Um “olhar estrangeiro” sobre a vida e obra de Mio Pang Fei

PF 3084 capaCom o documentário sobre a vida e obra de Mio Pang Fei, Pedro Cardeira relança a discussão sobre o neo-orientalismo. A estreia é em Outubro no DOCLISBOA.

Cláudia Aranda

Pedro Cardeira conseguiu explicar em hora e meia os conceitos que Mio Pang Fei tentou passar ao longo de toda a sua vida a orientais e ocidentais. Estas foram as palavras do próprio mestre depois de ver o documentário do realizador, residente de Macau, que retrata a sua vida e obra. Mio Pang Fei é um dos mais conceituados artistas plásticos de Macau e uma referência da arte contemporânea chinesa. Nasceu em Xangai nos anos 1930 e mudou-se para Macau no início dos anos 1980, onde desenvolveu um estilo próprio que cruza as técnicas artísticas ocidentais com as tradições culturais chinesas a que deu o nome de neo-orientalismo.

O documentário, da produtora “Inner Harbour Films”, está selecionado para a secção competitiva do festival de cinema documental DOCLISBOA, que se realiza em Portugal, entre 16 e 26 de Outubro, altura da estreia mundial do filme. O público de Macau poderá ver o documentário em Novembro.

– A quem é que tiveste acesso primeiro, ao homem ou à obra?

Pedro Cardeira – Digamos que fui atraído pela obra antes de conhecer o homem. A primeira vez que contactei com a obra foi através da minha mulher, que me mostrou um livro de Mio Pang Fei. Na altura achei fascinante, sem sequer ter lido nada sobre a vida do pintor. Isto foi em 2005, 2006. Numa segunda viagem cá, em 2009, 2010, comecei a ler sobre a vida, a obra, o pensamento, as ideias de Mio e, então, achei ainda mais fascinante.

– O que é que é fascinante em Mio?

P.C. – Em primeiro lugar a obra, mas depois também o percurso de vida. As famílias da minha mulher e do mestre têm uma relação já de alguns anos e pedi à minha mulher para me encontrar com eles. Houve esse encontro, não se falou muito, até porque não falamos a mesma língua.

– Sem o canal privilegiado das relações entre famílias teria sido possível chegar a Mio?

P.C. – Talvez tivesse demorado mais tempo. Os laços familiares aproximaram-me muito rapidamente de Mio e da família. Teria sido mais difícil, também, por causa da língua. Nos primeiros encontros foi a minha mulher quem fez a tradução, e começou a haver logo uma relação muito próxima com Mio, porque havia este interesse mútuo pela arte, era fácil de nos entendermos, mesmo não falando a mesma língua. Fomos criando uma confiança mútua, que é muito importante para fazer-se um documentário.

– Qual foi o ponto de partida para o documentário?

P.C. – A pesquisa é o princípio. Só depois de perceber como ia abordar o tema é que volto para Macau de malas e bagagens. É aí que lhe proponho fazer o documentário e ele responde-me, “vai ser muito interessante que um ocidental faça um documentário”. Ou seja, ele estava já à espera de uma outra perspectiva que não fosse chinesa ou local sobre a obra dele.

– Pode dizer-se que este documentário é o primeiro olhar “estrangeiro” sobre a obra de Mio, em termos cinematográficos?

P.C. – Em termos cinematográficos, sim.

– Conta-me um pouco o itinerário das filmagens.

P.C. – O documentário começa pelas origens de Mio em Xangai. Viajámos para Xangai com o mestre Mio Pang Fei, a esposa, o irmão e fomos procurar as origens, que são muito importantes para a obra e para as teses que ele vai desenvolvendo depois. Mio viveu quarenta e muitos anos na China antes de vir para Macau, portanto tínhamos aqui uma série de pequenas histórias de vida que teríamos de contar e que estariam relacionadas com a sua obra. Obviamente começámos pelo lugar onde nasceu, o ambiente onde cresceu até à juventude.

– Esses lugares ainda existem?

P.C. – Ainda existem esses espaços. A casa foi entretanto demolida e transformada, mas ainda existe a fábrica que era do pai. Mio tem origens na pequena burguesia, digamos assim. Existia a fábrica, a casa da avó, e foi muito interessante porque tanto ele como o irmão já não iam lá há 60 ou 70 anos. Introduzimos também a relação com o irmão, que também é pintor, para percebermos como surge esta paixão pela pintura, que começa na infância, a fazer livros de banda desenhada ou histórias acompanhadas de desenhos. Outro elemento muito importante na sua obra é a ópera chinesa, ele gosta muito, e desde pequeno que ele ia muito. E nós levámo-lo ao teatro onde ele ia quando era pequeno, o teatro ainda existe.

