“Concessionárias vão ter de se reinventar” para sobreviver à crise epidémica, afirma especialista

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

Com organização da Fundação Rui Cunha, três especialistas do sector do jogo reuniram-se, numa conferência virtual, para uma reflexão sobre o futuro da indústria dos casinos após a crise epidémica. Com quebras de 90% no mês de Março, por causa da diminuição do turismo, as operadoras de jogo em Macau enfrentam um desafio sem precedentes: manter as portas abertas num mundo fechado, em si próprio, por causa da pandemia de Covid-19.

Eduardo Santiago

eduardosantiago.pontofinal@gmail.com

O Governo deve implementar medidas de apoio à indústria do jogo para assegurar a sustentabilidade de um sector em crise, nomeadamente a redução de impostos para as concessionárias e o suporte de parte dos salários dos trabalhadores do sector, referiu ontem Óscar Alberto Madureira, especialista em Direito do Jogo, ao PONTO FINAL, antes de participar numa ‘webconference’ organizada pela Fundação Rui Cunha.

“Do ponto de vista do Governo, acho que há duas medidas que poderão ser importantes para que esta crise da indústria do jogo tenha o menor impacto possível na sociedade de Macau”, disse o advogado, acrescentando que, para efeitos imediatos, o Governo deveria “tentar reduzir o imposto especial de jogo” às concessionárias. “Se não há receita, as concessionárias também têm muito pouco para entregar ao Governo, e penso que uma medida imediata poderia passar pela redução do imposto de jogo. Claro que esta medida seria uma medida provisória”, disse ainda Óscar Alberto Madureira.

Apesar de reconhecer as dificuldades das operadoras de jogo em Macau por causa do surto epidémico, Alidad Tash, estrategista e director geral da 2nt8, empresa de consultoria especializada na indústria do jogo, realçou que “os directores executivos de Macau têm muito mais sorte do que aqueles que estão em Las Vegas ou Coreia do Sul”. Para Tash, o Governo não vai permitir que os trabalhadores locais dos casinos sejam despedidos, mas mostrou-se preocupado com a situação dos trabalhadores não-residentes. “Os trabalhadores que não são locais vão sofrer, pois há mais facilidade em despedir os ‘bluecards’. O custo real afectado será a mão-de-obra, pois tudo o resto, como ar-condicionado, electricidade e tudo isso, terá um impacto mínimo com esta crise”, disse Alidad Tash na conferência virtual, frisando que o importante é saber onde é que as operadoras vão cortar.

“Temos de nos recordar que as operadoras de jogo querem é fazer negócio, não estão cá para dar abraços, não há qualquer tipo de bondade neste negócio. A natureza do negócio não é humanista”, acrescentou o especialista na indústria do jogo.

Já Carlos Noronha, professor associado na Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau, afirmou durante a conferência que esta crise epidémica é uma “oportunidade” de reavaliação da realidade social da indústria do jogo. “A indústria do jogo é controversa por natureza e o que tem de fazer é usar a responsabilidade social corporativa como campanha de responsabilidade de jogo e a filantropia. Os desastres ou crises apresentam oportunidades para desafiar as assumpções tomadas como garantidas pela sociedade em relação à ordem das coisas”, afirmou o professor universitário, antes de dar como exemplo a filantropia da Microsoft e as consequências provocadas pelo Furação Katrina em 2005 para defender que “esta é uma boa altura para pensarmos na natureza desta indústria, e na responsabilidade social coorporativa, nomeadamente o que é que se pode fazer”.

Adaptar ou morrer

A indústria do jogo em Macau precisa de se adaptar ao novo panorama mundial se quiser sobreviver, uma vez que antes da crise epidémica já havia sinais de alguma instabilidade no sector, recordou Óscar Alberto Madureira ao PONTO FINAL antes da conferência. “Antes desta crise epidémica, as concessionárias estavam num período de alguma instabilidade. Depois de um decréscimo muito grande nas receitas voltaram a crescer, mas agora já estavam com um crescimento muito pequeno, senão mesmo com uma quebra”, referiu o advogado. 

Com os sintomas de uma quebra antes da crise epidémica, Óscar Alberto Madureira considerou que as concessionárias “vão ter de se reinventar” e criar novas soluções de entretenimento na área de jogo e de não-jogo. “As pessoas que procuram Macau já conhecem o produto e provavelmente precisam de outro tipo de oferta. As concessionárias vão ter de se reinventar e criar novas soluções de entretenimento na área jogo e não-jogo, porque no fundo o que está aqui em causa é tornar o mercado de Macau novamente apetecível”, disse Madureira, explicando que “o próprio consumidor começou a gostar de outros tipos de produto”, e que, por isso, é necessário que as empresas se reinventem.

Tempos incertos para uma indústria que não dorme

Perante a incerteza da evolução epidémica no mundo, resta à indústria do jogo de Macau aguardar pela reabertura das fronteiras e pelo crescimento do turismo. Para Alidad Tash a normalidade do sector deverá regressar somente no final de 2021. “O efeito deste vírus na indústria do jogo em Macau será bastante mau e penso que as coisas regressem à normalidade só no final de 2021”, disse Alidad Tash ao PONTO FINAL, acrescentando que, mesmo que a China reabra as fronteiras no futuro próximo, as condições económicas das pessoas que querem jogar não serão favoráveis. “Será pouco expectável que as pessoas vão gastar o seu dinheiro e desfrutar do seu dinheiro. As pessoas não vão ter tanto tempo para momentos de lazer. As pessoas não precisam de casinos para sobreviver ou de jogar para viver. E numa altura em que a economia está a atravessar um momento difícil, não é expectável que as pessoas gastem muito dinheiro”, referiu.

Já Óscar Alberto Madureira frisou que seria bom que, nesta fase, o Governo imputasse alguma responsabilidade aos junkets, “no sentido da reconversão da actividade de Macau”. “Os junkets, como sabemos, têm operações muito poderosas, movimentam valores muito elevados, e o que eu vejo é que, a estas entidades, têm-lhes pedido muito pouco”, afirmou o advogado, acrescentando que “se calhar, está na altura de começar a exigir aos junkets também maior responsabilidade no sentido de levantar a economia de Macau”.

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