Macau e as grandes crises do passado: Uma terra a toda a prova!

Cidade portuária muito movimentada, Macau teve de lidar com inúmeros desastres e crises ao longo dos séculos. E saiu sempre por cima.

Mark Phillips

Pandemia do novo coronavírus. Esta não é a primeira vez que Macau enfrenta uma situação desta natureza. Em 2003/4 foi a SARS, e em 2009 houve o H1N1. Em ambos os casos, a cidade sobreviveu relativamente incólume, apesar dos danos causados por estes vírus em toda a região. Numa altura em que muitos habitantes de Macau têm de ficar em quarentena em centros de isolamento ou nas suas casas, poderá servir de algum conforto saber que, ao longo dos séculos, a cidade sofreu muitos desastres e convulsões, alguns dos quais representando ameaças ainda mais graves do que a actual. E, apesar de tudo, a vida continuou e a cidade sobreviveu, e até prosperou, em grande parte devido à forma como foi governada, à força e perseverança da população local – e também a um pouco de sorte.

Vento, inundações e fogo

Um dos maiores desastres naturais de que há registo na cidade foi o grande tufão de 1874. Na manhã de 22 de Setembro, barcos de pesca preparavam-se na baía para dar início ao seu trabalho diário debaixo de um céu azul claro de Outono. Mas quando voltaram à tarde, trouxeram um aviso dramático de ‘grandes ventos!’. Enquanto a cidade dormia naquela noite, o barómetro mostrava a pressão do ar em queda à medida que o sistema de baixa pressões se aproximava.

“A pressão mínima relatada foi de cerca de 935 milibares”, observa Olavo Rasquinho, ex-secretário do Comité dos Tufões da Organização Meteorológica Mundial em Macau. “Para efeitos de comparação, durante o tufão Hato, em 2018, a pressão atmosférica mínima relatada foi de 1945 milibares. O tufão de 1874 foi muito mais forte que o Hato e a construção dos edifícios não era tão resistente. Foi, sem dúvida, o maior desastre natural que ocorreu em Macau”.

A grande tempestade chegou por volta das duas da manhã, quando a cidade estava mergulhada na obscuridade. E, segundo vários relatos, foi terrível. Pedro Gastão Mesnier, secretário do governador de então, documentou o impacto da tempestade escrevendo: “Com uma violência indescritível, uma explosão uivante varreu toda a extensão do mar de Lantau… o mar ergueu-se numa onda hedionda e, por um instante, precipitou-se sobre toda a parte oriental da cidade… dificilmente pode ser descrito o excesso de furor, com o qual o vento e o mar corriam sobre a cidade, aparentando tentar eliminá-la da superfície da terra. Um acidente constante, furioso e estridente, composto pelas vozes mais temerosas que a natureza pode revelar na sua ira…”.

Anos mais tarde, o autor macaense Carlos Augusto Montalto de Jesus escreveu que era “como se a natureza também estivesse inclinada a precipitar a queda de Macau… Maltratada, inundada, Macau foi ao mesmo tempo atacada por piratas”, numa “noite de horror e angústias indiscritíveis”.

As marés subiram cerca de 2,5 metros, destruindo todos os edifícios ao longo da orla da Praia Grande. Incêndios causados por velas reviradas e lâmpadas de querosene devastaram outras partes da cidade. Alguns incêndios podem até ter sido provocados de forma deliberada por ladrões, e alguns moradores relataram ter sido assaltados e roubados por piratas enquanto corriam pela cidade escura em busca de abrigo. Milhares de edifícios foram destruídos e até as igrejas e a catedral sofreram danos significativos. Cerca de dois mil navios de pesca foram destruídos e aproximadamente cinco mil pessoas perderam a vida. Os corpos de cerca de mil pessoas foram encontrados na Taipa e outros 500 em Coloane, na sua maioria pescadores.

O trágico evento fez com que grande parte da comunidade macaense mais rica decidisse deixar Macau para a cidade portuária mais protegida de Hong Kong, que havia sido colonizada pelos britânicos em 1842. A população católica em Hong Kong aumentou rapidamente em pelo menos 700 almas, a maioria macaenses refugiados. “O tufão trágico consumou a ruína dos macaenses”, concluiu Montalto de Jesus. Seriam necessárias décadas para Macau se recuperar totalmente da destruição de propriedades e da perda significativa de vidas causadas por este tufão.

