“Quero mostrar o artista por trás da obra”

Pedro Cardeira está a rodar um documentário sobre Mio Pang Fei. Filmar a família, os amigos e o homem serve para humanizar a pintura, acredita o realizador que está a registar a exposição que inaugura hoje no Galaxy.

Hélder Beja

 Mio Pang Fei é o pintor das obras literalmente maiores que a vida, com mais de dez metros de tela, que nos esmagam e nos fazem pensar. Ao que pinta – e que auto-intitulou de neo-orientalismo – Mio junta um percurso de vida notável pela perseverança, que o trouxe até Macau e ao reconhecimento público. Pedro Cardeira, director de fotografia que entre outros projectos trabalhou em vários filmes de Ivo Ferreira, lança-se agora na realização de um documentário sobre o pintor.

Fomos encontrar Cardeira a registar a preparação da exposição que abre hoje no Galaxy. Filmar o percurso turbulento de Mio Pang Fei, desde a Revolução Cultural à vinda para Macau – que aconteceu em 1982, já com mais de 40 anos –, foi uma inevitabilidade para o realizador. O produtor, Edgar Medina, espera que o filme, ainda sem título definitivo, esteja pronto em Setembro. Para isso, sabem ambos, são precisos mais apoios.

– Como surge a ideia de fazer um documentário sobre Mio Pang Fei?

Pedro Cardeira – Existe já uma relação de muitos anos entre a família da minha mulher e a família de Mio Pang Fei. Ele foi professor do meu cunhado e houve sempre uma óptima relação. Entretanto chegou-me através do meu cunhado a história de vida do Mio Pang Fei e a sua obra. Achei interessantíssimo filmar este artista, que é um bocado o melhor de dois mundos: a arte ocidental e a arte chinesa, conseguindo um equilíbrio fantástico. Depois fui saber um bocadinho da vida dele, de como ele chegou até aqui – não só a Macau, mas a este ponto da sua vida artística – e encontrei uma história de vida fantástica e atribulada que, como costuma dizer-se, dava um filme. E está a dar.

– Mio Pang Fei é normalmente de difícil acesso para conceder entrevistas ou qualquer coisa do género. O facto de existir essa relação familiar foi decisivo para que tenha conseguido avançar com o documentário?

P.C. – Obviamente. Abordei-o através da minha família e foi muito mais fácil chegar até ele desta maneira. Fundamental para se fazer um documentário é a relação entre as pessoas e, apesar de haver esta barreira da língua, há momentos muito interessantes em que conseguimos comunicar. Nem é por gestos, é mais ele perceber do que é que eu preciso e eu perceber o que é que ele está a dar. Funciona muito bem. Já tive pelo menos três intérpretes e funciona sempre bem, porque ele sabe através do outro o que é que estou a pedir. Com a família é igual – mesmo aquele momento dramático a que às vezes gostamos de chegar, eles sabem que nós precisamos disso e vão lá.

– Já conhecia a obra do pintor, bem como a história de vida. Quando começou a entrevistá-lo que homem é que acabou por descobrir?

P.C. – Essa é uma história engraçada, porque todos os livros que li acerca dele – e tudo o que me contavam dentro da própria família – vincavam sempre a figura do herói, que é verdade. É a figura de alguém que ultrapassou todos os obstáculos na vida para chegar onde queria. O que fui conhecer foi o outro lado desse herói, o lado humano que todos nós temos, e que é tão ou talvez mais interessante que o do herói. Como é que alguém que vive com paixão pela arte, que é capaz de sofrer o que ele sofreu por causa da arte, consegue ainda assim ter este lado tão humano? Foi muito gratificante perceber que conseguiria ter também não um super-herói mas um ser humano.

– O que é que vai tentar mostrar com este documentário?

P.C. – Principalmente, quero mostrar o artista por trás da obra. É evidente que a obra é conhecida, é muito importante, mas quero mostrar também o homem que está ali por trás. Quero mostrar a família, que é muito importante e que o apoiou durante toda a vida; as relações que ele tem com os amigos; e obviamente a vida que ele teve, esta coisa de ele estar sempre a passar por cima dos obstáculos que lhe põem. Não estou a falar só da Revolução Cultural. Esse é um episódio no meio disto tudo, que vai ser referido, mas são muitos episódios. Começou quando ele era criança, com a mãe a dizer ‘se calhar é melhor ires tirar um curso de Engenharia Civil’. E ele começou a tirar o curso mas acabou por ir para as Belas-Artes, porque gostava era da pintura. Como até mais recentemente, com os problemas de saúde. Ele sempre conseguiu passar por cima de tudo. Quero, se quiser, desmistificar a ideia do herói, e aproximar-nos mais do homem que ele é.

