“O IFT deve manter o seu foco na globalização e continuar a expandir a rede internacional”

FOTOGRAFIA: GONÇALO LOBO PINHEIRO

Faz este ano duas décadas que Fanny Vong está à frente do Instituto de Formação Turística (IFT). Em entrevista ao PONTO FINAL, diz-se motivada para dar continuidade ao trabalho feito na instituição, apontando para a necessidade de expansão internacional. A presidente do IFT adiantou que a taxa de empregabilidade dos graduados pelo IFT no ano passado caiu de 90% para 62%.

pontofinalmacau@gmail.com

Depois de 20 anos como presidente do Instituto de Formação Turística (IFT), Fanny Vong aponta para o futuro e diz que a instituição de ensino superior de Macau deve “manter o foco na globalização e continuar a expandir a rede internacional”. Em entrevista ao PONTO FINAL, a presidente do IFT deixa elogios ao sector da educação de Macau que “se expandiu em quantidade e avançou em qualidade”. A pandemia, na sua opinião, forçou as instituições a inovarem e a encontrarem meios tecnológicos para as aulas online, por exemplo. O IFT realizou um inquérito à empregabilidade dos alunos que se graduaram no ano lectivo de 2019/2020 e, até Novembro, os resultados divulgados agora por Fanny Vong mostram que apenas 62% conseguiram emprego, quer em full-time, quer em part-time. A presidente do IFT destaca os prémios recebidos pelo restaurante educativo da instituição e diz que o plano agora é apostar na gastronomia macaense. Vong sublinha ainda a importância da vacinação para o retomar da normalidade e diz que são precisos incentivos à população.

Este ano marca duas décadas desde que se tornou presidente do IFT. Sente que ainda tem a motivação e o desejo de permanecer nesta posição? 

Estou grata pela oportunidade de trabalhar com uma grande equipa para dar um contributo a Macau. Ainda me sinto motivada, mas, ao mesmo tempo, estou confiante de que a competência e a perícia de todos os membros da equipa garantem que a continuidade do nosso trabalho não dependa de uma só pessoa. 

O que ainda está por fazer no IFT? Algum projecto em particular?

Ainda há muito espaço para melhorias. O IFT deve manter o seu foco na globalização e continuar a expandir a rede internacional. Com a missão adicional de ajudar a desenvolver Macau na base de educação e formação turística da Área da Grande Baía, o instituto tem vindo a mobilizar recursos para transferir os nossos conhecimentos de formação para a Grande Baía. Ao nível da pós-graduação, devemos continuar a acompanhar as necessidades do mercado e desenvolver novos cursos. Para permanecer competitivo, o IFT tem de continuar a aprender com excelentes instituições e parceiros industriais sobre boas práticas de gestão e tendências educacionais, uma das quais é a crescente influência da tecnologia no desenvolvimento do turismo e na educação turística. Recentemente, embarcámos num projecto de “campus inteligente” para melhorar a gestão de turmas, experiência de aprendizagem e ensino, gestão de instalações, análise de dados, etc., aplicando as mais recentes tecnologias disponíveis.  

Falou na necessidade de desenvolver novos cursos ao nível da pós-graduação. Pode dar um exemplo?

Na área da tecnologia. Por exemplo, nós vamos lançar um novo Mestrado em tecnologias inteligentes para a indústria hoteleira e turismo. A influência da tecnologia está a ficar cada vez maior e não é apenas no sector da informática, penetrou em diferentes sectores do ambiente de negócios, no turismo em particular.

O IFT é geralmente descrito como uma das melhores, se não a melhor, instituição de ensino superior de Macau. Como vê a sua evolução desde a sua criação, e qual é a sua visão geral sobre o desenvolvimento do sector da educação em geral? Nomeadamente, existem outras instituições que mereçam ser elogiadas por algum motivo específico?

O ensino superior de Macau tem uma história bastante curta, o mesmo acontece com o IFT. Acabámos de celebrar o nosso 25.º aniversário e estamos orgulhosos da nossa contribuição para o desenvolvimento de Macau. Em geral, penso que todo o sector da educação de Macau se expandiu em quantidade e avançou em qualidade. Diversas instituições e programas foram listados nos rankings universitários mundiais ou alcançaram reconhecimento internacional.

Que problemas ainda identifica no sector da educação, nomeadamente ao nível do ensino superior? E que passos devem ser dados para ajudar a resolvê-los?

