Macau na Segunda Guerra Mundial: Território de contrastes entre o bloqueio económico

 

João Botas, um dos autores que contribuíram para o livro “Wartime Macau”, explicou ontem ao PONTO FINAL como o território foi afectado pela Guerra. Apesar da pobreza e das privações, os soldados japoneses utilizavam a cidade como destino turístico, revela o investigador e jornalista.

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João Santos Filipe

Um território entre bloqueios, cuja economia foi severamente afectada, não só  pela falta de acesso a produtos alimentares básicos mas também pelo grande fluxo de refugiados que a ele aportaram. É desta forma que João Botas, um dos colaboradores do livro Wartime Macau, coordenado por Geoffrey C. Gunn, define a economia do Território durante a Segunda Guerra Mundial.

 

“Estamos a falar de um período de guerra em que as necessidades são prementes. Temos de equacionar que em Macau – e apesar de não ter havido invasão japonesa – havia efectivamente um bloqueio naval, por um lado, e um terrestre, por outro, porque os japoneses estavam nos dois lados” disse ontem Geoffrey C. Gunn, ao PONTO FINAL.

“Este bloqueio criou sérias dificuldades, nomeadamente pelo facto de ter deixado de haver mantimentos de um momento para o outro. Também no espaço de dois ou três anos a população mais do que triplicou, passando de cerca de 200 mil pessoas para mais de 600 mil habitantes. Isso criou dificuldades”, acrescentou.

Para conseguir contornar estes bloqueios, o Governador de Macau na altura, Gabriel Maurício Teixeira, chamou a si um papel fundamental, explica Botas: “Ele teve que usar a diplomacia e fazer uso da inteligência para conseguir contornar esse bloqueio que aqui e ali era desbloqueado, com o consentimento japonês, através da troca de favores, que permitiam que um navio fosse buscar arroz ao Vietname ou a Timor”.

Nessa altura havia ainda realidades distintas para as diferente pessoas entravam em Macau. Isto porque a cidade que hoje trabalha para ser um Centro Mundial de Turismo e Lazer já na altura era vista como um local para férias para os oficiais japoneses: “Os japoneses utilizaram Macau como um campo de férias e quando vinha para aqui, passeavam-se e havia um sentimento de lazer. Frequentavam o casino do Hotel Central e comiam e bebiam muito porque para eles não havia privações”, conta João Botas.

Por outro lado, as classes mais pobres atravessam um período dos mais complicados, que o autor não tem dúvidas em apelidar como um dos “mais negros” da História de Macau:  “Foi um período muito negro, para não dizer que foi o período mais negro da história de Macau. Conta-se nessa altura –  e isto está provado por diferentes fontes – que quando os oficiais japoneses já bêbedos saíam dos jantares e vomitavam na rua, que os mendigos aproveitavam para comer o que não tinha sido digerido”, conta o jornalista.

Esta sexta-feira os autores do livro, Geoffrey C. Gunn, João Botas, Roy Eric Xavier e Stuart Braga, vão estar na Livraria Portuguesa, pelas 18h30, para abordar um trabalho que foca Macau durante a Segunda Guerra Mundial em diferentes vertentes.

 

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