Vírgula

Horrível rato, maravilhoso boi

O fim de um ano e o início de outro é uma oportunidade de renovação. Tudo o que é mau fica no ano velho, tudo o que é bom chega com o ano novo. Embora essa possibilidade seja portadora de um conforto muito sedutor, nunca me convenceu. 

São muitos os calendários no mundo. Aquele instante em que colocamos tanta esperança, que é como um aleph de Jorge Luís Borges, ponto em que se cruza o passado e o futuro, não tem muitas diferenças de qualquer outro instante, afinal. Ironicamente, é curioso que, segundo o calendário gregoriano, haja milhares de pessoas a fazerem aquela contagem decrescente até à meia-noite e, o clímax, o segundo da explosão, varie de acordo com o fuso horário. Ou seja, não é realmente síncrono. 

Recordo que há alguns anos, não me lembro exatamente em que ano, morreram muitos famosos norte-americanos, atores e cantores. Então, toda a gente dizia que era um ano amaldiçoado, encheram as redes sociais de memes a desejar o ano seguinte, como se essa mudança resolvesse o problema. Assim que chegou janeiro, passados alguns dias, morreu outro famoso qualquer.

Criámos divisões no tempo, anos meses, semanas, dias, horas, para nos organizarmos. A natureza é muito mais volúvel do que esse sistema. No calendário muçulmano estamos em 1442, no calendário hindu estamos em 2076, no calendário tailandês estamos em 2563.

A forma como o fim de ano marca as estações é, também, bastante duvidosa. Há, por exemplo, a contradição entre hemisférios. Ou seja, embora a norte e a sul as estações sejam opostas, o fim de ano é o mesmo. A opção por uma leitura do mundo baseada na astrologia parece ter essa incongruência de base. Enquanto que uns saúdam o novo ano, o novo ciclo, com a proteção de gorros e cachecóis, a tremer na Times Square, os outros estão em bikini nas praias de Copacabana. Isto, claro, em tempos sem pandemia.

Comparo estas convenções com o que o monge beneditino Guido d’Arezzo fez no século X. Foi ele o responsável por definir as notas musicais, o dó-ré-mi que, desde então, em diversas escalas, se ensina às crianças como sendo todas as notações musicais possíveis. Em absoluto, não é de facto assim: entre o dó natural e o ré natural existem infinitas gradações. Definiu-se o dó e o ré, por exemplo, para se partilhar pontos concretos que permitam a comunicação e o pensamento coletivo.

Nas redes sociais, que é o lugar onde atualmente “ouvimos” mais conversas, havia muita gente zangada com o ano 2020 e desejosa que chegasse 2021. Chegou há algumas semanas, por fim. Ainda faltam bastantes meses para terminar, no entanto, tem sido o que se vê. 2020 foi o ano da ansiedade. 2021 está a ser o ano da depressão. Na minha subjetividade pessoal, parece-me que o sentimento predominante em 2020 foi o medo. Neste ano de 2021, tem prevalecido a resignação. Como se costuma dizer: venha o diabo e escolha.

Annus horribilis é a expressão em latim que, em mais uma ironia histórica, foi usada pela primeira vez no século XIX pela igreja anglicana quando os católicos definiram o dogma da infalibilidade papal. Ou seja, uma igreja inglesa, falante de um idioma originalmente germânico, cunhou uma expressão em latim para referir-se de modo depreciativo a uma igreja romana. De qualquer modo, sob o ponto de vista da lógica, o conceito de annus horribilis tem tanta validade como o conceito de annus mirabilis. Muito pouca, a meu ver.

Aquilo que parece custar-nos aceitar é que cada segundo é tão determinante como aquele último/primeiro segundo que determina a passagem de ano. Cada segundo encerra em si a completa possibilidade de mudança. E é isso que assusta. Em cada instante, temos o avassalador poder de mudar radicalmente a nossa vida e o nosso mundo. 

Disto isto, feliz ano do Boi!

José Luís Peixoto

Escritor

Teatro

Como se o lugar mais solitário fosse também o mais povoado. Como se aqueles que existiram tivessem deixado os seus gestos a pairar e, hoje, ao atravessar espaço vazio, pudéssemos ainda sentir esse toque na pele. Como se o significado das palavras que foram ditas continuasse a vivo no sítio onde as palavras existiram, e desapareceram. Quase o silêncio. Como se o passado fosse tão infinito como o futuro. Convenço-me aos poucos que compreendo a distância, a separação entre aqui e ali, entre mim e os outros. Convenço-me aos poucos que compreendo o mistério, mesmo que o centro da matéria que o compõe seja a impossibilidade de compreendê-lo, de fechá-lo na compreensão, mesmo que a sua razão mais real e profunda seja a sua liberdade.

Eu sabia que hoje não há ensaio. Por isso, procurei uma mochila, enchi-a de livros que não iria necessitar, conduzi o carro por avenidas da cidade, e estacionei-o a pouca distância do teatro. Senti o coração a bater-me no peito quando empurrei a porta de vidro e, com um tom de voz que escolhi para não se ouvir, disse: boa tarde. E passei pelo homem que está sentado atrás de uma mesa. Como ontem, segurava os óculos no mesmo ponto do nariz, folheava um jornal com o mesmo vagar e, sem olhar para mim, ondulou o bigode ao responder-me. Desapareci nos corredores. Senti cada passo. Senti o frio das paredes mal iluminadas. Senti a solidão das portas abertas e fechadas ao longo do caminho. E entrei na sala de teatro.

Estou agora sozinho, sentado na plateia deserta, diante do palco vazio. 

O palco abandonado e antigo. As tábuas gastas que o compõem, que recordam presenças e que esperam presenças. Sentei-me na cadeira onde ainda estou. Às vezes, tenho a certeza de que há olhares a verem-me a partir dos pontos que não consigo ver. Olho de repente para essa direção, confirmo que estão vazios e cresce em mim a certeza de que há olhares a verem-me a partir de outro lugar. Olho de repente e sei que estarão sempre apenas onde não os consiga ver. No palco, cruzam-se vultos translúcidos, o que restou de homens e mulheres. No palco vazio, os seus rostos são como vento, como segredos invisíveis. Neste silêncio, há cadeiras em vários pontos da sala, pontuam as horas com estalidos que existiriam mesmo que não houvesse ninguém para ouvi-los. Por vezes, é da inocência desses sons que nasce a maré de vozes sem corpo que inunda esta sala. Por vezes, parece que o pequeno silêncio de uma cadeira a estalar na distância da sala pode evoluir para a explosões, chamas a levantarem-se, o vasto incêndio dos aplausos, pessoas que estiveram sentadas nestas cadeiras, que acreditaram neste palco abandonado e antigo, acreditaram em vultos translúcidos, vento, segredos invisíveis. 

Como se o lugar mais solitário fosse também o mais povoado. Como se aqueles que existiram tivessem deixado os seus gestos a pairar e, hoje, ao atravessar espaço vazio, pudéssemos ainda sentir esse toque na pele. Olhares, rostos, corpos que se ofereceram para ser esquecidos. Como se o significado das palavras que foram ditas continuasse a vivo no sítio onde as palavras existiram, e desapareceram. Quase o silêncio. Tudo o que toca um momento, toca a eternidade. Como se o passado fosse tão infinito como o futuro. Lembras-te de quando acreditávamos em todos os sonhos? Como se o passado pudesse ser imaginado com a possibilidade viva com que imaginamos o futuro. Neste teatro vazio, fixo túneis que atravessam o tempo ou qualquer coisa profunda e acredito muito devagar que percebo a distância. 

José Luís Peixoto

Escritor

Viver, sobreviver

E agora, aqui, enquanto escrevo, lembro-me daquele homem que encontrámos debaixo de uma arcada da avenida Almirante Reis, a escrever. Debaixo de pouca luz, tinha um molho de folhas no colo e uma esferográfica que deslizava pelo papel com toda a velocidade. Eu escrevo bastante devagar, sempre foi assim, e impressionam-me as pessoas que escrevem depressa. Era um homem de sessenta e tal anos, sentado numa pilha de malas velhas onde, presumo, estava tudo o que possuía. Já lhe tínhamos entregue o saco de papel com duas sandes, duas maçãs. Eu tinha um pacote de leite na mão, que recusou. Enquanto a voluntária conversava com ele, eu espreitava ao longe para o manuscrito que o homem tinha esquecido no colo e, indiscreto, tentava decifrar algumas palavras, frases. Não vou contar o que li. O homem tinha o olhar parado e os carros desciam a avenida como se apenas existissem noutro lugar.

