Investimento: Há um desfasamento entre os empresários chineses e as oportunidades de negócio em Portugal

Y Ping Chow

Uma responsável do Banco da China disse na semana passada que os investidores chineses têm liquidez mas não encontram investimentos interessantes em Portugal. A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa e a Liga dos Chineses em Portugal não concordam: afirmam que há bons negócios, mas que há um desencontro entre o que a procura deseja e o que a oferta possui.   

João Carlos Malta

joaomalta.pontofinal@gmail.com

As oportunidades de negócio que existem em Portugal não estão a atrair os investidores chineses, numa fase em que Lisboa quer que Pequim mude a agulha: da aquisição ou tomada de posições em empresas para o investimento produtivo. A falta de informação aliada ao desfasamento entre a procura de grandes negócios do lado chinês, e a oferta mais modesta do lado português, podem ser pistas para a resposta do aparente paradoxo, num país como Portugal sempre ávido de atrair investimento estrangeiro.  

As fontes no terreno contactadas pelo PONTO FINAL alertam para o desencontro entre a procura de grandes investimentos, superiores a 900/1350 milhões de patacas, e a quantidade de grandes projectos viáveis em território nacional. Também nas áreas a apostar parece não haver um ‘match’.

A discussão sobre o investimento chinês em Portugal foi retomada no início da semana passada, quando a directora-geral do Departamento de Instituições Financeiras do Banco da China, Wendy Sun Min, afirmou à Agência Lusa que é difícil encontrar bons projectos e oportunidades em solo luso, apesar de as empresas chinesas terem liquidez e vontade de investir.

João Marques da Cruz, presidente da Câmara de Comércio Luso-Chinesa (CCLC) e membro do Conselho de Administração da EDP, não partilha da mesma opinião. “Portugal tem muitíssimos projectos de investimento”, sinaliza ao PONTO FINAL. Mas reconhece que está a existir um problema nesta relação. “A dificuldade que tem havido é a de direccionar o investimento na economia real por parte da China, para que este não seja apenas na compra de acções de empresas que já existem, e passe a ser também em projectos que comecem do zero”, reflecte o líder da CCLC, que conhece muito bem a China, uma vez que divide a vida profissional entre Lisboa e Hong Kong, e no passado já foi administrador da Companhia Eléctrica de Macau.

 

Mudar de agenda

 

No final do ano passado, antes da visita do Presidente Xi Jinping a Portugal, o ministro Adjunto e da Economia, Pedro Siza Vieira, afirmou que a vontade do Governo liderado por António Costa é de que o investimento chinês seja “produtivo”. “O importante investimento chinês marca a vida portuguesa, mas queremos que a visita de Estado permita elevar a relação para um plano distinto”, afirmou o ministro. “Ao nível económico, no investimento directo estrangeiro, gostaríamos de passar da aquisição de activos para um investimento produtivo”.

Também o presidente da Liga de Chineses em Portugal, Y Ping Chow, disse ao PONTO FINAL que não vê a realidade como a descreve a directora-geral do Departamento de Instituições Financeiras do Banco da China. “Em Portugal há oportunidades para arranjar bons projectos”, avança. Mas então porque é que há este sentimento, deste lado? “Os bancos chineses só se interessam por negócios de financiamento que envolvam um volume bastante grande. E isso em Portugal não é tão fácil”, explica Chow, que vive no Porto desde 1962, quando chegou ao país com sete anos.

Por “volumes grandes”, e segundo o presidente da Liga de Chineses tem falado sobre o assunto com o Fórum de Macau, entendem-se investimentos que tenham por base mínima 500 milhões de patacas. “Menos do que isso não interessam”, revela. “O projecto, para ser apoiado, tem de ser de 100 milhões de euros (906 milhões de patacas), ter capital próprio, e investimento de apoio”. Além da dimensão, também a área de investimento pode ser motivo de desencontro. “Há projectos superiores a 100 milhões de euros, mas por exemplo os investimentos em hóteis e em imobiliário não são muito apoiados”, explica Y Ping Chow. “A agricultura e indústria podem ser bem aceites, mas não sei que tipo de projectos industriais poderão avançar”, concretiza.

 

Problemas com o tipo de economia?

