Dezenas de detenções para interrogatório, numa noite em que não soaram vozes de protesto 

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

A Polícia de Segurança Pública (PSP) fez-se ontem representar de forma massiva no Largo do Senado, para “manter a ordem social” e evitar que a manifestação contra a violência policial em Hong Kong – que havia sido cancelada pelas autoridades na quinta-feira – se pudesse concretizar. Numa noite em que mais de três dezenas de indivíduos foram levados para uma garagem na Rua da Sé e identificados pela Polícia Judiciária, sendo de seguida libertados, houve ainda lugar a sete detenções para interrogatório em esquadras da PSP. 

Reportagem de Sílvia Gonçalves (Texto) e Eduardo Martins (Fotografia)

A manifestação contra a violência policial em Hong Kong tinha sido cancelada, mas o forte aparato policial, logo ao final da tarde de ontem, dava uma indicação contrária a quem circulava junto ao Largo do Senado. Alinhados em filas, ao longo da Rua de São Domingos, dezenas de agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) abordam muitos dos que passam, pedem a identificação, sobretudo a quem veste de preto. Já no Largo do Senado, um grupo de seis homens com t-shirts brancas e pequenas bandeiras da República Popular da China recusa o diálogo. Questionados pelo PONTO FINAL sobre o propósito da concentração naquele espaço, apenas um responde para dizer que é tailandês, enquanto observa o telemóvel. São depois cercados por agentes da PSP, aos quais são obrigados a mostrar os passaportes. 

“NÓS, AS PESSOAS DE MACAU, NÃO QUEREMOS PROBLEMAS”

“A manifestação foi cancelada, certo?”, pergunta ao PONTO FINAL um homem que passa, ao perceber o aparato policial que preenche todos os acessos à praça. “Nós, as pessoas de Macau, não queremos problemas. Nós somos China!”, grita, e afasta-se rapidamente. Amontoam-se depois aqueles que circulam na praça em redor de um casal interrogado pela polícia, ao qual foi pedido os documentos. Porque é que vos foi pedida a identificação? “Não sabemos, apenas estávamos aqui, somos residentes de Macau. Disseram-nos: ‘fiquem aqui’”, responde o rapaz, de 28 anos. Junto a ele, uma rapariga, visivelmente assustada, acrescenta: “Revistaram a minha mala”. 

Depois da insistência junto da polícia para perceber a razão da abordagem, os agentes nada explicam, formam um cordão para evitar a aproximação da imprensa. “Dizem que estavam a fazer actividades ilegais, que são suspeitos de actividades ilegais”, traduz uma mulher que observa junto ao casal. A rapariga alvo de interrogação conta que lhe encontraram um autocolante na mala, que lhe fora oferecido no dia anterior em Hong Kong, que os agentes recolhem. “Dizem que aqui não é seguro, que vão levar-nos para outro local, que temos de preencher papéis”, acrescenta a residente, que prefere não se identificar. 

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

TRÊS DEZENAS DE HOMENS IDENTIFICADOS NO INTERIOR DE UMA GARAGEM

Os dois elementos do casal são depois levados por dezenas de agentes no sentido da Rua da Sé. Rapidamente é formado um cordão policial para impedir a passagem dos jornalistas. Em simultâneo, pelas 20h30, um grupo de homens é conduzido pelos agentes para o interior da garagem, situada na mesma rua, cuja placa indica tratar-se de um imóvel pertencente à Direcção dos Serviços de Finanças. No interior da garagem, cerca de trinta homens de t-shirts brancas estão já alinhados de frente para a parede, mãos atrás das costas. Rodeados por dezenas de agentes da Polícia Judiciária. Em pequenos grupos, vão sendo revistados e identificados pelas autoridades. 

A que se deve a detenção destes indivíduos? Que suspeitas recaem sobre eles? “Ninguém está detido para já. Estou a fazer a minha investigação, não tenho comentários a fazer”, responde um agente da PJ que parece estar a comandar a operação, depois de muita insistência do PONTO FINAL. A observar a situação encontra-se um advogado português, que entretanto se apercebera do aparato na garagem, e da presença de carrinhas de PSP no exterior. “Eles não estão tecnicamente detidos, estão retidos para identificação. Se eu estivesse aqui como advogado deles, impedia isto”, assinala o causídico, João Manuel Vicente. 