Antes, às oito e meia da noite, à hora combinada, era eu que procurava a sede da associação. Tive mais de cinquenta aulas de condução naquela zona de Alvalade (chumbei duas vezes no exame) e, mesmo assim, nunca consegui aprender os caminhos daquelas ruas de vivendas. Parecem paralelas, perpendiculares, mas desenham figuras que não consigo perceber. Tinha um mapa desenhado num papel, uma morada e um número para telefonar se fosse necessário. Telefonei e, com todas as indicações, foi só depois de muitas voltas, passagens repetidas pelas mesmas ruas, que, finalmente, cheguei. Os voluntários ainda estavam a chegar. As conversas de ocasião eram sobre a chuva, fina ou grossa, gelada, ou sobre o vento que a empurrava em todas as direções.

Éramos seis na carrinha, três homens e três mulheres. Levávamos um carregamento de sacos individuais com sandes, fruta, levávamos leite e algumas roupas, alguns cobertores. Saímos na direção do Casal Ventoso e, pelo caminho, parámos debaixo de viadutos: homens surpreendidos atrás de paredes de cartão, tábuas, latas. Foi aí que senti pela primeira vez o cheiro. Cresci no campo, em cima de árvores, com arranhões de ramos. Sei que aquele é o cheiro dos ninhos. É o cheiro do calor e da vida, da transpiração, da comida pronta, quente, ou fria, decomposta. 

Chegámos à rua Maria Pia, à Meia Laranja. Tinha estado ali há cerca de vinte anos, voltei pela primeira vez. Felizmente, está bastante diferente. Antes, na ribanceira, havia filas à porta das casas onde se vendia heroína, havia gente a apregoar “bombas” (seringas), havia gente a vender limões e pratas. Hoje, nesse mesmo lugar, há um espaço ajardinado. Começámos a distribuir os sacos de comida e percebi que, afinal, as mudanças não eram tão profundas como parecia. Uma rapariga guardar o saco da comida numa mochila com um grande rolo de prata. Vários rapazes pediram se podiam levar comida para dois companheiros que estava no cubículo. A rapariga tinha os cabelos compridos, encharcados, e não sentia a chuva. Os rapazes tinham a barba comprida, os cabelos compridos, encharcados, e não sentiam a chuva. 

Na Almirante Reis, ao aproximarmo-nos, o homem escrevia depressa. Não parou assim que chegámos. Estava absorto numa ligação direta entre o que pensava e o que escrevia. Eu, que não estou na rua, sem vento, sem chuva fria, custa-me encontrar cada palavra. Às vezes, fico parado durante minutos entre uma frase e outra, sem posição. Outras vezes, duvido se devo continuar um parágrafo ou interrompê-lo. Sob aquela arcada da Almirante Reis, o texto do homem parecia não ter parágrafos ou pontuação. Não era constituído. Era uma linha que parecia existir desde sempre e para sempre. Viver, sobreviver. Era uma forma contínua de respiração.

José Luís Peixoto

Escritor

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Resoluções de posteridade

Paradoxalmente, já se escreveu muitíssimo sobre aquilo a que decidiu chamar-se “bloqueio do escritor”. Com frequência, em múltiplos palcos e através de múltiplos meios, perguntam-me se não me faltam palavras, se não fico bloqueado perante a folha em branco. Compreendo a pergunta. 

A escrita, antes de ser palavras gravadas no papel, é um processo mental. Assim sendo, depende de estados mentais, emoções e capacidade de raciocínio. É mais difícil escrever na ansiedade do que no metro em hora de ponta, é mais difícil escrever na depressão do que às escuras. Idealmente, quem escreve deve ser capaz de conhecer-se ao ponto de criar as condições interiores para que as ideias e as imagens fluam. O espaço interior de cada um é o lugar onde as palavras nascem. É preciso cuidá-lo, mantê-lo arrumado, limpo, arejado. É claro que, muitas vezes, a vida coloca-nos em situações que rejeitam essa organização. Nesses momentos, o trabalho que a escrita exige ganha uma dificuldade que pode parecer insuportável, insuperável. Esse será, talvez, o momento de não escrever, de descansar. 

Quem escreve deve ser compreensivo com as suas próprias fragilidades. Por isso, quando me perguntam sobre bloqueios de escrita, digo sempre que não os conheço, que nunca os tive. Apesar de tão absoluta, essa resposta é sincera porque sei que, muitas vezes, não escrever é uma forma de escrever, é uma forma de preparar o caminho para todas as palavras que virão.

É incalculável o número de pessoas que, nas suas decisões para 2021, irão incluir a escrita de um romance. Juntamente com “arrumar gavetas” ou “fazer exercício”, acredito que essa seja uma resolução que encontra muitos adeptos. Por um lado, a escrita é uma forma de fixação, as palavras costumam permanecer mais tempo no papel do que na memória; por outro lado, a trilogia filho/árvore/livro tornou-se um lugar-comum. Como acontece com as ideias extremamente difundidas, o conceito de ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro ultrapassou o seu criador, José Martí, um dos maiores escritores cubanos, considerado um herói nacional. O que não deixa de ser irónico: escrever ideias para alcançar a posteridade e, depois, as ideias perderem a ligação ao autor, poucos conseguirem identifica-lo.

Sem considerar esses detalhes, as pessoas querem lutar contra o tempo, é uma ambição humana, querem permanecer. E estão no seu completo direito. Não serei eu a erguer-me contra essa ambição. Teria muitas dúvidas para apontar acerca da desigualdade na luta entre o ser humano e o tempo, mas não quero destruir ilusões nesta época otimista do ano. Agora, preocupa-me sobretudo a quantidade dessas resoluções que ficarão por cumprir. Do número incalculável de promessas de romances haverá um número igualmente incalculável que não será cumprido. É pouco provável que essa secreta frustração coletiva se transforme em algo de positivo. 

Em São Francisco, em 1999, Chris Baty fundou o National Novel Writing Month, também conhecido por NaNoWriMo, que consiste no desafio auto-imposto de escrever um romance completo, do início ao fim, ao longo de um mês. Todos os anos, participam dezenas de inscritos. Os números são concretos: em 30 dias, tem-se o objetivo de escrever 15.000 palavras. Incrivelmente, a maioria dos participantes consegue atingir as metas dessa maratona. Em inglês, existe um guia escrito pelo próprio Chris Baty para ajudar nessa proeza, chama-se No plot? No problem

Parafraseando Confúcio, aquele que conhece a solução para o problema e não a aplica, está pior do que antes. Ou seja, se quer escrever um romance, inicie desde já os exercícios de aquecimento. O “bloqueio do escritor” não serve de desculpa. Em Fevereiro, queremos lê-lo.

José Luís Peixoto

Escritor

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Incenso

Na serenidade, passa o tempo sem pressa. Num instante sentido, num fio de fumo, é possível encontrar a cartografia de todos os outros instantes, longos ou fugazes. Na serenidade, passa a própria vida.

É um fio delicado de fumo que se enrola sobre si próprio, que se desenha no ar, que se entrança. Logo depois, desfaz-se numa forma cada vez mais desgovernada, a alastrar-se e a dissolver-se na pequena nuvem de fumo que paira na sala. Aqui, neste mundo cingido por paredes, desloca-se como um grande corpo, espécie de monstro a dirigir-se infinitamente na direção dos livros da estante, mas que nunca lá chega de facto.

Às vezes, o tempo passa à velocidade de incenso a queimar. Lento, mas constante. Seguro, como um sopro. A partir de um pequeno ponto incandescente ergue-se uma linha de curvas ligeiras, elegantes. E os pensamentos sucedem-se a essa velocidade. É sempre assim. Os pensamentos seguem a velocidade do tempo que interiorizamos. E, às vezes, o tempo passa sem pressa, como incenso a queimar.

Nos templos, como no Templo de A-Má, há paus de incenso que homens e mulheres seguram entre as mãos e que inclinam diante do altar ao ritmo com que inclinam todo o corpo em vénias repetidas. Depois, quando os espetam em pequenos potes, começa a sua combustão serena. O fumo sobe ao céu, indiferente às pessoas que se aproximam ou se afastam. E quando soa o gongo, o fumo segue o seu caminho ascendente com a mesma segurança com que a vibração se propaga. Para cima ou para dentro, um instante contínuo que tranquiliza.

Há também os incensos em espiral, pendurados debaixo de telheiros, esticados como molas. No interior, têm um papel com um pedido escrito, caligrafia chinesa. Muito devagar, a sua pequena brasa vai ardendo, cumprindo voltas, como se subisse a lenta estrada de uma montanha. Demora bastante, é um caminho que chega a parecer que não vai continuar. Talvez se detenha em algum obstáculo, talvez não encontre forças.

Mas continua sempre. 

