“Há muitos filmes para fazer em Timor”

004David Palazón é um espanhol que em 2008 trocou Londres por Díli. Envolveu-se com a cultura tradicional do país e prepara-se para lançar o documentário “Wawata Topu – Sereias de Timor-Leste”. É a história de mulheres da ilha de Atauro que mergulham e caçam peixe para sobreviver.

Hélder Beja 

Mulheres vestidas, com uma espécie de lança numa das mãos, a entrarem nas águas que banham a ilha de Atauro, em Timor-Leste. Fazem-no para apanhar peixe, ostras, o que houver. Fazem-no por necessidade e a história, contada em imagens, parece de outro tempo mas também de outro mundo. David Palazón, cineasta, e Enrique Alonso, antropólogo, juntaram-se para filmar e perceber a vida na aldeia de Adara, na costa oeste de Atauro. O resultado é “Wawata Topu – Sereias de Timor Leste”, documentário de 33 minutos que deve estrear em breve em vários festivais. David Palazón conta como tudo começou.

– Como se deparou com a história das melhores de Atauro que praticam este tipo de pesca tão especial?

D.P. – Entre 2009 e 2012 estive a viajar pelo país e a trabalhar com vários timorenses. Numa dessas viagens, Nelson Turquel – um dos fotógrafos que trabalhou no filme – foi à aldeia de  Adara e voltou com umas fotos que utilizámos no evento “Academia das Artes e Indústrias Criativas 2011”. Fiquei com essas fotografias e, em conversa com outro espanhol, Enrique Alonso, que é antropólogo e trabalhava como assessor do Ministério das Pescas, falámos de Atauro, que é um epicentro do mar e das pescas. Como ele já não estava a fazer assessoria e tinha tempo livre, falámos destas mulheres de Atauro. Há muitos filmes para fazer em Timor. Este era atractivo, ver as mulher ali debaixo de água… São as únicas mulheres em todo o Timor-Leste que o fazem. Pedimos fundos ao Secretariado da Comunidade do Pacífico. Queríamos também fazer um livro, com o estudo, mas só houve dinheiro para o filme. Pedimos autorização, fomos para a aldeia durante uma semana, entrevistámos toda a gente, levámos vários amigos como voluntários e outros que foram pagos. O Mário Gomes, que trabalha em Atauro, é um dos tipos mais espevitados de Adara e abriu-nos as portas da sua família na aldeia. Filmámos tudo a partir daí.

– Que tipo de tecnologia usaram para filmar debaixo de água?

D.P. – Tínhamos dois amigos que fazem mergulho, o Nuno da Silva e Bea. Mergulharam com botijas de oxigénio e filmaram debaixo de água com uma caixa que levava a câmara dentro. Além disso, tínhamos duas câmaras Canon próprias para filmar na água. Foi assim que filmámos o que é a pesca, os barcos, as redes, a luta com o peixe e tudo isso. Para o resto usámos uma HDV profissional.

– Estas mulheres vão pescar para o mar sem qualquer equipamento, normalmente vestidas, com uns óculos artesanais que usam debaixo de água. Como foi a experiência de filmá-las?

D.P. – Elas pescam nos recifes. É um pouco a contradição do filme: a beleza visual do que elas fazem é grande, mas ao pescarem assim estão a destruir um pouco o recife. Mas enfim… Os homens pescam na parede vertical, quando o recife termina. As mulheres pescam no máximo a dois, três metros de profundidade. Às vezes vão quase a andar. Filmámo-las durante três dias a pescar e a cada dia mudavam de lugar, consoante as marés. Elas têm o seu próprio sistema de rotatividade e sabem quando têm de ir a um sítio e ao outro. Os peixes que apanham não são muito grandes, mas também apanham ostras e outras coisas que encontram.

– O documentário mostra-nos que o fazem por necessidade, como modo de subsistência. Depois, têm de caminhar algumas horas para vender o que pescam no único mercado de Atauro, certo?

D.P. – O mercado é em Beloi [zona onde atracam os barcos vindos de Díli]. Elas têm de andar duas horas e meia até chegarem ao mercado. É ao sábado que fazem esse caminho.

