“A minha mãe diz sempre: ‘Vocês são o meu Caetano e a minha Maria Bethânia’”

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

Depois do álbum de estreia, “Excuse Me”, Salvador Sobral prepara-se para lançar o seu segundo disco. O músico chega à cidade a convite do Festival Literário de Macau e ontem subiu ao palco do Broadway Theatre para o primeiro concerto na Ásia.

TEXTO: CATARINA VILA NOVA

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

Em “Paris, Lisboa” podem ouvir-se as sempre presentes raízes da América Latina, mas também uma valsa francesa e, claro, o jazz continuamente como pano de fundo. O segundo álbum de estúdio de Salvador Sobral chama-se assim porque todo ele aconteceu entre as duas capitais, mas também funciona como uma homenagem à sua película de eleição, o clássico de Wim Wenders “Paris, Texas”. Tanto no filme como no disco, as personagens centrais estão numa constante procura por algo que nunca conseguem encontrar. “Mas ainda bem”, confessa o músico, em entrevista ao PONTO FINAL. Só assim estará eternamente numa busca incessante pela música perfeita. Ela própria inalcançável.    Cumpridos dois anos desde a vitória na Eurovisão, Salvador Sobral diz já viver bem com a imagem da qual, assume, não se vai conseguir descolar. Mas não foi sempre este o caso. O músico confessa que não soube lidar bem com ter-se tornado, nas suas palavras, na “pessoa mais famosa do país” da noite para o dia. “Há coisas que podia ter feito melhor”, admite, enquanto culpabiliza, em parte, também a doença. Saído do hospital, concluída a recuperação, conseguiu começar a tirar proveito da vitória ao subir a palcos além-fronteiras. Conseguido o gancho para levar as pessoas aos concertos, o desafio agora é mantê-las por lá.

O Salvador chega a Macau para apresentar o seu segundo disco, “Paris, Lisboa”. O que nos conta neste álbum?

É um disco que segue a viagem um do outro, continuamos na procura. Tem o mesmo quarteto, é a minha banda de sempre. Se calhar é um disco mais maduro. Não é necessariamente um disco coerente no estilo, são coisas que eu gosto que têm ‘grooves’ diferentes e estilos diferentes. A coerência está na banda e no som da banda.

Neste disco não se cingiu apenas ao universo do jazz. Que sonoridades diferentes quis explorar aqui?

Há sempre raízes da América Latina porque nós gostamos muito de música da América Latina, tanto brasileira como da América Latina “hispano-parlante”. Mas depois há uma valsa francesa que não havia no outro e eu nunca tinha cantado em francês. Dessa maneira distingue-se. Depois também há uma canção em inglês que puxa mais para o… Pop. Será? Não sei bem…

Chama-se “Paris, Lisboa” porque foi um álbum que foi feito entre estas duas capitais. Como foi esse processo?

Foi exactamente um ano desde começar a pensar no disco até terminá-lo. Estava ainda no hospital e logo depois da operação foi quando eu comecei a pensar: “Ok, isto funcionou, sobrevivi, então vamos pensar no futuro”. Comecei logo a pensar no disco ainda com as mãos a tremer, a ligar às pessoas a pedir canções. Foi um ano em que, como já estava bem e podia viajar, ia muito a Paris e também quando não ia estava lá emocionalmente, sentimentalmente passava lá muito tempo também. Mas também é uma homenagem ao meu filme preferido que é o “Paris, Texas” do Wim Wenders. 

Porquê esta homenagem ao “Paris, Texas” neste segundo álbum?

Foi mais por pensar em Paris e Lisboa e por ter piada por causa do “Paris, Texas”. Aproveitamos e fazemos a homenagem. Eu gosto imenso do filme e o filme também é uma procura constante. Ele está sempre a andar e está sempre à procura mesmo dentro dele – uma procura interior – e depois uma procura entre as personagens, da relação entre as personagens. É muito giro, o filme, e tem imagens tão bonitas que é impossível não gostar do filme.

A altura em que o disco começou a ser pensado, logo a seguir à operação, foi também uma forma de se reinventar, de descobrir novamente o seu caminho?

Eu estou sempre à procura e espero nunca encontrar, porque é sinal que tenho que fazer muitos discos para estar à procura. Uma procura da música que quero fazer e também de imolar aquela sensação de tocar ao vivo, porque o nosso concerto ao vivo é muito giro e eu gostava de poder, num disco, imprimir esse mesmo ‘feeling’, mas não é fácil. É a procura constante da onda perfeita, mas, neste caso, da melodia perfeita ou da música perfeita. 