É exatamente assim o tempo a que me refiro, esse tempo que passa à velocidade de incenso a queimar. Transporta em si a certeza de que não irá ser interrompido por qualquer repente, bom ou mau. É um tempo de descanso, de reflexão, valioso para respirar. E, toda a gente sabe: no momento em que vivemos, é tão necessário respirar, faz tanta falta. 

Aqui, onde estou a escrever estas palavras, esse tempo paira lentamente. Se me levantasse desta cadeira, creio que me alcançaria o peito. É mais ou menos a essa altura que avança seguro na direção das estantes, como uma vontade branda ou um desejo antigo.

Por sua vez, nas estantes, há o tempo dos livros. Esse avança a outra velocidade. Talvez mais lenta ainda, chega a ser possível parar o tempo nessas páginas. Mas também é possível apressá-lo. No interior de uma única linha, podem passar dez anos. Os livros são, cada um deles, salas parecidas com esta. O tempo que cada livro contém voga a uma velocidade própria, constrangida por critérios próprios e, em simultâneo, volúvel, livre. 

Aqui, sob as minhas narinas, no ar que inspiro, o incenso. Podemos também medir uma velocidade a partir do seu perfume, fumo perfumado. No ar desta sala, sobe um fio delicado de fumo. É contemporâneo de mil templos no outro lado do mundo. Na comparação entre este a velocidade deste e desse incenso, a distância não guarda qualquer relevância ou significado. Existe o tempo deste fumo e destas palavras, ascende lentamente na sala exterior que nos rodeia e na sala interior que contemos. Neste tempo, é possível encontrar todos os outros tempos. Basta ser capaz de concebê-los. 

José Luís Peixoto

Escritor

Hiromitsu

Enquanto falo para Hiromitsu, percebo que já não está a ouvir-me. Não é a primeira vez que se ausenta desta conversa, é a terceira. Encontrámo-nos há dez minutos e, depois de me falar do seu skate, fez-me três perguntas. Também durante as duas respostas anteriores se perdeu a meio. Levanta o olhar sobre o meu ombro esquerdo e fá-lo voar para longe, papagaio de papel. Continuo a desenvolver a resposta que me pediu mas, percebendo que não está a ouvir-me, eu próprio mantenho apenas a atenção necessária para que as palavras continuem a sair da minha boca, desenhando uma figura que mantenha um fio de sentido. Enquanto isso, reparo nos seus olhos e no seu rosto. Não consigo perceber logo qual é a importância dessa forma na construção do que penso sobre ele. Hiromitsu tem um rosto redondo. As faces apertam-lhe os olhos, tornam ainda mais fina a linha por onde a sua pupila vagueia.

Conhecemo-nos ontem quando esbarrámos no jardim, o centro desta praça em frente ao hotel. Era inevitável. Eu levava um jornal aberto, que foi empurrado pelos seus ombros, ou pelos seus braços desamparados. Não recordo o que estava a ler, mas sou ainda capaz de ouvir o som desse momento: o papel do jornal a amachucar-se, a tábua do skate às voltas sobre o cimento. 

Não sei que razão me levou a memorizar o seu nome. Também não sei porque fiz questão de saber como se escreve. Talvez seja resultado de tantos dias sozinho, a caminhar pelas ruas da cidade. Os pensamentos a pesarem dentro de mim, alguns a desfazerem-se. Perdi o conto das vezes em que, nos últimos dias, senti a tentação de seguir desconhecidos, de saber para onde vão. Talvez por isso, ontem, quando Hiromitsu esbarrou comigo, antes da consciência, acreditei que podíamos conversar sobre qualquer coisa. Não precisava de ser um assunto importante. 

Foi ele que começou. Depois de pedirmos desculpas, foi ele que começou a falar em inglês. Comentou o desequilíbrio de afinação na direção do seu skate, o estado do piso neste lado da cidade não o satisfazia. Obrigou-me a reparar na qualidade do chão que me sustinha. E fez-me perguntas, duas. Respondi sem entusiasmo, como nos diálogos de quando pergunto direções, ou de quando faço uma pequena compra num quiosque, ou de quando o empregado do restaurante me pergunta se desejo a lista de vinhos. Mas, depois, Hiromitsu fez-me outra pergunta e outra. Não consigo agora ter certeza se, ontem, nesse momento, me estava a ouvir. Fui absorvido por interesses mais imediatos: a necessidade de me ouvir a mim próprio fora da minha cabeça. Após dias numa cidade, sozinho, os pensamentos transformam-se em algo que, sob o ponto de vista da forma, se parece com um diário à deriva, aleatório, cheio de palavras vazias. 

Ontem, só quando a conversa se desenvolveu, comecei a reparar que não estava a ouvir-me. O que serei eu para um rapaz de dezanove anos, com um skate debaixo de braço e um boné na cabeça? Nesse momento, já sabia que se chama Hiromitsu, já sabia como se escreve o seu nome e já desconhecia tudo o que ainda desconheço. Percebo agora, neste reencontro, que é possível que não me tenha ouvido desde o primeiro momento, é provável. Na minha cabeça, sob o que continuo a dizer a Hiromitsu, começo uma frase por “quando eu tinha dezanove anos”, mas não a termino. 

Não posso comparar Hiromitsu comigo. Quando eu tinha dezanove anos, a única coisa que tinha em comum com ele era a idade. Hoje, nem isso. Hoje, apenas partilharmos estar aqui, neste jardim, nesta praça, nesta cidade, duas sombras contemporâneas. Ele num momento da sua vida, eu num momento da minha vida. 

Começo a ver o fim da resposta. Faltam instantes para que termine de falar. Não sei se irá a fazer-me outra pergunta ou se está satisfeito de olhar para o tanto que parece acontecer sobre o meu ombro esquerdo. Pouco importa. Fico agradecido por qualquer uma dessas possibilidades. Não tenho nada a exigir-lhe. Recebi muito mais do que poderia esperar. 

José Luís Peixoto

Escritor

Fronteira mental

As ruas pedonais do centro histórico de Olivença são calcetadas com pequenas pedras brancas e pretas, como o Largo do Senado, em Macau, como o calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro, como em tantas cidades e vilas portuguesas. Um dos padrões que rapidamente reconhecemos é o das ondas, sugestão de um oceano que fica a mais de duzentos quilómetros de distância. Chama-se a esse padrão “mar largo”, existe pelo menos desde o século XIX. O seu exemplo mais notório apresenta-se na calçada do Rossio, em Lisboa, tendo-se difundido pelo mundo a partir daí. 

O palácio municipal é um dos monumentos notáveis de Olivença. Construído em meados do século XV, é um edifício de dois pisos, colado à muralha medieval. Diante da sua porta principal, há um notável trabalho de calcetagem, representa com todo o detalhe o mapa do centro histórico, o casco viejo. Aberta para esse chão, está uma entrada com impressionante ornamentação, manuelina, repleta de elementos deste estilo escultórico que se desenvolveu no reinado de D. Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal e dos Algarves. 

Tenho uma amiga portuguesa com olhos e cabelos claros, que vive na Suécia. Quando nos encontramos, costuma sempre descrever episódios das suas aventuras em Estocolmo. Conta que, nas mais diversas atividades do seu dia a dia, cruza-se com suecos absolutamente convencidos de que também ela é sueca. No entanto, se tem de abrir a boca para dizer alguma coisa, todos se admiram ao perceberem o equívoco.

De certa forma, assim é Olivença. Se não conhecêssemos a história, se não passássemos por ruas com gente de todas as idades a falar castelhano, seria fácil acreditar que estamos em Portugal. Às vezes, focamo-nos em algum detalhe, distraímo-nos por um instante e, quando voltamos a prestar atenção ao lugar onde estamos, somos como os tais suecos, espantamo-nos com alguém a dizer buenos dias ou alguma coisa do género.

A Igreja de Santa Maria Madalena é o monumento mais notável de Olivença. Também ele se encontra profusamente decorado com motivos de estética manuelina, esse gótico português tardio. E, no entanto, existe no seu interior uma solenidade sem pátria, uma representação da transcedência com o tamanho de séculos. Em setembro, num dia em que as nuvens e o sol se alternavam no céu, esperei no interior dessa igreja pelos raios que, com a inclinação certa, atravessaram os vitrais e projetaram um extraordinário desenho de cores no corredor central, luz sobre a pedra, o altar lá ao fundo. 

O que são as fronteiras? Olivença é um curioso enclave para colocar esta questão. De um lado, Espanha, com todas as suas comunidades autónomas e, do outro lado, Portugal. E, ainda assim, ao contrário de um tempo que recordo bem, nenhuma dessas fronteiras hoje nos obriga a parar, a mostrar os documentos, a mostrar a bagageira do carro a pedido de guardas fardados. 

