O desporto pode integrar

Muitos continuam trancados em casa. Portadores de deficiências físicas e/ou mentais, acabam por se isolar do resto da comunidade por vergonha. Há, porém, associações em Macau que continuam a lutar pela integração, através do desporto. O PONTO FINAL foi ver como tudo se processa.

Luciana Leitão

Leng Kam Leng tem 42 anos, sofre de paralisia infantil e já correu mundo a praticar natação, badmington e outros desportos que, à primeira vista, lhe eram interditos. Passou, inclusivamente, pelos Jogos Paralímpicos, em Seul. Foi um dos que superou os complexos inerentes à sua condição e lutou contra o isolamento silencioso dos deficientes do território. Mas, garante, ainda são muitos os que permanecem na clausura, por sua vontade ou pela da família.
Foi já no longínquo ano de 1988 que Leng se inscreveu na Associação Recreativa e Desportiva dos Deficientes de Macau. “Queria participar desporto e tentar integrar-me na sociedade”, recorda, acrescentando: “Dantes tinha um circuito muito fechado. Lia livros, via televisão, não tinha muitos amigos e estava muito isolado.”

A evolução

Começou por praticar atletismo em cadeira de rodas e natação. As dificuldades não o desmotivaram, mas chegou a sentir-se preocupado perante o desafio que eram as suas próprias limitações. “Por exemplo, a maratona exige esforço, tem de se atravessar uma longa distância e ainda superar barreiras”, declara, salientando que chegou a ter medo de não conseguir vingar. E o mesmo diz sobre a natação.
Assim que iniciou a prática desportiva, no seio da associação, acabou por disputar natação, nos Jogos Paralímpicos, em Seul, em 1988. Mas foi a ida ao Japão para correr a maratona de cadeira de rodas, logo depois da competição na Coreia do Sul, que mais o marcou, agora que já se pode gabar de uma longa carreira desportiva. “O Governo japonês tem em consideração os deficientes, faz um esforço para melhorar a situação”, diz, acrescentando: “Além disso, gostei particularmente de tomar contacto com a cultura japonesa.”
Quando representou o território, pela primeira vez, nestas competições internacionais, Leng admite ter sentido alguma “pressão”, dada a responsabilidade – sobretudo, no Japão, dado que tinha de correr 42 quilómetros. Chegou a temer não conseguir acabar o percurso, mas não foi isso que sucedeu.
Desde então, Leng já disputou mais de dez eventos internacionais, tendo passado por Singapura, Hong Kong, Índia e Tailândia. E, hoje em dia, vai a todo o lado, sem temer os resultados.
Mais recentemente, começou a praticar tai chi em cadeira de rodas e, até agora, está a gostar da experiência. “É uma nova modalidade que possibilita a pessoas com movimentos limitados, que consigam praticar desporto praticamente sentados”, justifica, acrescentando: “Não é preciso um grande espaço para praticar e melhora o sistema digestivo e respiratório.”
Porém, o que lhe faz mesmo falta, mas que, até ao momento, ainda não faz parte dos planos da associação, é a dança. “Nos anos 80, pratiquei folclore. Gostava que se retomasse a dança em geral, além do folclore. Seria até uma forma de juntar a pessoas ‘normais’ com aquelas que são portadoras de deficiências”, salienta.

Psicologia familiar é responsável

Para Leng, apesar de o seu caso ser diferente, a maioria dos deficientes do território continua a não integrar-se na sociedade. “Há famílias que não permitem nem auxiliam o deficiente a vir cá para fora”, sobretudo por medo do que a população vá pensar.
António Fernandes concorda. O presidente da Associação Recreativa e Desportiva dos Deficientes (também Comité Paralímpico de Macau) afirma que esse é precisamente um dos maiores problemas em seguir em frente: a falta de sangue novo, dada a relutância da comunidade em retirar os filhos portadores de deficiência de casa. “Os actuais atletas de Macau já estão a perder a perícia, a força para competir”, diz, explicando: “Por isso, começámos a treinar crianças; por enquanto, apenas dez.”
Diz o presidente deste organismo que torna-se difícil encontrar mais crianças portadoras de deficiência, sobretudo porque os pais “não gostam de divulgar”. De alguma forma, sofrem de “um complexo de inferioridade”, apesar de, admite, “estarem melhores”. É por isso que, mais do que os eventuais problemas financeiros, é a falta de sangue jovem que o preocupa.
“Quero que os cidadãos portadores de deficiência continuem a recorrer ao desporto para a integração na comunidade; ora, como o Governo lhes dá benefícios, temo que estes fiquem preguiçosos e não se queiram esforçar”, declara, rematando: “Há que sensibilizar os pais.”
Aliás, o próprio vice-presidente do Instituto do Desporto, José Tavares, admite que, dada a actual mentalidade da comunidade chinesa, talvez as deficiências acabem por ficar escondidas. “São um pouco mais conservadores; não querem deixar que se saiba que têm um filho com deficiência”, afirma, acrescentando: “Já se começa, porém, a notar uma inversão na tendência.”

