Vírgula

OS CIGANOS

Na memória, tenho imagens paradas de um casamento de três dias. Lembro-me das roupas garridas das mulheres, cheias de folhos, fazenda brilhante, cetim quase de certeza, sem vergonha do vermelho, do amarelo, do verde vivo. Lembro-me dos homens já de camisa aberta, a festejarem em voz alta, a conviverem de uma maneira que eu não conhecia com aquela cumplicidade de família imensa, como se todos fossem irmãos uns dos outros. Três dias durou esse casamento. As celebrações esmoreciam um pouco de manhã. Eu passava acompanhado por outros rapazes, abrandávamos o passo para olharmos ao longe, para tentarmos perceber o que estava a acontecer. Mas, logo a partir de almoço, com as mulheres de um lado e os homens do outro, a festa começava a animar. Ao fim da tarde, princípio da noite, atíngia o auge. Lembro-me das danças que levantavam pó na terra, as mulheres muito maquilhadas a baterem com sapatos finos na terra seca, os homens na fronteira de perderem a compostura, com a ponta do cinto solta das presilhas, como a cabeça de uma serpente, também a dançarem, também a baterem com sapatos novos na terra. E os rapazes da nossa idade, claro. É deles que me lembro melhor. Foram eles que nos chamaram para entrar, foram eles que nos puxaram pelo braço quando fizemos tenção de recusar, foram eles que insistiram, que nos foram buscar comida, que nos deixaram à vontade. 

Conhecíamos esses rapazes das temporadas que passavam na escola. Não tinham livros, a professora emprestava-lhes um caderno e sentava-os ao lado de alguém. Sabiam pouco de letras e da maneira como a professora dizia as coisas, o que sabiam de números não se escrevia no quadro com giz, mas eram os reis do recreio. Passávamos esse tempo a rodeá-los e ora fazíamos perguntas, ora ouvíamos as notícias mais incríveis. Eles conheciam o mundo, estavam ali apenas de passagem. Aproveitávamos ao máximo o tamanho da sua novidade.

Esse casamento de três dias juntou muitas famílias ciganas, vieram de todo o Alentejo, das Beiras, da Extremadura e da Andaluzia. Teve lugar no terreno em frente ao correio que, nessa época, tinha muito poucas construções em volta. Era um dos dois ou três lugares onde os ciganos costumavam montar acampamento. Os burros e as mulas ficavam presos aos troncos das oliveiras, aproveitavam esse descanso resignado, até ao momento em que fossem chamados a levar a carroça. E tanto podiam seguir pelas ruas da vila, o velho Durico rodeado por montes de camisas, a fumar a ponta de um cigarro que quase lhe queimava os lábios, a pele do rosto encarquilhada, os olhos quase fechados, o velho Durico a descer as ruas muito devagar e, às vezes, a ser rodeado por mulheres que tratava por freguesas. Ou esses burros e essas mulas podiam avançar por estradas nacionais, a puxar a carroça carregada, objetos empilhados, panelas, baldes, sacos cheios, e os homens, as mulheres e as crianças sobre esse monte, e os cães a ladrarem aos carros que se demoravam por um instante atrás deles antes de os ultrapassarem. 

Quando saí da minha vila, deixei de conhecer ciganos. Da mesma maneira, deixei de conhecer os meus vizinhos. Este é um lugar onde as pessoas não dizem bom dia quando se cruzam na rua. Para quem não conheça outra realidade, parece que o mundo é todo assim, habitado por desconhecidos. Há poucas semanas, perto de Estremoz, passei por uma carroça exatamente igual às da minha infância. 

Nunca tive medo de ciganos. Apesar da maneira como, muitas vezes, via essa palavra ser utilizada: como uma ameaça. Quando éramos crianças, os meus amigos e eu sabíamos que os ciganos não eram iguais a nós, bastava-nos reparar em certos detalhes para sabermos isso. Mas essa diferenças não nos incomodavam. Sabíamos que se encontra sempre diferenças nas pessoas que apenas se vêem à distância e, ao mesmo tempo, porque sabíamos que os ciganos eram iguais a nós, bastava-nos conversar com eles para ter essa certeza absoluta. 