O conteúdo tecnológico em muitos currículos do ensino superior, especialmente nos domínios não científicos e tecnológicos, precisa de ser reforçado. A tecnologia está a impulsionar o desenvolvimento da nossa sociedade de muitas maneiras. Tomemos como exemplo a indústria do turismo, a tecnologia tem racionalizado as operações, reduzido pessoal e estrutura organizacional, acelerado a desintermediação dos serviços de viagens, e permitido aos clientes participar directamente na cocriação de experiências turísticas. A inteligência artificial e a robótica estão a assumir as tarefas de manutenção em hotéis, incluindo limpeza, serviço, segurança, cozinha, etc. Como educadores, temos de nos reorientar para o desenvolvimento de competências transversais, capacidades de gestão e liderança, e espírito empreendedor nos nossos estudantes, para que estes sejam capazes de liderar, em vez de serem liderados por mudanças e perturbações na próxima vaga de revolução tecnológica.

Quando se olha para as universidades locais como um todo, diria que elas oferecem uma ampla escolha à comunidade local, o que foi algo que durante muitos anos não existiu e forçou talvez demasiados jovens locais a estudar no estrangeiro?

Macau é uma pequena cidade com uma diversificação económica limitada, algo que o Governo tem trabalhado arduamente para mudar. É compreensível que as instituições de ensino superior de Macau não possam oferecer uma vasta gama de disciplinas. Em termos económicos, a divisão do trabalho permite às organizações e nações capitalizar os seus pontos fortes e ganhar vantagem competitiva, especializando-se no que podem fazer melhor. Isto é o mesmo para Macau, creio que o ensino superior de Macau já o está a fazer – há certas disciplinas em que temos uma vantagem competitiva, por exemplo, nos estudos portugueses e no turismo.

Fotografia: Gonçalo Lobo Pinheiro

No seu ponto de vista, a qualidade das escolas locais está a obter um maior reconhecimento internacional?

Sim, algumas universidades e instituições locais têm tido um bom desempenho nos rankings internacionais. Além disso, a nova lei do ensino superior de Macau determina que as instituições de ensino superior sejam regularmente sujeitas a uma análise de garantia de qualidade.

A nível pessoal, como foi o ano passado? Que tipo de constrangimentos lhe causou a pandemia?

O ano passado foi um ano excepcionalmente difícil, mas foi também inspirador. Desafiante no sentido em que a Covid-19 mudou a nossa forma de viver, trabalhar e estudar. Colocou barreiras nas viagens e nas actividades sociais. No entanto, acelerou o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias inteligentes em diferentes aspectos da vida. Na educação em particular, tem forçado as instituições de ensino a acelerar a sua agenda tecnológica inteligente. Fomos inspirados pelas diferentes soluções proporcionadas pela tecnologia para manter o ensino e a aprendizagem, e descobrimos a enorme capacidade de adaptação do nosso corpo docente e dos estudantes. Ser adaptável e inovador são qualidades essenciais dos professores e dos alunos.

E como é que a pandemia afectou o IFT? Haverá talvez demasiadas mudanças forçadas devido a esta crise?

Adoptámos um modo de aprendizagem híbrido – online e offline; aplicámos uma mistura de métodos de avaliação; atrasámos os componentes práticos de alguns cursos ao mesmo tempo que tentámos evitar atrasos na graduação dos estudantes.

Em Setembro disse ao PONTO FINAL que um dos principais objectivos para o futuro do IFT era atrair mais estudantes internacionais. Esses esforços foram interrompidos ou conseguiu-se avançar, apesar das dificuldades actuais? A promoção do IFT no estrangeiro ainda está a ser feita?

Os esforços foram interrompidos devido a restrições de entrada. No entanto, ainda estamos a fazer promoções internacionais. A construção de marcas não é uma actividade pontual, leva muito tempo a penetrar em novos mercados e a ganhar reconhecimento.

Quando espera um aumento significativo do número de estudantes internacionais?

Não temos um calendário para isso, depende realmente de quando é que as restrições de viagem podem ser levantadas.

Indicou que em Março haveria um inquérito sobre a taxa de empregabilidade dos estudantes que se graduaram no IFT no ano passado. Já existem alguns resultados desse inquérito?

Realizámos o inquérito de colocação de carreira para 2019/2020 aos licenciados em Novembro de 2020. O número total de licenciados dos Programas de Bacharelato 2019/2020 foi de 359. Entre aqueles que receberam o questionário, recebemos 265 respostas válidas, com uma taxa de resposta de 73,8%. Verificámos, no total, uma taxa de empregabilidade de 62%, juntando os empregos em full-time e part-time. De Novembro de 2020 até agora, a situação pode ter mudado.