Que nunca se irá alcançar. 

Nunca, nunca. Mas ainda bem. O “Amar Pelos Dois” está lá perto. 

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

Quando está a trabalhar num novo álbum pensa imediatamente como é que as músicas vão funcionar em cima do palco?

É curioso porque o meu processo é inverso. Há muitas músicas deste disco que nós já andamos a tocar há dois anos. Eu primeiro toco-as e depois é que as gravo. No jazz faz-se isto também. Em vez de gravar os discos e depois andar a tocá-los, nós já andamos a tocar canções que vão estar num próximo disco. Há canções do “Paris, Lisboa” que a gente já nem toca. É um processo inverso ao que as pessoas normalmente fazem, mas eu gosto muito de ir para o estúdio já com as canções tocadas para improvisar e para ter a canção tão interiorizada que já podemos viajar dentro dela.

Há alguma música neste álbum que nunca tenham tocado ao vivo?

Não, nem uma. 

Neste segundo disco aventurou-se novamente a escrever algumas das letras, mas não avançou para a composição musical. Porquê?

Porque acho que a minha composição musical nunca está à altura da minha interpretação. Não tenho as ferramentas todas para compor. Não gosto do que componho, ainda. Pode ser que um dia venha a compor música muito boa. Hoje em dia, não. Gosto das letras, mas há sempre alguém que faz a música melhor que eu. Eu faria sempre uma harmonia muito básica porque eu toco o piano muito básico, só de acompanhamento. Por enquanto decidi só fazer as letras, mas gostei de as fazer.   

Onde é que sente que a sua música é melhor recebida? Em Portugal ou além-fronteiras? 

Em Portugal. Portugal ainda é o sítio onde as pessoas mais me acolhem por aquilo que aconteceu e por ter ganho aquela brincadeira. 

Tem o Caetano Veloso e o Chet Baker como as suas grandes influências musicais. De que forma é que eles contribuíram para o músico que é hoje?

Principalmente com a verdade da música deles. Isso é o que mais me cativa, e acho que o que mais cativa o público em geral é quando as pessoas fazem as coisas com verdade, sinceridade e honestidade musical. O Chet Baker cantava as coisas com tanta sinceridade e com a emoção à flor da pele e o Caetano também e sempre fez o que lhe apeteceu. A sensibilidade deles, por um lado, e do outro a verdade com que eles fazem aquilo. Mas, na verdade, a verdade e a sensibilidade estão relacionadas.

É algo que também procura?

Sempre. Sempre que eu canto, quero cantar com verdade. Não quero enganar as pessoas, nem a mim, nem aos músicos com quem estou a tocar. 

Acredita que consegue transparecer essa sinceridade?

Eu acho que isso foi o ingrediente para ganhar a Eurovisão, foi fazer a coisa com verdade e com honestidade e sensibilidade.

Hoje em dia a vitória ainda o surpreende?

Agora já não tanto, porque eu já percebi como é que aquilo funciona. Aquilo funciona pela diferença, pelo chocante, pelo impactante. Normalmente são coisas diferentes e espalhafatosas. Neste caso foi diferente por ter sido “about the song”. No ano seguinte foi diferente porque ela fazia aqueles sons e era esquisita e estranha. O que é estranho ganha ali. Eu era estranho também no meu ano. Por isso é que digo que o Conan Osíris tem hipótese porque ele também é fora e impactante. 

Suficientemente fora da caixa para vencer?

É suficiente, mas se houver mais alguém fora da caixa ele está lixado. 

Ouviu as músicas dos outros concorrentes?

Ainda não. A seguir ao Caetano fechou o capítulo Eurovisão. Que melhor maneira de fechar o capítulo da Eurovisão do que com a minha maior referência musical? Um ídolo, um querido, um humilde, está-se marimbando para a fama e para as coisas superficiais, é uma pessoa tão simples.

Sente que esse capítulo da sua vida ficou completamente encerrado?

Está sempre ligado a mim e ainda bem, porque fomos lá ganhar aquilo e foi uma coisa muito especial. Não estaria aqui se não fosse por isso. Não estaria aqui, não estaria na Alemanha, não estaria na Polónia se não fosse o festival. Eu vou estar para sempre ligado e não é uma coisa negativa. 

De há uns anos para cá têm aparecido novos projectos musicais em Portugal que têm mostrado que, de alguma forma, é possível viver em exclusivo da música no nosso país. 