José Luís Peixoto

Escritor

 

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Com amigos destes

É uma marca deste tempo: chamamos amigos a demasiadas pessoas. A facilidade de comunicação abriu as comportas de uma grande quantidade de novas relações que não soubemos qualificar. Ou porque foi demasiado rápido, e não tivemos a mesma velocidade no poder de análise, ou porque os rótulos elementares que possuíamos ­— desconhecido, inimigo, conhecido, amigo, amante, familiar — deixaram de ser suficientes para classificar formas de relação com muito mais complexidade e subtileza. Chamar amigo a alguém é uma forma de generosidade e de simpatia ­­— como numa cena entre taxista e cliente: onde é que o meu amigo deseja ir? ­—, mas podemos pagar caro por essa imprecisão.

Apesar de todas estas formas contemporâneas de contacto, que nos permitem saber onde uns e outros passam férias ou, em certos casos, o que jantaram ontem, continua a haver aqueles amigos de quem se vai deixando de ter notícias. Fomos amigos, não havia nenhuma dúvida acerca disso, mas hoje, se nos encontramos mais ou menos por acaso, vemo-nos na obrigação de explicar essa amizade aos nossos filhos adolescentes. Entre o desinteresse e a desconfiança, os nossos filhos estranham essa familiariedade com pessoas que nunca viram ao longo da sua vida.

Nesse aspeto, os amigos são como barcos: se deixados à deriva, podem afastar-se ou aproximar-se, tudo depende das correntes e dos algoritmos. Há uma certa melancolia nesse afastamento, lembra-me o verso de um poema de Philip Larkin, mas a aproximação sem piloto nem sempre é desejável: há possibilidade de choque entre as embarcações. Um fenómeno semelhante a esse tem lugar quando encontro um certo amigo ­— talvez devesse usar aspas. Em cada um dos nossos dois ou três encontros anuais ­— ou talvez seja mais correto dizer: em cada uma das duas ou três ocasiões anuais em que, por acaso, nos cruzamos ­—, o tema que mais gosta de debater são “as pessoas que não gostam de mim”. Uso aqui as aspas porque o estou a citar palavra por palavra e porque é exatamente com essa formulação que introduz o assunto.

Sou sempre apanhado desprevenido e caio sempre nessa armadilha. Aflito, enquanto tento encontrar motivos para “essas pessoas” não gostarem de mim, esse meu amigo ­— aspas? ­— fica calmamente a assistir ao espetáculo. Só muito mais tarde, ao longo dos dias seguintes, enquanto rumino detalhes da conversa, começo a encontrar as respostas que devia ter dado e começo a questionar as suas intenções.

Uma vez que foi ele que levantou o tema, devia ter-lhe perguntado: mas quem são essas pessoas? O engodo principal é o carácter vago da consideração lançada para o ar. Saber que há pessoas que não gostam de nós, confronta-nos com os nossos próprios fantasmas. Se não questionarmos essa entidade informe, iremos necessariamente encontrar as suas razões nas nossas inseguranças. Antes disso, talvez seja pertinente perceber se “essas pessoas” nos conhecem o suficiente para terem uma opinião válida sobre nós. Ao mesmo tempo, talvez interesse saber também se os critérios segundo os quais “essas pessoas” nos avaliam coincidem com os nossos.

Em qualquer dos casos, é um terrível equívoco convencermo-nos de que precisamos de agradar a toda a gente. Se existimos, não agradamos a toda a gente. A pessoa que está atrás de nós na fila da caixa do supermercado está desagradada com a quantidade de compras que fizemos, está a insultar-nos mentalmente. Vale a pena deixarmos de comprar o que precisamos por isso?

Com muita probabilidade, quando nos reencontrarmos, já terei esquecido tudo isto e voltarei a ser apanhado de surpresa com a tal conversa sobre “as pessoas que não gostam de mim”. Não me preocupa, hei de chegar às mesmas conclusões. No entanto, talvez seja tempo de pôr entre aspas esse tal “amigo”.

