Guias de marcha e identificações, na noite em que a concentração foi da polícia

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Numa noite de vigília proibida pelas autoridades, largas dezenas de elementos da Polícia de Segurança Pública ocuparam o Largo do Senado. A todos os que circulavam na praça, os agentes incitaram à dispersão, não permitindo a permanência a quem, sozinho, insistiu em prestar homenagem às vítimas de Tiananmen. Entre aqueles que foram identificados pela polícia, estão adolescentes de 14 e 15 anos, a quem foi pedido, inclusive, o cartão de estudante. 

Reportagem de Sílvia Gonçalves (Texto) e Eduardo Martins (Fotografia)

Não bateram ainda as 20 horas, e são sobretudo agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), aqueles que preenchem a imensa praça este ano vedada à vigília pelas vítimas do massacre de Tiananmen. Dezenas de agentes, de megafone em punho, cirandam pelas galerias laterais, preenchem toda a área em torno da esfera armilar, onde, ano após ano, os deputados Au Kam San e Ng Kuok Cheong entoavam textos e cânticos para manter viva a memória de um episódio que Pequim escolheu ocultar. “Eles usaram o coronavírus como desculpa para banir o evento, mas se fores agora ao IKEA aquilo está cheio de gente”, atira o homem de 50 anos, que prefere identificar-se como Minicat e que diz recusar a impossibilidade de repetir uma homenagem desde sempre cumprida. “Vim aqui, de forma simbólica, prestar a minha homenagem às vítimas de Tiananmen. Vim sozinho, estou aqui para cumprir o meu luto”. 

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

A presença massiva de polícia não entranha o medo em Minicat, nem lhe espanta a vontade. “Eles probiram a concentração, mas eu estou sozinho, não estou a quebrar nenhuma lei. Eu tenho o direito a estar aqui e não dizer nada, tenho o direito a sentir-me triste por aqueles que morreram há 31 anos. Eles não podem controlar a minha mente, se pensam que o podem fazer, são muito estúpidos. A liberdade acabou em Macau, desde que aquelas pessoas foram detidas em Agosto do ano passado”, assinala, referindo-se às detenções efectuadas pelas forças de segurança na noite de 19 de Agosto de 2019, a mesma noite em que uma manifestação contra a violência policial em Hong Kong havia sido proibida. 

E os agentes rodeiam-no, insistem para que saia dali, dizem-lhe que estão a cumprir ordens do Governo. “Disse-lhes que vim ver as flores de lótus a desabrochar, eles dizem-me para sair, porque este é o conselho do Governo, porque se as pessoas se concentrarem podem apanhar o coronavírus. E eu perguntei-lhes: os lótus espalham o coronavírus?”.

“MESMO QUE NÃO TENHAMOS JUSTIÇA AGORA, PELO MENOS TEMOS NA NOSSA MENTE”

Com as mãos apoiadas na cerca de madeira que rodeia o fontanário central, uma mulher, vestida de preto, sozinha, olha fixamente para a água. “Ainda não tivemos justiça. Estou aqui, não quero que digam que me esqueci daqueles que morreram. Mesmo que não tenhamos justiça agora, pelo menos temos na nossa mente, no nosso coração”, diz Anna, residente de Hong Kong, de 26 anos, a trabalhar em Macau. “Não posso estar em Hong Kong, pelo menos estou aqui. Alguns dos meus amigos queriam vir, não estou a vê-los, talvez tenham medo”. 

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

E Anna é rodeada por vários agentes, que tentam impedir a comunicação com o PONTO FINAL. Mediante a justificação que duas pessoas em diálogo não configuram uma concentração, os agentes insistem. Mantém-se o diálogo, com os megafones apontados a curta distância, a expelir mensagens de prevenção contra o coronavírus. “A polícia aqui não é tão brutal. Em Hong Kong, se um agente se aproximasse assim de mim, eu gritava. Tenho participado nos protestos de Hong Kong, fi-lo de Junho a Novembro”. Anna diz bater-se nas ruas da RAEHK pela introdução do sufrágio universal, por um desejo de democracia que, acredita, um dia acabará por se impôr. “Esta dinâmica não se vai manter para sempre, vai mudar um dia. Para melhor ou para pior”.

