Códice Casanatense: As influências do pintor que retratou a chegada dos portugueses à Ásia

São 76 as aguarelas que mostram aquilo que os portugueses descobriram ao viajarem pelo Oceano Índico e Pacífico até chegarem à Ásia, no século XVI. Ainda está por descobrir quem fez as ilustrações e quem pediu que elas fossem feitas, mas os investigadores Peter Gordon e Juan José Morales aproximaram-se de uma resposta. Num ensaio que será publicado em meados deste mês, tentam mostrar que o pintor teve influências europeias e que o patrono era um dos retratados nas ilustrações.

André Vinagre

andrevinagre.pontofinal@gmail.com

No século XVI, os portugueses aventuraram-se até ao Sul da China. Entre os continentes africano e asiático, um pintor foi retratando as pessoas e os costumes com que os portugueses se iam cruzando. O produto final é uma colecção de 76 aguarelas a que foi dado o nome de Códice Casanatense. Contudo, há pouca informação sobre o autor das ilustrações e sobre o patrono. Em “Pintor e Patrono: A Rota Marítima da Seda no Códice Casanatense”, um ensaio de Peter Gordon e Juan José Morales – que vai ser lançado em meados deste mês em Hong Kong – os autores acreditam ter levantado o véu sobre a identidade do pintor e do patrono. Ao PONTO FINAL, Peter Gordon, escritor sediado em Hong Kong, explica que o autor das obras era um indiano que foi influenciado por obras de arte europeias e da Índia e que o patrono é um dos retratados nas ilustrações.

O conjunto indo-português de ilustrações a aguarela está guardado na Biblioteca Casanatense, em Roma, com o seguinte nome oficial: “Álbum de desenhos ilustrando os usos e costumes das pessoas da Ásia e África com uma breve descrição em língua portuguesa”. O pintor, que se acredita ser indiano, retratou as pessoas, os hábitos e as tradições de todos os pontos onde os portugueses estiveram, desde a Etiópia, Egipto, Pérsia, Goa, Malaca, Indonésia, até chegar ao Sul da China.

UM REGISTO VISUAL DA ROTA DOS PORTUGUESES

Há dois grupos de ilustrações. Um deles mostra geralmente um par de pessoas, de cada lugar, que “serve como um registo de onde os portugueses estiveram”, explica Peter Gordon. “Há um por cada sítio onde estiveram os portugueses. Há um do Cabo da Boa Esperança, há um de Nubia [actual região entre o Egipto e o Sudão], há vários da Arábia, Omã, Ormuz, vários sítios na Índia, Burma, Achém, Sumatra, Malaca, Java”, exemplifica. Não há nenhuma que mostre Macau, mas uma das últimas aguarelas tem como cenário o Sul da China.

Depois, há uma segunda categoria, que mostra cenas do dia-a-dia de cada sítio geográfico por onde os portugueses iam passando, retratando várias profissões, como agricultores ou ferreiros, e também cerimónias religiosas, por exemplo.

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

O Códice Casanatense mostra que a chegada dos portugueses a estas terras “abria um mundo de curiosidade mútua e troca de conhecimento”, considera Juan José Morales. “Os portugueses foram os primeiros a estimular as relações entre a Ásia e África e o resto do mundo, e o Códice prova isso mesmo”, indica o historiador, frisando que o carácter privado deste documento traz “sinceridade” e “transparência” aos retratos, quando comparados com cartas oficiais da época.

As ilustrações estão, desde o início do século XVIII em Roma, mas, antes disso, passaram por Lisboa, em 1628. Ainda em Goa, os desenhos estiveram no Colégio de São Paulo, fundado por São Francisco Xavier. Após São Francisco Xavier ter sido canonizado, o Códice foi levado para Lisboa. “A teoria é de que o livro foi enviado como material de apoio para alguns dos pintores que trabalhavam com São Francisco Xavier”, diz Peter Gordon. Depois de chegar a Lisboa, o cardeal italiano Girolamo Casanata comprou a colecção que ficou depois na biblioteca Casanatense.

AS INFLUÊNCIAS NO CÓDICE

Acredita-se que o pintor é indiano. “Inicialmente acreditava-se que era português porque as ilustrações têm legendas e as legendas estão em português, mas as legendas não foram feitas pelo pintor”, lembra Peter Gordon. E é aqui que “Pintor e Patrono: A Rota Marítima da Seda no Códice Casanatense” avança informação nova: o pintor indiano teve como base para o seu trabalho, além da arte da sua terra natal, várias obras europeias. 

