ou seis personagens em busca de um prato”. A obra de poesia surge da vontade do autor australiano, filho de português e que viveu em Macau, chegar às memórias de infância, despertando-as através da comida. O autor dedica poemas a Camilo Pessanha, Luís Vaz de Camões, Wenceslau de Moraes, entre outros. O livro vai estar disponível no Festival Literário de Macau – Rota das Letras, a partir de 10 de Março.

 

Texto: Cláudia Aranda

Fotografia: Eduardo Martins

 

“Dias de Macau: Ou seis personagens em busca de um prato” é uma edição trilingue, em português, inglês e chinês, e apresenta-se recheado de referências gastronómicas, culturais e literárias de Macau. Surge do desejo do autor australiano Brian Castro, nascido em Hong Kong em 1950, filho de pai português, “abordar algumas das memórias de infância”. O projecto é uma colaboração entre o escritor Brian de Castro e o artista plástico John Young, que estiveram presentes na última edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras.

“Macau é realmente a minha cidade natal, de uma certa maneira, porque costumava passar as minhas férias de infância lá. Achei que a melhor forma de regressar às lembranças de infância era incluir comida para que o aroma e o sabor me despertassem essas memórias. De forma involuntária, surgem-nos referências ou momentos vividos no passado”, explica Brian Castro, em conversa com o PONTO FINAL, a partir da cidade de Adelaide, na Austrália.

A ideia de publicar nas três línguas foi inspirada em Macau. “A última vez que estive aí, gostei muito da ideia de tudo estar traduzido nos três idiomas, nos autocarros, nas placas informativas, isso foi tão importante para mim, ver que Macau retornou à China, mas que não ficou restrito a apenas uma língua, os três idiomas subsistem, para mim isso é muito importante culturalmente. Quis reproduzir essa experiência neste trabalho, para mim, essa é a essência de Macau”, prossegue o autor.

 

A comida enquanto “cura para a amnésia”

 

“O meu pai gostava de cozinhar. Ele era português. Aos sábados, especialmente, ele chegava a casa e cozinhava. Os pratos de que me lembro são o ‘tacho’ e ‘porco bafassá’, muito bons pratos portugueses e, claro, bacalhau. Sabia que esses sabores me dariam essa lembrança da minha infância. Por isso achei que a comida é o que cola todos os elementos, a poesia, a pintura, as memórias”, prossegue o autor.

 

 

Para as receitas, Brian Castro serviu-se de alguns dos pratos apresentados no livro de Graça Pacheco Jorge “Cozinha de Macau”, preparados e fotografados por cozinheiros especializados, explica o poeta e escritor. “É claro que alterei um pouco algumas receitas, porque o meu pai costumava cozinhar também, e ele tinha as suas próprias receitas, costumava pôr muito picante, ele gostava de picante”.

No início da obra, em “Aperitivo”, o autor, traduzido para português por Isabel Maria da Costa Morais, da Universidade de São José, explica: “Como desde sempre me interessei pela memória e pelo esquecimento na literatura, nunca abandonei a ideia de que a comida não é tanto um afrodisíaco como uma grande cura para a amnésia e a criação de um género literário”.

Entre as seis personagens “em busca de um prato” estão personagens literárias e históricas que têm em comum a sua alegada passagem por Macau: Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes, a deusa de A-Ma, Luís Vaz de Camões, Wu Li e Giuseppe Castiglione.

 

Pessanha por Brian Castro

 

Camilo Pessanha, já invocado numa obra anterior de Brian Castro, “The Bath Fugues”, de 2009, é o tópico de um dos poemas do autor australiano, que descreve a vida do poeta português que se refugia em Macau no final do século XIX em resultado de um amor não correspondido, e se cruza com Wenceslau de Moraes. “Ambos empedernidos como ladrões, ambos funcionários públicos não avessos ao vício, quando a lei era uma vil emissão de dúbias garantias para qualquer esquema imprudente”, escreve o poeta australiano. A ilustrar este texto dedicado ao autor de “Clepsidra”, uma receita de “Minchi”, aquela que lhe cozinharam na hora da sua morte, em 1926: “…uma mistura de carne picada com cebolas e alho e talvez couve cortada em cubos e batatas estaladiças fritas em azeite de oliveira, molho de soja escuro com açúcar e açafrão e ervilhas, que tudo misturado representa a inesquecível essência da confusão e insegurança e significa a própria mistura dele, a desordem de uma vida, a colisão de mundos, alucinações, temperamento irascível… ele é minchi e comer é um anti-depressivo e no topo de tudo pode-se pôr um par de ovos estrelados …”. A Wenceslau de Moraes, Brian Castro dedica também um poema e uma receita doce de fios de ovos.

 

Raízes portuguesas em Vanuatu

 

O escritor português que acabaria por morrer no Japão é, igualmente, tema da obra de John Young, que dedica 29 desenhos a Wenceslau de Moraes em “Dias de Macau: ou seis personagens em busca de um prato”.

A colaboração com John Young surgiu naturalmente, uma vez que ambos, escritor e artista plástico, já reúnem trabalhos realizados em conjunto anteriormente. O artista plástico, igualmente nascido em Hong Kong, em 1956, e a viver na Austrália desde 1967, apresentou o ano passado no Festival Literário um conjunto de obras centradas em Macau, um território que lhe interessa enquanto “local de trocas culturais paradoxais”. Naquela exposição, o artista faz uma “homenagem às partidas, a todos cujas vidas foram transformadas como Wenceslau de Moraes, que deixou Portugal, passou por Macau e acabou o resto dos seus anos em Tokushima”, no Japão. Alguns dos trabalhos expostos na altura integram-se agora no livro.

 

 

Com esta busca das memórias de infância, transpostas para “Dias de Macau: Ou seis personagens em busca de um prato”, ou “Macau Days: Or Six Characters in Search of a Dish”, Brian Castro dá continuidade ao processo iniciado há alguns anos de busca das suas raízes. “Há três anos, comecei a rastrear a minha ascendência. Comecei esse trabalho através do livro de Jorge Forjaz ‘Famílias Macaenses’, mas como os dados da minha família são bastante imprecisos preferi fazer um teste de ADN e acabei por chegar a dados muito úteis, descobri que a minha família, do lado do meu pai, tinha alguma ascendência polinésia, de Vanuatu, que foi inicialmente ocupada por descobridores portugueses. Mas, tudo isto acaba por entrar no livro apenas como memórias”, conclui.

Leave a Reply

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s