A viagem solitária do operário e poeta Xu Lizhi, num musical a solo por Njo Kong Kie

FOTOGRAFIA: Dahlia Katz

O musical “I Swallowed a Moon Made of Iron”, em cena em Toronto, no Canadá, até 26 de Maio, presta homenagem ao poeta, Xu Lizhi, operário da Foxconn, em Shenzhen, que se suicidou em 2014. O compositor e intérprete é Njo Kong Kie, nascido na Indonésia, criado em Macau, formado em Lisboa e estabelecido no Canadá. A produção é uma parceria entre a Point View Art Association, de Macau, e a Music Picnic, de Toronto.

Cláudia Aranda

claudia.aranda.pontofinal@gmail.com

A poesia de Xu Lizhi, o operário da Foxconn, fabricante de aparelhos electrónicos em Shenzhen, que cometeu suicídio em 2014, atirando-se aos 24 anos do terraço de um dos edifícios do complexo fabril, é a matéria-prima da peça “I Swallowed a Moon Made of Iron”, em cena em Toronto, no Canadá, até 26 de Maio. O título, em português, “Engoli uma lua feita de ferro” é retirado de um dos textos do operário e poeta, explicou ao PONTO FINAL o encenador, compositor e intérprete da peça, Njo Kong Kie. O criador cresceu em Macau, onde chegou aos sete anos, com os pais, chineses da Indonésia, vive no Canadá desde 1991, tendo passado por Lisboa, onde se formou na Escola Superior de Música. A produção é uma parceria entre a Point View Art Association, de Macau, dirigida por Erik Kuong, e da Music Picnic, baseada em Toronto.

É saltando entre o português e o inglês que o criador, compositor e intérprete da peça explica ao PONTO FINAL que, ao encenar este trabalho como uma ‘performance’ a solo, quis estabelecer “um paralelo entre o estar sozinho no palco e a jornada solitária de Xu como poeta”. Os poemas são lidos e cantados por Njo Kong Kie, na língua original, que é o mandarim, com expressões idiomáticas em cantonês. A interpretação é “em estilo experimental, dentro das limitações da voz”. À música associa-se o movimento inspirado na experiência de trabalhar com companhias de dança contemporânea. O elemento multimédia está por conta do fotógrafo e cineasta de Macau, Ao Ieong Mike. Em termos de cenografia, Njo Kong Kie afirma que se focaram num poema “em que Xu descreve um quarto com 10 metros quadrados e actuamos num espaço de 10 metros quadrados, com um piano encaixado nesse espaço, estamos confinados, tentamos dar essa sensação de ambiente claustrofóbico que Xu descreve num dos poemas”, explica o também compositor das peças “Mr. Shi and His Lover” e “Picnic in the Cemetery”, ambas igualmente co-produzidas pela Point View Art Association, estabelecida em Macau desde 2008.

Histórias da linha de montagem

Xu Lizhi era operário, mas usou a poesia como forma de expressão, de documentar a sua vida e a dureza do trabalho, as suas ambições, acrescenta o compositor. Através da poesia, o operário “expande o que lhe vai na alma numa frase de cada vez, sem se preocupar com formalismos, o estilo é muito contemporâneo, não tem necessariamente rima, o comprimento de cada linha não é como na poesia tradicional chinesa, é muito livre”, descreve Njo Kong Kie.

Xu Lizhi terá escrito umas “200 peças de poesia no espaço de quatro anos, frequentava eventos literários, publicava online, no Weibo, foi assim que ele se tornou conhecido na sua comunidade, através da sua poesia”, adianta. Xu Lizhi, que em 2010 saiu de casa, na zona rural de Jieyang, em Guangdong, para ir trabalhar na companhia fabricante de produtos como BlackBerry, iPad, iPhone, Kindle, Nintendo, entre outros, dedicou os seus primeiros poemas à descrição dos dias e noites passados diante da linha de montagem. Em 2011, escrevia no poema “O último cemitério”, que a “indústria captura as lágrimas antes destas terem a possibilidade de cair”.

Xu Lizhi achou particularmente difícil adaptar-se à troca constante entre as jornadas diurnas e noturnas. Num outro poema descreve-se a si mesmo na linha de montagem “de pé como ferro, mãos como que a voar”, “quantos dias, quantas noites, eu fiquei em pé, dormi?”. Descreveu a sua vida profissional como esgotante: “Fluindo nas minhas veias, finalmente chegando à ponta da minha caneta, ganhando raízes no papel, estas palavras podem ser lidas apenas pelos corações dos trabalhadores migrantes”.

Para Njo Kong Kie a beleza da poesia de Xu Lizhi está, não só na linguagem “muito simples”, mas também nas metáforas. Além disso, os sentimentos que descreve são “muito universais”. “Claro que ele viveu num ambiente muito especifico, na Foxconn a fabricar aparelhos electrónicos, mas a experiência que ele passa não é restrita a operários fabris na China, poderia ser na Índia, na América do Norte, certamente que temos lugares onde as condições de trabalho são muito duras. Mas, em geral, este sentimento de isolamento, solidão, de vida não preenchida, não é restrita a operários fabris, toda a gente passa por isso até quem tem bons empregos, aquilo que são considerados bons empregos, as profissões de colarinho branco, é onde eu encontro a poesia dele mais profunda e comovente é quando toca nestes sentimentos comuns”.

A música, de Schubert a Jacques Brel, e a liberdade

Para compor a música para a peça, Njo Kong Kie pensou em Schubert, Schumann, Brahms, “todos estes são o meu ponto de partida, porque venho de um ‘background’ clássico, mas também estou muito interessado em compositores contemporâneos, como Jacques Brel, e quando li a poesia, não só pela tragédia dos trabalhadores, mas há muito daquilo que ele descreve sobre o anseio por pertencer, a procura do sentido da vida e, também, este sentimento de resignação, renúncia, todas estas coisas são proeminentes em Xu Lizhi”, afirma.

Em 2010, pelo menos 18 pessoas haviam tentado o suicídio na Foxconn, resultando em 14 mortes. Há quem defenda que tais suicídios continuam a acontecer até hoje, embora a frequência tenha diminuído devido à instalação de redes pela Foxconn, tornando mais difícil para os trabalhadores saltarem do alto dos edifícios. Contando com Xu Lizhi, pelo menos oito casos foram revelados pela imprensa desde 2010, mas haverá muitos outros casos que não são relatados, refere a página electrónica criada em tributo do operário poeta.

Do Macau antigo, Njo Kong Kie sente a nostalgia dos tempos em que a cidade era “mais calma, menos congestionada e menos poluída”. Conta que regressa ao território muito frequentemente e que mantém-se a par do que se passa através das redes sociais. A liberdade de expressão é algo que valoriza muito, afirma, e, no Canadá, “certamente que temos um espaço mais vasto e uma gama mais ampla de possibilidades, em termos de histórias que queremos contar e como queremos contar”, garante.

Erik Kuong, da Point View Art Association, adiantou ao PONTO FINAL que a peça “Mr. Shi and His Lover” vem  este ano em Macau e será apresentada nos dias 22 e 23 de Novembro, no Centro Cultural de Macau.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s