Passeámos pelas ruas de Olivença, entre o cheiro fresco das folhas de laranjeira, sob as varandas, através dos arcos, as nossas sombras ao longo das paredes limpas. 

Existe a história, problema sem fim, mas existe também o presente. Entre os portugueses, quantos já visitaram Olivença? Qual é a fronteira invisível que nos impede de chegar ao outro lado? A primeira característica das fronteiras é, justamente, a ideia de que existe outro lado. Há as fronteiras que nos impõem, mas há também as fronteiras que reconhecemos implicitamente, que edificamos na nossa cabeça e que, por incapacidade própria, não somos capazes de abolir. 

José Luís Peixoto

Escritor

O peso que carregas

Tenho pena que estas palavras não sejam capazes de abrandar-te o ressentimento. O lugar onde existem, onde são capazes de chegar, não toca o lugar onde conservas esse ressentimento cristalizado. Estas palavras e o teu ressentimento são como universos paralelos num filme de ficção científica, coexistem no tempo, mas são absolutamente paralelos, estão condenados a nunca se encontrar. Constato esta impossibilidade e tenho pena. Creio que aproveitarias melhor o tempo sem esse chumbo ou, pelo menos, sem algum do seu peso. Tudo isto te parece estrangeiro, não te diz respeito. Não chamas ressentimento a essa força que te faz cerrar os dentes, a esse incómodo, não vês motivos para ver-te livre dele ou, sequer, para abrandá-lo. Habituaste-te a ele, acreditas que faz parte de ti. 

Sentes que foi cometida uma injustiça em relação a ti. Essa injustiça pode ter acontecido efetivamente, pode ter sido bastante cruel, mas também pode não ter acontecido. Não é isso que importa, apenas conta sentires que foi cometida uma injustiça em relação a ti. Sentes que a injustiça te inferioriza, talvez não te tenham reconhecido como achas que merecias. Essa dor, ruminada durante anos, formou o ressentimento que conservas. 

Agora, o mal-estar é já uma condição física. Passou das emoções para a atitude e, logo depois, passou da atitude para o corpo. Agora, vês o mundo através do ressentimento, é como um filtro, cobre-te o olhar. E, por isso, só já consegues pensar por intermédio dele. Seriam necessários anos de intensa fisioterapia para retirar-te o ressentimento da postura. A nível interno, está diluído em todos os teus fluídos. Ao correr-te no sangue, chega às artérias mais finas, irriga-te todos os órgãos. 

Sentes que foi cometida uma injustiça em relação a ti. Acreditas que essa dor te confere direitos. Precisas de infligir essa mesma dor aos outros. Hão de sofrer como sofreste, como sofres ainda. Acreditas que os outros merecem essa dor. Afinal, são eles os privilegiados. A balança que te castigou, favoreceu-os a eles. Os “outros” podem ser um grupo mais ou menos restrito, com características definidas, ou podem ser o mundo inteiro. Em qualquer dos casos, estás convencido de que o cinismo te protegerá. Não voltarás a acreditar em ilusões, enganos tocados pela inevitável injustiça, que apenas têm o propósito de conduzir-te a nova dor. Mas não conseguirão fazer-te sofrer de novo, perdeste essa inocência para sempre. Agora, serão eles a sofrer. E assim te intoxicas nos vapores do veneno que julgas guardar para os outros. 

Tenho tanta pena que estas palavras não sejam capazes de abrandar-te o ressentimento. Imagino estas palavras a chegarem à tua compreensão e, ao serem entendidas, a dissolverem essa pedra que carregas no interior. Também as palavras têm uma existência simultaneamente imaterial e material. É por isso que alimento esta fantasia. Imagino estas palavras a desembaraçarem um equívoco que te paralisa. Como aquele leão feroz dos desenhos animados a quem tiram um pico da pata e que fica dócil de um momento para o outro. Sim, já sei que, pela lente do cinismo, “dócil” é um adjetivo para fracos, mas repara como todo o mundo é fraco pela lente do cinismo. É provável que estas palavras te pareçam estrangeiras, que aches que não te dizem respeito. Tenho pena que estas palavras sejam incapazes de dizer-te que não merecias essa injustiça. Ninguém merece essa dor. Ninguém merece esse ressentimento ou seja lá como for que prefiras chamar-lhe. 

José Luís Peixoto

Escritor

O mapa do território imaginado

Em 2012, quando fui a Macau pela primeira vez, surpreendi-me bastante. Já tinha ouvido inúmeras descrições, já tinha lido livros, já tinha visto documentários, mas o que testemunhei divergiu muito do que tinha sido capaz de imaginar. 

Uma das impressões mais intensas com que fiquei logo nessa primeira visita, e que se acentuou em cada regresso, foi a sensação de desconhecimento. Pareceu-me sempre que me faltava ver muito para conceber uma imagem minimamente completa deste lugar.

Assim me convenci de que a característica mais marcante de Macau é a complexidade. Este é um espaço caleidoscópico, constituído por uma imensidade de elementos em permanente mutação. Cada um desses elementos é, em si, bastante complexo, muitas vezes paradoxal, formado por múltiplos contrastes internos. Podemos dedicar a vida a aprofundá-lo e, mesmo assim, nunca chegaremos a esgotá-lo.

Como se essa exigência não fosse suficiente, trata-se de elementos separados por obstáculos muitas vezes herméticos, intransponíveis. Essas barreiras são de vária ordem: económicas, sociais, linguísticas, culturais, históricas, etc. Como ter acesso à realidade de um emigrante filipino e, em simultâneo, à realidade de um grande apostador nas salas VIP dos casinos? Como entender a língua filipina, estas palavras em português e, ao mesmo tempo, as minúcias do cantonês? E como conseguir contextualizar com rigor o entendimento que cada um desses mundos retira deste mundo condensado?

Em Portugal, toda a gente tem uma ideia acerca de Macau. Mas qual será a correspondência efetiva que existe entre essa ideia e a realidade deste território? Ou talvez seja melhor usar o plural: entre essas ideias e estas realidades? A partir de referências exclusivamente portuguesas e ocidentais, como chegar a entender Macau?

A já referida multiplicidade de elementos, faz com que as tentativas de retrato sejam fortemente determinadas pela sua perspectiva: tanto pelas facetas incluídas, como pelas que, por decisão ou ignorância, são deixadas de fora. Em Portugal, como seria de esperar, a imagem mais difundida é a que se fixa na passagem e na presença dos portugueses. Quem pisou Macau neste século sabe que é absurdo considerar essa narrativa como única. 

Também esse é um desafio: como explicar Macau contemporâneo a quem saiu de Macau nos anos noventa? Como ter essa conversa sem ferir sensibilidades? É triste concluir que as nossas recordações correspondem a um passado que terminou. A irreversibilidade do tempo confronta-nos com a finitude, com o efémero do que valorizamos. Todos temos de enfrentar essa dor. Indiferente, o mundo avança. No caso de Macau, no entanto, a distância intercontinental permite a ilusão de uma cristalização do passado. Como explicar-lhes Cotai? Como explicar-lhes o Venetian ou o Galaxy? Como explicar-lhes a ponte para Hong Kong?

Em Portugal, a primeira vez que a maioria das pessoas ouviu o nome de Macau foi numa lista que incluía Moçambique e Timor, por exemplo. Em Portugal, é residual o número de pessoas que sabe o que é Zhuhai. Da mesma forma que temos dificuldade para distinguir os contornos tonais da língua cantonesa, custa-nos identificar ínfimas subtilezas num espaço de violentos contrastes. A interpretação de Macau é multidisciplinar, multidimensional, ou é incompleta, parcial, serve de muito pouco. Além disso, com frequência, o maior obstáculo à compreensão de Macau são aqueles que juram conhecer Macau, que afirmam saber tudo e que, assim, distorcem Macau, reduzem os seus contornos, tentando ajustá-los aos contornos da sua ignorância.

