“Assim que a vacina saia vamos ficar todos bem e o coronavírus vai desaparecer como por magia”

Fotografia: Eduardo Martins

Um ano depois dos primeiros casos diagnosticados de Covid-19 em Wuhan, o mundo espera por uma vacina que permita o regresso à normalidade no meio de um clima de tensões políticas e troca de acusações entre EUA e China. Em entrevista ao PONTO FINAL, Chan Shek Kiu, especialista em Biologia Molecular e investigador da Universidade de São José, considerou que as suspeitas de que o coronavírus tenha sido criado em laboratório não têm fundamento científico e acredita que a China terá a primeira vacina mundial no mercado. Para além de elogiar as medidas de prevenção de Macau, o professor com mais de trinta anos de experiência na área científica lamentou ainda que a luta contra o vírus tenha sido politizada.

Texto: Eduardo Santiago

Fotografia: Eduardo Martins

Com um doutoramento em Biologia Molecular na Universidade de Estrasburgo no início da década de 70, Chan Shek Kiu estudou durante vários anos vírus tanto em plantas, como nos seres humanos, nomeadamente a herpes e um tipo de vírus que causa leucemia em ratos. Depois de um pós-doutoramento no Departamento de Biologia Molecular da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e de uma passagem pelo Texas Medical Centre, em Houston, Chan Shek Kiu rumou ao Canadá para trabalhar no Cancer Research Laboratory da University of Western Ontario, em Ontário, antes de chegar a Macau, em 1986, para leccionar na Universidade de Macau e aprofundar o seu interesse na área da protecção ambiental, gestão ambiental, ervas medicinais chinesas e medicina tradicional chinesa. Com mais de trinta anos de experiência na área científica, Chan Shek Kiu acompanhou o surgimento de vários vírus mediáticos, nomeadamente o VIH no início da década de 80 e o SARS no início do século XXI.

O que faz um vírus sofrer mutações?

É muito comum os vírus sofrerem mutações. O que determina essas mudanças são normalmente as sequências das bases de Guanina, Adenina, Citosina, Timina. São quatro bases nas moléculas de ADN (ácido desoxirribonucleico) e uma mais no caso do ARN (ácido ribonucleico). Basta haver uma mutação numa delas, por exemplo, uma base Guanina transformar-se em Timina, e só isso irá ter enormes repercussões, pois torna tudo diferente. Basta haver esta pequena variação para que a estrutura da proteína seja totalmente diferente. E isso pode ocorrer por via de radiações ou processo químicos. É por isso que há estudos que indicam que se pode desenvolver cancro por exposição a certos químicos que levam à mutação da nossa estrutura de ADN.

Os coronavírus foram identificados em vários animais durante anos. O que é que os distingue dos vírus normais?

Os coronavírus têm esse nome devido à proteína que os envolve com uma espécie de espigões e que parece uma coroa. Vem do latim corona, que significa coroa. Há um grupo de vírus deste tipo, o mais famoso era o SARS, depois surgiu o MERS, e todos estes são coronavírus. Os coronavírus não surgiram do nada pois são comuns em animais como os morcegos. Um vírus não consegue sobreviver fora de um organismo vivo, nesse sentido é um parasita, uma vez que sem um hospedeiro não se podem replicar porque não têm os mecanismos para o fazer. Os humanos têm ribossomas para elaborar uma proteína. Há dois grupos de vírus basicamente. Um grupo tem os seus genes contidos numa molécula de ADN, como o vírus da gripe ou os vírus das plantas, ou numa molécula de ARN como é o caso dos coronavírus, que utilizam ARN como seu material genético. E depois temos os grupos de vírus como o da SIDA, que na sua natureza utilizam ARN como material genético, mas que, quando entram num hospedeiro, utilizam os recursos do próprio hospedeiro para produzir ADN. 

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Os hospedeiros naturais dos coronavírus são animais como morcegos. Uma das hipóteses levantadas no início da pandemia para a infecção em seres humanos foi a ingestão de carne de morcego. Apoia esta tese?

A questão que se levanta é como é que o coronavírus passou de morcegos para os humanos. Esse é o mistério que ainda não foi resolvido. Estes vírus vivem confortavelmente em morcegos, mas a hipótese mais forte que se coloca é que houve um organismo intermediário entre os morcegos e humanos. Se um morcego for bem cozinhado não há risco de contágio. Os coronavírus como o SARS ou o MERS são encontrados em animais sem risco para os seres humanos, mas ninguém sabe qual o mecanismo que permitiu a infecção em humanos. Os dados recolhidos pela comunidade científica apontam para um hóspede intermediário, mas ainda é um dos mistérios que não foi solucionado. Os coronavírus são muito comuns em morcegos ou nos pangolins e também em cobras.

