“Conseguimos levar Macau a muitos sítios e conseguimos tocar nos criativos de Macau”

Texto e Fotografia: Gonçalo Lobo Pinheiro

A Creative Macau comemora 18 anos de existência. O PONTO FINAL foi conversar com a grande mentora do projecto, Lúcia Lemos. Minhota de Vila Nova de Famalicão, desde muito pequena que se interessou pelas artes e por aquilo que sempre se mostrou diferente aos seus olhos. Estabeleceu-se na cidade do Porto e ali cresceu. A vida boémia das artes sempre a atraiu, mesmo que a sua própria vida nunca tenha sido de boémias. Na Invicta também conheceu o seu marido, o economista José Luís Sales Marques. Aos 27 anos chegou a Macau e por aqui ficou até hoje. Pelo meio, entre diversos projectos, fundou a Creative Macau que tem sido baluarte da cultura no território, promovendo autores e a sua criatividade. A Creative Macau continuará a “servir Macau” como até aqui, mesmo que os tempos que correm em plena pandemia de Covid-19 não estejam a ser mimosos. Paralelamente, o festival de curtas, o maior projecto de envolvência de Lúcia e da sua equipa, tem crescido sem precedentes. A ideia é continuar na mesma senda, promete a portuguesa. “Já há muitos anos que somos conhecidos fora de Macau. Hoje recebemos trabalhos de todo o lado, trabalhos muito bons”, constata. O balanço, no geral, é “muito positivo” num território que, segundo Lúcia Lemos, as artes têm sido bem tratadas ao longo dos anos.

Dezoito anos de pioneira a uma certeza. Que balanço é que faz desta maioridade da Creative Macau?

Acho que nascemos até este crescimento, e celebrando a maioridade, foi sem quedas e conseguimos imensas coisas. Este projecto nasceu para servir Macau. Conseguimos levar Macau a muitos sítios e conseguimos tocar nos criativos de Macau. Ir ao encontro, dentro do possível, das necessidades deles. Conseguimos, e continuamos, dar oportunidades a todas as pessoas que, pronto, sejam dinâmicos. Temos muito membros inscritos e raramente trazem trabalhos. Não consigo encontrar explicação para isso, mas talvez sejam contingências da vida. Nunca banimos membros. Muitos são mais concentrados nas vertentes profissional e familiar e não produzem para além da profissão. Seja como for, de alguma maneira, sentem-se ligados ao projecto.

Quantos membros têm actualmente, entre activos e não activos?

Digo sempre para cima de 500, mas talvez só cerca de 10% seja dinâmico. A maioria são chineses, mas também representamos artistas filipinos, tailandeses, portugueses, americanos, ingleses, sul-africanos, entre outras nacionalidades que agora não me recordo. Falando de países, acabam por ser vários países e toda a gente é bem-vinda. Tudo é plausível. Não é só falar porque é amarelo ou vermelho, que, de facto, é amarelo ou vermelho.

Neste momento, a Creative Macau promove quantos eventos ou exposições por ano?

Agora reduzimos um pouco por causa da situação pandémica. Mas em condições normais são 12 a 13 exposições, mais o festival e diversos workshops e seminários, bem como algumas conversas informais. Cada vez que inaugurávamos uma exposição convidamos as pessoas, os autores, para uma conversa com o público. Sempre organizámos conversas com vários criativos. Era só escolher o tema.

A pandemia veio prejudicar todo esta dinâmica.

Pois claro. Esperamos que as coisas corram bem. Prejudicou-nos mais nos workshops e seminários, pois evitamos a todo o custo juntar pessoas. Nós estamos localizados num edifício governamental e evitamos causar constrangimentos.

Que projectos é que a Creative Macau tem agora?

Neste momento estamos com uma exposição intitulada “Open, close, open”. Um conceito de abre, não abre. Estamos em suspenso com os nossos planos de vida. Tem sido esse inconveniente e todas as incertezas. Fora daqui do espaço temos o festival de curtas. Lá organizamos ‘masterclasses’, e então, naturalmente, convidamos os locais para se debruçarem sobre determinadas áreas como produção, imagem, realização, custo, etc. E isto é aqui fora do espaço, mas limitado aos residentes locais.