– Interessou-lhe esta questão de sobrevivência, do porquê das mulheres terem começado a dedicar-se a este tipo de pesca?

D.P. – A mim o que me interessa mais é retratar a realidade. A questão explicativa das coisas, ao trabalhar com o Enrique que é antropólogo, estava mais com ele. Quando íamos à aldeia o que eu fazia era documentar histórias visualmente – as crianças, a igreja. Quando encontrávamos alguém que queríamos entrevistar, como o professor ou o chefe da aldeia, era o Enrique que conduzia as entrevistas, para averiguar o porquê de estas mulheres terem esta actividade. Há diferentes níveis económicos dentro da aldeia. No caso destas mulheres, ou estão sem marido, ou são de famílias com muitos irmãos, ou são poucas mulheres e por necessidade familiar têm de fazê-lo. Não têm dinheiro e por isso não podem comprar redes. Os peixes que pescam são para comer. Se pescam mais algum, vendem-no e compram arroz ou suprem qualquer outra necessidade básica que tenham. Nunca conseguem ter dinheiro para redes ou para construir um barco que lhes permita ir um pouco mais longe e pescar peixes maiores. Na aldeia há outras mulheres que não fazem pesca aquática porque têm barco e vão com o homem. É uma actividade social mas também é uma necessidade. Não vão fazer pesca submarina como se fossem fazer pilates.

– Ainda que seja um documentário sobre estas mulheres, há uma boa parte sobre outros temas da aldeia, como o casamento, etc. Foi uma opção difícil fazê-lo assim? Não acha que o espectador pode estar à espera de mais cenas subaquáticas e mais imagens desta mulheres a pescar?

D.P. – A pesca é a desculpa, mas o filme é uma investigação. Nesta aldeia toda a gente é protestante, não católica. Não fumam, não bebem, têm uma espécie de comportamento social diferente, um sentimento animista da sua própria religião tradicional, de como têm de casar. O tema do casamento é um intercâmbio económico. Aquilo a que chamam “barlaque” [oferta que o marido faz à família da noiva] é bastante complicado de traduzir. A língua não pode traduzir este tipo de actividade social. Se o traduzimos como “bride wealth”, estamos a dizer que as mulheres têm um preço e é politicamente incorrecto. É complicado, depende da audiência. Se for uma audiência que trabalha com o tema do género, verão isto do ponto de vista de defesa dos direitos da mulher. Mas a nossa intenção não era essa, mas simplesmente fazer um retrato do porquê de as mulheres terem esta actividade. Estivemos lá uma semana e tampouco é uma espécie de documentário à Jacques Cousteau, todo debaixo de água. Elas não passam toda a semana debaixo de água. Fazem-nos durante uma hora, três ou quatro vezes por semana. O material que temos filmado corresponde à vida de autóctones que levam. A primeira edição do documentário que fizemos era mais longa. Para esta, retirámos coisas, exactamente por querermos ter mais tempo as mulheres. Fizemos mais umas entrevistas, para que nos contassem a sua história.

– Já vive em Timor-Leste há alguns anos e “Wawata Topu – Sereias de Timor Leste” não é o seu primeiro projecto no país. Como vai viver de Londres para Timor?

David Palazón – Coisas da vida… Eu era professor na universidade, em Londres, tinha estudado lá, trabalhava como freelancer e com projectos artísticos. Interessavam-me as questões socioculturais e o poder pôr em prática a criatividade em lugares um pouco fora de contexto, onde talvez faça mais falta. Tinha então um amigo português que estava a fazer fotografia documental nas ex-colónias portuguesas e foi ele que me apresentou Timor. Era suposto virmos juntos. A ideia era ficar três meses e depois seguir para a Austrália. No final das contas ele não veio, eu encontrei um programa de voluntariado e fiquei por aqui.

– Apaixonou-se pelo país? O que é que aconteceu?

D.P – Bem, é um bocado uma relação de amor e ódio (risos). Fazes amigos timorenses, tens relações que geram projectos e, depois do voluntariado, apareceu um projecto com uma universidade australiana [Griffith University] e estive três anos a fazer pesquisa sobre as culturas tradicionais de Timor. Isso levou-me a colaborar com o Governo e há projectos que estão agora nas mãos deles. Entretanto estou a fazer vários projectos, faço design como freelancer.