Em Setembro, a virologista chinesa, Yan Li-Meng, alegou que o governo chinês libertou o Sars-CoV-2 intencionalmente depois de ter sido criado em laboratório. Como encara essa hipótese?

Apesar de haver pessoas que dizem que o novo coronavírus foi criado em laboratório pela China, estudos científicos publicados indicam precisamente o contrário, ou seja, que não poderia ter sido criado artificialmente porque a sua base é rigorosamente igual à dos coronavírus que se encontram na natureza. Os cientistas descobriram que este coronavírus tem a mesma estrutura de base dos outros já identificados na natureza que não infectam os seres humanos. Na opinião dos cientistas, não há forma de replicar esta base através de engenharia genética para criar este coronavírus.

No entanto, Yan Li-Meng fugiu para os EUA e assegurou que o coronavírus foi criado numa base militar chinesa. Acha que é propaganda política?

Há pessoas que mentem e que fazem declarações de natureza dúbia. Independentemente do que se diga, por vezes surgem personagens com alegações deste género nos EUA a dizer que eram espiões da China ou outra coisa qualquer, mas provavelmente são pagas pelo governo dos EUA para atacar a China. Tem sido uma cantiga recorrente nos últimos tempos. E depois há também o outro lado a dizer que foram soldados norte-americanos que trouxeram o coronavírus para a China numas olimpíadas militares em Wuhan, ou que agentes da CIA foram apanhados em Hong Kong a espalhar o vírus, não acredito em nada disso e não faz qualquer sentido. Temos que nos basear na ciência.

Quer dizer que a hipótese de manipulação genética para a criação do novo tipo de coronavírus não tem qualquer tipo de sustentação científica?

Até agora não. Quem disser que foram os chineses que criaram o coronavírus em laboratório está a mentir e a dizer disparates. Já foi provado por outros cientistas que tal não é possível. 

Em contraste há um movimento que nega a existência da Covid-19 em países como os EUA e outras democracias liberais no Ocidente e que se opõe às medidas sugeridas pela comunidade científica. Acha normal que isto aconteça em países desenvolvidos?

Parece que há dois campos distintos no ringue. Num canto há um movimento que diz que a Covid-19 é um embuste, enquanto que no outro está toda a comunidade científica que classificou o novo tipo de coronavírus como um risco de saúde pública. 

As questões políticas estão a interferir nas questões de natureza científica neste caso concreto do coronavírus?

Não tenho dúvidas de que todos os processos foram demasiado politizados. Creio que as pessoas têm de prestar atenção aos factos da ciência e não à demagogia dos políticos, e acompanhar órgãos de comunicação neutros com informação validada pela ciência. Acompanho os trabalhos científicos credíveis desenvolvidos por cientistas da China, EUA ou Europa, e não há provas de que o vírus tenha sido criado em laboratório, nem que seja um embuste. Nos EUA, por exemplo, a situação está num extremo com duas posições em constante ataque diário.  

Fotografia: Eduardo Martins

Grande parte dos meios de comunicação no Ocidente continua a dizer que o coronavírus teve origem num mercado em Wuhan, mas um estudo recente proveniente de Itália provou que o coronavírus Sars-CoV-2 já estava na Europa em Setembro de 2019, muito antes do que tinha sido imaginado até agora. Acredita que o coronavírus tenha surgido na China?

Em Itália encontraram provas de que já havia anticorpos contra o novo tipo e coronavírus em Setembro de 2019, ou seja, muito anterior ao primeiro surto no tal mercado de Wuhan. E mesmo nos EUA encontraram anticorpos do novo tipo de coronavírus em pessoas que tinham morrido por alegadas complicações do vírus da gripe. O que parece indicar que o vírus já existia muito antes de Wuhan e que simplesmente não se sabia que houve pessoas que morreram por problemas causados pela Covid-19. Ou seja, muitas das pessoas que morreram de gripe nos últimos anos podem ter tido Covid-19. Entretanto já foram identificados vários coronavírus e descobriram que o de Wuhan não é o mais recente e que o mais antigo até pode ter surgido na Europa. 

