
Miguel Sousa Tavares participou ontem numa sessão do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, onde falou sobre o início de carreira como jornalista, sobre a sua obra e sobre a sua relação com Macau. “A minha má relação era com a administração portuguesa em Macau. Estávamos a sugar a árvore das patacas”, disse.
André Vinagre
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Miguel Sousa Tavares, em Macau a propósito do festival literário Rota das Letras, participou ontem numa sessão intitulada “As viagens e os livros de Miguel de Sousa Tavares”. Aqui, o escritor recordou o início de carreira como jornalista e como passou ao romance, desvendou detalhes sobre o próximo livro e deixou críticas à administração portuguesa em Macau.
“Desde miúdo que queria ser repórter”, contou, recordando os tempos da Grande Reportagem, revista onde foi um dos fundadores: “Foram tempos maravilhosos”. Mais tarde surgiu a “tentação da escrita romanceada”, começando pela escrita infantil, daí passou à literatura de viagens, mas “na minha cabeça germinava sempre a mesma ideia de escrever um romance, mas para isso é preciso ter uma ideia de história, eu sou um contador de histórias”, lembrou.
Miguel Sousa Tavares viu a sua primeira obra, “Um Nómada no Oásis”, publicada em 1994. “Faltava-me saber se era capaz de passar de uma história baseada nos factos para uma história ficcionada. Então sentei-me para escrever, escrevi, depois parei e achei que não era capaz. Quando se tem um sonho que se alimenta durante muito tempo, ou se tenta concretizá-lo, ou mata-se o sonho. Passados seis meses, abri o computador, peguei na última coisa que tinha escrito e acabei”.
Sobre o mais recente livro, “Cebola Crua Com Sal e Broa”, o escritor descreveu: “É um livro feito de testemunhos. Há várias coisas dispersas, comecei a pensar se havia uma ordem em contar a história de um miúdo de Lisboa que vai para o Marão, que anos mais tarde vai em trabalho para a Amazónia, se havia relação entre isso e, por exemplo, o que vivi no 25 de Abril. Percebi que tinha vivido coisas importantes na história do nosso país e tinha o dever de as contar”. Sobre as viagens nos livros, Miguel Sousa Tavares rematou: “Eu escrevo depois de viajar, não sou Júlio Verne, que viajou sem nunca sair do quarto. Eu não, eu preciso de ir aos sítios”.
“Se houvesse uma fábrica de ideias, eu ia lá e comprava várias. É muito difícil ter uma ideia”, referiu o escritor. “Refugio-me no romance histórico porque em Portugal já não há nada para inventar como ideia”, explicou. Questionado sobre o novo romance, Miguel Sousa Tavares respondeu que “está parado”, mas acabou por revelar alguns detalhes: “O novo livro está parado algures pela página 120, falta-lhe um final, vai situar-se no Brasil, no séc. XVII, no tempo da ocupação dos holandeses no Recife, que é uma história muito mal contada, há um sector brasileiro que gosta de elevar os holandeses à condição de heróis e os portugueses à condição de bandidos”. “Se escrever o livro, não deixarei de estabelecer a verdade histórica da ocupação da Holanda no Recife”, garantiu.
Esta é a primeira vez que Miguel Sousa Tavares visita Macau. Primeiras impressões? “Ainda não tive tempo, mas é muito maior do que eu imaginava. As pessoas dizem que é pequeno, mas eu não vejo onde. Macau é enorme e continua a crescer, continua a arrancar terra ao mar”. “A minha má relação era com a administração portuguesa em Macau. Estávamos a sugar a árvore das patacas, podíamos ter deixado uma imagem muito melhor”, explicou, e contou o episódio em que se recusou a vir a Macau: “Na transição, o governador que cá estava resolveu trazer aquilo a que se chama uma luzidia embaixada vinda da pátria, um avião cheio de gente ilustre, convidaram-me para vir, uma viagem fantástica, tudo pago, avião de cinco estrelas. E eu perguntei ‘mas quem é que paga isto?’; ‘é o Governo de Macau’. ‘Mas o Governo de Macau vai mudar de mão para a semana, porque é que os macaenses hão-de pagar a minha viagem a Macau?’ E recusei vir. Acho que tive razão moral em fazer isso”.