– Recorres alguma vez a documentação antiga, fotografias?

P.C. – Não. Pusemos a voz sobre as imagens que fomos recolhendo. Nunca vamos a imagens do passado, a não ser à das próprias obras. Acho mais interessante mostrar o que Mio é agora. E deixar que o espectador imagine o passado. É um documentário sobre um artista vivo, que está a produzir, e que vai continuar. Se usarmos fotografias de época ou imagens de arquivo estamos a datar uma coisa que ainda existe no presente. Nunca recorremos a esse artifício, vemos sempre as coisas como são na actualidade. Depois falamos da ida para Fujian, sendo que não filmámos lá, por causa de restrições.

– Qual é relação de Mio com Fujian?

P.C. – Ele foi estudar artes plásticas para Fujian, numa altura muito complicada da história da China, estávamos no final dos anos 1950, em pleno Salto Em Frente, as escolas não funcionavam muito bem. Mas, havia um episódio que eu queria incluir no filme, que é a descoberta da arte moderna. Foi em Fujian que ele descobriu o expressionismo, o cubismo, o fauvismo, esse momento é muito importante porque vai influenciar toda a sua vida. Seguimos para os episódios mais negros da Revolução Cultural, até aos anos 1970, princípio de anos 1980. Na altura foi perseguido, preso, e passa por um processo de “reeducação”. Era filho de um pequeno industrial e é por isso que é perseguido. Filmámos o reencontro com antigos alunos, alguns atingiram notoriedade internacional, como Zhuang Xiao Wei, que se tornou uma referência mundial em escultura de vidro.

– O que é que foi marcante nesse encontro com os antigos estudantes?

P.C. – O grande respeito, quase reverência para com o mestre. Havia uma relação, que começou quando eram estudantes e ele era professor, que continuou. Zhuang Xiao Wei diz a dada altura: “fui estudar para Inglaterra, mas as ideias de Mio Pang Fei foram aquelas que me ficaram”. Sendo que, na altura, esses princípios modernistas eram proibidos. Ele não podia falar de Picasso, do impressionismo, o importante era o Realismo Socialista. E Mio conseguiu, no meio deste ambiente fechado, cristalizado, passar a informação, que vem influenciar os alunos, que começaram a progredir para a arte contemporânea.

– O que é que te atrai no pensamento de Mio?

P.C. – O neo-orientalismo foi uma tese que Mio desenvolveu nos anos 1960, 1970. Começa ainda em Xangai e que vem dar à tese nos anos 1990, em Macau. Ele chama-lhe ideia, eu prefiro princípio porque remete-nos para o conceito de “missão”, que é um bocadinho o que ele propõe. E o que ele propõe é continuar a olhar para as tradições da arte chinesa, mas olhar para fora – no caso dele, olhou para a arte moderna, contemporânea ocidental – e perceber nestes dois olhares como é que se pode repensar a arte chinesa, a cultura, a sociedade. A China nos anos 1990, estava dividida entre dois mundos – o seu mundo, o seu passado, as tradições com cinco mil anos de história, e uma abertura a uma arte moderna que estava a acontecer no Ocidente. A China estava de alguma forma a receber influências de fora e tinha que perceber como é que podia balancear essas influências para recriar, relançar, repensar a cultura e a arte chinesa – é isto que ele propõe.

– Em que ponto se encontra essa discussão?

P.C. – Quando a tese sai nos anos 1990, a abertura da China ainda era uma coisa tímida, na altura, acho que não foi compreendida. Hoje funcionaria melhor e o filme também pode ajudar a ir buscar esta tese outra vez. Acho que ainda estamos num impasse. Tem sido feito algum esforço mas ainda não se chegou a conclusão nenhuma. Há ainda um certo atrito, ainda se está muito dividido entre os que querem manter as tradições e os que querem fazer algo de novo. Mas, a seu tempo. E acho que agora é o momento certo, porque a China está a alcançar uma importância no mundo, uma visibilidade, que isto vai ter de ser abordado.

– Quiseste com o teu filme reintroduzir o tópico do neo-orientalismo?

