Revitalização do sector do jogo depende da capacidade de testes de Guangdong e Macau, avisam analistas

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

A reabertura das fronteiras entre Macau e a província de Guangdong poderá beneficiar a indústria do jogo com o regresso de milhares de visitantes do interior da China, que representam mais de 40% do turismo no território. Apesar do alívio das restrições de viagem entre as duas regiões, analistas contactados pelo PONTO FINAL consideraram que a capacidade de realização de testes de ácido nucleico de Macau e Guangdong será fundamental para os casinos.

Eduardo Santiago

eduardosantiago.pontofinal@gmail.com

O alívio das restrições de viagem entre Macau e Guangdong anunciadas pela China na segunda-feira tiveram um impacto quase imediato no valor das acções das concessionárias cotadas em Bolsa, com subidas de 7% da Wynn Macau e de 5% da MGM China nas primeiras horas da manhã de terça-feira. O anúncio da reabertura das fronteiras entre as duas regiões a partir de hoje às 6h00 foi encarada por muitos analistas como um primeiro passo rumo à recuperação do sector.

“Esperamos que a procura de Guangdong possa recuperar rapidamente para 70% dos níveis normais, supondo que os vistos individuais sejam retomados em breve”, referiu DS Kim, analista da JP Morgan em Hong Kong.

Com o aumento do valor das acções das concessionárias dos casinos devido ao alívio de algumas restrições nas viagens entre a China e Macau, a JP Morgan Chase & Co. antecipou uma melhoria na receita bruta de jogo na ordem dos 20% a 25% em relação aos níveis de 2019, ou de 150 milhões para 200 milhões de patacas por dia, no próximo mês, que “será um teste decisivo para o tamanho da procura reprimida, e que irá ajudar a definir uma base para a recuperação de 2021”, pode ler-se no documento assinado pelos analistas DS Kim, Derek Choi e Jeremy Na.

“Na minha opinião esta decisão é uma luz ao fundo do túnel para a indústria do turismo e do jogo de Macau. Creio que os agentes dos sectores estão optimistas com este sinal positivo, pois parece ser uma espécie de andar para a frente. Agrada-me esta ideia de corredor especial com uma redução de pessoas, mas que irá permitir o regresso aos hotéis e aos casinos. É um período para vermos como é que esta interacção corre e será uma oportunidade para testar os sistemas”, afirmou Glenn McCartney, especialista em Marketing de Turismo.

“Esperamos que alguma procura reprimida venha a materializar-se rapidamente em Macau à medida que as restrições de viagens diminuam”, indicou Vitaly Umansky, analista da Sanford C. Bernstein, acrescentando que, apesar das dificuldades para visitar Macau de pessoas fora de Guangdong, “a tendência geral está a mover-se na direcção certa”.

Para Glenn McCartney ainda não se pode fazer uma antevisão sobre o perfil dos turistas que vão regressar a Macau com a reabertura das fronteiras com Guangdong. “Vamos ver o que vai acontecer nos próximos meses, analisar a quantidade de pessoas que virá a Macau da província de Guangdong e o tipo de gastos que vão fazer. Na China há um fenómeno no comércio a retalho designado por gastos de vingança em que as pessoas têm dinheiro para gastar porque não podiam ir a lado nenhum devido ao contexto de pandemia. Será que esse factor irá ter um impacto em Macau em termos dos casinos e das compras no comércio a retalho? Neste momento, Macau não tem muito para oferecer para além da indústria do jogo porque deixámos de ter muitos dos eventos de entretenimento, nomeadamente o ‘The House of Dancing Water’. O gasto básico dos visitantes deverá ser em refeições, bebidas e compras, porque agora não há espectáculos ou concertos”, indicou.

Província de Guangdong representou mais de 40% do turismo de Macau em 2019

Em 2019, os visitantes de Guangdong corresponderam a cerca de 46% de todos os visitantes chineses da China continental em Macau, com um peso entre 30% a 35% da receita bruta de jogo no ano passado. O alívio das restrições entre as duas regiões irá representar também uma oportunidade para a revitalização do sector do jogo. No entanto, há factores e riscos a ponderar, segundo alguns analistas.

“Quero acreditar que os casinos estão preparados para atrair o maior número de jogadores, provavelmente com alguns descontos, que também já davam antes nos quartos de hotel e nos pacotes que já devem ter preparado para que venham mais pessoas a Macau. Vejo isto mais como um teste àquilo que pode vir a ser o futuro, do que uma abertura total. Estamos a falar de um primeiro passo para que as coisas voltem, mais ou menos, à normalidade”, afirmou Pedro Cortés, advogado e especialista do sector do jogo.

De acordo com o analista, a situação pandémica veio, mais uma vez, demonstrar que Macau precisa urgentemente de diversificar a sua economia, pois está muito dependente da indústria do jogo. A queda das receitas dos casinos na ordem dos 90% nos últimos três meses é mais do que um alerta, indicou Pedro Cortés. “Temos de olhar para isto como um alerta porque chegámos à conclusão que não podemos depender só de uma indústria, temos provavelmente de mudar um bocadinho a página e focarmo-nos também nessa diversificação de economia que pode passar por espectáculos, outro tipo de atracções que tivemos durante algum tempo.”

No entanto, o possível regresso de turistas do interior da China terá um impacto significativo num sector praticamente estagnado. “É melhor ter alguma coisa, deixar crescer alguma coisa, do que não ter nada, porque caso contrário, se isto continuasse da forma como está agora, provavelmente iríamos ter algum tipo de manifestações sociais porque, mesmo que tenhamos bolsos muito fundos, há uma altura em que já não conseguimos chegar ao fundo do bolso, e quando assim é começa a faltar dinheiro, e todos sabemos que as empresas são para dar lucro aos accionistas”, frisou o especialista, acrescentando também que há riscos nesta reabertura, nomeadamente o possível surgimento de novos casos de infecção.

