Vítima de violência doméstica contesta versão dos acontecimentos do MP

Contrariamente ao que o Ministério Público divulgou no mês passado, a vítima de violência doméstica já tinha acordado o divórcio com o marido meses antes do ataque. De acordo com uma fonte próxima do processo, na noite de 12 de Julho de 2018, Lao Mong Ieng estava a ler na sala quando foi repentinamente atacada pelo marido, sem que o casal tivesse tido qualquer discussão.

Catarina Vila Nova

catarinavilanova.pontofinal@gmail.com

Na noite em que Lao Mong Ieng foi atacada pelo marido o casal não tinha discutido e, contrariamente ao que o Ministério Público (MP) tinha divulgado, o divórcio estava já acordado há alguns meses. A versão da vítima foi revelada ao PONTO FINAL por uma fonte próxima do processo, que não quis ser identificada, e que negou quaisquer antecedentes de violência doméstica no seio da família. O julgamento, inicialmente marcado para hoje, foi adiado para 17 de Junho, uma vez que Lao avançou com uma acção cível contra o agressor, em prisão preventiva desde Julho do ano passado, pedindo uma indemnização por danos físicos e morais. No entanto, uma vez que a mulher deverá ser operada em Maio, o julgamento poderá ser novamente adiado.

De acordo com o relato da fonte, na altura em que foi atacada com óleo a ferver e líquido desentupidor, Lao Mong Ieng estava na sala a ler e, “de repente, os líquidos foram despejados na sua cara”. “Não aconteceu nada antes, nenhuns gritos, discussões ou agressões, nada”, frisou. A vítima perdeu imediatamente a visão, estado que se prolonga até hoje, e chamou pela empregada doméstica que já se encontrava a dormir no quarto. Foi a empregada, que também ficou ferida na sequência do contacto com os líquidos na pele de Lao, que ajudou a mulher a procurar auxílio na casa de uma vizinha onde permaneceu até ser socorrida. Durante este tempo, o filho de seis anos do casal encontrava-se a dormir no quarto e o homem permaneceu na casa até à chegada da polícia.

Versão diferente foi avançada pelo MP no mês passado. Num comunicado de 13 de Fevereiro, o organismo dizia que “o arguido discutiu, na residência, com a ofendida, que manifestou explicitamente a pretensão de divórcio, altura essa em que o mesmo entrou na cozinha, ferveu o óleo, pegou no desentupidor líquido e despejou-os na cabeça e na parte superior do corpo da ofendida, tendo-lhe causado na pele queimaduras graves e de grande dimensão e ainda queimaduras graves nos globos oculares”. A mesma nota refere ainda que, “nos últimos anos, o arguido e a ofendida discutiram várias vezes por causa de problemas familiares, o que deteriorou a sua relação”.

A fonte próxima do processo confirmou que o casal discutia, mas afasta um cenário prévio de violência doméstica. “Se estivermos a falar de uma agressão física, não posso dizer que tenha acontecido previamente. Eles discutiam por causa da custódia e por causa do divórcio. De forma geral eles não discutiam muito. Eram discussões normais de um casal, mas não era um caso tradicional de violência doméstica”, descreveu, ressalvando que a polícia já tinha sido uma vez chamada à residência da família, pelo menos um ano antes do ataque, mas acabou por não ser aberta nenhuma investigação.

A mesma fonte revelou que o casal já tinha acordado divorciar-se, mas ainda não tinham sido iniciados nenhuns procedimentos formais. “Eles já falavam de divórcio há uns meses e já tinham chegado a um acordo. Talvez possam dizer que ela ter dito que queria o divórcio naquela noite fez com que ele ficasse louco, mas eu não posso aceitar este ponto de vista”, argumentou.  

VÍTIMA VAI PEDIR INDEMNIZAÇÃO DE “ALGUNS MILHÕES”

No julgamento, agora marcado para 17 de Junho, vão decorrer em paralelo os processos criminal e cível. O homem encontra-se acusado, desde Novembro, de ofensa grave à integridade física conjugado com ofensa qualificada à integridade física. O crime em causa é punível com pena de prisão entre dois a 10 anos. Quando o acto do arguido for praticado em circunstâncias que revelem perversidade, este poderá ser punível com a referida pena agravada de um terço nos seus limites mínimo e máximo.

Uma vez que Lao Mong Ieng deverá ser operada em Maio no Reino Unido, o julgamento poderá ser novamente adiado. A vítima diz que quer testemunhar em tribunal, algo que poderá também ser feito através de um depoimento por escrito caso não possa comparecer pessoalmente por motivos de saúde. A empregada doméstica e a vizinha que a socorreram deverão também ser chamadas a testemunhar, bem como os agentes que conduziram a investigação e médicos. Até ao momento, o filho do casal não foi arrolado como testemunha por nenhuma das três partes, disse a mesma fonte, ressalvando que o arguido, legalmente, o poderá fazer. “Como ele é um menor, vai depender de o tribunal decidir se é importante ou relevante para o julgamento ou não”, explicou.

No processo cível, Lao Meng Ieng, que trabalhava como agente imobiliária, irá pedir uma indemnização de “alguns milhões” por danos morais e físicos. “Será dividida em duas partes: a primeira é uma compensação moral e a outra parte tem a ver com as despesas que ela terá para o resto da vida porque ela perdeu o seu trabalho”, explicou a fonte.

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