China Evergrande faz tremer mercado imobiliário. Macau poderá sentir impacto indirecto

FOTOGRAFIA ALEX PLAVEVSKI/EPA

A dívida de 300 mil milhões de dólares americanos da China Evergrande está a causar apreensão no mercado imobiliário. O valor é 12 vezes superior ao PIB de Macau de 2020 e sete vezes maior que as receitas de jogo da região no seu melhor ano de sempre, 2013. Ao PONTO FINAL, as empresas de imobiliário de Macau estão expectantes para ver o que acontece. Juliet Risdon, da JML, diz que o melhor é esperar para ver como é que as autoridades chinesas lidam com a situação. Já Ryan Choi, da Ambiente Properties, acredita que Macau poderá ser afectado indirectamente.

André Vinagre

andrevinagre.pontofinal@gmail.com

A China Evergrande está em iminência de incumprimento, com dívidas na ordem dos 300 mil milhões de dólares americanos. Colocando o montante em perspectiva, 300 mil milhões de dólares americanos é o equivalente a 12 vezes o PIB de Macau do ano passado; sete vezes as receitas de jogo de Macau de 2013, que foi o melhor ano de sempre; uma vez e meia o PIB de Portugal; e cinco vezes a dívida da Lehman Brothers, que faliu em 2008.

A empresa é o segundo maior promotor imobiliário da China em vendas e tornou-se no 122.º maior grupo do mundo em receitas, de acordo com a lista Fortune Global 500 de 2021. O grupo imobiliário cresceu muito para além da compra e venda de imóveis, sendo que na última década fez grandes investimentos, comprou a equipa de futebol Guangzhou Evergrande e está a construir o maior estádio do mundo, e entrou no mercado dos automóveis. Além disso, está também presente no mercado alimentar e de água mineral, através da marca Evergrande Spring. Turismo, internet, seguros e saúde são outras das áreas onde a Evergrande está presente. A China Evergrande está presente em 280 cidades e emprega 200 mil pessoas directamente e 3,8 milhões indirectamente. Xu Jiayinn, fundador da empresa, detém a quinta maior fortuna da China.

No entanto, no ano passado o Governo chinês tomou medidas dirigidas aos promotores imobiliários para que sejam obrigados a reduzir o seu endividamento. Com as novas medidas impostas por Pequim, as imobiliárias deixaram de poder pré-vender bens imobiliários antes que a construção esteja terminada, prática habitual da Evergrande.

Por isso, o grupo perdeu a capacidade de reembolsar os empréstimos contraídos. A falta de liquidez da empresa fez com que as acções da Evergrande, que em 2021 já perderam 80% do valor de mercado, tivessem diminuído mais de 10% na semana passada.

Uma bola de neve para Pequim segurar

“A empresa não está falida, mas está insolvente”, explica ao PONTO FINAL o economista Albano Martins. Ou seja, “a empresa tem activos maiores do que os seus passivos”. “Ela tem uma liquidez reduzida para o passivo de curto prazo que tem de pagar. Esse não encontro de prazos entre o que ela vai receber na data em que vai receber e na data em que tem de pagar cria esse problema”, completa Albano Martins.

Albano Martins também destaca a “dívida colossal” de 300 mil milhões de dólares americanos, cinco vezes maior do que a dívida da norte-americana Lehman Brothers, que ruiu em 2008, desestabilizando o sistema financeiro global. Para o economista, a questão agora é saber até que ponto é que o Governo chinês está disposto a intervir: “É uma bola de neve cuja dimensão é enorme mas não sabemos até que ponto é que o sistema financeiro chinês vai segurar”.

Contudo, Albano Martins diz acreditar que a China vai tentar controlar os danos e evitar uma eventual queda da empresa fundada em Cantão em 1996. “Sabemos bem que a instabilidade para a China é um grande problema. A China vai tentar controlar, na minha opinião, a explosão que isso possa provocar a nível interno, em Hong Kong e Macau”. “Esta, se cair, vai criar caos, mas eu acredito que a China vai intervir”, diz.