Um choque violento

Embora a ocorrência de eventos sísmicos em Macau seja muito rara, sabe-se que pequenos tremores podem ser até frequentes. Os registos históricos fidedignos são limitados, mas existe uma troca de correspondência que indica que um grande terramoto foi aqui sentido em Novembro de 1767. A carta, datada de 7 de Janeiro do ano seguinte, foi escrita por Stephen de Vilme, a partir de Cantão. No documento, o autor reproduz o relato enviado por um amigo que morava na época em Macau:

“Ontem à noite, 50 minutos depois das nove horas, todos nós ficámos surpresos com o forte choque de um terramoto, que durou mais de um minuto. Esse choque foi tão grande que a casa abanou, e eu tinha medo de que todos fossemos engolidos pela terra. Sentimos outro choque cinco minutos depois das onze horas, mas não foi tão grande: e, às três da manhã, surgiu outro bastante forte. Ao todo, tivemos cinco abalos, mas o primeiro foi o maior. Surgiu com um barulho terrível que se sentia no ar, de tal forma que, ao início, várias pessoas pensaram que era o disparo de armas ou trovões a alguma distância. No primeiro choque, mal consegui aguentar-me em pé. Mas, graças a Deus, não aconteceu nenhum acidente grave, e espero que o Todo-Poderoso nos livre de mais abalos terríveis… As pessoas mais velhas daqui dizem que não se recordam de ter sentido um tremor de terra tão violento e com uma duração tão prolongada. Os barcos no porto rodopiaram, e aqueles que estavam a bordo pensaram ao início que se tratava de um tornado”.

Outro terramoto foi registado em Agosto de 1905, com réplicas sentidas ao longo do dia, durante nove horas. Uma história interessante logo se espalhou para explicar a causa do terramoto. Aparentemente, um jovem pescador trouxe para casa uma captura de caranguejos para a mãe cozinhar. Enquanto o fazia, a mãe reparou em marcas estranhas na carapaça de um dos caranguejos. O sábio da aldeia identificou o caranguejo como o ‘Rei dos Caranguejos’ e profetizou ‘uma grande calamidade’ em resposta. As lendas da altura afirmavam que, ao ouvir o cruel destino do seu rei, todos os outros caranguejos entraram nos seus buracos e começaram a fazer abanar o chão.

Salvo por Balmis

Como cidade portuária permanentemente visitada por inúmeros navios e tripulantes, a prevenção de surtos de doenças em Macau foi algo que exigiu uma constante vigilância aos seus governantes.

“Macau sempre foi caracterizada pela resiliência, e pode ser comparada à cana de bambu, que se inclina durante a tempestade e retorna depois à sua posição original, superando crises, tempestades e surtos”, comenta o historiador Rogério Miguel Puga, da Universidade Nova de Lisboa, que leccionou na Universidade de Macau entre 2007 e 2009.

“O primeiro hospital ocidental em Macau e na China [Mercy Hospital, também conhecido como Hospital de São Rafael] abriu as suas portas em Macau em 1569, sendo também um hospital para os pobres e os leprosos”, acrescenta o professor Puga.

“Macau foi considerado um lugar bastante saudável para visitar nos primeiros anos, comparado a outros portos menos desenvolvidos da região”, observa Tereza Sena, docente do Centro de Estudos das Culturas Sino-Ocidentais, Escola de Humanidades e Ciências Sociais, do Instituto Politécnico de Macau. “Devido ao clima quente e aos níveis relativamente elevados de organização, era visto como um bom lugar para descansar e recuperar após longas jornadas, nas viagens comerciais para a Índia e a China.”

No entanto, à semelhança de muitas cidades da época, enfrentava regularmente surtos de doenças altamente contagiosas e mortais, como a cólera, a febre tifóide e a varíola. Felizmente, em 1805, Macau foi visitada por Francisco Javier de Balmis, médico espanhol e cirurgião do rei, que liderou uma expedição médica a territórios espanhóis nas Américas para administrar vacinas à população local contra a varíola, missão ainda hoje famosa pelo alcance dos seus resultados.

