A narrativa de solidão que atravessa a existência em rede, na reflexão de Kit Lee

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

“Floating World”, a primeira individual de Kit Lee, coloca no centro da interrogação a existência em rede que todos atinge numa era tecnológica. Estado de conectividade, de comunicação profusa, não isento de vazio e solidão. Num tempo de crise epidémica, que veio inibir a sociabilidade, a inauguração, hoje, da mostra da artista faz-se na necessária distância profiláctica, numa emissão em directo através da página de Facebook da AFA.   

Texto: Sílvia Gonçalves

Fotografia: Eduardo Martins

No imenso mar nocturno flutuam telemóveis ligados. Pontos de luz à deriva, representação virtual de uma infinita teia de conexão de que não é possível escapar. Na imagem projectada na parede, som e movimento perpétuo das ondas, visão que descola o espectador do frémito urbano, que anula a opressão arrumada no exterior. Sobre uma peça a que chamou “Sea”, Kit Lee atira, num fio de voz: “Não podemos escapar a este oceano”. Oceano-metáfora de conectividade, omnipresença, correspondência com um padrão de existência tecnológica que a artista escolheu questionar, como quem rejeita, explica, um caminho litúrgico, manifestação de fé que verga corpo e vontade sobre um pequeno ecrã, na avidez de pertença e integração na dinâmica colectiva. 

Na imagem apresentada num ecrã, à entrada da galeria, um outro mar, a mesma ondulação, a mesma proposta de introspecção, um rectângulo de luz branca no horizonte que se afigura, num primeiro olhar, como uma porta que insinua um caminho. “Podes ver uma porta aberta mas é o visor de um ‘smartphone’. Todos os dias usamos telemóveis para procurar informação, no Facebook, no Instagram. O mar representa o lugar onde vivemos. Todos estamos aqui, a pensar, a trabalhar. Todos os dias as pessoas estão conectadas com pessoas, não podem escapar”, insiste Kit Lee, enquanto observa a instalação, “Sea-Faith”, que diz ser central na sua primeira mostra a solo, enquadrada no projecto anual “New Generation, New Media”, com que a AFA – Art For All Society procura dar espaço a artistas emergentes, sobretudo aos que se socorrem de arte multimédia e novos media enquanto suporte e linguagem.

“Por mais informação que retiremos de um telemóvel, as pessoas continuam a sentir-se vazias e sozinhas. Parece ser um deus, uma qualquer forma de fé, esta luz do telemóvel”, acrescenta a artista de 32 anos, a romper o breve silêncio para traduzir, com a dimensão de fé, a devoção quotidiana a um objecto que se fez veículo primordial de conexão.  

Formada em Comunicação de Massas pela Universidade de Tamkang e com um mestrado em Artes Plásticas pela Universidade Nacional de Tainan, ambas em Taiwan, Kit Lee trabalha em Macau como designer multimédia. Depois de um trajecto inicial de experimentação na videoarte, com tópicos que incluiam a disseminação de informação e a cultura popular, Kit Lee inicia, a partir de 2016, uma série que tem nas flores o objecto de uma imagética que se constrói a partir de software 3D, com que concebe a forma e movimento das flores, a que junta, com recurso a software de pós-produção, o efeito ondulante da água. 

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

“Quando terminei a universidade, comecei a trabalhar, em 2014. Sou designer multimédia. Foi duro trabalhar, depois da universidade, enfrentar as pessoas, a empresa, a rotina. E porque gosto de flores – quando as olhamos sentimo-nos relaxados e felizes – decidi criá-las, e, quando as crio, nesse processo, sinto-me mais relaxada, estou apenas focada nisso”. Kit Lee observa agora um ramo de flores vermelho-sangue, em movimento, imagem tridimensional apresentada num ecrã revestido com uma convencional moldura em madeira. Dourado-barroco a conferir constraste evidente entre duas expressões plásticas, a pintura e a arte digital, que lhe resgata, ainda, configuração e suporte. 

“Quando comecei a fazer videoarte, projectava apenas na parede ou num monitor. Mas nestas peças com flores quis que parecessem pinturas de flores tradicionais, por isso uso a moldura em madeira, e, neste caso, um cavalete”. Qual o sentido desta imagem tridimensional que funciona como pintura, este conjunto de flores inserido em jarra azul, que é, como na pintura, exercício de construção? “Em geral, na sociedade, as pessoas lidam com muito stress. Esta peça transmite um sentimento contemplativo, meditativo, de libertação de stress. É algo que nos dá prazer, que é belo, mas ao mesmo tempo é fabricado, não é sequer natureza, são imagens geradas por computador. Esta série, constituída por sete peças, chama-se ‘The Posture of Flower’. É muita inspirada nos nossos produtos electrónicos quotidianos, nessa experiência. Quando encomendamos algo para comer, não conseguimos cheirar a comida, apenas vemos uma imagem. Esta peça é inspirada nesse processo de apreciação”. 