 

Marques da Cruz diz que se prova que não há falta de investimentos interessantes em Portugal por haver outros países que os fazem. O presidente da CCLC encontra uma outra explicação para este fenómeno, “a dificuldade que os investidores chineses têm em economias com as características da portuguesa, que é uma economia de mercado”. “As empresas chinesas preferirem as aquisições, a montar empresas de raiz, é algo que não se aplica só a Portugal, mas à generalidade dos países da Europa”, defende.

Apesar das queixas, a verdade é que segundo os dados mais recentes da AICEP, o stock de investimento chinês em Portugal quase triplicou nos últimos cinco anos (ver caixa). Aliás, em Março, em entrevista ao Financial Times, o primeiro-ministro, António Costa, deu palavras a estes números: “A nossa experiência com o investimento chinês tem sido muito positiva. Os chineses mostraram completo respeito pelo nosso quadro-legal e pelas regras do mercado”.

 

Caixa

 

Infra-estruturas, turismo e agro-indústria para chinês escolher

 

Se a directora -geral do Departamento de Instituições Financeiras do Banco da China, Wendy Sun Min, afirma que há poucos investimentos interessantes em Portugal, o presidente da Câmara de Comércio Luso-Chinesa contrapõe com uma tríade de opções. João Marques da Cruz começa por sinalizar o sector das infra-estruturas, em que “a China é fortíssima”. É um país com “estradas e linhas de ferro, portos e aeroportos fantásticos”. “É o topo do mundo”, elogia. Já Portugal é um país assimétrico em infra-estruturas, tem boas e modernas autoestradas, “mas na ferrovia e nos portos, é o oposto do muito bom, tem muito a fazer”.

E esses são investimentos fundamentais para um país aberto e essenciais para as exportações. Neste campo, Marques da Cruz aponta uma oportunidade concreta: “O porto de Sines e a ligação ao ‘interland’ ibérico, através de uma ferrovia moderna. Há um projecto que se chama Terminal Vasco da Gama, e é muito importante que vá para a frente com investimento chinês”, explica o líder da CCLC.

Outra oportunidade estará no “cluster das cidades”, que engloba o imobiliário, o turismo, a requalificação urbana, e a hotelaria. “Em Lisboa e no Porto percebe-se que fervilha a quantidade de gruas. Há uma relação entre o PIB e o número de gruas. Aqui a construção é importante, vendem-se mais materiais de construção. E essa edificação é para turistas, em alguns casos, o que dá outros postos de trabalho indirectos”, sublinha o membro do Conselho de Administração da EDP. 

Por fim, o mesmo dirigente associativo fala da agro-indústria: o azeite, o vinho e a carne de porco, que é extremamente importante para a China, que é o maior consumidor do mundo. “Portugal tem uma óptima relação qualidade preço nesses produtos”, remata. J.C.M.

 

Caixa

 

Duas faces: investimento cresceu mas está a cair

 

Nos últimos cinco anos, o crescimento do stock de investimento cresceu 187%, no entanto, este é apenas um lado da realidade. Os fluxos anuais de investimento estão a cair praticamente desde 2014, ano em que os chineses estiveram muito presentes na aquisição de activos que foram alienados pelo Estado em resultado do plano de resgate da troika. O ano passado, o investimento chinês foi de 381 milhões de euros, menos 4% do que no ano anterior.

Ainda assim, aumentando a escala temporal, os últimos anos efectivaram o investimento chinês em Portugal. A multiplicação de privatizações foi o gatilho deste fenómeno. Antes de 2013, essa presença era residual. Já Portugal não tem investimento directo na China.

Entre as operações mais sonantes dos chineses estão a aquisição de participações na EDP e na REN pela China Three Gorges e a State Grid, a aquisição pelo Grupo BEWG (Beijing Enterprises Water Group) da operação do Grupo francês Veolia no sector do tratamento de águas em Portugal, e da Fosun, que ganhou o processo de privatização de grande parte do capital relativo ao negócio segurador da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e que tem ainda uma participação no Millenium BCP. Por fim, destaque ainda para a compra do BES Internacional pela Haitong.

“Nos últimos anos, tivemos mais de 10 mil milhões de euros (906 mil milhões de patacas) de investimento chinês, sendo que mais de 90% se destinou à entrada de capital em negócios. E é verdade que, em muitos dos casos, nos salvou as empresas”, remata João Marques da Cruz. J.C.M.

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s