E os megafones apontados, ainda, a curta distância pelos agentes. Anna não arreda pé, diz que ali permanecerá mais algum tempo. Mãos atrás das costas, fita o fontanário, sozinha, enquanto os agentes lhe sopram mensagens que não é possível deslindar. Entretanto, dezenas de agentes espalhados pela praça abordam cada pessoa que permanece na área. Gesticulam, convidam, um por um, a retirar-se, incitam ao movimento, numa clara indicação para que ninguém permaneça na grande praça. Um deles acerca-se de um velho que, voltado para a Santa Casa da Misericórdia, escreve no telemóvel. Pedem-lhe que circule, que saia dali. E o homem atira um gesto breve, de rejeição, responde que está apenas à espera de um amigo, mantém-se estático, olhos postos no ecrã.  

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

ADOLESCENTES IDENTIFICADOS PELA POLÍCIA

Sentados no banco em pedra junto à estrada, frente ao Leal Senado, três adolescentes, vestidos de preto, são abordados por agentes da PSP. O diálogo estende-se, agentes inclinados sobre os adolescentes. A dada altura, estes estendem cartões, os polícias tiram notas. William, um dos adolescentes abordados pela polícia tem 14 anos. “Disseram-me que estou aqui há muito tempo e para eu sair daqui. Pediram o meu cartão de residente e o meu cartão de estudante”, diz William, assustado. 

Logo depois, com os agentes a curta distância, William assume o que o trouxe ao Senado. “Vim aqui hoje porque é o 4 de Junho, vim prestar os meus respeitos pelas vítimas. No ano passado também vim à vigília. Este ano proibiram porque querem acabar com isto, por causa dos protestos em Hong Kong, têm medo que cheguem a Macau”. E acredita que isso pode acontecer? “As pessoas em Macau são muito preguiçosas, não querem saber da liberdade, os meus colegas de turma também não. Mas a liberdade está a acabar em Macau”.

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Questionado sobre se os pais sabem da sua vinda ao Senado, William dá conta de um ambiente familiar atravessado de cisões. “O meu pai sabe que eu estou aqui, ele apoia os protestos de Hong Kong. A minha mãe apoia o Governo chinês, o Partido Comunista e a polícia”. 

A seu lado está Oliver, de 15 anos. “Pediram-me o cartão de residente, como não o tenho comigo, pediram-me o cartão de estudante. Disseram-me três ou quatro vezes para eu sair daqui. Nós tínhamos acabado de jantar, vim também prestar a minha homenagem às vítimas de Tiananmen. É a minha primeira vez, vim também por causa dos protestos de Hong Kong, para mudar as coisas em Macau, para termos democracia e liberdade de expressão”, resume o adolescente. E assume: “Gostava muito de ir aos protestos de Hong Kong, mas os meus pais não concordam”. 

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Com a pressão das forças de segurança para se retirarem, deslocam-se os jovens para junto da Santa Casa. Acentua-se em Oliver a revolta. “Quando eu era pequeno, achava que a polícia era boa, agora já não acho. Obrigaram-nos a sair dali, pediram-nos os documentos sem nenhuma razão. Eu não estava a fazer nada ilegal, estava apenas sentado. Estou furioso com a polícia”. Junto de Oliver e William está Julia, de 14 anos, a única a quem não foram pedidos os documentos de identificação. Os três, que frequentam a mesma escola secundária em Macau, dão conta de um ambiente de discussão política que amiúde contempla as convulsões que há um ano atravessam a região vizinha. “A maior parte dos nossos colegas na escola apoia os protestos de Hong Kong, mas têm medo, porque em Macau não há liberdade de expressão; 60% dos professores também apoiam, mas não falam disso nas aulas”, conta Oliver. William e Julia acenam, em concordância. 