Cerca de 62% de taxa de empregabilidade. Era o que esperava?

Claro que não, mas tendo em conta a situação e considerando o que aconteceu no ano passado durante o período da Covid, os estudantes conseguiram ter alguma forma de emprego, mesmo que não tenha sido numa base de full-time.

Para fazer a comparação, qual foi a taxa do último ano lectivo?

Cerca de 90%.

O restaurante educativo do IFT recebeu recentemente uma série de prémios. Quão importante é isso para a instituição? 

Os prémios representam um reconhecimento da indústria da qualidade do restaurante educativo IFT. Isto é importante porque implica que a gestão e as operações da unidade de formação são comparadas com elevados padrões internacionais, e apreciadas pelos nossos clientes. Implica também que estamos a transferir conhecimentos e competências que são contemporâneas e essenciais, e que podem preparar bem os nossos estudantes para servir na indústria. O restaurante educativo do IFT é dedicado à gastronomia local e regional sustentável; embora sendo uma unidade de formação para estudantes, serve também como elo de ligação com a comunidade e parceiros da indústria.

Fotografia: Gonçalo Lobo Pinheiro

As autoridades locais têm-se focado na cozinha local. Que papel pode o IFT desempenhar nesta matéria, em termos de restauração, mas também a nível curricular? A experiência do lago Nam Van foi boa? E prevê uma maior expansão dos pontos de venda do IFT em todo o território?

O IFT está a colaborar com o Instituto Cultural e com a Direcção dos Serviços de Turismo num projecto para preservar e promover a cozinha macaense. O nosso papel é mais na formação, para transmitir os conhecimentos e competências às gerações mais jovens, bem como na ajuda à criação de uma base de dados de receitas culinárias macaenses. Já incluímos a cozinha macaense em alguns dos nossos cursos. A experiência do lago Nam Van foi uma boa experiência. O projecto ajudou a que o local passasse a ser mais apreciado pelos habitantes locais e turistas. A nossa missão foi concluída e entregámos ao sector privado para continuar a oferecer experiências culinárias agradáveis no lago Nam Van. Não prevemos uma maior expansão em todo o território.

Como tem visto os esforços do Governo para trazer os turistas de volta a Macau? São suficientes?

Considerando as restrições globais às viagens e os desafios no lançamento das vacinas, o Governo de Macau já está a fazer um bom trabalho no reinício do turismo. Acima de tudo, protegeu os residentes locais da pandemia, e tornou Macau num dos destinos turísticos mais seguros do mundo. Quando a situação em Macau e no continente se tornou estável, o Governo começou imediatamente a fazer promoção no continente logo em Setembro do ano passado. Graças aos esforços, temos assistido a um aumento constante das chegadas turísticas nas últimas semanas.

Em Setembro disse que a prioridade deveria ser a abertura de Macau aos visitantes da China continental. Ainda tem essa visão?

Penso que já não é uma visão, mas sim uma realidade. A Direcção dos Serviços de Turismo tem vindo a fazer promoção no continente para trazer de volta os visitantes.

Qual é a importância do plano de vacinação para a recuperação do sector do turismo? Encoraja o seu pessoal a fazê-lo o mais rapidamente possível?

Creio que o plano de vacinação é importante para o relançamento do turismo. No entanto, as notícias sobre os efeitos secundários das vacinas e a suspensão de certas marcas de vacinas em alguns países são também preocupantes. Todos devem tomar a sua própria decisão sobre a vacinação com base na sua história e condições de saúde pessoais.

O Governo não deveria promover mais o plano de vacinação e dar mais incentivos à população para que se vacine?

Sim, acho que sim. 

Que tipo de incentivos poderiam ser dados?

Por exemplo, para as pessoas já vacinadas poderia ser dispensável a realização dos testes de ácido nucleico. Este tipo de conveniência seria um incentivo para o público.

Como pensa que Macau e o mundo em geral sairão desta crise? Que tipo de mudanças prevê para o seu sector, e para a sociedade em geral?

Estou confiante de que acabaremos por sair da pandemia. Prevejo uma procura crescente de ambientes de viagem e lazer seguros, limpos e higiénicos em aviões, aeroportos, hotéis, autocarros, etc. Trabalhar e estudar online, ou em combinação com o modo virtual, permanecerá e tornar-se-á ainda mais prevalecente do que agora. Mais reuniões de negócios serão conduzidas online.

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