José Luís Peixoto

Escritor

 

Bola de cristal

Cada instante tem à sua frente um cruzamento. O tempo pode seguir por uma ou outra direção. Enquanto ainda não aconteceu, o tempo não existe. É necessária essa concretização física, esse ser e estar, para que o tempo chegue a considerar-se tempo. Ainda assim, sem recorrer a cartomância, astrologia, numerologia ou qualquer uma das artes daqueles professores que resolvem problemas de inveja, dívidas ou amarrações amorosas, estou em condições de afirmar desde já que, independentemente do desfecho de qualquer um dos dilemas atuais, aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

Logo que se ouviu falar pela primeira vez do vírus, ouviu-se também falar em vacina. Houve um período em que se afirmava que pouco demoraria até que estivesse concluída, houve outro momento em que se começou a dizer que, afinal, talvez não fosse assim. Há a vacina da Europa, dos Estados Unidos, da China, da Rússia e, provavelmente, outras que desconheço, não procurei informação aprofundada sobre o assunto. Como a maioria das pessoas, suponho, apercebi-me de que havia um tempo em que a vacina seria a solução para todos os problemas levantados pelo vírus e, mais tarde, apercebi-me de que, afinal, talvez não fosse assim. No entanto, posso desde já garantir que, seja qual for a solução para este tema, aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

Todos usamos máscara. Ou, neste momento, acreditamos que devemos usar. Se temos memória, lembramo-nos de, há meses, escutar gente informada a dizer-nos que podíamos dispensá-la. Ao mesmo tempo, noutros países, são fortes os movimentos que recusam as máscaras, evocam toda a espécie de argumentos. Em qualquer dos casos, há perguntas, por exemplo: será viável que o mundo use máscaras para sempre? Só aparentemente esta é uma pergunta de sim/não. Acredito que haverá pessoas a encontrar todo o tipo de respostas, inclusivamente pessoas que estudaram este assunto a fundo, pelos mais diversos ângulos. Em qualquer dos casos, há uma garantia que posso dar neste momento: aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim.

Não sabemos todos os contornos da crise económica que se aproxima, que já chegou. É preciso considerar múltiplas variantes, não apenas ao nível económico e financeiro, mas também ao nível de diversas áreas que têm efeitos diretos sobre os números do dinheiro. As contas que uns e outros fazem dependem das suas crenças. Por mais objetivos que pareçam, fazendo uso de fórmulas, cada um desses exercícios tem como base uma interpretação política do mundo e das várias sociedades que o constituem. Em última análise, essas previsões económicas exigem uma perspectiva sobre o ser humano, o seu comportamento, a sua moral, a sua propensão para fazer uma ou outra escolha. No entanto, entre tanta imprevisibilidade, é certo que, aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

Vai ficar tudo bem, escreveram as crianças nos papéis onde desenharam arco-íris. Concordo com quem lhes disse para fazê-lo, ninguém merece olhar para um futuro nublado, um amanhã pior do que hoje, sobretudo crianças, com toda uma vida para imaginar. Mas, nós que já não somos crianças, não conseguimos calar a dúvida interior: será que vai ficar tudo bem? Em conversas, deixamos escapar a expressão “quando tudo voltar ao normal”, mas também essa dúvida: será que tudo vai voltar ao normal? Ou ainda com mais inquietude: o que é “o normal”? No meio das preocupações, uma coisa é certa: aconteça o que acontecer, vai haver gente a dizer que tinha a certeza absoluta de que ia ser assim. 

José Luís Peixoto

Escritor

Precisar de ter razão

O meu filho de 15 anos raramente aceita alguma afirmação que eu faça. Eu, o velho, recordo com nostalgia o tempo em que conseguia convencê-lo de qualquer coisa. Agora, seja qual for o assunto, há sempre um ponto da conversa em que vai buscar o telemóvel e, em poucos segundos, encontra suficientes argumentos no google para me contradizer. Com mais ou menos truques de retórica, nunca se dá por vencido e, incrivelmente, chega mesmo a haver casos em que tem razão. 

É igual a mim. Com 15 anos, eu também discordava de tudo o que os meus pais tinham para me dizer. Com a diferença de não dispor de google, o que enfraquecia bastante a minha posição. No entanto, para além do google, o meu filho usa sem dificuldade os tutoriais do youtube, passa os olhos por meia dúzia de verbetes da wikipedia em menos de um minuto, sem contar com muitas outras ferramentas que não sei identificar. Reconhece nuances na informação que encontra na rede de um modo que, provavelmente, nunca chegarei a aprender. 

É um rapaz deste tempo. As suas interrogações permanentes são do seu tempo, a adolescência, e desejo que as mantenha de forma saudável ao longo da sua vida, fazem falta em todas as idades. Ainda assim, espero que chegue um momento em que confie um pouco mais no conhecimento dos outros, daqueles que tiver diante de si e que, pela experiência ou pelo estudo, saibam mais do que ele acerca de determinado assunto. Também a humildade faz falta na vida, em todas as idades. 

Nesse aspecto, espero que não pertença a este tempo em que qualquer um, acerca de qualquer tema, desafia especialistas com uma leviandade despropositada. Haverá um ponto que assinala a fronteira em que a autoconfiança passa a ser arrogância, em que deixa de ser aceitável. Tanto a propósito dos efeitos de medicamentos, do formato do planeta, como de qualquer outro assunto, estabeleceu-se a ideia de que deixou de ser ridículo desafiar o conhecimento de gente que passou a vida a estudar determinada disciplina, contrapondo-lhe farrapos mal amanhados de teorias lidas na diagonal, vistas em programas de tv enquanto se fazia zapping ou, mais perigoso ainda, divulgadas na internet sem qualquer garantia técnica. 

Essa absurda postura de desafio dos especialistas ao nível das chamadas ciências exactas e naturais vai avançando, deixando escapar às vezes a face da sua ignorância, mas o que dizer dessa mesma postura em relação às ciências sociais e às humanidades? Difundiu-se a crença de que, para desautorizar conhecimentos de sociologia ou de antropologia, basta andar por aí.

Para além de ser patética, a constante teoria da conspiração envenena as relações sociais, o pacto que estabelecemos para viver uns com os outros, em dependência de instituições que criámos. A fiscalização é necessária, mas a suspeita de tudo e de todos alimenta um nível de ansiedade intolerável. Depois, no que diz respeito aos argumentos, a relativização permanente é uma desonestidade intelectual, inviabiliza qualquer debate. 

O conhecimento, no sentido mais profundo desse termo, não é uma coleção de dados soltos, apanhados aqui e ali, e ligados pela intuição; é uma estrutura, um sistema que requer visão genérica, contextualizadora, que seja capaz de reconhecer o papel de cada elemento no âmbito das múltiplas relações que estabelece. 

De forma irónica, a imensa difusão da informação criou ilusões que, em última análise, não passam de ignorância: a informação criou ignorância.

Para chegarmos à maturidade, precisamos ultrapassar a imaturidade. 

José Luís Peixoto

Escritor

Toda a gente a falar do mesmo assunto

Nasce de uma rebentação. Então, a água lança-se sobre a areia, estende-se numa camada vítrea, com mais ou menos espuma, avança nessa inclinação de areia lisa. É como uma pequena invasão ao longo de toda a lonjura da praia, natural e espantosa ao mesmo tempo. Em fins de tarde de Julho, esse mar não ameaça. Se estivermos descalços, deixamos que nos cubra os pés e, logo a seguir, os tornozelos. Cada vez mais fina, a água abranda no topo do declive, toca a linha da areia seca e volta a descer, mais rápida, como se o oceano quisesse aquela água de volta. Como se o oceano desse conta de que aquela água estava a escapar-se e a puxasse de volta. Mas, logo a seguir, nova rebentação e, de novo, a água lança-se sobre a areia, estende-se.

Hoje, os temas circulam no debate público através de um movimento muito comparável com este. As redes sociais criaram uma homogeneidade e uma rapidez inéditas no espaço mediático. Como as fases da lua influenciam as marés, a energia colectiva das redes contagia a comunicação social e, a partir de certo ponto, alimentam-se mutuamente. 

Perante um acontecimento que despolete eco colectivo, análogo à tal rebentação, estabelece-se um discurso, a água a estender-se na areia. Apresentará uma força proporcional ao ímpeto da sua unanimidade. Essa é a fase em que a grande maioria se sente à vontade para falar. Qualquer observação é recompensada com uma inundação de reforço positivo. Há um instante em que se chega mesmo a acreditar que toda a gente está de acordo com essa ideia. No entanto, quando já não consegue aguentar mais, há uma dessas fotografias num quadradinho que discorda. O primeiro instinto do grupo é o medo, ninguém se quer comprometer. Mas depois, porque existe ali uma nova lógica, por compensação ou apenas devido à lei da gravidade, mais e mais pessoas vão concordando com essa ideia nova, eis a água a recolher-se, até ao ponto em que todos os que se manifestam têm essa opinião. Logo a seguir, novo acontecimento, a água, a areia, etc. 

A reflexão colectiva em vagas tem bastantes inconvenientes. Se toda a gente se dedica apenas a um assunto, por muito nobre que seja, não sobra ninguém para reparar noutros assuntos. E, com frequência, a maior das injustiças é exatamente a falta de atenção. Em simultâneo, quando se cansa, quando encontra substituto, é bastante cruel a maneira como a opinião pública deixa cair o tema do momento. Ao contrário do que muitas vezes se diz, o esquecimento da internet é profundo e implacável. 

