O Muro caiu há 30 anos. “Percebi que não era possível ter dois sistemas no mesmo país”

A 9 de Novembro de 1989, caiu, em Berlim, o Muro que dividia não só a Alemanha como a Europa e o mundo. Ao PONTO FINAL, Harald Brüning e Heinz-Peter Gerhardt, alemães a viver em Macau, recordam o antes e o depois do momento histórico. Brüning lembra a queda do Muro como “um acontecimento extremamente simbólico”, enquanto Heinz-Peter afirma que dois sistemas no mesmo país teria sido uma experiência “muito interessante”, mas que acabou decepcionado.

André Vinagre

andrevinagre.pontofinal@gmail.com

“As viagens para fora do país podem agora ser feitas sem pré-requisitos”. Esta foi a nota que Günter Schabowski, porta-voz do Partido Socialista Unificado da Alemanha, leu numa conferência de imprensa de rotina das autoridades do lado Oriental. Não tinha lido a nota antes, soube da notícia ao mesmo tempo que a lia em directo para os jornalistas. A frase catapultou os berlinenses do Leste para junto do Muro, na ânsia de o atravessar. Harald Jäger, guarda na fronteira, ouviu as palavras de Günter Schabowski e, em acto contínuo, viu a multidão aproximar-se. Gritou: “Abram os portões!”, contou à revista Der Spiegel. Abria-se, assim, a Cortina de Ferro.

Há 30 anos, Harald Brüning já estava em Macau e Heinz-Peter Gerhardt viajava pela Jordânia. Ambos assistiram à queda do Muro de Berlim pela televisão e acompanharam o processo de reunificação das Alemanhas à distância. “Foi uma reunificação da Alemanha, mas também da Europa”, comenta o director do Macau Post Daily. Já o professor da Universidade de São José, que chegou a ter por missão “reeducar” os funcionários públicos da RDA, diz que a ideia de duas Alemanhas até podia ter sido “interessante”, mas acabou desiludido. “Percebi que não era possível ter dois sistemas no mesmo país”, afirma.

Construído em Agosto de 1961 pelo lado socialista, o Muro de Berlim tinha como objectivo separar dois sistemas dentro do mesmo país. De um lado, a Alemanha Oriental, de natureza socialista, do outro, a Alemanha Ocidental, capitalista. O Muro de cerca de 120 quilómetros dividia Berlim, a Alemanha, a Europa e o mundo, já que a República Federal Alemã (RFA), a Oeste, tinha como principal aliado os Estados Unidos da América, enquanto a República Democrática Alemã (RDA), a Leste, contava com o apoio do regime soviético. A 9 de Novembro de 1989, o Muro caiu. O momento é visto como o início do fim da Guerra Fria.

A permissão concedida aos cidadãos alemães no lado oriental, de que poderiam visitar o outro lado, foi o culminar de uma série de tumultos nas ruas que duravam há semanas. Nas semanas seguintes ao anúncio da decisão por parte das autoridades socialistas, multidões em euforia começaram a destruir o Muro. A reunificação da Alemanha seria oficialmente declarada a 3 de Outubro de 1990.

HEINZ-PETER, MENSAGEIRO DO MUNDO CAPITALISTA

A 9 de Novembro, Heinz-Peter Gerhardt não estava em Frankfurt, onde nasceu, estava em Amã, capital da Jordânia. O professor visitante da Universidade de São José (USJ) tinha 40 anos e trabalhava, então, no Serviço de Intercâmbio Académico da Alemanha. Viu a queda do Muro pela televisão. “Recebi a notícia com grande euforia, foi o que sempre quisemos, que os alemães estivessem juntos”, recorda ao PONTO FINAL.

O docente das áreas da Pedagogia e Psicologia, que reside em Macau há menos de três anos, recorda o período antes da queda do Muro e dá exemplos das dificuldades na fronteira: “Uma vez, impediram a minha entrada por causa de uns jornais. Nós tínhamos um Volkswagen e, no Inverno, entrava água e nós púnhamos os jornais nos tapetes para absorverem a humidade, jornais com três ou quatro anos. Eles encontraram-nos, confiscaram-nos, obrigaram-nos a despir – eu e a minha mãe de 60 anos ficámos de cuecas. Acharam que nós éramos espiões, tudo por causa dos jornais”.

Contudo, diz que a vida antes da reunificação era “interessante”. Porquê? “Dois sistemas num país teria sido uma experiência muito interessante, as pessoas podiam ver como se desenvolvia um sistema capitalista e como se desenvolvia um sistema socialista”. Mas “na Alemanha de Leste havia um socialismo de cima para baixo e isso decepcionou-me, enquanto jovem”. “Percebi que não era possível ter dois sistemas no mesmo país”, afirma.

EPA/OMER MESSINGER

Já depois de Novembro de 1989, o alemão continuou a trabalhar no serviço de intercâmbio académico e chegou a ter como missão informar os alunos provenientes de países socialistas a estudar nas universidades da RDA sobre quais as mudanças depois da queda do Muro. Dar a conhecer aos alunos de outros regimes socialistas como seria a educação numa universidade de um país capitalista. “As diferenças eram que não ia haver mais ensinamentos marxistas-leninistas e que não ia haver matérias políticas e partidárias. E que também ia haver a liberdade de viajar”, conta. Segundo o professor, “foi um alívio” para estes estudantes que tinham ido para a Alemanha de Leste, provenientes de países como Cuba, Argélia ou Vietname, por exemplo.