Então porque razão acha que houver um grande foco de contágio no mercado de Wuhan que levou à identificação da Covid-19?

Compreendo que se tenha olhado para o mercado de Wuhan como um grande foco de contágio porque foi encontrado o vírus em morcegos como no caso do SARS. Se a carne não for bem cozinhada pode haver risco de contágio. Mas não tenho medo deste vírus porque sei que é muito difícil desordená-lo, mais fácil até do que uma bactéria. No caso de uma bactéria temos de utilizar altas temperaturas, antibióticos. Mas no caso de um vírus, basta saber primeiro se tem como base ARN ou ADN e identificar a proteína. Um simples detergente com que lavamos as mãos provoca o processo de dissociação do vírus, ou seja, o ARN ou ADN será separado da proteína. É mais ou menos como se usar um casaco impermeável e se utilizar água, não tenho problemas. Mas assim que não usar casaco fico a correr um risco. É a mesma coisa com um vírus. O detergente pode ser um agente de dissociação do vínculo entre a proteína e o ADN ou ARN.

Só uma vacina pode resolver esta situação?

Já há medicamentos que foram utilizados, como foi no caso do Presidente dos EUA, com alguns resultados, e neste momento há sete vacinas em desenvolvimento. A China está a desenvolver algumas. Depois temos a da Pfizer & BioNtech, Moderna, temos a de Oxford, uma belga e outra russa. No caso dos medicamentos temos a abordagem com base em esteroides, interferones ou tratamentos com sangue de pacientes recuperados.

Apesar do desenvolvimento de vacinas, acha que é possível encontrar uma cura para a Covid-19? 

É tal como o SARS. É difícil de dizer. Como é que o SARS desapareceu? Ele ainda existe, mas as pessoas têm anticorpos e o vírus não interage connosco, e com o tempo acabou por desaparecer. No caso da gripe, o vírus sofre mutações muito mais rapidamente. Porque é que é tão difícil fazer uma vacina da gripe? Porque quando queremos fazer uma vacina é necessário um ano, e mesmo assim, durante esses seis meses, o vírus já sofreu novas mutações. É como correr atrás de um comboio, estamos sempre atrás. Agora, parece que o coronavírus não é assim tão grave como a gripe. Na Dinamarca tiveram de isolar uma série de martas com coronavírus e descobriram que é um tipo de coronavírus diferente do nosso. Se o coronavírus sofresse mutações rápidas como o vírus da gripe estaríamos em dificuldades. 

No início do século XX, a pandemia da influenza matou milhões de pessoas em todo o mundo. Apesar de ter sido apelidada de gripe espanhola, o vírus parece ter tido origem nos EUA. Há alguma relação entre estas duas pandemias separadas por mais de um século?

De acordo com o que vemos há uma certa semelhança entre os dois casos. No início do século XX, a influenza começou nos EUA, mas os norte-americanos apelidaram-na de gripe espanhola. Os norte-americanos estão sempre a culpar os outros (risos). É essa a mentalidade deles. No caso do surto da influenza o vírus era o H1N1, que também é um vírus ARN, mas não tem a tal coroa. Já o coronavírus, como tem a proteína proeminente, pode suturar as células humanas. Neste momento há sete vírus diferentes de influenza pois sofreram mutações muito rapidamente. Talvez neste aspecto possam haver algumas semelhanças entre o coronavírus e o vírus da influenza. Mas o vírus da gripe pode sofrer mutações muito mais rápido do que o coronavírus. A outra diferença é a proteína que envolve o coronavírus. No início do século XX não havia vacina, tiveram de começar do zero. E mesmo agora também não temos uma vacina pronta e estamos a correr atrás da mutação. Precisamos de pelo menos um ano para garantir uma vacina tendo em conta que a mutação não irá parar. Antes de começarem uma vacina, o vírus já sofreu mutações. Esse foi o problema com a influenza, e por isso matou milhões de pessoas. O coronavírus, o SARS, tinha uma elevada taxa de mortalidade muito rápida, mas não sofria mutações tão rápidas como a influenza. Num plano geral de pandemia são muito semelhantes, mas acho que depois de Dezembro irá surgir uma vacina porque há muitos países a desenvolver uma vacina. A China tem cinco empresas a desenvolver uma vacina e todas elas têm resultados promissores, com elevada taxa de eficácia e sem efeitos secundários. Creio que a vacina chinesa será a primeira a sair.