Apesar de se encontrar ritmo cíclico na natureza, parece-me que a forma como os temas chegam atualmente ao espaço público segue, ainda mais, outra cadência: o mercado, o consumo. Tal como as modas, que agora mudam muitas vezes dentro da mesma estação, os temas do debate público requerem uma atualização constante que, no entanto, dispensa uma atenção apurada. Basta-nos ler os títulos das notícias na internet, alguns comentários nas redes sociais, colecionar duas ideias daqui e dali, e acreditamos que já sabemos o que se passa no mundo. Se alguém mencionar um assunto fora dessa agenda, é de certeza um excêntrico, não nos sentimos mal por ignorá-lo, uma vez que é o que faz a maioria das pessoas. Estamos em sintonia com as pessoas normais. 

Não sou especialista em marés. Nasci no campo. O mar é um elemento que entrou na minha vida já durante a idade adulta. Talvez por isso, o meu estômago ainda não se conseguiu habituar a este balanço. 

José Luís Peixoto

Escritor

OS CIGANOS

Na memória, tenho imagens paradas de um casamento de três dias. Lembro-me das roupas garridas das mulheres, cheias de folhos, fazenda brilhante, cetim quase de certeza, sem vergonha do vermelho, do amarelo, do verde vivo. Lembro-me dos homens já de camisa aberta, a festejarem em voz alta, a conviverem de uma maneira que eu não conhecia com aquela cumplicidade de família imensa, como se todos fossem irmãos uns dos outros. Três dias durou esse casamento. As celebrações esmoreciam um pouco de manhã. Eu passava acompanhado por outros rapazes, abrandávamos o passo para olharmos ao longe, para tentarmos perceber o que estava a acontecer. Mas, logo a partir de almoço, com as mulheres de um lado e os homens do outro, a festa começava a animar. Ao fim da tarde, princípio da noite, atíngia o auge. Lembro-me das danças que levantavam pó na terra, as mulheres muito maquilhadas a baterem com sapatos finos na terra seca, os homens na fronteira de perderem a compostura, com a ponta do cinto solta das presilhas, como a cabeça de uma serpente, também a dançarem, também a baterem com sapatos novos na terra. E os rapazes da nossa idade, claro. É deles que me lembro melhor. Foram eles que nos chamaram para entrar, foram eles que nos puxaram pelo braço quando fizemos tenção de recusar, foram eles que insistiram, que nos foram buscar comida, que nos deixaram à vontade. 

Conhecíamos esses rapazes das temporadas que passavam na escola. Não tinham livros, a professora emprestava-lhes um caderno e sentava-os ao lado de alguém. Sabiam pouco de letras e da maneira como a professora dizia as coisas, o que sabiam de números não se escrevia no quadro com giz, mas eram os reis do recreio. Passávamos esse tempo a rodeá-los e ora fazíamos perguntas, ora ouvíamos as notícias mais incríveis. Eles conheciam o mundo, estavam ali apenas de passagem. Aproveitávamos ao máximo o tamanho da sua novidade.

Esse casamento de três dias juntou muitas famílias ciganas, vieram de todo o Alentejo, das Beiras, da Extremadura e da Andaluzia. Teve lugar no terreno em frente ao correio que, nessa época, tinha muito poucas construções em volta. Era um dos dois ou três lugares onde os ciganos costumavam montar acampamento. Os burros e as mulas ficavam presos aos troncos das oliveiras, aproveitavam esse descanso resignado, até ao momento em que fossem chamados a levar a carroça. E tanto podiam seguir pelas ruas da vila, o velho Durico rodeado por montes de camisas, a fumar a ponta de um cigarro que quase lhe queimava os lábios, a pele do rosto encarquilhada, os olhos quase fechados, o velho Durico a descer as ruas muito devagar e, às vezes, a ser rodeado por mulheres que tratava por freguesas. Ou esses burros e essas mulas podiam avançar por estradas nacionais, a puxar a carroça carregada, objetos empilhados, panelas, baldes, sacos cheios, e os homens, as mulheres e as crianças sobre esse monte, e os cães a ladrarem aos carros que se demoravam por um instante atrás deles antes de os ultrapassarem. 

Quando saí da minha vila, deixei de conhecer ciganos. Da mesma maneira, deixei de conhecer os meus vizinhos. Este é um lugar onde as pessoas não dizem bom dia quando se cruzam na rua. Para quem não conheça outra realidade, parece que o mundo é todo assim, habitado por desconhecidos. Há poucas semanas, perto de Estremoz, passei por uma carroça exatamente igual às da minha infância. 

Nunca tive medo de ciganos. Apesar da maneira como, muitas vezes, via essa palavra ser utilizada: como uma ameaça. Quando éramos crianças, os meus amigos e eu sabíamos que os ciganos não eram iguais a nós, bastava-nos reparar em certos detalhes para sabermos isso. Mas essa diferenças não nos incomodavam. Sabíamos que se encontra sempre diferenças nas pessoas que apenas se vêem à distância e, ao mesmo tempo, porque sabíamos que os ciganos eram iguais a nós, bastava-nos conversar com eles para ter essa certeza absoluta. 

José Luís Peixoto

Escritor

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Com amigos destes

É uma marca deste tempo: chamamos amigos a demasiadas pessoas. A facilidade de comunicação abriu as comportas de uma grande quantidade de novas relações que não soubemos qualificar. Ou porque foi demasiado rápido, e não tivemos a mesma velocidade no poder de análise, ou porque os rótulos elementares que possuíamos ­— desconhecido, inimigo, conhecido, amigo, amante, familiar — deixaram de ser suficientes para classificar formas de relação com muito mais complexidade e subtileza. Chamar amigo a alguém é uma forma de generosidade e de simpatia ­­— como numa cena entre taxista e cliente: onde é que o meu amigo deseja ir? ­—, mas podemos pagar caro por essa imprecisão.

Apesar de todas estas formas contemporâneas de contacto, que nos permitem saber onde uns e outros passam férias ou, em certos casos, o que jantaram ontem, continua a haver aqueles amigos de quem se vai deixando de ter notícias. Fomos amigos, não havia nenhuma dúvida acerca disso, mas hoje, se nos encontramos mais ou menos por acaso, vemo-nos na obrigação de explicar essa amizade aos nossos filhos adolescentes. Entre o desinteresse e a desconfiança, os nossos filhos estranham essa familiariedade com pessoas que nunca viram ao longo da sua vida.

Nesse aspeto, os amigos são como barcos: se deixados à deriva, podem afastar-se ou aproximar-se, tudo depende das correntes e dos algoritmos. Há uma certa melancolia nesse afastamento, lembra-me o verso de um poema de Philip Larkin, mas a aproximação sem piloto nem sempre é desejável: há possibilidade de choque entre as embarcações. Um fenómeno semelhante a esse tem lugar quando encontro um certo amigo ­— talvez devesse usar aspas. Em cada um dos nossos dois ou três encontros anuais ­— ou talvez seja mais correto dizer: em cada uma das duas ou três ocasiões anuais em que, por acaso, nos cruzamos ­—, o tema que mais gosta de debater são “as pessoas que não gostam de mim”. Uso aqui as aspas porque o estou a citar palavra por palavra e porque é exatamente com essa formulação que introduz o assunto.

Sou sempre apanhado desprevenido e caio sempre nessa armadilha. Aflito, enquanto tento encontrar motivos para “essas pessoas” não gostarem de mim, esse meu amigo ­— aspas? ­— fica calmamente a assistir ao espetáculo. Só muito mais tarde, ao longo dos dias seguintes, enquanto rumino detalhes da conversa, começo a encontrar as respostas que devia ter dado e começo a questionar as suas intenções.

Uma vez que foi ele que levantou o tema, devia ter-lhe perguntado: mas quem são essas pessoas? O engodo principal é o carácter vago da consideração lançada para o ar. Saber que há pessoas que não gostam de nós, confronta-nos com os nossos próprios fantasmas. Se não questionarmos essa entidade informe, iremos necessariamente encontrar as suas razões nas nossas inseguranças. Antes disso, talvez seja pertinente perceber se “essas pessoas” nos conhecem o suficiente para terem uma opinião válida sobre nós. Ao mesmo tempo, talvez interesse saber também se os critérios segundo os quais “essas pessoas” nos avaliam coincidem com os nossos.