“Tenho pena que a Associação de Advogados de Macau não esteja aqui a acompanhar isto. Como se a polícia pudesse impedir uma manifestação. Estes indivíduos nem têm que falar com a polícia, eles só podem ficar sob custódia para identificação. E só se pode exigir uma identificação se eles estiverem num local onde há suspeita da prática de um crime. Esta situação é ajurídica”, considera o advogado, sem esconder a indignação perante o cenário que observa.

Prossegue a identificação dos indivíduos sob custódia, ainda voltados para a parede. Apenas uma mulher, de t-shirt branca e boné, entre mais de trinta homens. Alinhados em três filas, ainda. Um agente grita: “Não se mexam!”. O cordão da PJ impede que os jornalistas se aproximem dos suspeitos. Pelas 21h15, um primeiro grupo de cinco homens é libertado. Um deles, já no exterior da garagem, ergue o seu cartão de residente de Macau e protesta. Diz que estava apenas a passar com um amigo no Largo do Senado quando foram trazidos pela PJ para a garagem. 

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

“ESTA NOITE É A TERCEIRA VEZ QUE SOMOS IDENTIFICADOS PELA POLÍCIA”

De seguida, todos vão sendo libertados, em pequenos grupos. No Largo da Sé, dois jovens vestidos de preto são travados por agentes da Polícia de Segurança Pública. É-lhes pedida a identificação, a que se segue o preenchimento de um formulário. O saco de um deles é revistado. “É um procedimento simples”, responde uma agente, quando questionada pelo PONTO FINAL. Os dois residentes, de 24 e 25 anos, contam que lhes foi dito que esta é uma “operação normal”. “Esta noite é a terceira vez que somos identificados pela polícia, sempre aqui na área da Almeida Ribeiro”.

Pelas 22 horas, ainda os agentes espalhados pelo Largo do Senado identificam os que passam. O PONTO FINAL recebe a indicação que o casal detido pouco tempo antes na praça fora levado para a esquadra do Comissariado nº2 da PSP. Nas redes sociais circulam já imagens que dão conta da participação dos dois, no domingo, na manifestação pacífica que decorreu no Victoria Park, em Hong Kong. Entretanto, numa nota remetida pela PSP ao PONTO FINAL, as autoridades dizem ter destacado “mais agentes policiais no Largo do Senado para manter a ordem social. A PSP levou, no total, sete pessoas para a esquadra para investigação, entre os quais seis homens e uma mulher, quatro são residentes de Macau, dois são do interior da China e um de Hong Kong. Até ao momento, não se registou ninguém de nacionalidade portuguesa a ser levado para a esquadra”. 

Pelas 23 horas, alguns amigos do casal detido aguardam no exterior da esquadra localizada na Avenida Almirante Lacerda. Ao PONTO FINAL, contam que o autocolante encontrado pelos agentes dentro da bolsa da residente refere-se ao movimento pró-democracia de Hong Kong. “Deram-nos os autocolantes ontem [domingo] no Victoria Park, estivemos lá todos juntos num protesto pacífico”. O rapaz, de apelido Iao, e a rapariga, de apelido Lei, assumem que têm ido frequentemente a Hong Kong. “Mas participamos sempre em manifestações pacíficas, nunca participámos em protestos violentos”. Lei enquadra a razão que os leva atravessar o rio para participar na revolta que há mais de dois meses toma o quotidiano da RAEHK. “Acreditamos na causa, estamos muito tocados pela acção dos estudantes. Muitos dos nossos amigos em Macau apoiam a causa, mas sabemos que em Macau é diferente. Para nós é muito triste saber que o protesto desta noite foi cancelado”. 

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

“TODOS ESTÃO A VIVER NO MEDO, EM MACAU”

Iao enfatiza: “A mensagem que queremos passar é privada, não pertencemos a nenhum grupo”. Lei interrompe: “Isto não é a China”. Iao complementa: “Devíamos ter dois sistemas, mas não é assim. O tipo que tentou organizar a concentração cá, a polícia sabe o nome dele, está assustado. Estamos a viver sob medo!”. Num tom quase sussurrado, Lei dá conta de uma vivência quotidiana em que se habituou a medir consequências. “Já fui a Hong Kong três vezes, mas nunca digo aos meus pais e amigos, não quero que fiquem preocupados. Todos estão a viver no medo, em Macau. Hoje não estivemos no Largo do Senado, estávamos a trabalhar, mas a minha amiga ligou-me e disse-me: ‘eles descobriram-me o autocolante na mala’, e contou-me que estavam a ser levados para a esquadra”. Entretanto, Lei vai-se aconselhando por mensagem com um advogado, que lhe diz que o casal não pode ser detido a menos que os dois sejam suspeitos de ter cometido um crime que incorra numa pena superior a três anos de prisão, e que esse não será o quadro, caso sejam acusados de manifestação ilegal. 