A participação olímpica

A Associação Recreativa e Desportiva dos Deficientes existe desde os anos 70. Desde então, muitos progressos houve, tornando-se, inclusivamente, membro do Comité Paralímpico Internacional, do Comité Paralímpico Asiático, vindo a ser, por isso, o Comité Paralímpico de Macau. Foi em 1988, nos Jogos de Seul, que Macau teve, pela primeira vez, atletas a participar nos Paralímpicos.
No início, o objectivo deste organismo passava por proporcionar um serviço de reabilitação aos cidadãos de Macau portadores de deficiência, que correspondia a mais do que impulsionar o desporto: “A intenção passava também por realizar actividades recreativas e de lazer”. Intenção essa que, por falta de meios, acabou por não vingar.
Quanto ao desporto, os atletas começaram por praticar atletismo e basquetebol em cadeira de rodas, na Colina da Guia, além de recorrer a campos abandonados. Eram não mais do que dez desportistas, mas acabaram por conseguir, ainda assim, participar no Torneio Internacional de Hong Kong.
Quando ao financiamento, de início coube ao então presidente, Leonel Borralho, providenciar alguns fundos para que a associação conseguisse sobreviver.
Com o passar do tempo, o acumular de saber e um maior número de filiados, a associação veio a requerer, junto ao Governo, cedência de mais instalações. Foi assim que veio também a poder utilizar um campo, junto ao Canídromo, bem como um outro terreno em Mong-Há e, mais tarde, outros terrenos no Fai Chi Kei e na Taipa, acabando por se praticar as actuais actividades desportivas em diferentes pontos da cidade. A sede, essa, situa-se no Ramal dos Mouros.
Neste momento, os atletas são capazes de competir internacionalmente em várias modalidades, de que são exemplo a boccia (destinada a deficientes agudos com paralisia cerebral), natação, badmington, pingue-pongue e atletismo em cadeira de rodas. Mais recentemente – e ainda de forma incipiente -, este organismo começou também a praticar tai chi e basquetebol.

O trabalho das associações

O território tem três associações a trabalhar na área do desporto como reabilitação de cidadãos portadores de deficiência. São elas, a Macau Special Olympics, a Associação Recreativa e Desportiva dos Deficientes e a Associação de Desporto de Surdos. De acordo com o vice-presidente do Instituto do Desporto, José Tavares, têm diferentes destinatários e beneficiam de apoio do Governo. “Normalmente, a estas associações até damos mais apoios, por se tratarem pessoas com maiores necessidades e que menos desfrutam de apoios particulares”, diz.
O Comité Paralímpico centra-se mais em deficiências motoras, enquanto a Macau Special Olympics foca-se em deficiências do foro psíquico e a Associação de Desporto de Surdos destina-se em apoiar cidadãos com problemas auditivos. Se estas cumprem as necessidades do território, José Tavares acredita que sim. “Hoje em dia, o que é normal ou não, ainda está em discussão”, declara, deixando no ar.
A Macau Special Olympics é, neste momento, a associação com maior número de filiados, contando-se 757, ao passo que o Comité Paralímpico conta com 137 e a Associação de Desporto de Surdos apenas com 52.
Claro que, diz José Tavares, o Comité Paralímpico, sendo o único filiado no Comité Paralímpico Internacional, acaba por se destacar. Porém, a Macau Special Olympics “tem feito um bom trabalho em conseguir que os pais tragam os miúdos cá para fora; antigamente, os cidadãos portadores de deficiência mental permaneciam em casa”.
O mesmo, por exemplo, não se vê no Comité Paralímpico de Macau. De acordo com José Tavares, “não se vê renovação de sangue; se calhar, vão ter de fazer um trabalho mais profundo para ir buscar as pessoas ‘invisíveis’, as tais que ficam em casa”.
Quanto à Associação de Desporto de Surdos, o vice-presidente do Instituto do Desporto elogia o trabalho efectuado. “A comunidade surda é muito especial. Fecham-se perante os outros, mas não entre eles. Convivem e comunicam por gestos. É preciso integrar-se a 100 por cento na comunidade deles para poder trabalhar”, diz. Ora, aparentemente, esse trabalho tem sido feito, com treinadores e pessoal a aprender linguagem gestual.
Exemplo disso é Hoi Long, uma atleta que participou nos Jogos Mundiais para Surdos, e que já é considerada “a melhor atleta de Macau”. Tendo o desporto para deficientes precisamente o objectivo de integração destes cidadãos com a restante comunidade, “que melhor exemplo do que este?”

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