Sempre se pôde, mas são poucos. Não é o meio mais fácil porque fazer alguma coisa que se distinga é difícil. Depois há uns felizes contemplados. Eu tive essa sorte, mas é um meio ingrato às vezes. Estás a dar muito e depois não recebes. 

É também por isso que está envolvido em vários projectos musicais? 

Não, de todo. Antes da Eurovisão eu já tinha vários projectos, porque eu gosto de muita coisa, tenho esquizofrenia artística e hiperactividade artística. Quero fazer tudo. Gosto de imensos tipos de música. Porque é que tenho que estar parado? Porque é que tenho que estar só no projecto a solo? Há muitos artistas que chegam a um determinado ponto e só fazem música a solo. Eu não. Eu tenho muita coisa que quero dizer na música. 

FOTOGRAFIA: EDUARDO MARTINS

Como é que o público o vê? Quando pensa no Salvador Sobral pensa no músico de…

Da vitória da Eurovisão e do “Amar Pelos Dois”. Ainda bem, podia ser conhecido por uma canção muito pior. Isso ainda é o gancho das pessoas para o concerto. Depois elas podem ficar ou não. Essa é a minha missão agora, mantê-las lá. Elas já vêm por causa do “Amar Pelos Dois”, agora tenho que mantê-las lá com outras.

Após a vitória da Eurovisão não procurou descolar-se exactamente dessa imagem para se impor como músico de jazz? Ou já vive bem com esse título?

Agora já. Houve muito tempo em que eu vivia só a parte negativa e o lado escuro da coisa. Depois da Eurovisão fui para o hospital, queriam invadir o meu quarto, diziam que eu ia morrer. Isso foi horrível. Só depois é que comecei a ter a parte boa de tocar por todo o lado, ter meios, conseguir ter uma editora melhor para estar a tocar no mundo inteiro, conseguir fazer os duetos que queria. 

O processo costuma ser inverso. O bom e o mau vêm logo imediatamente a seguir. 

Querendo ou não, eu nunca fiz as coisas como se deve. Eu fui famoso de um dia para o outro. Isso foi estranhíssimo. Do dia 12 para o dia 13 de Maio fiquei a pessoa mais famosa do país naquela altura. Eu fazia concertos no Braço de Prata para 50 pessoas, que era a minha base de fãs. No dia a seguir todos os portugueses sabiam quem eu era. Foi muito estranho e para a cabeça isso não é fácil.

Olhando para trás, considera que conseguiu lidar bem com isso?

Há coisas que podia ter feito melhor. Também estava muito doente, não é fácil. Às vezes era demasiado reaccionário e impulsivo nas coisas que dizia e fazia, mas foi parte da aprendizagem. Essas coisas que eu digo que podia ter feito melhor não me abriram portas. Às vezes tratava mal as pessoas na rua, não me apetecia falar. O que abriu portas foi a Eurovisão. 

Para além do António Zambujo, que outros duetos estão neste álbum?

Só com o Zambujo e a minha irmã. Com a minha irmã porque ela faz muito parte de toda a minha vida e de todo este processo e crescimento que eu tive, que só fazia sentido ela estar lá com uma canção que se chama “Prometo Não Prometer”. Eu toco-a normalmente a solo ao piano, mas agora gravamos com harpa.

Nunca pensaram fazer um projecto só os dois? 

Ainda não é tempo porque cada uma das carreiras tem que estar super bem solidificada para as pessoas distinguirem bem as coisas. Às vezes eu vou tocar a países e eles perguntam-me onde está a minha irmã, como se eu andasse sempre atrelado com a minha irmã. As pessoas pensam que vivemos juntos. Mas acho que é importante termos as duas carreiras independentes e, às vezes, faremos uma ou outra. Eu também cantei no disco dela uma canção que se chama “Só Um Beijo”, que tem duas melodias paralelas, e ela cantou agora no meu. Olha a Maria Bethânia e o Caetano Veloso. Têm duas carreiras completamente separadas e já fizeram um disco juntos, mas olham sempre para eles como duas carreiras separadas. A minha mãe diz sempre: “Vocês são o meu Caetano e a minha Maria Bethânia”. 

Em vários momentos usou a sua voz para passar uma mensagem política. Recordo a Eurovisão com a crise dos refugiados e num concerto no Seixal levou para o palco a crise da Venezuela. Sente que foi ouvido? 

Na altura fui ouvido, mas depois as coisas apagam-se, deixam de se falar. De repente fala-se imenso nas notícias da Venezuela durante um mês, depois deixa de se falar e o problema continua na Venezuela. 