– Porquê essa relação amor/ódio?

D.P. – É como em qualquer outro país em vias de desenvolvimento. Gosto das especificidades que tem, do facto de poder ir a Adara e filmar umas mulheres que pescam por necessidade, mas tudo é muito lento, sobretudo trabalhar com o Governo é lento. Não que tudo seja mau. Há coisas boas e coisas más.

– Disse há pouco que há muitas histórias para contar em Timor. Vai continuar a filmar a essas histórias?

D.P. – Depende. Está tudo relacionado com os projectos que estão em marcha. Queremos conservar o que existe no que toca à cultura e aos antepassados, mas fazer com que a nova geração reinterprete tudo isso e faça algo que possa criar empreendedores criativos, que possa gerar dinheiro e emprego – uma indústria. Aqui não há indústria de cinema. São sempre projectos promocionais, cooperações, ou são estrangeiros como eu que fazem alguma coisa. Agora há outro filme, que se chama “A Guerra de Beatriz” [de Luigi Acquisto e Bety Reis], há uma colaboração entre os estrangeiros e os timorenses. Para que os timorenses sejam capazes de ter a sua indústria de cinema, seja a que nível for, precisam de praticar e de fazer projectos. Se não há estudos, ou vão a estudar para fora ou tudo é um processo muito lento.

– Enquanto vai filmando estes projectos, há jovens locais que aprendem consigo?

D.P. – Sim, tenho vários discípulos que começaram comigo quando eu era voluntário. Com um deles, o Victor [de Sousa], fizemos o “Uma Lulik”, um filme para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Passou nas televisões de todos os países de língua portuguesa através do programa DOCTV CPLP. Isso foi o resultado de trabalhar com um rapaz timorense durante um ano. Ele teve a ideia, fizemos a proposta, ganhámos um concurso, procurámos uma empresa. Fiz um pouco de director executivo, dei-lhe capacidade a ele, cedi equipamento, ele aprendeu um pouco mais e fomos filmando durante um ano. Ele vinha ter comigo a cada mês e pouco a pouco íamos montando o filme. Conseguimos mandar o filme a alguns festivais e ganhámos um pequeno prémio em no Festival Internacional de Brisbane. Mas não há indústria, é complicado. Ele agora tem estado a filmar os miúdos que lançam papagaios de papel em Agosto, que é o mês em que faz mais vento. É uma curta-metragem, uma espécie de exercício. Filmam, editam e eu pago a produção. Depois meto o filme online, para que seja visto e, se estiver suficientemente bem, mandamo-lo a algum festival. Há um marketing por trás disto que leva tempo e dinheiro que ninguém paga.

– Por falar em festival, onde gostaria de ver estrear este “Wawata Topu – Sereias de Timor Leste”?

D.P. – Já a enviámos para 12 festivais. Enviámo-la ao Indie Lisboa, a dois festivais em Londres, a um na Nova Zelândia, um em Los Angeles, outro na Austrália, outro na Holanda, na Alemanha e Canadá. Estamos à espera. Alguns são festivais etnográficos, outros são curtas-metragens documentais e outros estão mais relacionados com o mar.

– E em Timor, quando vão mostrá-lo?

D.P. – No último fim-de-semana deste mês vamos projectá-lo na aldeia, em Adara. Não temos verba para alugar um cinema. Toda a gente nos pergunta quando vai acontecer. Dentro de 15 dias virá um representa do Secretariado da Comunidade do Pacífico, saberemos a sua opinião sobre o filme. Estamos a traduzi-lo para francês, para passar nas TV’s do sudeste do Pacífico. Em Timor, de momento, há esta projecção prevista para Adara e suponho que haverá um screening em Díli, na Fundação Oriente ou algo assim.

– Está a trabalhar noutros projectos?

D.P. – Estou a terminar uma curta experimental que é ainda uma surpresa, um pouco secreta. É uma colaboração com a bailarina Collen Coy e o maestro Simão Barreto, que viveu muitos anos em Macau. Para já não posso dizer mais.

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