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Agitado, Oliver regressa à indignação. “Eles agarraram no meu cartão de estudante, até o deixaram cair ao chão, suponho que por acidente. Isto não é aceitável. Porque pediram os nossos documentos?”. Os três afastam-se depois, garantem que vão regressar a casa, só William vai contar ao pai o que aconteceu.

“AS PESSOAS EM MACAU APENAS OBEDECEM A TUDO”

Junto à Farmácia Popular, Jill fuma um cigarro. Sozinha, vestida de preto, deu por terminada a jornada de trabalho e chegou à praça para cumprir um rito a que não escapa desde a adolescência. “Desde os meus 16 anos que venho à vigília, tenho agora 30. Tinha de vir”. Espantada, observa o frenesim da polícia. “Eles são mais do que as pessoas que circulam na praça”. Junta-lhe depois a indignação, perante o que diz ser uma postura colectiva em que não se reconhece. “Sinto-me muito desiludida por as pessoas de Macau só quererem o seu conforto, só querem ter uma vida boa, não querem saber da sua liberdade”.

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Jill fala numa erosão de direitos, liberdades e garantias, um caminho em que diz só vislumbrar um agravamento contínuo. “De que maneira as coisas se podem tornar piores? Isto já está muito mau, a situação já está muito má”, exclama. A designer de moda diz acompanhar de perto os protestos em Hong Kong, que por diversas vezes a levaram a atravessar o rio. “Concordo com o que se passa em Hong Kong. Fui lá umas cinco ou seis vezes participar nos protestos. A maioria dos meus amigos é de Hong Kong, alguns deles já foram detidos. As pessoas em Macau apenas obedecem a tudo. Aqui, todos têm empregos estáveis, não querem meter-se na política”, considera Jill, que assume depois um desejo de partida. “Quero deixar Macau, mas não é fácil, é preciso muito dinheiro, é começar de novo. Cá, tenho o meu ateliê e a minha marca. Quem trabalha no meu meio, e no meio artístico, está mais aberto a estas questões. Com os meus pais, só tenho discussões, eles não aceitam, nem sabem que participo nos protestos de Hong Kong”. 

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

Jill apaga o cigarro. Antes das 22 horas, segue caminho numa praça onde ainda circulam, frenéticos, dezenas de agentes, sob o som contínuo dos megafones. E o gesto, sempre o gesto, a apontar a saída aos poucos que, estáticos, arriscaram breves passagens pela grande praça.    

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Identificação de menores constitui “violação grave da lei” 

Numa noite em que a PSP procedeu à identificação de muitos dos que circulavam no Largo do Senado, um jurista contactado pelo PONTO FINAL explicou as circunstâncias que podem justificar tal procedimento. “O Código de Processo Penal estabelece que a polícia só pode ‘proceder à identificação de suspeitos’ da prática de crimes ou de ‘pessoas encontradas em lugares abertos ao público habitualmente frequentados por delinquentes’. Não havendo suspeita da prática de qualquer crime, nem sendo o Largo do Senado um lugar habitualmente frequentado por delinquentes, a identificação é ilegal”. Relativamente à identificação de menores que ontem se verificou (ver texto principal), o mesmo jurista, que preferiu não se identificar, esclarece que “sempre que alguém for identificado, a polícia é obrigada a facultar-lhe ‘a possibilidade de comunicação com pessoa da sua confiança’. Sendo menor, é obrigada a fazê-lo ainda pelo facto de que, sendo menores, são os pais – e não os menores – quem exerce os direitos que a lei confere aos menores. Não comunicar de imediato aos pais é uma violação grave da lei, dos direitos dos menores e dos direitos dos pais”.

S.G.  

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

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