Em qualquer dos casos, é um terrível equívoco convencermo-nos de que precisamos de agradar a toda a gente. Se existimos, não agradamos a toda a gente. A pessoa que está atrás de nós na fila da caixa do supermercado está desagradada com a quantidade de compras que fizemos, está a insultar-nos mentalmente. Vale a pena deixarmos de comprar o que precisamos por isso?

Com muita probabilidade, quando nos reencontrarmos, já terei esquecido tudo isto e voltarei a ser apanhado de surpresa com a tal conversa sobre “as pessoas que não gostam de mim”. Não me preocupa, hei de chegar às mesmas conclusões. No entanto, talvez seja tempo de pôr entre aspas esse tal “amigo”.

José Luís Peixoto

Escritor

portoPortugal 1 e 2

“Portugal” e “Portugal” são dois substantivos homógrafos e homófonos. Um deles, “Portugal”, refere-se à grande Lisboa, ao grande Porto e às cidades do litoral. O outro, também “Portugal”, refere-se ao resto do país. São palavras idênticas, chegam a parecer a mesma palavra, mas têm diferenças muito significativas. Nos últimos meses, a propósito das fronteiras fechadas e da dificuldade de viajar para outros países, tem-se falado mais do que habitual neste segundo Portugal. Fala-se de descobrir Portugal.

Este capricho linguístico de utilizar dois termos tão semelhantes para nomear realidades tão díspares dá azo a todo o tipo de mal-entendidos. É muito comum que alguém fale de Portugal e se fique a pensar que está a falar de Portugal, o contrário também acontece com frequência. Para evitar esses equívocos, vou aqui usar as denominações Portugal 1 e Portugal 2. Não é particularmente elegante, mas é bastante prático. 

Assim, começo por dizer que é muito positivo que Portugal 1 demonstre esta intenção de descobrir Portugal 2. Estou convencido de que ficarão bastante surpreendidos com o que vão encontrar por lá. Como é sabido, a habitual presença de Portugal 2 no espaço mediático acontece uma vez por ano: durante os incêndios. Mas essa cobertura é bastante errática, depende literalmente dos ventos, e acaba sempre a mostrar paisagens negras e destruídas. Ao mesmo tempo, acredito também que vão ser muito bem recebidos. Ao contrário do que acontece em Portugal 1, as queixas acerca do excesso de turismo em Portugal 2 são residuais ou inexistentes. 

Não sei se é apenas a minha esperança a falar, mas parece-me mesmo que esta inesperada aproximação entre Portugal 1 e 2 poderá até contribuir para transformações ainda mais ambiciosas. Talvez Portugal 1 se aperceba de que os problemas de Portugal 2 também são os seus. Talvez chegue mesmo a entender que se houver oportunidades de vida em Portugal 2, as populações não serão forçadas a migrar em massa para Portugal 1, com todas as dificuldades que essa situação acaba por causar para todos: a sobrepopulação, as especulação imobiliária, a insatisfação suburbana de Portugal 1; e o envelhecimento, a desertificação, o desespero de Portugal 2. 

Durante as semanas que passámos fechados em casa, a sair apenas para ir ao supermercado, todos descobrimos espaços na nossa casa: sentámo-nos pela primeira vez a apanhar sol na varanda, percebemos que o chão do quarto é um excelente lugar para fazer ginástica, por exemplo. Aquilo que está a acontecer no país pode ser comparado com essa situação. Não faz sentido que, entre todas as divisões da casa, apenas limpemos e arrumemos a sala porque é lá que passamos a maioria do tempo. Até aqui, Portugal 1 tem sido a sala, Portugal 2 é aquele sótão atafulhado de objetos cobertos de pó, que não sabemos exatamente quando vamos utilizar, mas que temos pena de deitar fora. 

O sentido desta comparação assenta na constatação de que o nosso país é a nossa casa. Ou, pelo menos, é uma das nossas múltiplas casas. Talvez “casa” e “casa” também sejam dois substantivos homógrafos e homófonos. Em qualquer dos casos, parece-me aconselhável que não me estenda nessa análise. Alguém com mais conhecimentos do que eu poderá argumentar que não se tratam de dois substantivos, mas sim de um único substrantivo com duplo sentido. E talvez seja. Prefiro não entrar nesse tipo de conflito. As polémicas gramaticais são das mais violentas. 

Pessoalmente, apenas queria dizer que gostava de ver este assunto resolvido durante o tempo da minha vida.  Sonho com um país em que se diga “Portugal” e toda a gente, sem mal-entendidos, entenda “Portugal”. 

José Luís Peixoto

Escritor

Contemporâneos

Ao tentar descrever o século XIX na literatura francesa, sinto a cabeça invadida por adjetivos mas, quando os analiso um a um, parece-me que todos ficam aquém, falta-lhes justiça para descrever uma riqueza de tal tamanho. A Revolução Francesa teve o seu início no século XVIII, mas as suas consequências foram bem mais duradouras. Em França, o século XIX nasceu dessa explosão, dessa sequência extraordinária de acontecimentos. A natureza profunda do tempo é a continuidade. Nem mesmo as revoluções conseguem interromper a história. Nesse aspecto, a história da literatura não diverge da restante cronologia. O século XIX francês, para lá do romantismo, realismo e outras fronteiras artificiais, resulta daquilo que já se sonhava no século XVIII.
1860. De modo relativamente aleatório, escolho esta data. O que tento dizer é: em 1860, em França, estavam vivos os seguintes autores: Victor Hugo, Flaubert, Alexandre Dumas pai e filho, Zola, Jules Verne, Maupassant, Baudelaire, Verlaine e Rimbaud. É certo que atravessavam fases muito distintas das suas vidas: Maupassant e Rimbaud eram crianças, Verlaine era um adolescente, Victor Hugo e Alexandre Dumas Pai tinham 58 anos, os restantes andavam pelos trintas. Ainda assim, impressiona-me pensar que num determinado momento, em 1860, estes indivíduos estavam vivos ao mesmo tempo, todos eles circulavam por este planeta, tinham consciência de si próprios, havia alguma coisa a que cada um deles chamava “eu”.
Um modo prático de tentarmos conceber o que terá sido outro tempo é olharmos para o tempo que conhecemos, nomeadamente este em que estamos. Refiro-me sobretudo às pequenas marcas da existência, às características que, independentes de tudo o que localiza historicamente este momento, conferem realidade a estarmos aqui: a temperatura, a luz, a ansiedade, as imperfeições, a experiência dos sentidos. Admitir realmente a existência de Flaubert, por exemplo, implica imaginá-lo sob uma temperatura como esta, uma luz como esta, ansioso, imperfeito, com sentidos em funcionamento. Nesse caso, não se trata sequer de uma tarefa que exija um especial esforço inventivo, uma vez que Flaubert deixou muitíssimas impressões pessoais descritas na sua vasta correspondência.
Ainda assim, é mais fácil mitificar o passado, não resistir à inclinação natural que a passagem do tempo nos propõe. O passado é uma projeção intelectual, distorcida pela perspectiva de cada um. Essa margem permite polir-lhe as arestas, aperfeiçoá-lo de acordo com os nossos interesses ou com a nossa preguiça. Somos benevolentes com o passado, como somos benevolentes com os mortos. É muito mais fácil perdoar-lhes, os mortos já não ameaçam ninguém. Enquanto isso, o presente é muito mais cru. Abrimos os olhos e vemo-lo à nossa frente, repleto de imperfeições. O presente é sempre imperfeito, como nós.
No que toca ao enganador respeito produzido pela mitificação, os escritores vivos não têm outro remédio que não seja conformarem-se com o facto de que perderão sempre com os escritores mortos. A obra dos mortos está acabada, não pode ser corrigida. A obra dos vivos é volúvel, tem de defender-se em relação a todas as escolhas feitas. Os mortos são definitivos. Os vivos têm de responder perante todas as alternativas possíveis. Os mortos fazem a sua melhor pose em fotografias, gravuras e estátuas. Os vivos são quotidianos, estão mesmo aqui, com todas as suas misérias, tão perto. Os vivos são como eu e, por isso, falíveis, cheios de defeitos. Os mortos não são como eu.
Voltando ao século XIX da literatura francesa e à correspondência de Flaubert, é especialmente interessante a passagem de uma carta que dirigiu à sua irmã Caroline, em 1843, na qual descreveu o seu primeiro encontro com Victor Hugo: “É um homem como qualquer outro, com um rosto bastante feio e um exterior bastante comum. Tem dentes magníficos, tem ar de se cuidar e de não deixar nada ao acaso. É muito educado e um pouco rígido. Gosto do som da sua voz. Tive o prazer de contemplá-lo de perto (…), os olhos fixos nos dele, na mão direita que escreveu tantas coisas belas. Lá estava, portanto, o homem que mais fez bater o meu coração desde que nasci e, talvez, aquele de que mais gostei entre todos os que não conheço.” A admiração é clara, existe um deslumbramento pelo dono daquela “mão direita” e, no entanto, é curioso notar a forma como, ao vivo, em presença, não é indiferente à falta de beleza e à dentição. O sublime intelectual não fecha os olhos ao prosaico físico.
Com 28 anos, em 1961, Ruy Belo publicou no seu primeiro livro o breve e eloquente poema Epígrafe para a nossa solidão: “Cruzámos nossos olhos em alguma esquina/ demos civicamente os bons dias:/ chamar-nos-ão vais ver contemporâneos”. Não há dúvida de que a quantidade de desconhecidos com quem nos cruzamos constantemente é sinal de uma certa solidão, uma certa incomunicabilidade. Ainda assim, nestes três versos de Ruy Belo impressiona-me ainda mais a chamada de atenção para a incrível circunstância de partilharmos tempo, de estarmos todos aqui, neste preciso momento.

