Condenar violência policial é apoiar actos ilegais dos manifestantes, diz a PSP

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

As forças de segurança insistiram ontem que a identificação e interrogatório de suspeitos, que tiveram lugar na noite de segunda-feira, não constituem detenções, tendo as autoridades apenas solicitado “a colaboração das pessoas”. A PSP assumiu que o transporte de um autocolante relativo ao movimento pró-democracia de Hong Kong foi decisivo para que um casal de residentes fosse conduzido à esquadra, e considera que quem questionar a actuação policial na RAEHK está a defender actos ilegais praticados por manifestantes.    

Sílvia Gonçalves

silviagoncalves.pontofinal@gmail.com

A Polícia de Segurança Pública (PSP) declarou ontem não ter feito qualquer detenção na noite de segunda-feira, alegando ter apenas procedido à identificação das sete pessoas que foram levadas para a esquadra e sujeitas a interrogatório. “Nós só solicitamos a colaboração das pessoas”, referiu, em conferência de imprensa, o porta-voz da PSP, que considerou ainda tratar-se de uma medida preventiva para evitar a ocorrência de crimes. Quanto aos 30 indivíduos que, na mesma noite, foram levados para uma garagem na Rua da Sé, sujeitos a identificação e revista, a porta-voz da Polícia Judiciária (PJ) diz ter-se tratado de “um trabalho normal da PJ”, não revelando que indícios justificaram a operação. 

A Judiciária justificou ainda a escolha da garagem para o procedimento com a falta de espaço: “Naquela zona, o espaço não era suficiente, por isso escolhemos outro local para essas 30 pessoas. Normalmente pedimos aos cidadãos para irem para locais com espaço suficiente para ser efectuado o trabalho de investigação”. “É uma operação normal, quando vamos aos casinos e vemos indivíduos com condutas suspeitas, também efectuamos esse tipo de identificação, é um trabalho normal da PJ”, reiterou a porta-voz, não tendo, contudo, especificado qual a conduta entendida como suspeita nos indivíduos, vestidos com t-shirts brancas, que circulavam no Largo do Senado, alguns deles com pequenas bandeiras da República Popular da China. 

Certo é que, e segundo a mesma porta-voz, em nenhum dos suspeitos foi encontrada uma arma. “Não se encontrou qualquer arma na posse daqueles indivíduos, e por isso foram logo libertados depois de identificados”. No grupo dos trinta levados para a garagem estavam 26 residentes de Macau (25 homens e uma mulher), três homens do interior da China e um cidadão tailandês, confirmaram ontem as autoridades. 

Sobre os outros sete indivíduos levados à esquadra para interrogatório – quatro residentes de Macau, dois da China continental e um estudante de Hong Kong – a PSP assume que o autocolante relativo ao movimento pró-democracia de Hong Kong, encontrado na mala de uma residente, serviu de indício de crime, ainda que não constitua um acto ilícito. “Precisámos de proceder a mais investigação sobre se eles queriam fazer alguma coisa na praça com esses autocolantes. A manifestação foi proibida, se eles aparecem na praça para se manifestar não estão a respeitar o despacho”. 

O autocolante, oferecido à residente no dia anterior, na manifestação pacífica em que participou no Victoria Park, em Hong Kong, não terá sido argumento único para o interrogatório, mas foi decisivo: “Levar para a esquadra tem vários motivos, não depende só do autocolante. Não é uma visão política. Se proibimos a manifestação e na sua mala ela tem aquele autocolante sobre [a outra] manifestação, isso é suspeito”, alegou o porta-voz da PSP.

Tratando-se de um autocolante relativo a uma manifestação decorrida em Hong Kong, qual a sua relação com Macau? “A manifestação de Macau, o tema era sobre Hong Kong. Se o autocolante tem a ver com a manifestação de Hong Kong, então tem relação. O pedido da manifestação tinha a ver com Hong Kong”, enquadra o porta-voz da PSP.   

Entende a PSP que condenar a acção das forças de segurança de Hong Kong equivale a concordar com actos ilegais cometidos por manifestantes. “Uma parte dos activistas de Hong Kong praticou alguns actos muito graves, como danificar a bandeira nacional, destruir o Conselho Legislativo. Se há pessoas que apoiam esses actos e querem contrariar a polícia, isso é contrário à lei. Se não apoiar o trabalho das autoridades de Hong Kong, isso é contrário à lei da manifestação [de Macau]”, o que levou a PSP a negar, na passada quinta-feira, a realização de uma manifestação que visava contestar a violência policial exercida na RAEHK. Em suma, para a PSP, tudo se resume na seguinte premissa: “se achar que a [actuação da] autoridade é ilegal, quer dizer que está a concordar com os manifestantes que praticaram actos ilegais”. 

O porta-voz da PSP esclareceu ainda que as forças de segurança estabelecem uma distinção entre manifestações, recorrendo à experiência prévia para autorizar a sua realização. “Macau tem vários tipos de manifestações. Se é de acordo com a lei, como o 1º de Maio ou o dia 1 de Outubro, a polícia faz muita coisa para as pessoas poderem exercer o seu direito a se manifestar. Se é de acordo com a lei, o pedido de manifestação é aprovado, tendo em conta a nossa experiência anterior. Considero que esse direito [à manifestação] é protegido. Nós já tínhamos esclarecido que o objectivo da manifestação [agendada para esta segunda-feira] era apoiar um acto ilegal, assim não é permitido”, resume o agente da autoridade. 

Questionado sobre se as forças de segurança temem um ataque de elementos das tríades em Macau, à semelhança do que sucedeu nos protestos de Hong Kong, o porta-voz da PSP assinalou apenas que “em Macau, o ambiente de segurança é bom”, considerando que os crimes muito violentos não são comuns.  

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