 

 

José Luís Peixoto

Escritor

 

 

portoPortugal 1 e 2

“Portugal” e “Portugal” são dois substantivos homógrafos e homófonos. Um deles, “Portugal”, refere-se à grande Lisboa, ao grande Porto e às cidades do litoral. O outro, também “Portugal”, refere-se ao resto do país. São palavras idênticas, chegam a parecer a mesma palavra, mas têm diferenças muito significativas. Nos últimos meses, a propósito das fronteiras fechadas e da dificuldade de viajar para outros países, tem-se falado mais do que habitual neste segundo Portugal. Fala-se de descobrir Portugal.

Este capricho linguístico de utilizar dois termos tão semelhantes para nomear realidades tão díspares dá azo a todo o tipo de mal-entendidos. É muito comum que alguém fale de Portugal e se fique a pensar que está a falar de Portugal, o contrário também acontece com frequência. Para evitar esses equívocos, vou aqui usar as denominações Portugal 1 e Portugal 2. Não é particularmente elegante, mas é bastante prático. 

Assim, começo por dizer que é muito positivo que Portugal 1 demonstre esta intenção de descobrir Portugal 2. Estou convencido de que ficarão bastante surpreendidos com o que vão encontrar por lá. Como é sabido, a habitual presença de Portugal 2 no espaço mediático acontece uma vez por ano: durante os incêndios. Mas essa cobertura é bastante errática, depende literalmente dos ventos, e acaba sempre a mostrar paisagens negras e destruídas. Ao mesmo tempo, acredito também que vão ser muito bem recebidos. Ao contrário do que acontece em Portugal 1, as queixas acerca do excesso de turismo em Portugal 2 são residuais ou inexistentes. 

Não sei se é apenas a minha esperança a falar, mas parece-me mesmo que esta inesperada aproximação entre Portugal 1 e 2 poderá até contribuir para transformações ainda mais ambiciosas. Talvez Portugal 1 se aperceba de que os problemas de Portugal 2 também são os seus. Talvez chegue mesmo a entender que se houver oportunidades de vida em Portugal 2, as populações não serão forçadas a migrar em massa para Portugal 1, com todas as dificuldades que essa situação acaba por causar para todos: a sobrepopulação, as especulação imobiliária, a insatisfação suburbana de Portugal 1; e o envelhecimento, a desertificação, o desespero de Portugal 2. 

Durante as semanas que passámos fechados em casa, a sair apenas para ir ao supermercado, todos descobrimos espaços na nossa casa: sentámo-nos pela primeira vez a apanhar sol na varanda, percebemos que o chão do quarto é um excelente lugar para fazer ginástica, por exemplo. Aquilo que está a acontecer no país pode ser comparado com essa situação. Não faz sentido que, entre todas as divisões da casa, apenas limpemos e arrumemos a sala porque é lá que passamos a maioria do tempo. Até aqui, Portugal 1 tem sido a sala, Portugal 2 é aquele sótão atafulhado de objetos cobertos de pó, que não sabemos exatamente quando vamos utilizar, mas que temos pena de deitar fora. 

O sentido desta comparação assenta na constatação de que o nosso país é a nossa casa. Ou, pelo menos, é uma das nossas múltiplas casas. Talvez “casa” e “casa” também sejam dois substantivos homógrafos e homófonos. Em qualquer dos casos, parece-me aconselhável que não me estenda nessa análise. Alguém com mais conhecimentos do que eu poderá argumentar que não se tratam de dois substantivos, mas sim de um único substrantivo com duplo sentido. E talvez seja. Prefiro não entrar nesse tipo de conflito. As polémicas gramaticais são das mais violentas. 

Pessoalmente, apenas queria dizer que gostava de ver este assunto resolvido durante o tempo da minha vida.  Sonho com um país em que se diga “Portugal” e toda a gente, sem mal-entendidos, entenda “Portugal”. 