Após uma estadia bem-sucedida nas Filipinas, o destino seguinte do doutor Balmis foi Macau. Viajou no navio português La Diligencia e chegou a Macau após uma travessia de oito dias. Dado o tempo e a distância, a única forma de transportar uma amostra viva da vacina contra a varíola naqueles tempos era através de um ser humano. Assim, como era prática comum, a vacina foi transportada para Macau por três meninos filipinos, provavelmente órfãos, que foram entregues a Balmis por um padre em Manila.

No entanto, foi por pouco que a vacina não chegou a Macau, depois do navio ter sido atingido por uma tempestade violenta quando a 10 de Setembro, quando se aproximava deste porto. Num artigo publicado na Revista de Cultura, a professora Isabel Morais cita um trecho de uma carta escrita por Balmis: “Em poucas horas a fragata foi destruída e desapareceram 20 homens; entre nós não havia ninguém que não esperasse outro destino que não uma cova no fundo do mar… os meus esforços concentraram-se em preservar a vacina e implorar por misericórdia”.

Finalmente, seis dias depois do início da tempestade, Balmis e os seus filhos puderam embarcar num barco de pesca chinês e desembarcar posteriormente em Macau, entregando a vacina às autoridades portuguesas locais e aos líderes da igreja católica, que começaram a vacinar a população local contra uma das doenças mais mortais enfrentadas até então.

A professora Morais observa no seu texto, porém, que havia inicialmente muita superstição e resistência na comunidade local, não se oferecendo ninguém numa primeira fase para participar nas sessões de vacinação realizadas no hospital da Santa Casa da Misericórdia. Para convencer as pessoas que o procedimento médico era seguro, o ouvidor Miguel de Arriaga Brum da Silveira convocou formalmente as pessoas para a sua própria casa, para que pudessem assistir ao momento em que ele próprio foi vacinado.

A maldição da cólera

Ao longo dos anos 1800, a cólera foi outra doença importante com a qual as autoridades da cidade tiveram que lidar. “Até à década de 1930, a população bebia apenas água de fontes e poços locais e, às vezes, a água poluída causava surtos temporários de doenças. Nas estações quentes, diarreia, disenteria e febre eram comuns, e por vezes também cólera”, explica o professor Rogério Miguel Puga.

Um dos casos mais conhecidos foi o de Mary Morton Morrison, mulher de Robert Morrison, missionária protestante e tradutora que trabalhava para a Companhia das Índias Orientais. A sua morte devido à cólera, em 1821, levou Robert Morrison a negociar a compra de um terreno onde a pudesse enterrar, que ainda hoje é o local do cemitério protestante.

Outra personalidade que acabou por sucumbir à doença foi o governador português Pedro Alexandrino da Cunha, que morreu em 1850 após cumprir apenas 38 dias no cargo. Relatos indicam que comeu um gelado feito com água contaminada e morreu no dia seguinte.

É difícil saber ao certo quantas pessoas morreram de cólera em Macau ao longo do século XIX, mas houve surtos frequentes e é provável que o número se situe na casa dos milhares. A doença atacou as vítimas de forma inesperada e os efeitos foram sentidos repentinamente, desde fortes dores no coração e no estômago, a dores de cabeça e febre, diarreia e vómitos. Geralmente, era fatal.

Um respeitado médico britânico que trabalhava na Ásia na época, o doutor Levington, escreveu sobre a tragédia em termos inequívocos: “Vi casos semelhantes em Macau, na China; famílias inteiras recolhiam de forma perfeitamente tranquila à noite e eram subitamente atacadas pela doença antes do amanhecer, e acabavam por morrer, na sua maioria, antes do meio-dia”.

“A qualidade da água era uma grande preocupação para a administração e, com o tempo, as autoridades impediram as pessoas de recolher a sua própria água nas colinas. No final dos anos 1800, eles começaram a tratar a água de certos poços e fontes e a distribui-la em garrafas. Mas apenas em 1938 a água canalizada foi estabelecida na cidade”, explica Tereza Sena.

Várias outras medidas foram tomadas para tentar garantir a segurança da população local, dada a circunstância de embarcações comerciais de todo o mundo atracarem nos portos para descarregar as suas mercadorias.

No seu relatório sobre casos de cólera em Macau em 1902, o cirurgião-geral do Serviço Marítimo-Hospitalar dos EUA, John W. Kerr, escreveu: “Onze vaporizadores foram inspeccionados durante a semana, 1.088 indivíduos foram descontaminados na estação de desinfecção e 1.511 remessas de roupas e lençóis de cama foram desinfectadas por vapor. Houve 32 rejeições por causa da febre. Desde 1 de Abril que medimos a temperatura de todos os passageiros da direcção”.