“Esta medida era mais do que necessária e é muito bem-vinda. Vamos ver como é que será implementada pois temos de ver se não põe em risco tudo aquilo que foi feito pelo Governo de Macau para manter a região praticamente sem casos”, afirmou Pedro Cortés, admitindo que é possível o ressurgimento de casos em Macau com a reabertura das fronteiras, e que isso seria muito prejudicial para o negócio dos casinos. “Havendo problemas de saúde pública, o que me parece que irá acontecer no futuro próximo, pois somos capazes de ter um ou dois casos, temos de ver se não fecham as fronteiras outra vez. Porque se voltam a fechar, então aí é que me parece que as concessionárias vão ter de começar a pensar em fazer as malas e viajar para outras paragens porque nos próximos tempos não vão conseguir ter aqui grandes factores de atracção para continuarem em Macau”, assinalou.

Um dos factores apontados pelos analistas da JP Morgan para uma recuperação mais significativa do sector do jogo foi o eventual regresso dos vistos individuais, pois caso o sistema de vistos IVS seja restabelecido para cerca de 70% dos níveis normais, isso significaria que a receita VIP poderia crescer entre 80% e 90%, e a receita do jogo de massas entre 50% e 60%.

“Não dá para perceber quando é que os vistos individuais voltarão a ser autorizados em muitas das cidades que estão dentro deste programa. Por isso é necessário ter em conta quando é que o programa de vistos individuais voltará a estar em vigor, porque essa parece-me ser também a questão decisiva em toda esta matéria”, comentou Pedro Cortés, adiantando que, perante o contexto actual, a estratégia das concessionárias deverá passar por uma aposta no mercado VIP. “Se calhar, a estratégia passa por uma aposta do mercado VIP ou no mercado de uma gama mais alta do que mercado de massas no sentido de tentar trazer mais clientes e jogadores de qualidade ao invés de quantidade. Os casinos sabem perfeitamente trabalhar com o mercado VIP, não sei também até que ponto é que os grandes jogadores terão disponibilidade financeira e até mental para virem apostar grandes quantidades de dinheiro nos nossos casinos, mas a verdade é que o jogo faz parte da cultura.”

Macau e Guangdong precisam de reforçar capacidade de testes à Covid-19

Com capacidade para realizar 16 mil testes de ácido nucleico por dia e um sistema de marcação de cinco mil pedidos diários, as autoridades de saúde de Macau poderão enfrentar muitas dificuldades caso não seja reforçada a quota de testes, uma vez que para além da obrigatoriedade de apresentação do teste de ácido nucleico negativo para entrar no território, os casinos também vão exigir, a partir de hoje, o mesmo documento. Uma situação que poderá afectar os casinos. 

“Os casinos dependem dos resultados dos testes, e mesmo em Macau há pessoas que têm dificuldade para fazer testes de ácido nucleico. Agora somos obrigados a fazer o teste para podermos entrar nos casinos. O ponto crucial é tentar perceber como é que Macau e Guangdong vão melhorar a sua capacidade de realização de testes”, começou por explicar Alidad Tash, estrategista e director geral da 2nt8, empresa de consultoria especializada na indústria do jogo.

Para o especialista, não há dúvidas de que a reabertura de circulação entre Macau e Guangdong irá ter um “impacto significativo” na indústria do jogo. No entanto, Tash assinalou a importância do acesso aos testes. “Claro que quando algo está praticamente morto e de repente ressuscita, isso é uma boa notícia. A questão que importa aqui frisar não é sobre a reabertura das fronteiras, mas sim sobre as facilidades para acesso aos testes de Covid-19. Qual será a capacidade de realizar testes de Guangdong e de Macau? Nesse sentido, a quantidade e rapidez com que Macau irá realizar testes será crucial, assim como o aumento da sua própria capacidade. Ainda hoje [ontem] houve uma situação em que os Serviços de Saúde de Macau não conseguiram dar conta dos pedidos para a realização de testes de ácido nucleico”, assinalou.

Para o director geral da 2nt8, não há dúvidas de que o alívio das restrições de entrada da província de Guangdong seja uma notícia positiva; no entanto, o especialista considerou que medida só irá ajudar Macau caso sejam respondidas as questões: “Com que rapidez e quando aumentará as capacidades de teste em Macau? Os transportes para Macau vão conseguir satisfazer a procura? Quantas transmissões de Covid-19 estará Macau na disposição de suportar, dado que se passaram mais de 100 dias desde o último caso de infecção local? E por fim, em quanto tempo outras províncias chinesas e Hong Kong vão seguir exemplo?”

De acordo com os analistas da JP Morgan, a China vai estar muito atenta ao sucesso do corredor especial entre Macau e Guangdong. “Caso o corredor especial entre Macau e Guangdong seja um sucesso, sem nenhum surto de Covid-19 registado durante algumas semanas, acreditamos que o Governo Central possa abrir ainda mais a fronteira para outras regiões de forma faseada, juntamente com o regresso dos vistos individuais”, indicaram os analistas.

Em relação à normalização do sector do jogo, os analistas apontaram para o segundo trimestre de 2021. “Queríamos que a normalização da procura ocorresse dentro de dois a três trimestres após a reabertura, e esperamos que a receita bruta de jogo do sector possa recuperar totalmente por volta do segundo trimestre do próximo ano, a menos que haja uma nova vaga de casos de infecção por Covid-19 na China”.

 

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