Uma nota remetida entretanto pela PSP refere que quatro dos sete cidadãos foram libertados, três permanecem em interrogatório na esquadra. Dizem as autoridades que estão “a investigar se iam participar na iniciativa”. Insistem que “não há nenhuma acusação porque ninguém foi detido, foram levados para a esquadra só para investigação”.  

Pelas 23h40 chega o deputado Sulu Sou. “Não conheço os contornos do incidente ocorrido no Largo do Senado, mas espero que a polícia possa responder às nossas questões”, refere o democrata, antes de se dirigir para o interior da esquadra. À saída, chega o deputado de mãos vazias, disseram-lhe as autoridades que não podem facultar informação. “Só conheço pela internet a actuação desta noite da PSP. Repito o apelo para que a PSP responda imediatamente sobre o que está a acontecer”, refere, em declarações à imprensa no exterior da esquadra. “Mesmo que as pessoas levem uma bandeira para a rua, é legal. Se levam um autocolante na mala, isso é legal, é um comportamento legal”, assinala o deputado, que assume: “Não esperava nada disto. A manifestação não aconteceu, a polícia e o Governo sabem que aqui é Macau”. 

Pouco depois, vindo de outra esquadra, chega um dos sete que haviam sido detidos, para falar à imprensa. Trata-se de um estudante universitário de Hong Kong, detido pelas 18 horas no Largo do Senado. “Pelas 16 horas cheguei ao local onde ia haver a manifestação e comecei a entrevistar pessoas, a filmar. Queria saber se as pessoas iriam na mesma manifestar-se, apesar da concentração ter sido rejeitada pela polícia, queria comparar as pessoas de Macau e Hong Kong”, descreve Owen. “A polícia perguntou-me o que estava ali a fazer e levou-me para a esquadra, pelas 18 horas. Fui interrogado durante cerca de cinco horas, nesta esquadra [da Almirante Lacerda] durante duas horas, e depois levaram-me para outra esquadra, junto do Holiday Inn”. 

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

“NÃO TENHO MEDO DE SER PRESO, SOU DE HONG KONG”

O estudante detalha depois um interrogatório em que as questões foram repetidas infinitas vezes: “Fizeram-me muitas perguntas sobre as minhas entrevistas. Estavam concentrados nisso, e porque é que vim a Macau. Não me perguntaram nada sobre Hong Kong, talvez já tivessem verificado a minha história”. O jovem, de 22 anos, diz ter-lhe sido retirado o telemóvel. “Não sei o que fizeram com ele”. Frente à câmara da televisão, traduz a indignação face a uma detenção para a qual não encontra explicação: “Sinto-me zangado, não fiz nada, detiveram-me sem razão. Esta é a minha terceira vez em Macau, por esta experiência, não voltarei cá”. Tem receio de uma nova detenção? “Não tenho medo de ser preso, sou de Hong Kong. As pessoas de Hong Kong não têm medo do Governo da China. Vou lutar junto da minha gente contra o Governo chinês”. 

Owen considera que “a atmosfera política aqui é pior do que em Hong Kong”. E exemplifica: “Quando hoje fui detido, ninguém quis ajudar-me. Se tivesse sido em Hong Kong, as pessoas ter-me-iam rodeado, teriam exigido saber porque fui detido. Penso que as pessoas aqui talvez tenham medo do Governo, aqui é tudo controlado pelo Governo da China”. 

Numa altura em que uma nova nota da PSP dá conta de que apenas dois cidadãos permanecem em interrogatório, o casal de residentes de Macau, chega a mãe da rapariga a quem foi confiscado o autocolante. Abraça os amigos que aguardam o casal, num choro convulsivo. Mais tarde, o casal é levado para uma outra esquadra da PSP, na Praceta 1 de Outubro. No fecho desta edição, já depois das três horas da manhã de hoje, o PONTO FINAL recebeu a informação de que o casal havia sido libertado pouco antes das três horas da manhã.    

 

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