Porquê?

As empresas chinesas utilizaram diferentes técnicas na fase de desenvolvimento das vacinas. Uma das técnicas foi utilizar uma parte da proteína viral para desenvolver anticorpos. Há diferentes abordagens. Outra técnica foi a utilização de um adenovírus. Creio que a vacina chinesa está numa boa fase de desenvolvimento. Estou confiante de que no início do próximo ano a vacina chinesa vai estar disponível e que tudo vai regressar à normalidade, mas sou um optimista por natureza. Assim que a vacina saia vamos ficar todos bem e o coronavírus vai desaparecer como por magia.

Fotografia: Eduardo Martins

Como avalia as medidas implementadas por Macau para conter o vírus? Havia mais alguma coisa que pudesse ter sido feita?

Creio que as medidas adoptadas na China, Macau e Hong Kong foram as mais adequadas, especialmente em Macau. Até agora não voltámos a registar novos casos e isso não é fácil de alcançar. Em Hong Kong continuamos a ter casos. No mês passado estive na região de Guangdong e reparei que grande parte das pessoas não usava máscara. Na semana passada regressei ao interior da China e voltei a constatar que ninguém usa máscara. Macau foi um excelente exemplo de contenção do vírus.

Porque acha que Hong Kong continua a ter casos mesmo com as fronteiras fechadas?

Há residentes de Hong Kong que continuam a regressar de países da Europa, França, Inglaterra, e podem ter vindo já infectadas.

Macau está há vários meses sem casos no território, mas as fronteiras continuam fechadas a estrangeiros e abertas a residentes do interior da China. Esta medida ainda faz sentido?

Pessoalmente gostaria que as fronteiras de Macau voltassem a abrir a estrangeiros, seria muito bom para o território. Mas depois vemos o número de casos no Brasil, Itália, EUA, se deixássemos entrar toda a gente como antigamente poderíamos ficar todos em risco porque muitos poderiam vir infectados. Sem vacina é arriscado, mesmo que não tenha sintomas ou tenha feito o teste sete dias anteriores. Mesmo assim há sempre risco.

Houve uma segunda vaga forte Europa e nos EUA, mas os números da China continuam baixos. Há alguma razão para esta diferença de valores?

Primeiro de tudo, acho que a China aprendeu bem a lição como conter o vírus durante a primeira vaga em Wuhan. E como é que o fizeram? Fecharam cidades inteiras, mesmo que este tipo medidas só poderia ser implementada por um país comunista. Em países liberais ou democráticos como na Europa ou EUA, as pessoas invocaram direitos humanos para se oporem às medidas de confinamento e prevenção da pandemia. Mas na China não é assim, caso contrário vão parar à prisão. Nesse sentido, este tipo imposição foi benéfica para conter o coronavírus nas comunidades. Em Wuhan houve pessoas forçadas a quarentena, o que do ponto de vista social é terrível, mas a verdade é que funcionou. Durante o SARS recordo-me que Hong Kong teve maior incidência de casos em comparação com a província de Guangdong. Uma das razões foi porque na província de Guangdong abriam as janelas dos hospitais para fazer circulação de ar, ao contrário de Hong Kong onde tudo estava fechada com ar condicionado. Neste momento, basta haver um caso confirmado que quase se fecham cidades e aldeias para quarentena. Isso nunca poderia ser feito nos EUA ou em qualquer país democrático porque iria haver sempre alguém a invocar direitos humanos para se recusar a usar máscara.

Na década de 50 assistiu-se a uma corrida tecnológica entre EUA e União Soviética que culminou com a corrida ao espaço e o primeiro homem a aterrar na Lua. Em pleno século XXI, a procura por uma vacina é uma nova corrida ao espaço entre duas superpotências?

Há uma certa semelhança entre a corrida à vacina e essa corrida ao espaço. Temos vários países na corrida para apresentar a primeira vacina contra a Covid-19, creio que não apenas pela ciência, mas também por questões políticas. Mas não interessa porque será sempre bom para a natureza humana e irá trazer um benefício comum para todos. Pelo menos não estamos numa corrida ao armamento para destruir civilizações inteiras. Estamos todos a trabalhar para um bem comum. Tanto a ciência como a tecnologia vão sair beneficiadas com a perspectiva de fazer dinheiro. Quem desenvolver a vacina vai fazer muito dinheiro e ao mesmo tempo ajudar muitas pessoas.

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