Casos de Covid-19 são um “balde de água fria” para a Semana Dourada

FOTOGRAFIA GONÇALO LOBO PINHEIRO

As indústrias do turismo e do jogo estavam à espera da Semana Dourada do Dia Nacional para aumentarem o volume de receitas. No entanto, os recentes casos de Covid-19 detectados no território goraram as expectativas. Analistas ouvidos pelo PONTO FINAL dizem que a economia da região vai sofrer nos próximos tempos. A meta dos 130 mil milhões de patacas de receitas de jogo é quase inatingível, antevêem.

André Vinagre

andrevinagre.pontofinal@gmail.com

As expectativas para a Semana Dourada saíram frustradas devido aos novos casos de Covid-19 detectados em Macau. A ideia é transversal a todos os analistas ouvidos pelo PONTO FINAL. Os economistas Henry Lei, Luís Sales Marques e Lawrence Fong dizem que as indústrias do jogo e do turismo vão enfrentar tempos difíceis. Já Isaac Duarte e Alidad Tash consideram que, se o Governo mantiver a estratégia a lidar com os casos, a recuperação económica será mais difícil.

Nos últimos dias registaram-se cinco casos de Covid-19 na comunidade, o que fez com que o Governo lançasse um novo plano de testagem em massa. Além disso, Zhuhai anunciou quarentenas para quem chega vindo de Macau. Irá isto afectar muito as perspectivas para a Semana Dourada do Dia Nacional, entre 1 e 7 de Outubro? “Definitivamente”, responde Henry Lei, economista da Universidade de Macau, sublinhando que a necessidade de completar quarentena em Zhuhai vai fazer com que muitos visitantes do interior da China mudem de ideias ao escolher Macau para virem passar os dias da Semana Dourada. “Isso vai afectar, definitivamente, a vontade de esses visitantes visitarem Macau”, sublinha.

A média diária de entradas no território caiu drasticamente das cerca de 300 mil para perto de 30 mil, segundo dados do Corpo de Polícia de Segurança Pública. Lei diz que muitos visitantes do interior da China já cancelaram as reservas nos hotéis de Macau, o que faz com que seja “difícil” que a Semana Dourada traga boas notícias. “Vamos enfrentar tempos difíceis”, afirma.

O Governo de Macau tem tentado promover a região como segura para ser visitada, no entanto, o economista diz que, a partir de agora, passa a ser “embaraçoso” que se promova Macau nestes moldes. “Não digo que Macau não seja segura, mas, com estes novos casos, poderá ser difícil convencer os potenciais visitantes a virem durante este período de tempo”, aponta, sugerindo que a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) altere a estratégia e retome a promoção de Macau apenas quando a situação epidémica estiver sob controlo.

Rutger Verschuren, presidente da Associação de Hotéis de Macau, tinha dito ao PONTO FINAL, na semana passada – antes de terem surgido os novos casos – que o sector estava a recuperar lentamente. “Lentamente, com os seus altos e baixos, mas o processo está a acontecer, apesar de ser difícil prever as melhorias e para quando. Tenho visto que o Governo está a tentar, juntamente com Hong Kong e Pequim, de aliviar as restrições de viagem também para os titulares dos ‘bluecards’ que ficaram presos em Hong Kong, portanto esperamos que, passo a passo, voltemos a uma situação melhor”, dizia na altura o representante do sector.

O Executivo estimou, no início do ano, que as receitas do sector do jogo poderiam chegar este ao aos 130 mil milhões de patacas e foi com este número em mente que elaborou o orçamento para 2021. No entanto, para o professor universitário, será “muito difícil” alcançar este valor. “Vamos ver como é que este surto se desenvolve. Mas é muito difícil alcançar a meta estabelecida de 130 mil milhões”, aponta.

Restrições jogam contra a recuperação económica

“É bem provável que a Semana Dourada que está a começar venha a ser outro desapontamento para os operadores de Macau”, comenta José Isaac Duarte. Os casos locais agora registados “só vem acentuar o padrão deste ano, que tem sido de grande dificuldade”, diz o economista.

Na opinião de Isaac Duarte, é possível alcançar a meta dos 130 mil milhões de patacas de receitas de jogo até ao final do ano. Mas não é provável. Segundo o economista, as receitas de jogo não estão directamente ligadas ao número de visitantes, “foi sempre uma falsa relação”. No entanto, a situação económica no interior da China poderá fazer com que a capacidade financeira dos jogadores da China continental não seja a mais favorável, o que poderá também impactar as contas das receitas do jogo de Macau.

Para Isaac Duarte, a estratégia sanitária do Governo não permite a recuperação económica: “Cada vez que existe um ou dois casos pára a cidade e criam-se situações de quarentenas prolongadas. Tudo isto são elementos que limitam a vinda de turistas, sem os quais uma grande parte do nosso comércio terá dificuldade em sobreviver”. Com esta política “não há cenário de saída em momento algum, porque o vírus não vai desaparecer”.