“Entre os muitos segredos intrigantes que descobrimos, há questões de representação que são muito importantes: a influência directa das obras europeias no Códice e a influência do Códice em ‘Itinerario’”, diz Morales, em referência a uma obra do holandês Jan Huygen van Linschoten, de 1596. O livro de Peter Gordon e Juan José Morales mostra uma ilustração de uma mulher portuguesa a ser levada num palaquim e, imediatamente em baixo, uma imagem semelhante posterior presente em “Itinerario”.

Este, que é o primeiro livro escrito em inglês sobre o Códice, mostra as semelhanças entre o que foi produzido pelo pintor indiano e o que já tinha sido criado na Europa. “Olhámos para as imagens e parecia que já as tínhamos visto antes. Então, de repente, encontrámos estas pinturas nos templos que o pintor obviamente copiou”, indica. Como exemplo é dada a mesma imagem da mulher portuguesa no palaquim, que terá tido como inspiração uma imagem no templo indiano de Trilokyanatha.

A influência europeia está presente nas semelhanças com as ilustrações de Balthasar Sprenger, no livro “Die Merfart”, de 1509. “Uma das imagens é a de um guerreiro indiano com um escudo e uma espada. E essa é uma das poses numa ilustração do Códice. A única explicação é que alguém mostrou a este pintor indiano este livro”, explica Peter Gordon.

Há ainda uma adaga, que era estranha aos indianos naquela altura, pintada no Códice. “Como é que um pintor indiano conhecia uma adaga com aquele nível de detalhe? Teve de ver uma”, refere o investigador norte-americano, frisando que, à data, os portugueses tinham várias adagas. Isto mostra que “pintor e patrono trabalharam juntos”. “Olhamos para as imagens e pensamos que elas de certa maneira parecem europeias”, afirma, sublinhando que o livro agora apresentado mostra “de onde vieram as ilustrações e para onde foram, artisticamente”. “Não esperávamos descobrir nada disto”, confessa.

A figura do patrono ainda está menos clara do que a do pintor. A única pista tem a ver com a repetição de uma das figuras presentes nas ilustrações. Das 76 ilustrações, só quatro têm portugueses. Uma delas mostra um soldado português a casar com uma mulher indiana. Outra mostra um grupo de homens portugueses a cavalo e um deles será o mesmo que tinha sido retratado a casar. “Tem a mesma roupa, é o único de barba, é o único com aquele chapéu, é o único de casaco vermelho, é o único com uma espada e é o único com uma espada”, aponta Peter Gordon.

O facto de a mesma pessoa se repetir em dois desenhos “significa que é provavelmente um retrato de alguém real”. E “porque é que alguém que pagou por estas ilustrações faria o desenho de outra pessoa? Nós achamos que ele é o patrono”.

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Além disso, a dupla também acredita que o patrono morreu pouco depois de as ilustrações terem sido feitas e justificam com o facto de algumas das legendas estarem erradas. “A única maneira de explicar isto é se as legendas foram colocadas depois de o patrono já não estar presente. Porque se ele estivesse presente não haveria erros. Ele sabia o que estava em cada imagem”.

LANÇADO A 15 DE JULHO, COM O DESEJO DE UMA TRADUÇÃO PARA PORTUGUÊS

A ideia para escrever este ensaio partiu do Consulado Geral Italiano em Hong Kong. “Eles queriam aumentar o conhecimento sobre este documento na Ásia”, refere Gordon, acrescentando: “Eles disseram que este era um documento realmente interessante e que gostavam de o levar para a Ásia um dia e perguntaram o que é que podiam fazer para sensibilizar as pessoas. Nós conversámos e pensámos que podíamos escrever um livro”.

Editado pela Abbreviated Press, o livro estará disponível em Hong Kong a 15 de Julho e será lançado na Feira do Livro da região vizinha. Depois disso, estará disponível a nível global em meados de Agosto.

As previsões da dupla era que o livro tivesse sido lançado em Macau, em Março, mas, devido às restrições impostas pelo coronavírus, não foi possível. O Instituto Português no Oriente (IPOR) tinha manifestado intenção de colaborar com os investigadores, mas o projecto ficou sem efeito. “A conversa que tivemos com o IPOR foi sobre fazer de Macau a base do projecto, que era o que queríamos, e em segundo, que fossem feitas traduções para português. Tudo isto foi parado pelo coronavírus, mas agora a feira do livro [de Hong Kong] chamou-nos para lançarmos o livro lá e então nós dissemos que sim”, conclui Peter Gordon.

 

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