Condições de quarentena no Golden Crown China Hotel causam apreensão

Portugueses que se encontram em observação médica relatam ao PONTO FINAL que, depois do aparecimento dos três casos de Covid-19 relacionados com aquele hotel de observação médica, o dia-a-dia passou a ser uma incógnita. A entrega de produtos vindos do exterior encontra-se suspensa, a falta de comunicação com os Serviços de Saúde e a incerteza de mais uma semana de quarentena são algumas das preocupações de quem ali se encontra por estes dias.

Gonçalo Lobo Pinheiro

goncalolobopinheiro.pontofinal@gmail.com

O Golden Crown China Hotel, assim como o Treasure Hotel, está em confinamento. Para além dos residentes e turistas que ali se encontram em quarentena, cerca de 140 trabalhadores passam 2h sobre 24h nas instalações. Ninguém entra e, naturalmente, ninguém sai dos dois hotéis, pelo menos até ao dia 1 de Outubro, revelaram ontem as autoridades na conferência de imprensa do Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus.

O PONTO FINAL conversou com alguns dos portugueses que estão em observação médica no Golden Crown China Hotel e questionou-lhes sobre o seu estado de alma.

A advogada Carla Silva, sozinha no quarto e testada apenas uma única vez desde que chegou ao território, ainda se está a ambientar às circunstâncias. “Apenas cheguei há cinco dias. Então não tenho uma experiência tão grande como podem ter outras pessoas. Nos primeiros dias passou-se muito bem já que tive amigos que me vieram entregar alimentos e outras coisas que tinha deixado preparadas para a quarentena”, começou por dizer ao PONTO FINAL.

Contudo, tudo mudou depois do aparecimento de três casos de infecção por SARS-CoV-2, relacionados com aquele hotel. “Depois da detecção dos casos, há imensa incerteza. De repente, e sem qualquer explicação sólida, suspenderam as entregas do exterior, o que nos limita, de certa forma, a vida aqui dentro”, notou a portuguesa.

Ao mesmo tempo, refere, tem sido impossível contactar com os Serviços de Saúde. “Não consigo falar com os serviços de saúde para obter uma resposta às questões das entregas e da eventual extensão do período de quarentena. Quando chego à fala com alguém, pedem o nosso número para nos ligar de volta, e não ligam.”

Tal como noutras quarentenas do último ano e meio de pandemia de Covid-19, também no Golden Crown China Hotel há grupos de WhatsApp entre amigos e conhecidos, uma forma de ajudar a passar o tempo e de partilha dos problemas e anseios de cada um. “Integraram-me num grupo do WhatsApp com outros seis portugueses. E sei que há mais um português em quarentena que não está no grupo. Numa das nossas conversas, aparentemente, de acordo com o que ouvi de outra portuguesa, vão testar-nos de três em três dias. Mas sobre isto não tenho conhecimento directo, visto que não fui contactada por ninguém ainda”, afirmou Carla Silva.

Apesar dos apesares, a advogada assume encontrar-se bem, “por enquanto”. “Estou a trabalhar remotamente e estou a aproveitar o tempo extra para praticar hobbies”.

Claro que, se tiver de ficar mais uma semana do que o estipulado inicialmente, vai começar a custar mais. “Se as entregas se mantiverem suspensas e a comida igual, sim, vai custar. Já está a custar um bocadinho”, confessa.

“Estão a ridiculizar o Governo de Macau”

Margarida Chambel, em observação médica há 20 dias, começava a ver a luz ao fundo do túnel, mas agora a luz atenuou-se um pouco. Ao nosso jornal, a responsável da área da comunicação revelou-se bastante desiludida e extremamente desagradada com a situação. “Acima de tudo há uma desinformação generalizada. Ninguém sabe de nada e todos passam a batata quente ao outro. Ninguém nos diz nada. Há uma falta de consideração imensa. Isto só mostra que o sistema não funciona e que os responsáveis que estão a liderar só estão a ridiculizar o Governo de Macau. É patético”, acusou a portuguesa.