E fora de Macau?

Fora de Macau, neste momento, não estamos com projectos. Mas nos 18 anos de existência tivemos colaboração com a experimentadesign, em 2005, onde levámos imensos designers com videoarte, arquitectura, design de móveis, acessórios, joalharia, etc, em Portugal. João Ó, Manuel Silva, Rui Leão, entre outros, participaram na altura. Macau ficou exposto em dois andares do Palácio de Santa Catarina em Lisboa. Foi muito interessante e muito bom para nós e para os autores que levámos. Trata-se de um evento de nível mundial, muito importante. Também tivemos eventos em Hong Kong, relacionado igualmente com design. Foi também um evento muito interessante. Levámos o Adalberto Tenreiro, o Carlos Marreiros, etc. Levámos várias peças dentro do limite que era o nosso stand. Depois voltámos a Lisboa para outra exposição com outros designers. Passámos também por Londres e em Matosinhos, na Exponor. Estes são os eventos grandes que me lembro. Claro que também tivemos outras parcerias mais pequenas, tanto locais como fora de Macau. Lembro agora que também estivemos presentes na Expo Xangai, em 2010.

Como é que está o panorama da Indústrias Culturais e Criativas em Macau?

Acho que está bem de saúde, porque nós estamos a ver tanta coisa a acontecer, mesmo em tempo de pandemia. Penso que com o apoio colectivo do Governo à Cultura, nós continuamos a ver coisas a acontecerem. Gente jovem com imenso talento e potencial. Existem associações com trabalho feito nesta área. Muitos artistas se entrecruzam para realizar projectos. Isso vê-se na Bienal Arte Macau, no Festival de Artes, e por aí fora. O mercado está a funcionar, penso eu. Há uma mobilização concreta de agentes artísticos para a concretização das coisas. Colectivamente acho que as coisas estão fluir. Naturalmente que, individualmente sim, tem havido um certo corte, muito por culpa da pandemia. É essa a minha percepção. É mais fácil, acho eu, garantir coisas se as pessoas agirem colectivamente. É difícil, penso eu, haver subsídios para um indivíduo só, apesar de o Governo ter sido sempre generoso.

Até ao final do ano o que é que ainda irá acontecer?

Vamos ter mais duas exposições, pelo menos. O Instituto Politécnico de Macau selecciona os melhores trabalhos dos alunos finalistas e expõe connosco, bem como a Universidade de São José. Teremos trabalhos de arquitectura, design de produto e fashion será a proposta da USJ. Já o IPM traz o multimédia, fotografia, desenho gráfico, etc. Todos os anos mudam um pouco as propostas porque em parte muitos cursos deixam de existir. No IPM também chegaram a fazer coisas relacionadas à letras, como ideias para feituras de livros. Enfim, coisas muito interessantes. Coisas diferentes, mas que comungam alguns aspectos.

Festival de curtas vai na 12.ª edição. Qua balanço faz dessa aventura?

Tem sido extraordinário. Acho que é algo para ficar. Que deve ficar para as gerações futuras. Trata-se de um projecto diferente. Repare, eu não gosto de criar coisas para mostrar. Depois dos primeiros anos de alguma indefinição, o projecto fortaleceu-se. Depois pensámos numa parceria com o sector do jogo para apoio, patrocínio, por exemplo, nem que fosse um ou dois prémios, para ajudar o audiovisual a crescer, bem como o próprio concurso. Ao mesmo tempo, seria interessante ter os autores a colaborarem, quiçá, com os casinos em projectos futuros. Macau poderia ficar conhecida como local de bons autores de multimédia. Mas depois deixaram de patrocinar pois diziam que eram projectos muito pequenos para aquilo que eles tinham de mostrar visibilidade. Um dia fiz um orçamento muito grande e eles também disseram que não podia ser por isto ou por aquilo [risos]. Bom, conseguimos fazer algo e isso é que importa. Por aquilo que pareça, a maior parte das pessoas que faziam audiovisual ou filmes acabaram por começar a colaborar com casinos. Nalguma coisa contribuímos, na verdade, nem que seja para o currículo de cada um. Fomos crescendo e começámos a ter júris muito mais multifacetados e profissionais, e o tempo foi passando. Nós expandimos imenso o nosso horizonte com o auxílio de plataformas internacionais. Ao mesmo tempo fomos a diversos festivais e fizemos alguns contactos. Isso permitiu que o nosso evento tenha crescido. Aprendendo com os outros até. Fizemos conexões com produtores de festivais também, com organizações já conceituadas. Pouco a pouco o festival expandiu-se. Já há muitos anos que somos conhecidos fora de Macau. Hoje recebemos trabalhos de todo o lado, trabalhos muito bons.

