As casas de penhores como símbolos de segurança, da economia e de turismo

Na sessão de abertura da conferência online “Narrando o Delta do Rio das Pérolas”, o protagonismo foi para as casas de penhores que se destacavam nos horizontes de Macau e de Cantão. A apresentação esteve a cargo do investigador Paul van Dyke, que explicou que, no final do século XIX e início do século XX, as casas de penhores das duas cidades eram vistas como símbolos de segurança e da economia. Além disso, devido à sua altura, serviam também de miradouros para turistas estrangeiros.

André Vinagre

andrevinagre.pontofinal@gmail.com

Começou ontem a conferência internacional online “Narrando o Delta do Rio das Pérolas”, que é organizada pelo Centro de Tradução e Estudos Anglo-portugueses (CETAPS), da Universidade Nova de Lisboa, e pelo Centro de Investigação e Estudos Luso-asiáticos (CIELA) da Universidade de Macau. Entre ontem e hoje, académicos de várias áreas vão focar-se na história e características das cidades de Macau, Hong Kong e Cantão.

A primeira sessão da conferência ficou a cargo do investigador e antigo docente na Universidade de Macau e na Universidade Sun-Yat Sen de Cantão, Paul Van Dyke. A apresentação de Paul Van Dyke teve como título “Os Lugares Mais Seguros da Ásia: As Casas de Penhores em Macau e em Cantão e os seus Papéis Tradicionais no Delta do Rio das Pérolas”.

Aqui, o investigador falou sobre as casas de penhores nas duas cidades e o seu contexto histórico. Paul Van Dyke referiu que, ao longo de dez anos, tem recolhido muita informação sobre as casas de penhores, estruturas “únicas” e que apenas podiam ser vistas em Macau e Cantão.

Em 1870, os quatro edifícios mais altos de Cantão eram casas de penhores. “É intrigante porque é que estes edifícios se tornaram tão altos, há rumores que circulavam no século XIX que diziam que, quanto mais altos, melhor estava a economia da cidade”. Tal como em Cantão, em Macau as casas de penhores também foram construídas para serem os edifícios mais altos da cidade.

Além disso, “eram conhecidos como sendo os locais mais seguros da Ásia”, assinalou Paul Van Dyke, notando que estas estruturas eram construídas para serem resistentes a incêndios, a terramotos e a inundações, por exemplo. “Eram construídos para sobreviveram a qualquer tipo de desastre”, afirmou. Assim, as casas de penhores, sobreviveram ao grande incêndio de Cantão de 1924, onde milhares de outros prédios tiveram de ser demolidos. Paul Van Dyke disse mesmo que “o melhor sítio para proteger o que quer que fosse era colocar dentro de uma casa de penhores”.

Havia também protecção contra assaltos. As janelas eram tão pequenas que não era possível ninguém entrar através delas. E, se alguém se atrevesse a escalar até ao telhado, deparar-se-ia com um pequeno sítio onde havia guardas com armas.

As casas de penhores, na altura, funcionavam como um banco. Não só eram feitos penhores, como eram concedidos empréstimos. As taxas de juro das casas de penhores eram reguladas pelo Governo. No entanto, alguns empréstimos poderiam ser negociados directamente entre a casa de penhores e o interessado.

Outro dos aspectos destacados por Paul Van Dyke em relação às casas de penhores tem a ver com a sua função enquanto miradouro. Devido à sua altura, era permitida a subida até ao topo para ver a cidade. No entanto, a vista da cidade era exclusiva para estrangeiros, mediante pagamento. Os guias turísticos de Macau e Cantão faziam referência até às casas de penhores enquanto pontos turísticos.

A sátira e a identidade dos textos macaenses do século XIX

Mário Pinharanda-Nunes, investigador da Universidade de Macau, centrou a sua apresentação, no âmbito da conferência internacional online “Narrando o Delta do Rio das Pérolas”, nas publicações macaenses do século XIX “Ta Ssi Yang Kuo” e “Renascimento”.

Estas publicações reúnem, explicou o docente universitário, uma série de textos escritos essencialmente em patuá, que versam sobre temas socioculturais. Há oito temas principais nestas publicações: os remédios tradicionais chineses, medicina chinesa em oposição à medicina portuguesa, o desenvolvimento da cidade, eventos regionais, ‘lifestyle’, alimentação, estereótipos e práticas culturais.

Os textos, notou Mário Pinharanda-Nunes, tinham o propósito essencial de entretenimento. “São sátiras, textos humorísticos”, disse, acrescentando que, além disso, “oferecem uma narrativa da comunidade e de outras comunidades da região, espelham o que já sabemos sobre a região através dos textos e de pinturas”.

Por outro lado, os textos publicados em “Ta Ssi Yang Kuo” e “Renascimento” serviam o propósito de fomentar o sentimento de pertença da comunidade macaense e de partilha dos seus valores culturais. Assim, um dos propósitos era o da documentação da identidade.

Organizada pelo Centro de Tradução e Estudos Anglo-portugueses (CETAPS), da Universidade Nova de Lisboa, e pelo Centro de Investigação e Estudos Luso-asiáticos (CIELA) da Universidade de Macau, a conferência internacional online “Narrando o Delta do Rio das Pérolas” realiza-se também hoje, com sessões que começam a partir das 18h, através da plataforma Zoom. Everton V. Machado, Duarte Braga, Sara Augusto, Mónica Simas, Catarina Nunes de Almeida e Vera Borges vão hoje apresentar palestras sobre os diferentes suportes narrativos na representação do Delta do Rio das Pérolas.

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