“É QUASE COMO UMA RELIGIÃO, ALGO EM QUE ESTAMOS FIXADOS, ESTA DEPENDÊNCIA DOS ‘SMARTPHONES’”

Kit Lee volta-se depois para uma instalação vídeo, longitudinal, “Water Depth”, extensa imagem computacional, fixada na parede, à altura dos olhos da criadora, que procura gerar no espectador a sensação de imersão. “Simula a sensação de afogamento, como se estivesse dentro do mar, a tentar manter-me à tona da água. Por isso a instalação está ao nível dos meus olhos”. 

A artista segue depois para as duas pequenas caixas negras, com cortes em forma de crucifixo, que escondem telemóveis ligados no interior, a conferir-lhes luz. O recurso a um símbolo religioso a remeter para a dimensão do sagrado. “É quase como uma religião, algo em que estamos fixados, esta dependência dos ‘smartphones’”.

Sobre o conceito que unifica um corpo de trabalho constituído por 15 peças, Kit Lee descreve uma tentativa de materializar a grande corrente que arrasta trajectos individuais de solidão. “São os meu próprios sentimentos, de uma certa solidão e isolamento. Gostaria de mostrar isso como o grande ambiente da sociedade. Nós estamos todos no mar, a flutuar. A grande corrente, o ‘mainstream’, vai levar-nos até onde é suposto que estejamos. Gostaria de transmitir este sentimento que tenho e mostrar esta situação, em que seguimos cegamente o ‘mainstream’ e a tecnologia. Esse é o ponto central, revelar a situação para que estejamos conscientes dela. Quando temos disso consciência, não temos de seguir cegamente a corrente”.

FOTOGRAFIA: Eduardo Martins

O ARTISTA ENQUANTO REFLEXO DO QUE ESTÁ A ACONTECER NO MUNDO

Num trabalho que reflecte o modo como a tecnologia atravessa o quotidiano, ressalta a ausência de fisicalidade que resulta de uma comunicação cada vez mais concretizada em rede. Não sem alguma ironia, o tempo de crise epidémica global impôs à direcção da AFA a decisão de restringir a inauguração de hoje a uma dezena de convidados, chegando ao restante público através de um ‘live’ que poderá ser acompanhado via Facebook. “Penso que é realmente irónico, não o planeamos dessa forma. A inauguração vai acontecer num tempo de vírus e decidimos não ter uma recepção pública. Vamos ter alguns convidados para um visionamento mais privado, limitado a 10 pessoas, de acordo com as indicações governamentais, para evitar grandes aglomerações. Mas vamos transmitir online, na página de Facebook da AFA”, conta Alice Kok, presidente da associação e curadora de “Floating World”, que se apresenta no Macau Art Garden até 27 de Abril.  

Circunstância que a curadora diz acrescentar relavância à reflexão proposta pela artista: “O mais interessante nos artistas é que eles, de alguma forma, são uma espécie de reflector ou um espelho que reflecte o que está a acontecer no mundo, neste momento. O trabalho da Kit é significativo, nesse sentido, porque mesmo para a inauguração nós temos que depender da rede, depender da tecnologia. Não podemos ter muita gente a ver, por causa do que fizemos ao mundo”, assinala Alice Kok, sobre aquela que é primeira exposição que a AFA apresenta em 2020 e a primeira parte do projecto “New Generation – New Media”, que integrará, numa segunda parte, mais para o final do ano, uma mostra da artista Sisi Wong. 

Kit Lee, a quem cabe abrir a temporada da AFA num tempo-desafio, diz querer prosseguir a construção de um trabalho que se socorre de novos media. Caminho paralelo ao design, onde não encontra a possibilidade infinita de expressão que a dimensão artística confere. “Vou definitivamente continuar, porque o meu trabalho diário é muito diferente disto de ser criativo num sentido artístico. Se não fizesse isto, sentir-me-ia vazia, sem sentido. Sou muito ‘low profile’, discreta, não muito conversadora. No meu trabalho diário tenho de comunicar com os colegas, tenho quase de ser outra pessoa. No meu trabalho artístico posso ser apenas eu”.   

 

 

   

Leave a Reply

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s