Por norma, recebem quantos filmes?

Este ano ainda não está 100% completo e posso dizer que recebemos 4.057 filmes. No final das contas são escolhidos cerca de 100 curtas. Estes cento e qualquer coisa são os seleccionados da organização. É a nossa triagem. Depois enviamos para um júri de pré-selecção e esse júri é que analisa e escreve sobre o assunto, deliberando de acordo com uma pontuação. Os melhores pontuados vão para a lista finalista. Mas isto tem diversos processos até chegar à lista final. A lista oficial é que é entregue ao grande júri que decidirá os prémios, ou seja, os filmes vencedores. É um longo processo, na verdade. Temos diversos painéis: grande júri, três painéis para três categorias: ficção, documentário e animação. Temos ainda prémios de prestígio que decorrem da lista final seleccionada. Ainda existe o painel dos vídeos musicais. Representa a parte mais pequena do concurso e esta categoria tem uma limitação: os cantores e as bandas têm de ser de Macau, ou a canção ser escrita ou composta por alguém de Macau. A ideia de criar esta categoria foi para ajudar a indústria local da música. Neste caso, alguém tem de ser residente de Macau. Temos noção que se expandíssemos a parte dos vídeos musicais teríamos outro festival. Daria ainda muito mais trabalho. Teríamos de ter uma equipa exclusiva, só dedicada àquilo. Mas claro que fazia todo o sentido existir um festival assim.

Fazendo um pouco de futurologia, o que podemos esperar para os próximos 18 anos?

Neste momento é continuar o mesmo caminho. Não quero estar a pensar em nada em concreto. Praticamente fizemos tudo aquilo a que nos prepusemos, o que nos deixa bastante satisfeitos e realizados. Talvez haja espaço para uma maior expansão para o exterior. Uma expansão da Creative Macau. Se houver energia e paixão, tudo pode acontecer, naturalmente. Mas é como lhe disse, tudo o que foi proposto e pensámos que valia a pena, aconteceu. Não temos qualquer saudosismo. Houve coisas que não conseguimos fazer, mas no geral estamos muito satisfeitos com as conquistas alcançadas. Sem estar a entrar em utopias, há muitas coisas que podem ser feitas. Basta haver cabeças que pensem algo para partirmos para a aventura. Para além daquilo que temos feito, com calendarização de exposições, iremos continuar com o festival de curtas, obviamente. A programação interna vai continuar a fervilhar e vai manter-se nos próximos anos. Estamos sempre abertos a sugestões e ideias.

E a título pessoal, até quando é que a Lúcia vai ficar à frente do projecto?

Não sei. Estou de alma e coração. Não me sinto cansada, porque isto é sempre interessante. Claro que há momentos mais complicados, mas tudo faz parte. Não me preocupa o futuro. Qualquer pessoa, que não serei eu a escolher, poderá assumir a Creative Macau no futuro. Até lá, terão de continuar a levar comigo [risos]. Repare, não posso estar a inventar o que poderá ser o futuro e, em particular, o meu futuro na Creative Macau. Tudo é circunstancial e especulativo. Posso ficar mais 18 anos ou 50 [risos].

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