Mais tarde, em 1991, “foi ainda mais interessante”. Teve como função “reeducar todo o funcionalismo público com o sistema que tínhamos na Alemanha capitalista”, no âmbito da pedagogia e liderança entre funcionários e chefias. “Isto foi muito, muito, muito complicado”, lembra. “Era muito interessante porque os homens da Alemanha de Leste tinham um problema com essa forma mais democrática de deixar as outras pessoas falarem e não tomarem decisões autocráticas. Mas as mulheres eram diferentes, tinham uma certa liberdade de escolher profissões que eram vistas como de homem. Já tinham ideias mais democráticas”, diz.

Depois da queda do Muro, as diferenças esbateram-se, mas ainda são visíveis. “O problema é que, até hoje, ainda há uma grande diferença entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental, especialmente em termos de democracia e de como receber pessoas de fora”, comenta, explanando: “Eles estavam muito isolados, não tinham convivência com pessoas de fora, não era uma sociedade que recebia imigrantes, como nós na Alemanha capitalista”. Isto, segundo Heinz-Peter, “ainda se sente”: “Eles não querem que nenhum refugiado ou requisitos de asilo fiquem perto da aldeia deles, por exemplo. Houve questões que não mudaram, e isso dá-me uma certa pena”.

O comportamento da Alemanha Ocidental, onde cresceu Heinze-Peter Gerhardt, não foi exemplar. Segundo o professor da USJ, a Alemanha capitalista comportou-se como “colonizador”. “Fecharam fábricas que faziam concorrência à Alemanha capitalista, receberam terras a preço de saldo e, então, muitas pessoas ainda hoje têm uma raiva enorme contra este tipo de colonialismo dos alemães contra os próprios alemães”, justifica.

RAPHAEL THIÉMARD

HARALD BRÜNING: “UM ACONTECIMENTO EXTREMAMENTE SIMBÓLICO”

Tal como o compatriota, Harald Brüning já não estava na Alemanha quando a história do país mudou. O jornalista chegou a Macau em 1985, quatro anos antes de cair o Muro. O director do Macau Post Daily nasceu na fronteira entre Ocidente e Oriente, na cidade de Helmstedt, “uma pequena cidade que também funcionava como posto fronteiriço, um dos poucos postos fronteiriços entre os dois lados da Alemanha”. Helmstedt fica na fronteira do lado Ocidental, onde a família de Brüning chegou como refugiada, após a Segunda Guerra Mundial. “Toda a minha família, do pai e da mãe, eram refugiados do Leste”, conta.

“Vi a notícia na televisão e fiquei feliz, naturalmente. Foi um grande acontecimento”, lembra Brüning. Para o jornalista, que viveu na Alemanha até aos seus 28 anos, “a queda do Muro foi um acontecimento extremamente simbólico, mas também prático”. E passa a explicar: “Foi o fim da divisão da Alemanha, mas também da Europa. Começou assim a queda dos regimes da Europa de Leste. Foi uma reunificação da Alemanha e da Europa. E também foi uma mudança na prática porque as pessoas começaram a poder viajar livremente entre as duas partes da Alemanha”.

Harald Brüning compara as duas Alemanhas: “a Alemanha de Leste era o país mais desenvolvido da Europa de Leste. As condições eram piores do que na Alemanha Ocidental, o que não espanta, mas, em termos comparativos com os outros países da Europa de Leste, não era assim tão mau”. “Havia uma grande diferença em termos de desenvolvimento económico entre o Ocidente e o Oriente, mas não era uma diferença como existe entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte, por exemplo”, acrescenta, recordando que as divisões também são ultrapassáveis: “Quase todo o Leste podia ver televisão do Ocidente e em Helmstedt nós também víamos a televisão do Leste, tinha bons programas”.

US DEPARTMENT OF DEFENSE

Benedicte Vassort, franco-alemã a viver em Macau há quase 20 anos, por dois meses não testemunhou presencialmente a queda do Muro. Filha de mãe alemã e pai francês, viveu na capital germânica – no bairro americano – apenas um ano, entre 1988 e Setembro de 1989. A queda do Muro acabaria por acontecer em Novembro desse ano.

Diz não se lembrar do dia 9 de Novembro, mas recorda as dificuldades ao tentar visitar familiares que tinha no lado Oriental de Berlim antes de o Muro ser derrubado. Se no caso de Heinze-Peter, a culpa foi de jornais velhos, no caso de Benedicte Vassort foi de Serge Gainsbourg, músico parisiense: “Lembro-me de termos tentado levar ‘collants’ e também um disco de Serge Gainsbourg, ‘Je T’aime… Mais Non Plus’, e eles passaram muito tempo a inspeccionar tudo, em baixo do carro, em todo o lado”.

Na altura, “Berlim de Leste era muito triste, o aspecto dos prédios, as lojas sempre vazias ou com grandes filas”, recorda. Lembra então uma visita a Leipzig, na Alemanha de Leste, já nos anos 90: “Já era uma cidade dinâmica, com bastantes jovens e actividade”.

Trinta anos depois, o Muro de Berlim tornou-se no maior símbolo da Guerra Fria e partes dele ainda estão de pé. A East Side Gallery, uma galeria de arte a céu aberto num troço do Muro, foi inaugurada em 1990 e tem hoje 105 murais de artistas de todo o mundo, incluindo o de uma portuguesa, Ana Leonor Rodrigues. O ‘Checkpoint Charlie’, posto militar entre as duas Alemanhas, continua em Berlim e é um dos pontos turísticos da cidade. Pedaços do Muro estão hoje espalhados por todo o mundo, em Londres, Madrid, Moscovo, Nova Iorque e Taipé, por exemplo.

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