“Ainda por cima, a vacinação continua a estar atrasada, e mesmo o facto de haver uma fracção significativa da população já vacinada não se parece ter traduzido em nenhuma alteração significativa da política sanitária. Neste quadro, a expectativa é de algum definhamento”, conclui.

Alidad Tash, director executivo de uma empresa de consultoria ligada ao sector do jogo, é da mesma opinião. O especialista começa por dizer que “antes de haver vacinas, a estratégia de ‘zero casos’ era a ideal e Macau esteve melhor do que qualquer outra região no mundo”. Porém, com o aumento da taxa de vacinação em todo o mundo, Macau deveria focar-se em fazer subir a sua taxa de vacinação para depois abrir a economia e voltar a receber pessoas de fora, sugere.

“Está na altura de o Governo parar de dizer ‘por favor, vacinem-se’, e começar a impor restrições a quem não está vacinado”, diz, propondo que se exija a quem quer ir a restaurantes, bares e cinemas que esteja vacinado. “Quando os meus filhos não cedem quando digo ‘por favor, comam os vegetais’, tiro-lhes a sobremesa e a televisão”, compara. Alidad Tash lembra ainda que as receitas de jogo em Las Vegas voltaram ao normal, apesar de a cidade estar a lidar com a variante Delta da Covid-19.

O analista diz mesmo que os dois casos detectados ontem pelas autoridades fizeram com que as hipóteses residuais de se verificar uma Semana Dourada com números sólidos desapareceram. “Esqueçamos o ouro, já teremos alguma sorte se tivermos uma semana de bronze”, atira.

Recorde-se que, após os dois primeiros casos confirmados em Macau, as consultoras JP Morgan e Credit Suisse já tinham apontado para uma queda nas receitas de jogo durante a Semana Dourada. Os analistas do Credit Suisse afirmaram que “40 a 50% dos jogadores cancelaram sua viagem com a preocupação de que a situação pudesse arrastar-se por mais tempo do que o esperado e eles precisariam ser colocados em quarentena quando retornassem ao continente”. Já a JP Morgan salientou que “o momento destas novas restrições dificilmente poderia ser pior, já que a indústria estava a preparar-se para uma sólida demanda durante a próxima Semana Dourada”.

Expectativas frustradas

José Luís Sales Marques diz que “o que está a acontecer é um balde de água fria” nas expectativas para a Semana Dourada. Esta semana de feriados, em que habitualmente chegam centenas de milhares de turistas a Macau, “poderia ajudar e muito”, numa altura em que as expectativas relativas a 2021 já tinham sido frustradas. Mas “é a realidade, temos de encarar as coisas de frente, sermos realistas e trabalhar”, diz.

Para o economista, “no ambiente epidémico que estamos a viver, a prevenção é fundamental; não é difícil perceber as preocupações que as autoridades de Macau têm”. Sales Marques assinala que as estruturas de Macau são escassas para uma contaminação comunitária”.

Também Sales Marques diz que o impacto destes novos casos nas receitas de jogo será grande e também ele considera que agora será praticamente impossível chegar à meta dos 130 mil milhões de patacas da receita de jogo: “Eu acho que neste momento não é possível. Perante esta situação, a Semana Dourada seria a última esperança de se conseguir alguma coisa. Mesmo que não fossem 130, poder-se-ia chegar próximo desse objectivo”. “Neste momento diria que a probabilidade é praticamente zero”, lamenta.

Lawrence Fong também está pessimista em relação a esta Semana Dourada que se aproxima. “Com os novos casos, de certeza que a Semana Dourada vai ser afectada, especialmente os negócios que dependem dos visitantes”, lamenta o professor de Economia da Universidade de Macau.

O economista também partilha da opinião de que estes casos detectados em Macau vão ter impacto nas receitas da indústria do jogo. Serão, então, alcançáveis os 130 mil milhões de patacas até ao fim do ano? “Não me parece”, responde Lawrence Fong, que diz que o Governo terá de rever as expectativas. Revisão, essa, que terá impacto no orçamento do próximo ano. Este ano, o Executivo cortou 10% das despesas e, assim, Fong prevê que em 2022 haja mais cortes.

Contudo, o professor universitário considera que, após o surto, os turistas do continente vão continuar a querer vir a Macau. “Acho que os turistas do interior da China vão continuar a querer vir a Macau. Se um lugar é seguro ou não, não depende apenas dos zero casos, isso é algo que está fora do nosso controlo, mas tem a ver com o modo como lidamos com os casos que vão surgindo”, comenta, concluindo que os visitantes do continente “estão atentos ao que o Governo de Macau está a fazer”.

Leave a Reply

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s