José Luís Peixoto

Escritor

Curso rápido para diretor de campanha

O primeiro passo é polarizar o universo eleitoral em questão. Se reduzirmos as opções de escolha entre “nós” e “eles”, aumentamos enormemente o nosso espaço potencial. Mesmo que o ponto de partida seja ínfimo pouco mais de um 1%, por exemplo —, ao conseguirmos generalizar o uso da dicotomia nós/eles, alcançaremos imediatamente os 50% ao nível formal. 

Se o eleitorado estiver previamente polarizado, apenas precisaremos de alimentar esse maniqueísmo, geri-lo com as estratégias simples que apresentarei em seguida e, sem dúvida, os resultados são garantidos. Se for necessário desenvolver esse trabalho desde o início, precisaremos de mais algum tempo, mais algum esforço, mas a concretização dos objetivos continua garantida. Nesse caso, será útil cumprir algumas diligências experimentais de modo a definir um “eles”. 

Como é evidente, o “nós” somos nós e, como também é evidente, o “eles” opõe-se a nós, ao “nós”. No entanto, nós podemos ser muitas coisas, essa elasticidade trará bastante proveito. Ainda assim, a primeira medida organizativa deverá ser a escolha das nossas características-base. A opção mais eficaz será definirmo-nos em função do “eles”. O “eles” que melhor se adequará aos nossos propósitos será aquele que conseguirmos culpar de tudo, absolutamente tudo. Esta premissa é fundamental, irá permitir-nos o argumento nuclear de todos os pontos do nosso programa: nós estamos certos porque eles estão errados. 

Todas as oportunidades de comunicação devem seguir apenas duas normas: simplicidade e provocação. 

  1. a) A simplicidade favorece um fácil entendimento e, como tal, a cobertura de um público mais amplo, nomeadamente aqueles que possuem dificuldades ao nível da literacia, que são uma enorme franja de eleitorado, tantas vezes perdida para a abstenção. De uma só vez, esse discurso simplificado transmite uma certa humildade e a ideia de se estar a dizer “as coisas como elas são”. Além disso, não são necessários termos muito elaborados para afirmar o que importa: nós somos bons, eles são maus. 
  2. b) A provocação é o método mais competente de alimentar a dicotomia nós/eles. Entre as várias formas possíveis de provocação, o insulto é muito aconselhável. Em qualquer momento, pode recorrer-se ao insulto com facilidade, garante uma boa cobertura mediática e deixa-os — “eles” — numa posição sem fuga: se não nos respondem, dão-nos implicitamente razão, o nosso argumento é único e último; se respondem, valorizam, também implicitamente, a nossa posição, trazem os nossos temas para a agenda do debate público e ainda podemos acusá-los de estarem a insultar-nos. 

Vivemos num tempo de internet e de redes sociais. Quem disser o contrário, está em negação ou adormeceu em 1997. Essa evidência leva-nos a escolher a internet como o nosso meio preferencial de ação. As vantagens são múltiplas, dois exemplos entre inúmeros possíveis: por um lado, a intensidade da nossa presença poderá dar a entender que somos muitos mais do que realmente somos; por outro lado, permite-nos produzir um número infinito de notícias que favoreçam as nossas posições. Esta utilidade é particularmente proveitosa, uma vez que, para além de contarmos com os benefícios de rumores que terão muita dificuldade em desmentir — se é que alguma vez conseguirão fazê-lo —, poderemos invocar mais tarde que a informação está viciada. Ou seja, viciamos a informação e, depois, quando mostrarem algum dado que não nos convenha, por mais inequívoco que seja, bastar-nos-á evocar que a informação está viciada. Tiramos o crédito à informação e, depois, dizemos que a informação não tem crédito. Repito esta ideia para que seja bem apreendida. 

Bem sei que dá trabalho passar horas na internet a comentar todo o tipo de publicações, dá trabalho inventar notícias, inventar estudos, inventar sondagens, trabalhar imagem e vídeo, etc. De onde virá dinheiro para montar toda essa operação? Não se preocupe com isso. O dinheiro aparecerá, e será suficiente, será de sobra.  

José Luís Peixoto 

Escritor

 

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Notícias do presente sem futuro

Estou cansado que me perguntem como é que estou a passar este tempo.

De repente, o tempo transformou-se neste tempo: um presente absoluto. O passado ficou incrivelmente distante, recordamo-lo como se tivesse acontecido a outras pessoas, como se o tivéssemos visto num documentário. Pior ainda, o futuro deixou de existir. Antes, naquele tal tempo que antecedeu este, dávamos o futuro por adquirido, chegaria na semana que vem, no mês que vem, haveria futuro em 2033, por exemplo. Agora, já não temos a certeza. Agora, o futuro é uma utopia ou uma distopia, dependendo do otimismo/pessimismo de cada um. 

Alguns, discípulos de Heráclito com 2500 anos de atraso, asseguram-nos que nada será como costumava ser. Estou cansado dos clichés deste tempo. Estou cansado de ouvir que a adversidade é uma oportunidade, é um desafio. Dispenso esse tipo de desafios. 

Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga. No entanto, repare-se no meu esforço por não utilizar certas palavras. Há certos verbos e substantivos que já não consigo ouvir, menos ainda pronunciá-los, menos ainda escrevê-los, vê-los impressos. 

Estou cansado dos especialistas. Cansa-me os que são realmente especialistas, os que se empenharam a fazer licenciaturas e pós-gaduações quando estas disciplinas não estavam na ordem do dia, quando não havia nenhum indício de que fossem chamados ao telejornal para dar o seu parecer. Mas cansa-me sobretudo os especialistas de ocasião, especialistas entre aspas de chumbo, leitores de internet, gente que não gagueja ao falar e que quer sempre falar.

Prefiro as minorias silenciosas, como é o caso de quem está em prisão domiciliária ou de quem sofre de agorafobia. Esses beneficiaram de uma trégua. As crianças deixaram de perguntar porque é que o tio tem uma pulseira na perna e nunca sai de casa. De certa forma, estes meses foram uma redução na pena. Ao mesmo tempo, quem sofre de agorafobia pôde sentir-se normal, não teve de escutar insistências para sair. Algo semelhante aconteceu com as aldeias do interior. Durante este período, foi normal que as ruas estivessem desertas. 

Estou cansado da condenação feita pelos puristas do isolamento social, sempre a medirem distâncias com os olhos. Passam dias inteiros à janela só para poderem chamar irresponsáveis aos outros e dizer: já viram isto? Eles nunca são irresponsáveis, eles estão sempre a ver tudo, com a exceção daquilo que preferem não ver, é claro. 

Juro que não queria escrever sobre isto. Tinha aquela esperança cega e injustificada de que se não falasse sobre o assunto, contribuía para o seu desaparecimento. Falhei, não há negação capaz de cobri-lo, não há fuga”

Estou cansado da escola em casa, muito cansado. Estou cansado da ginástica em casa, toda a gente do prédio em frente a fazer agachamentos. Mas, mais do que qualquer outra coisa, estou cansado desta agressão aos velhos. Já tinham problemas suficientes: a palavra velho usada como um insulto, por exemplo. Já tinham sido obrigados a aceitar suficientes injustiças. Agora, por cima de todas essas, também esta injustiça.

Estou cansado. Com essa falta de ânimo, assisto ao início da crise económica que já chegou para alguns e, diz-se, tocará a todos, ou quase. Este quase tem enorme importância, mas não o estranhamos, há muito que nos habituámos à desigualdade, aprendemos a justificá-la. Vista daqui, também a desigualdade se apresenta como um eterno presente, uma inevitabilidade do ser humano, não mudou e ninguém prevê que esteja para mudar. 

José Luís Peixoto

Escritor (Portugal)