O desabafo é longo e nota-se que Margarida está deveras desgastada com tudo o que se tem passado nos últimos dias. “Sinto-me dominada e controlada. Estou a passar por uma situação injusta. Vinha preparada para a quarentena, nunca me queixei de nada, mas o facto de as autoridades sentirem que já nem têm que se justificar perante a população é simplesmente bizarro. Informaram-me que a minha quarentena tinha sido alterada de 29 de Setembro para 1 de Outubro. Não é pelos três dias, é porque nada se justifica. É aceitar e pronto”, atirou.

Margarida tenta manter-se o mais ocupada possível. Teve a sorte de ter um quarto confortável e com uma vista de montanha, com sol e luz. “Tento manter a sanidade mental o melhor possível, mas acho que nos estão a tratar com falta de consideração. Quando vêm fazer o teste, o processo é uma selvajaria, uma barbaridade. Estamos a ser tratados com uns animais.”

“Completamente irreal e inarrável

O estado de espírito de Catarina Cortesão Terra é igual aos dos outros dois portugueses com quem conversámos. A documentarista encontrava-se a cumprir os últimos dias de observação médica, juntamente com os dois filhos menores, quando foi confrontada com a descoberta dos três casos de infecção no hotel. “Julgava eu estar a cumprir os últimos dias de quarentena, quando foi estendida. E para agravar estamos interditos de receber comida de fora desde há três dias e estenderam os dias de quarentena sem apresentação de factos objectivos que justifiquem essa perigosidade e extensão uma vez que estamos aqui no quarto com portas e janelas encerradas desde 8 de Setembro”, desabafou ao PONTO FINAL.

Catarina considera a decisão das autoridades sanitárias “precipitada”, até porque segundo a portuguesa “a comunidade interpreta da decisão do Governo em relação ao que está a acontecer é que o hotel afecto a quarentena não segue as regras de segurança sanitária, para além das condições que proporciona aos que ficam no hotel serem mais penosas e estende a quarentena”. “Os quartos não estão equipados para quarentenas de 21 dias. Não tem nenhum electrodoméstico para aquecer comida ou espaço para lavar a loiça. Já para não falar de que tive conhecimento que ocorreu um caso de infestação de pulgas num quarto”. “Já requeri a entrega num posto alfandegário das nossas coisas e um funcionário viria trazer para o hotel. Não obtive resposta. Pedi à recepção para o pequeno almoço pão, manteiga e leite de vaca. Não dão. Enviaram milho cozido e ovo cozido. O meu filho é alérgico a ovo cozido, para além de que sofre de asma. Precisa de medicamentação e comida adequada”, afirmou.

Por outro lado, refere a documentarista, “os funcionários do hotel apanham Covid-19 e depois colocam em risco quem aqui está sem sair do quarto e não apanha ar quase há 21 dias”. “Colocaram os funcionários de quarentena e não substituíram o staff e ninguém nos traz comida do exterior ou está nos corredores. Espero que recuem”, deseja.

Uma situação de risco zero, como todos sabemos, não existe. Catarina vai mais longe e afirma que a população aceitou “bem demais todas as limitações em prol de zero casos”. “Nada faz sentido. Duas pessoas com Covid-19 e testa-se 600 mil, para quê? O que é que concluíram da última vez, em Agosto? Interessa a narrativa do lobo mau do caso importado e ter zero casos? O que isso quer dizer?”, questiona, lembrando que “o que interessa é não haver mortes nem doentes graves” e que “não existe uma discriminação positiva para quem toma a vacina”. “Podiam pedir uma opinião de peritos internacionais em como lidar com isto. Esta terra é tão pequena que não seria difícil haver um plano de abertura racional”, constata.

Catarina está exausta e não consegue compreender qualquer uma das decisões do Governo no combate à Covid-19, pelo menos as mais recentes. “É como uma mãe imaginar que o seu bebé nunca vai febre. É tudo muito mau. E já fizemos os testes PCR. Estamos a caminho do sexto teste zaragatoa e os serológicos tudo com resultados negativos, enfim completamente irreal e inarrável”, conclui revelando que, pelo menos, são 13 os portugueses que estão na mesma situação.

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