– O documentário vai mostar como é o dia-a-dia de Mio Pang Fei em Macau? O público conhece a obra mas não tem ideia de como é vida dele aqui.

P.C. – Vou mostrar um bocadinho disso, não só em Macau mas também no estúdio que ele tem em Zhuhai. Vou mostrar esse quotidiano, porque ajuda muito a explicar a pessoa que ele é e o carácter que tem. Acho que vai ajudar-nos a olhar para as obras dele de outra maneira, não desta maneira tão baseada na arte pela arte, mas se calhar percebendo as emoções que passam através da pintura.

– Mio Pang Fei continua a trabalhar muito?

P.C. – Ele recomeçou agora a trabalhar muito. Tem trabalhado sempre, mas teve alguns problemas de saúde que impediram que tivesse a produção a que estava habituado. Agora está outra vez a ganhar ritmo. Acho que, não nesta exposição mas numa próxima, vamos ter muita coisa nova do Mio Pang Fei. Espero que isso esteja no documentário.

– Por quanto mais tempo espera filmar?

P.C. – O documentário tem sido feito ao sabor dos acontecimentos. Quando há estas exposições ou alguma coisa importante nós filmamos. Agora queria entrar mais na vida dele, na intimidade, no quotidiano, e construir a história a partir daí. Sendo que tudo isto é um processo relativamente longo. Por várias razões mas principalmente porque não quero interferir nesse processo, quero que seja o mais natural possível. Isto vai demorar ainda algum tempo. Já fizemos entrevistas preliminares com o Mio, filmámos uma exposição em Zhuhai, fizemos alguns exercícios muito interessantes em que ele explica as suas obras. Estamos também neste momento a recuperar entrevistas de outras pessoas. Fizemos algumas filmagens também em Portugal, fomos tentar ver onde estão as obras de Mio Pang Fei.

– Onde é que há obras do pintor em Portugal?

P.C. – Que eu saiba existem na residência do general Rocha Vieira, e já foram filmadas. Sei que também estão na Fundação Oriente e, soube há pouco tempo, estão também em casa do Carlos Marreiros. Depois há obras no Japão, na Austrália, na China Continental… A algumas perdeu-se-lhe o rasto.

– O grosso do documentário é passado em Macau?

P.C. – Sim, sendo que há uma parte muito importante que terá de ser filmada em Xangai, que foi onde nasceu Mio Pang Fei. Essa parte terá referências ao mestre que muito o influenciou, que foi o Liu Hai Su. Vamos ter de ir ao passado dele para percebermos o percurso todo. Essa é a etapa seguinte e talvez ele nos acompanhe a Xangai. Eu gostaria muito e ele está muito entusiasmado com isto. Acho que iremos juntos.

– Como é que viabilizou financeiramente este documentário?

P.C.  – Pedimos alguns apoios e até agora só temos o apoio oficial do Carlos Marreiros e do Albergue. Estamos à espera da resposta do Instituto Cultural. Isso não nos tem impedido de filmar porque felizmente estou rodeado por uma série de amigos cheios de entusiasmo em relação ao projecto, que são capazes de vir para aqui e dar um bocadinho do seu tempo para que isto funcione.

– Onde espera mostrar o filme?

P.C.  – Gostaria muito que o filme estreasse numa altura em que houvesse uma exposição do Mio. Sendo que há a hipótese de alguns festivais, nomeadamente o Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Macau, e obviamente as televisões. Preferia que o filme fizesse o circuito de alguns festivais e depois pudesse ser mostrado na TV e em exposições do Mio Pang Fei. Acho que faria todo o sentido mostrá-lo com uma nova exposição das obras que ele está neste momento a produzir.

Galaxy mostra 24 obras a partir de hoje

O casino-resort Galaxy e a Casa de Portugal juntaram-se para organizar uma mostra de 24 trabalhos de Mio Pang Fei. A exposição está patente a partir de hoje na Praça Oriental do Galaxy, junto aos cinemas, e tem inauguração agendada para as 18h. Até 11 de Março, turistas e locais poderão ver as pinturas em grande escala de um dos mais importantes artistas de Macau, bem como algum trabalho de instalação. A entrada é gratuita. Mio Pang Fei conta, nas últimas três décadas, mais de 60 presenças em exposições individuais e colectivas, não só em Macau mas também em Xangai (de onde é natural), Singapura, Malásia, Taiwan ou Portugal. O artista deve marcar presença na cerimónia inaugural de hoje.

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