Macau também foi atingida por uma estirpe grave do vírus influenza, comummente denominado por gripe espanhola – um dos surtos virais mais mortais da história – em 1918. Segundo os registos, o contágio ocorreu em duas situações. Durante a primeira vaga, em 1918, o Governo construiu um pavilhão para o isolamento e tratamento de doenças epidémicas na Colina de D. Maria. Quando a segunda vaga ocorreu, um ano depois, o Governo construiu uma segunda unidade de isolamento no Hospital Conde de São Januário com um custo de 13.438,39 patacas. O relatório da Alfândega Marítima da China publicado em 1921 sentenciou: “Em Junho de 1918, Macau [perto da Lapa] foi visitada pela gripe universal, que já registou inúmeras vítimas na Europa. 270 casos, com 120 mortes, foram notificados até o final do ano, com a doença a desaparecer novamente na Primavera”.

Uma praga na cidade

Em meados do século XIX, a China foi atingida pela terceira pandemia da peste negra (a mesma doença que matou milhões de pessoas na Europa em meados dos anos 1300). A praga espalhou-se pela Ásia, matando 10 milhões de pessoas só na Índia. Em 1888, um navio português chegou a Macau vindo da Índia com uma bandeira amarela para indicar que havia pessoas doentes a bordo.

“No início, as autoridades locais não permitiram o desembarque; no entanto, mais tarde, foram construídos quartéis perto da área externa do porto para isolar a tripulação”, afirma Tereza Sena. “Este é um dos primeiros exemplos de tentativas de isolar pessoas doentes que chegam de navio numa área específica para impedir a propagação de doenças. Em 1928, um hospital especial foi construído apenas para isolar tripulações doentes e foi inicialmente usado para conter uma crise de meningite”.

Felizmente, à falta da rede de transportes dos dias de hoje, as doenças mais mortíferas não se espalhavam rapidamente, como observava um artigo do The New York Medical Journal, de 23 de Janeiro de 1897: “A peste maligna é a mais lenta de todas as epidemias – demorou dez meses para se estender de Hong Kong a Macau, uma distância de cinquenta quilómetros”.

Ainda assim, a peste finalmente chegou a Macau em 1895, escondida nas pulgas de ratos que infestavam os navios. Estima-se que cerca de 1.200 pessoas tenham morrido da doença entre Abril e Julho daquele ano. A 1 de Junho de 1897, o cirurgião assistente do Serviço Marítimo-Hospitalar dos EUA, S.D. Brookes, relatou que “18 a 20 casos por dia ocorrem em Macau, colónia portuguesa com uma população de 50 mil pessoas”.

O poeta português Camilo Pessanha chegou a Macau durante a primeira fase do surto e registou as suas impressões sobre os preparativos da cidade numa carta para o pai. Descreveu procissões religiosas da população local de Macau, católicos portugueses e chineses que tentavam proteger-se da doença. Durante quatro noites, observou cerca de seis mil chineses locais que seguiam pelas ruas com lâmpadas e gongos na tentativa de espantar a doença. Pessanha notou que, com todo o barulho que eles faziam, a peste certamente “não iria querer vir para Macau!”

Foi nessa época que o Templo de Na Tcha foi construído perto das antigas muralhas da cidade e ao lado das Ruínas de São Paulo. Na Tcha é o deus filho da guerra, e o templo foi construído para tentar acabar com a praga.

“Infelizmente, houve uma grande estigmatização dos doentes – os chineses tinham por hábito considerar que estavam possuídos por espíritos e, durante algum tempo, os católicos acreditavam que estavam a ser punidos pelos seus pecados”, explica Tereza Sena.

A peste voltou novamente de 1900 a 1915, e foi nessa época que as autoridades locais elaboraram um plano de contingência para impedir que os ratos infectassem o reservatório de água local, instalando canalizações apropriadas para esse efeito.

Entre tentativas de limitar o desembarque de navios, isolar doentes, esterilizar as áreas infectadas e vacinar a população local quando possível, a pequena mas muito movimentada cidade portuária de Macau conseguiu sobreviver a todos os surtos epidémicos, com relativamente poucas mortes em comparação com outros países da região. Nada que surpreenda, mais de um século depois.

 

 

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