José Luís Peixoto

Escritor

 

 

Contemporâneos

Ao tentar descrever o século XIX na literatura francesa, sinto a cabeça invadida por adjetivos mas, quando os analiso um a um, parece-me que todos ficam aquém, falta-lhes justiça para descrever uma riqueza de tal tamanho. A Revolução Francesa teve o seu início no século XVIII, mas as suas consequências foram bem mais duradouras. Em França, o século XIX nasceu dessa explosão, dessa sequência extraordinária de acontecimentos. A natureza profunda do tempo é a continuidade. Nem mesmo as revoluções conseguem interromper a história. Nesse aspecto, a história da literatura não diverge da restante cronologia. O século XIX francês, para lá do romantismo, realismo e outras fronteiras artificiais, resulta daquilo que já se sonhava no século XVIII.
1860. De modo relativamente aleatório, escolho esta data. O que tento dizer é: em 1860, em França, estavam vivos os seguintes autores: Victor Hugo, Flaubert, Alexandre Dumas pai e filho, Zola, Jules Verne, Maupassant, Baudelaire, Verlaine e Rimbaud. É certo que atravessavam fases muito distintas das suas vidas: Maupassant e Rimbaud eram crianças, Verlaine era um adolescente, Victor Hugo e Alexandre Dumas Pai tinham 58 anos, os restantes andavam pelos trintas. Ainda assim, impressiona-me pensar que num determinado momento, em 1860, estes indivíduos estavam vivos ao mesmo tempo, todos eles circulavam por este planeta, tinham consciência de si próprios, havia alguma coisa a que cada um deles chamava “eu”.
Um modo prático de tentarmos conceber o que terá sido outro tempo é olharmos para o tempo que conhecemos, nomeadamente este em que estamos. Refiro-me sobretudo às pequenas marcas da existência, às características que, independentes de tudo o que localiza historicamente este momento, conferem realidade a estarmos aqui: a temperatura, a luz, a ansiedade, as imperfeições, a experiência dos sentidos. Admitir realmente a existência de Flaubert, por exemplo, implica imaginá-lo sob uma temperatura como esta, uma luz como esta, ansioso, imperfeito, com sentidos em funcionamento. Nesse caso, não se trata sequer de uma tarefa que exija um especial esforço inventivo, uma vez que Flaubert deixou muitíssimas impressões pessoais descritas na sua vasta correspondência.
Ainda assim, é mais fácil mitificar o passado, não resistir à inclinação natural que a passagem do tempo nos propõe. O passado é uma projeção intelectual, distorcida pela perspectiva de cada um. Essa margem permite polir-lhe as arestas, aperfeiçoá-lo de acordo com os nossos interesses ou com a nossa preguiça. Somos benevolentes com o passado, como somos benevolentes com os mortos. É muito mais fácil perdoar-lhes, os mortos já não ameaçam ninguém. Enquanto isso, o presente é muito mais cru. Abrimos os olhos e vemo-lo à nossa frente, repleto de imperfeições. O presente é sempre imperfeito, como nós.
No que toca ao enganador respeito produzido pela mitificação, os escritores vivos não têm outro remédio que não seja conformarem-se com o facto de que perderão sempre com os escritores mortos. A obra dos mortos está acabada, não pode ser corrigida. A obra dos vivos é volúvel, tem de defender-se em relação a todas as escolhas feitas. Os mortos são definitivos. Os vivos têm de responder perante todas as alternativas possíveis. Os mortos fazem a sua melhor pose em fotografias, gravuras e estátuas. Os vivos são quotidianos, estão mesmo aqui, com todas as suas misérias, tão perto. Os vivos são como eu e, por isso, falíveis, cheios de defeitos. Os mortos não são como eu.
Voltando ao século XIX da literatura francesa e à correspondência de Flaubert, é especialmente interessante a passagem de uma carta que dirigiu à sua irmã Caroline, em 1843, na qual descreveu o seu primeiro encontro com Victor Hugo: “É um homem como qualquer outro, com um rosto bastante feio e um exterior bastante comum. Tem dentes magníficos, tem ar de se cuidar e de não deixar nada ao acaso. É muito educado e um pouco rígido. Gosto do som da sua voz. Tive o prazer de contemplá-lo de perto (…), os olhos fixos nos dele, na mão direita que escreveu tantas coisas belas. Lá estava, portanto, o homem que mais fez bater o meu coração desde que nasci e, talvez, aquele de que mais gostei entre todos os que não conheço.” A admiração é clara, existe um deslumbramento pelo dono daquela “mão direita” e, no entanto, é curioso notar a forma como, ao vivo, em presença, não é indiferente à falta de beleza e à dentição. O sublime intelectual não fecha os olhos ao prosaico físico.
Com 28 anos, em 1961, Ruy Belo publicou no seu primeiro livro o breve e eloquente poema Epígrafe para a nossa solidão: “Cruzámos nossos olhos em alguma esquina/ demos civicamente os bons dias:/ chamar-nos-ão vais ver contemporâneos”. Não há dúvida de que a quantidade de desconhecidos com quem nos cruzamos constantemente é sinal de uma certa solidão, uma certa incomunicabilidade. Ainda assim, nestes três versos de Ruy Belo impressiona-me ainda mais a chamada de atenção para a incrível circunstância de partilharmos tempo, de estarmos todos aqui, neste preciso momento.

