Crónicas e regressos

O Encontro das Comunidades Macaenses, que teve ontem inauguração oficial, abriu páginas de histórias. Dez obras apresentadas no Clube Macau contam o que foi a terra para muitos dos ‘filhos’ que agora regressam.

Maria Caetano

São crónicas de viajantes amadores de teatro, de cinefilia e de costumes em matinées e saraus, da guerra ou da primeira vez que se deixou a terra para se ser português de Hong Kong – e mais tarde uma memória de Macau no mundo.

O Encontro das Comunidades Macaenses, o quarto que a RAEM acolhe, não junta apenas três mil filhos da terra – metade destes a viver ao largo, na diáspora. Resgata também uma história do século XX do território para páginas de livros apresentados por ocasião da reunião que ontem teve arranque oficial.

Com a chancela do Instituto Internacional de Macau (IIM), uma dezena de publicações – algumas reedições, outras novidades – foi ontem dada a conhecer na sala do Teatro D. Pedro V, ou um mais familiar “Clube Macau” aos ouvidos dos convivas do Encontro.

Entre estas “Cinema em Macau”, uma antologia de textos publicados na imprensa por Henrique de Senna Fernandes, autor falecido no início do mês passado, que pode ser conhecido agora também à luz das projecções do cinematógrafo Victoria e ou do Capital.

A obra compila uma série de fascículos sobre a sétima arte impressos durante a década de 1970 na revista “Confluência”, órgão de informação da Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (ADIM), e permite apreciar “uma faceta muito peculiar da comunidade, através do cinema”, de acordo com Miguel Senna Fernandes, o filho do escritor.

“Ele não era crítico cinematográfico, ele escrevia a comunidade, através do cinema enquanto veículo de cultura e de entretenimento. Espelha muito os hábitos da comunidade e a própria qualidade de vida que esta tinha”, explica.

“Quando no quadrado da tela passavam sequências sentimentais, corria o piano com músicas sentimentais. Quando eram galopadas e pancadarias de ferver, arremetia com marchas guerreiras, ou então, inevitavelmente, com a abertura de ‘Guilherme Tell’. Quando eram cenas macabras, de gelar o sangue, o piano soava fúnebre, com acordes sepulcrais”, relata o autor que atravessou a era do cinema mudo e acompanhou o início dos primeiros filmes sonoros, e o furor que estes fizerem entre a comunidade local.

Uma rajada de vento

No palco de décadas anteriores, movia-se Danilo Barreiros, um dos fundadores do Grupo de Amadores de Teatro e Música de Macau, cujas memórias foram ontem reveladas num romance biográfico da autoria de Pedro Barreiros, filho do viajante, aventureiro e estudioso da cultura e da literaturas chinesa.

“Danilo: No Teatro da Vida” marca o centenário do nascimento deste autor, que também na imprensa publicou crónicas e policiais, e muito escreveu sobre nomes como Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha.

“Este livro é sobre o meu pai, mas baseado nos documentos que ele me deixou, em coisas que ele me escreveu e em conversas que gravei com ele. Eu ia para casa dele, com o gravador, começava a falar com ele, que ia contando as histórias”, explica Pedro Barreiros.

“Quis escrever este livro baseado na vida dele, de antes de eu o ter conhecido. É o livro das histórias que ele me contava. Começa em 1910 e acaba em 1946, que foi a altura em que fomos de Macau para Lisboa. Depois, no epílogo, conto o resto da vida”, acrescenta.

A obra fixa também um retrato de costumes de época, que Danilo Barreiros viveu no território depois de “uma rajada de vento” traçar o destino do autor.

“Veio parar ao Oriente de uma forma incrível, como as pessoas raras vezes vêm. Houve uma rajada de vento que lhe abriu uma folha do Atlas na Conchichina. E ele resolveu por isso vir para o Oriente, para a Conchichina, na altura. Depois não tendo conseguido ficar na Conchichina, com a intenção de ir para Pequim, veio para a China e acabou por ficar em Macau”, recorda o filho.

Algures no meio

Nos livros lançados por ocasião do Encontro, estão ainda dois tomos de crónicas do presidente do IIM, Jorge Rangel, publicadas na imprensa local (“Falar de Nós”), um novo volume sobre a história dos macaenses de Hong Kong, da autoria do arquitecto António Pacheco da Silva, ou ainda duas reedições de obras de Luíz Gonzaga Gomes (“Páginas da História de Macau” e “A Derrota dos Holandeses”).

Outro dos autores reeditado pelo IIM é Frederic (Jim) Silva, macaense radicado nos Estados Unidos, que fala também das memórias dos filhos da terra que rumaram à região vizinha em “Things I Remember”.

“Sou um sacana insaciável. Aquilo de que me lembro melhor é da comida”, avança numa breve introdução que carrega o humor que Silva considera traço comum à comunidade. Há no livro, diz, “algo da nossa língua e da nossa comida. Falo sobre o que sucedeu em Macau durante a guerra”.

Hong Kong, descreve, “era sociedade muitos estratificada, do ponto de vista social e económico”. “Os ingleses lá em cima, os chineses lá em baixo, e nós algures no meio. Mas os nossos avós tinham de procurar trabalho. Em  Macau só podiam ser funcionários do Governo. Não havia negociantes”, relata, ditando que “os ingleses sabiam fazer negócio. Os portugueses sabiam fazer amor”.

Chui Sai On elogia contribuição macaense

O Chefe do Executivo, Chui Sai On, destacou ontem o papel dos macaenses na diáspora e no território pelo contributo destes para o progresso da região e como “ponte de intercâmbio entre Macau e o exterior”.

No discurso proferido por ocasião da abertura oficial do Encontro das Comunidades Macaenses, que decorre ao longo da semana, o líder do Governo deu as boas-vindas aos participantes. “Aproveitando esta ocasião em que estamos aqui todos reunidos, é do fundo do coração que vos digo que Macau será sempre o nosso lar”, declarou, dando conta do lugar que o território ocupa no quadro da ligação entre a China e os países de língua portuguesa, bem como enquanto centro mundial de turismo e lazer, “caracterizado pela diversidade e coexistência de culturas”.

Neste sentido, Chui Sai On afirmou que “tanto a comunidade macaense como a comunidade portuguesa aqui residentes têm participado activamente nos diferentes domínios, ao serviço da sociedade, cada qual trabalhando e assumindo o seu papel específico”.

Identidade premiada

O Instituto Internacional de Macau (IIM) atribuiu ontem à União Macaense Americana (UMA), a Casa de Macau mais antiga do mundo, o prémio “Identidade 2010” pelo seu contributo “continuado e eficaz” para a consolidação da identidade macaense. O IIM aproveitou o Encontro das Comunidades Macaenses para oficializar ainda a atribuição do prémio “Identidade 2009” à Santa Casa da Misericórdia de Macau.

“A União Macaense Americana (UMA) é a Casa de Macau mais antiga e antes de haver apoios do Governo de Macau às Casas, a UMA já existia”, salientou o presidente do IIM, Jorge Rangel, durante a entrega dos prémios no Teatro D. Pedro V.

“A Santa Casa da Misericórdia é uma das mais antigas instituições de Macau, que se confunde com a própria história do território”, acrescentou.

Os prémios “Identidade” surgiram há sete anos num “esforço de consolidar a presença da comunidade portuguesa após a transição, estimulando o trabalho daqueles que, ao longo da vida, de forma continuada e eficaz, ajudaram a consolidar a identidade de Macau”, explicou Jorge Rangel.

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