Poderá a situação afectar o mercado imobiliário de Macau? O economista diz que é pouco provável, porque “Macau é uma coisinha pequenina”. “Em Macau não me parece que a empresa em si tenha relações, embora ela esteja sediada em Shenzhen e listada em bolsa de Hong Kong. Lançou obrigações para obter fundos em Hong Kong e muita gente será detentora desses títulos obrigacionistas”, aponta.

Imobiliárias de Macau na expectativa

Ryan Choi é director associado da Ambiente Properties, de Macau, e diz ao PONTO FINAL que, se a empresa cair, o impacto maior será verificado nos fornecedores, bancos e sistema de crédito chinês. No entanto, Choi acredita que o Governo chinês tem preparados planos de contingência para estabilizar o mercado. Comparando esta situação com a da Lehman Brothers, Choi começa por dizer que “são dois países muito diferentes e com sistemas e culturas diferentes”. “O que pode ser feito pelo Governo chinês é muito mais flexível”, explica, sublinhando que, mesmo que a China Evergrande colapse, os danos serão mais controláveis.

Tal como Albano Martins, também Choi acredita que Macau poderá sofrer, indirectamente, com as ondas de choque. “Para Macau, a influência mais directa será nos investidores que têm acções da Evergrande ou produtos relacionados”. “O sistema de imobiliário da China e de Macau são muito isolados, por isso, não vejo um grande impacto directo neste aspecto, mas será uma valiosa lição para aprender sobre o controlo de riscos e sobre o controlo de créditos”, comenta o responsável da Ambiente.

“As imobiliárias de Macau são muito cautelosas sobre os empréstimos. Potencialmente, o que poderá afectar o mercado é na confiança para os investimentos na China”, acrescenta Ryan Choi, frisando que a Autoridade Monetária de Macau (AMCM) já tem “orientações muito claras em relação a bancos, imobiliárias e compradores”.

Juliet Risdon, directora da JML Property, também diz que o impacto está dependente da acção de Pequim: “A questão agora é como é que o problema será tratado. A empresa será resgatada? Se a resposta for sim, existem várias opções que incluem apoio governamental, venda imediata de activos, apoio privado e todas as combinações imagináveis. Se a resposta for não, haverá consequências substanciais para os credores, que presumimos serem principalmente bancos chineses”.

Sobre se a situação poderá afectar o mercado imobiliário de Macau, Juliet Risdon afirma apenas que “é possível que as consequências se façam sentir em Macau e mais além”. Porém, “nesta fase são apenas suposições que dependem da forma como a situação é tratada”, conclui,

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Evergrande chega a acordo para evitar incumprimento de uma das suas dívidas

O gigante imobiliário chinês Evergrande disse ontem ter chegado a um acordo com os detentores de obrigações para evitar o incumprimento de uma das suas dívida. Numa declaração à Bolsa de Shenzhen, no sul da China, o grupo, que está sobrecarregado com cerca de 260 mil milhões de euros de dívida, disse que uma das suas filiais, Hengda Real Estate, tinha negociado um plano de pagamento de juros sobre uma obrigação com vencimento em 2025. Segundo a Bloomberg, Evergrande reembolsaria 232 milhões de yuan da dívida devida na quinta-feira sobre a obrigação de 5,8%, que se destina ao mercado obrigacionista doméstico. Mas o gigante imobiliário baseado em Shenzhen está longe de estar fora de perigo, dado o montante total da sua dívida. Outros reembolsos são devidos na quinta-feira e o grupo ainda não disse como planeia cumpri-los. Os receios de um cenário ao estilo do Lehman Brother, cuja falência precipitou a crise financeira de 2008 nos Estados Unidos, enviaram os mercados mundiais a mergulhar nos últimos dias. Todos os olhos estão postos no governo chinês, que não disse se pretende salvar o grupo privado.

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