José Luís Peixoto

Escritor

 

 

 

Curso rápido para diretor de campanha

O primeiro passo é polarizar o universo eleitoral em questão. Se reduzirmos as opções de escolha entre “nós” e “eles”, aumentamos enormemente o nosso espaço potencial. Mesmo que o ponto de partida seja ínfimo pouco mais de um 1%, por exemplo —, ao conseguirmos generalizar o uso da dicotomia nós/eles, alcançaremos imediatamente os 50% ao nível formal. 

Se o eleitorado estiver previamente polarizado, apenas precisaremos de alimentar esse maniqueísmo, geri-lo com as estratégias simples que apresentarei em seguida e, sem dúvida, os resultados são garantidos. Se for necessário desenvolver esse trabalho desde o início, precisaremos de mais algum tempo, mais algum esforço, mas a concretização dos objetivos continua garantida. Nesse caso, será útil cumprir algumas diligências experimentais de modo a definir um “eles”. 

Como é evidente, o “nós” somos nós e, como também é evidente, o “eles” opõe-se a nós, ao “nós”. No entanto, nós podemos ser muitas coisas, essa elasticidade trará bastante proveito. Ainda assim, a primeira medida organizativa deverá ser a escolha das nossas características-base. A opção mais eficaz será definirmo-nos em função do “eles”. O “eles” que melhor se adequará aos nossos propósitos será aquele que conseguirmos culpar de tudo, absolutamente tudo. Esta premissa é fundamental, irá permitir-nos o argumento nuclear de todos os pontos do nosso programa: nós estamos certos porque eles estão errados. 

Todas as oportunidades de comunicação devem seguir apenas duas normas: simplicidade e provocação. 

  1. a) A simplicidade favorece um fácil entendimento e, como tal, a cobertura de um público mais amplo, nomeadamente aqueles que possuem dificuldades ao nível da literacia, que são uma enorme franja de eleitorado, tantas vezes perdida para a abstenção. De uma só vez, esse discurso simplificado transmite uma certa humildade e a ideia de se estar a dizer “as coisas como elas são”. Além disso, não são necessários termos muito elaborados para afirmar o que importa: nós somos bons, eles são maus. 
  2. b) A provocação é o método mais competente de alimentar a dicotomia nós/eles. Entre as várias formas possíveis de provocação, o insulto é muito aconselhável. Em qualquer momento, pode recorrer-se ao insulto com facilidade, garante uma boa cobertura mediática e deixa-os — “eles” — numa posição sem fuga: se não nos respondem, dão-nos implicitamente razão, o nosso argumento é único e último; se respondem, valorizam, também implicitamente, a nossa posição, trazem os nossos temas para a agenda do debate público e ainda podemos acusá-los de estarem a insultar-nos. 

Vivemos num tempo de internet e de redes sociais. Quem disser o contrário, está em negação ou adormeceu em 1997. Essa evidência leva-nos a escolher a internet como o nosso meio preferencial de ação. As vantagens são múltiplas, dois exemplos entre inúmeros possíveis: por um lado, a intensidade da nossa presença poderá dar a entender que somos muitos mais do que realmente somos; por outro lado, permite-nos produzir um número infinito de notícias que favoreçam as nossas posições. Esta utilidade é particularmente proveitosa, uma vez que, para além de contarmos com os benefícios de rumores que terão muita dificuldade em desmentir — se é que alguma vez conseguirão fazê-lo —, poderemos invocar mais tarde que a informação está viciada. Ou seja, viciamos a informação e, depois, quando mostrarem algum dado que não nos convenha, por mais inequívoco que seja, bastar-nos-á evocar que a informação está viciada. Tiramos o crédito à informação e, depois, dizemos que a informação não tem crédito. Repito esta ideia para que seja bem apreendida. 

