Da Colômbia para o Delta do Rio das Pérolas: A professora de música apaixonada pela China

A professora de música Erika Morant, natural da Colômbia, reside em Macau há dois anos, depois de ter vivido em Xangai durante quase uma década. Iniciou o coro espanhol da embaixada de Espanha, que integra chineses entusiastas do idioma de Cervantes, com um repertório dedicado às músicas populares e folclóricas da Espanha e da América Latina.

Joana Chantre

joanachantre.pontofinal@gmail.com

Erika Morant chegou a Macau há dois anos para integrar a equipa de professores da Escola das Nações, no departamento de música, e posteriormente se encarregar pela iniciação e constituição de um coro escolar, até então não existente. A colombiana de 38 anos abraçou esta oportunidade de braços abertos após nove anos de experiência de vida na China, nomeadamente em Xangai, onde trabalhava.

Em conversa ao PONTO FINAL, a jovem académica que “adora a língua portuguesa” contou-nos um pouco acerca da variedade de factores que acabaram por a fazer escolher vir para o território. “Eu vivi nove anos em Xangai e foi para aí que eu parti directamente quando saí do meu pais, a Colômbia”, começou por explicar. “O meu sonho sempre foi ir para a China, eu queria muito aprender chinês e já tinha começado a estudar o idioma nos meus tempos livres”, refere.

Erika, já munida de um nível básico do idioma e uma licenciatura em Música do seu país, concorreu então a uma bolsa de estudo na China para poder tirar um mestrado na área. “Quando fui aceite para a bolsa de estudo, em 2011, completei primeiro mais um ano de chinês na China antes de começar o mestrado. Eu já gostava muito da cultura chinesa e do idioma, por isso foi como um sonho concretizado”, contou.

A colombiana acabou por tirar o mestrado de direcção de orquestra no conceituado conservatório de música de Xangai. “Quando cheguei à China tinha 28 anos e, depois dos quatro anos de estudo, decidi ficar e arranjar trabalho, tendo passado por várias companhias, uma delas foi a Walt Disney”, recordou. Aí, Erika trabalhou como performer musical, incorporando a ‘troupe’ dos vários espectáculos da companhia pela China. “No espectáculo eu tocava a guitarra tradicional grega ‘Bouzouki’ e fiquei assim durante dois anos. Pouco depois acabei por ficar um pouco cansada da rotina e decidi mudar de rumo e encontrei uma oportunidade na Escola Internacional de Xangai a ensinar música, e trabalhei lá uns dois anos”, refere.

Quando questionada acerca de como veio parar a Macau, a professora conta que, depois de quase uma década a viver no continente, decidiu mudar de ares. Porém, reitera que não queria afastar-se completamente de onde estava. “Eu gosto muito da China, mas queria algo um bocadinho diferente, como, por exemplo, experimentar morar em Hong Kong, Taiwan ou Macau, porque sempre tive muita curiosidade por estes três sítios, que têm uma cultura bastante diferente da de Xangai”.

Pouco tempo depois, Erika ouviu falar de uma vaga como professora de Música na Escola das Nações e decidiu aceitar a proposta. “A minha função aqui, além de ser professora de Música do currículo internacional do ensino secundário da escola, é também de preparar os meus alunos que querem ir estudar fora”, explicou.

Erika Morant, que é licenciada em Música na Universidade de Antioquia na cidade de Medellín, chegou a Macau em 2019, três meses antes de terem começado as complicações da pandemia. Em relação às suas primeiras impressões de Macau, Erika revela que veio sem grandes expectativas. “Eu não tinha a ideia de como era Macau, só sabia que pertenceu durante muito tempo a Portugal. Em Xangai tive muitos amigos que diziam que por cá já não havia muita gente que falasse português e que esse legado já quase não existia. No entanto, quando cheguei cá fiquei muito surpreendida porque eu comecei a conhecer muitos portugueses e pessoas que falavam português”, recorda.

Talvez como forma do destino, a professora de música, logo após a sua chegada, começou a conhecer muita gente da comunidade e fez muitos amigos rapidamente. “Apaixonei-me por esse lado de Macau, porque ainda que fazendo parte da China, continua a ter essa mistura superinteressante que nenhuma cidade na China tem. É uma mistura de culturas, da portuguesa e da chinesa principalmente, que eu adoro e sinto-me sortuda por ter vindo cá e de poder testemunhar esta assimilação tão interessante. A China pode ser tão grande, com tantas cidades, mas todas são muito típicas chinesas, e Macau não é assim, é muito diferente!”, sublinha.

Criação de um coro

A passagem de Erika Morant por Xangai deixou marcas artísticas de cariz cultural de grande relevo internacional, nomeadamente a criação de um coro constituído por chineses que cantam em espanhol. A iniciativa, subsidiada pelo Consulado de Espanha em Xangai, acabou por trazer “várias coisas boas” para a professora, nomeadamente, a abertura de novas oportunidades profissionais e reconhecimento pelas autoridades do seu próprio pais.

“Fiquei com eles durante seis anos, basicamente até ao último minuto que fiquei em Xangai, e graças a esse coro de chineses a cantar em espanhol que o governo da Colômbia ligou-me há dois anos a dizer que tinham visto os meus vídeos do coro a cantar música folclórica, tendo feito que eu fosse honrada como uma colombiana destacada no estrangeiro, que é uma menção muito importante para nós”, refere com orgulho.

Aprendizagem do português em Macau

Quando chegou a Macau, depois de quatro meses, começou a estudar português no IPOR e tirou dois níveis. “Eu estava desesperada! Ia ao IPOR no início, mas diziam-me sempre que ainda não havia inscrições, que tinha de esperar”, refere. “Um tempo depois acabei por entrar, porém logo me apercebi que seria melhor ter aulas individuais, privadas, porque os colegas chineses têm outra maneira de aprender do que eu, que não sou chinesa. Neste momento o meu livro de português chama-se ‘Português para falantes de espanhol’ e tem sido muito interessante. Eu adoro a língua portuguesa!”, sublinha.

Projectos futuros

“Eu gosto muito da escola onde ensino, a Escola das Nações, e adoro ensinar música. Agora tendo iniciado o projecto do coro estou a construir algo do zero, pois essa foi, realmente, a razão pela qual eu consegui vir para Macau”, disse ao PONTO FINAL.

A instituição de ensino local, que antes não tinha projecto de coro, tem já vários alunos no programa, a melhorar cada vez mais, segundo Erika. “Estou a gostar muito de Macau e tenciono cá ficar por mais uns anos”, indica. “Eu quero ajudar a desenvolver uma cultural musical em Macau porque desde que eu cheguei que comecei a procurar músicos, pois eu gostaria de ter um grupo de música e encontrar, por exemplo, um baixista, um baterista, alguém que toque o piano talvez, mas sinceramente até agora tem sido difícil porque acho que embora existam músicos em Macau, não existe uma cultura musical muito forte”, lamenta Erika Morant, concluindo: “Eu gostava de fazer alguma coisa, contribuir para que esta cultura musical se possa tornar cada vez melhor”.

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