P.C. – Sim. Macau, que está aqui entre estes dois mundos, que fez Mio sentir-se tão bem quando cá chegou, foi sempre um bocadinho incubadora nestas coisas. É preciso relançar este tema. Isto pode ajudar a definir o que vai ser a China, o posicionamento de Macau. Olhar para o que Mio propôs na obra dele poderá lançar essa discussão. Se houver abertura para isso – eu gostaria muito que houvesse. O filme não dá respostas a coisa nenhuma, mas pode lançar questões: “Qual é o futuro, onde é que se quer chegar, quais são os pontos em comum numa época de individualismo tão forte?”. O Mio diz uma coisa muito interessante: que a própria ideia do neo-orientalismo é lançar esta discussão, e eu gostaria que o filme fizesse isso.

– Qual é o olhar que mostras sobre Macau?

P.C. – Quis mostrar esse lado de cruzamento. O filme mostra este lado de Macau, da vida das pessoas: a vivência de Mio em Macau, os primeiros tempos, em que ele vem como designer para uma fábrica na [Avenida do] Almirante Lacerda; onde vive o artista, de que ambiente se rodeia, que depois vai reflectir-se na obra – todos estes episódios da vida, de alguma forma, relacionam-se com a obra. Pode dizer-se que ele foi descoberto em Macau – até vir para Macau nunca tinha feito uma exposição. Faz uma exposição no Museu Luís de Camões [agora Casa Garden] – o curador foi António Conceição Júnior – conhece o arquitecto Carlos Marreiros, Ung Vai Meng, e junta-se ali um grupo que vem dar uma geração de artistas muito importantes para Macau, um bocadinho encabeçados por Mio Pang Fei. São eles que trazem a arte contemporânea para Macau, que lançam as raízes ou, pelo menos, contribuíram. Começam a criar associações de pintura, os espaços de arte, a escola de artes visuais, a escola começa a formar pessoas. Bianca Lei, Alice Kok, Tong Chong passam por Mio Pang Fei como professor. Para Macau, a vinda de Mio Pang Fei é a semente de tudo o que acontece hoje em dia [nas artes]. O filme mostra que há estas preocupações, que há uma vida para além do jogo.

– A língua foi um obstáculo?

P.C. – Mio Pang Fei fala três línguas durante o filme todo. Fala habitualmente em mandarim. Com António Conceição Júnior, Carlos Marreiros, Ung Vai Meng fala em cantonês, mas em Xangai fala “xangainês” com os amigos todos. Foi uma coisa morosa, precisávamos sempre de ter traduções, tivemos de recorrer ao apoio de muita gente.

– Qual foi o comentário de Mio quando viu o filme?

P.C. – Ele viu o filme comigo e disse-me uma coisa muito engraçada, disse-me que tinha passado 20, quase 30 anos, a vida toda, a tentar explicar as suas ideias, o que é que ele pretendia, e que eu consegui fazer aquilo em hora e meia.

– Há outros projectos cinematográficos em vista?

P.C. – Acho que existe potencial para se começar a desenvolver alguma coisa cá em Macau – ao nível do cinema estão a dar-se os primeiros passos. Acho que este apoio às longas-metragens é muito importante. Não existe uma indústria de cinema em Macau, existem casos esporádicos de filmes, alguns deles muito interessantes, e existe acima de tudo uma grande vontade de se fazer qualquer coisa. É evidente que os apoios são fundamentais, não há indústria sem haver produção contínua de filmes. Macau é pequeno. Isso pode ser um problema, mas também uma vantagem, porque o cinema aqui nunca vai ser cinema de “entertainment” de grande mercado, porque não há mercado. Mas, pode haver um “cinema independente”. E, como estamos num espaço pequeno, com estas culturas todas, poderá haver um verdadeiro interculturalismo e não apenas casos esporádicos de interculturalismo. Poderá haver essas ligações entre as diferentes culturas.

– É preciso haver vontade, das pessoas, das instituições?

P.C. – Das pessoas e das instituições também. Acho que o Instituto Cultural, o departamento para a promoção das indústrias culturais e criativas, têm feito um excelente trabalho. Claro que há problemas, há defeitos, mas há essa vontade de fazer as coisas, isso é muito positivo e, neste momento, é fundamental para haver indústria de cinema. Há um problema muito grave em Macau que tem de ser corrigido, que é a falta de formação. Sem formação é muito difícil construir uma indústria, seja do que for. Para fazer isso é preciso haver produção continuada. Mas, acho que há boas perspectivas.

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