Bem sei que dá trabalho passar horas na internet a comentar todo o tipo de publicações, dá trabalho inventar notícias, inventar estudos, inventar sondagens, trabalhar imagem e vídeo, etc. De onde virá dinheiro para montar toda essa operação? Não se preocupe com isso. O dinheiro aparecerá, e será suficiente, será de sobra.  

José Luís Peixoto 

Escritor

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Notícias do presente sem futuro

 

Estou cansado que me perguntem como é que estou a passar este tempo.

De repente, o tempo transformou-se neste tempo: um presente absoluto. O passado ficou incrivelmente distante, recordamo-lo como se tivesse acontecido a outras pessoas, como se o tivéssemos visto num documentário. Pior ainda, o futuro deixou de existir. Antes, naquele tal tempo que antecedeu este, dávamos o futuro por adquirido, chegaria na semana que vem, no mês que vem, haveria futuro em 2033, por exemplo. Agora, já não temos a certeza. Agora, o futuro é uma utopia ou uma distopia, dependendo do otimismo/pessimismo de cada um. 

Alguns, discípulos de Heráclito com 2500 anos de atraso, asseguram-nos que nada será como costumava ser. Estou cansado dos clichés deste tempo. Estou cansado de ouvir que a adversidade é uma oportunidade, é um desafio. Dispenso esse tipo de desafios. 

Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga. No entanto, repare-se no meu esforço por não utilizar certas palavras. Há certos verbos e substantivos que já não consigo ouvir, menos ainda pronunciá-los, menos ainda escrevê-los, vê-los impressos. 

Estou cansado dos especialistas. Cansa-me os que são realmente especialistas, os que se empenharam a fazer licenciaturas e pós-gaduações quando estas disciplinas não estavam na ordem do dia, quando não havia nenhum indício de que fossem chamados ao telejornal para dar o seu parecer. Mas cansa-me sobretudo os especialistas de ocasião, especialistas entre aspas de chumbo, leitores de internet, gente que não gagueja ao falar e que quer sempre falar.

Prefiro as minorias silenciosas, como é o caso de quem está em prisão domiciliária ou de quem sofre de agorafobia. Esses beneficiaram de uma trégua. As crianças deixaram de perguntar porque é que o tio tem uma pulseira na perna e nunca sai de casa. De certa forma, estes meses foram uma redução na pena. Ao mesmo tempo, quem sofre de agorafobia pôde sentir-se normal, não teve de escutar insistências para sair. Algo semelhante aconteceu com as aldeias do interior. Durante este período, foi normal que as ruas estivessem desertas. 

Estou cansado da condenação feita pelos puristas do isolamento social, sempre a medirem distâncias com os olhos. Passam dias inteiros à janela só para poderem chamar irresponsáveis aos outros e dizer: já viram isto? Eles nunca são irresponsáveis, eles estão sempre a ver tudo, com a exceção daquilo que preferem não ver, é claro. 

Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga”

Estou cansado da escola em casa, muito cansado. Estou cansado da ginástica em casa, toda a gente do prédio em frente a fazer agachamentos. Mas, mais do que qualquer outra coisa, estou cansado desta agressão aos velhos. Já tinham problemas suficientes: a palavra velho usada como um insulto, por exemplo. Já tinham sido obrigados a aceitar suficientes injustiças. Agora, por cima de todas essas, também esta injustiça.

Estou cansado. Com essa falta de ânimo, assisto ao início da crise económica que já chegou para alguns e, diz-se, tocará a todos, ou quase. Este quase tem enorme importância, mas não o estranhamos, há muito que nos habituámos à desigualdade, aprendemos a justificá-la. Vista daqui, também a desigualdade se apresenta como um eterno presente, uma inevitabilidade do ser humano, não mudou e ninguém prevê que esteja para mudar. 

 

José Luís Peixoto

Escritor (Portugal)