No caso da Eurovisão foi censurado.

Dizem que aqui não há mensagens políticas, mas a Eurovisão é super política. 

Ou seja, aconselham os músicos a não ter um papel de intervenção política.

Mas depois tens o Caetano, tens o Chico, tens o Bob Dylan que ganhou um Nobel e é dos mais reivindicativos. Há muitos cantores de intervenção, isso continua. Eu não sei se sou um cantor de intervenção. Às vezes posso cantar coisas interventivas, mas não sou necessariamente um cantor de intervenção.

Sente que a música ainda tem esse papel de intervenção?

Claro. A música é o maior veículo porque é música, mas, ao mesmo tempo, quer passar a mensagem. Há vários tipos de música e uma delas é a música de intervenção. Há músicas que nem te apercebes, mas que são de intervenção. No Brasil foi tão importante essa música com o Chico, o Gilberto.

E no nosso país…

No nosso país o Zeca, o Variações também, Sérgio Godinho. O Fachada também faz a sua própria música. A música do Fachada não dá bem para etiquetar, é a música dele, e ele também tem uma componente forte de intervenção. Vai sempre haver pessoas descontentes com o sistema porque o sistema nunca vai ser perfeito.

Está contente com o sistema?

Há coisas que eu não gosto, mas acho que a situação podia estar muito pior no nosso país. 

É sempre possível estar pior. 

Agora em Portugal acho que a situação está minimamente estável. 

Não sente que há muito descontentamento por parte dos jovens? Em termos de empregabilidade e precariedade?

A maior parte dos meus amigos formam-se e têm que continuar a viver em casa dos pais. Não há hipótese para sair. Como é que tu vives com 500 euros limpos? É impossível. Mas eu tenho esperança que a situação melhore. Temos que ser positivos que as coisas vão melhorar. Eu acho que já estamos nesse caminho. Se não tivesse esperança estava lixado, na vida e no geral. Se não tivesse esperança que as coisas iam melhorar não estava aqui.

Prestes a arrancar com uma tour europeia, já está a pensar no terceiro disco?

Não, não, não. Nem pensar. Eu odeio fazer discos. É uma tortura para mim. Por isso é que fui para a Suécia. Estava tão cansado de tomar decisões tão mundanas como de que cor tem que ser o ‘banner’ que vai passar, será que ponho um violino aqui ou não, será que pomos 12 canções ou 13. Por isso é que fui para a Suécia descansar do processo todo. É um stress enorme, tive imensas insónias. Algumas produtivas, outras não. 

As insónias fazem parte do seu processo?

Sim, eu chamo-lhe as IP – insónias produtivas. As letras todas que escrevi foi em IP. Mas eu quero é tocar, os discos são uma consequência. É uma coisa que eu tenho que fazer para a indústria. Hoje em dia as pessoas já nem compram os discos, é mais um cartão de visita para os promotores. Tem que ser feito, mas agora só daqui a dois anos ou três é que faço outro disco. Mas já quero tocar canções novas e já estamos a tocar canções novas. 

Precisa dessa fuga recorrentemente?

Agora senti necessidade porque estive muito tempo preso em Portugal sem poder sair quase legalmente, clinicamente. Foi também um ritual de me sentir livre. Como tenho Paris, ajuda-me sempre a descansar um bocado. Nem foi muito consciente. A cena da Suécia era para aprender sueco. Aprendi um bocadinho por causa dos filmes do Bergman.

Foi para a Suécia apenas para aprender sueco? Ou também andou a descobrir o universo do jazz daquele país?

Sim, todos os dias ia a ‘jam sessions’. Fiz muitas sessões a tocar com a malta da escola superior, consegui fazer um concerto num bar com a malta de lá. Estava como se estivesse na escola outra vez a estudar jazz. Ninguém sabia quem eu era. Vou voltar outra vez. Estou apaixonado por aquilo, acho as pessoas super interessantes. Uma maneira completamente diferente de ver a vida. 

Está a falar da dicotomia entre o Sul e o Norte da Europa? O que mais o surpreendeu lá?

Os cães não ladram, os bebés não choram, as pessoas não se tocam, os carros não apitam. É um pragmatismo incrível. A vida é muito pragmática e eu acho isso interessante. Não viveria em Estocolmo, nunca. Mas é giro passar lá uns tempos onde a vida é muito pragmática e muito preto no branco.

Não lhe fez confusão vindo do Sul da Europa?

Claro! Mas eu adoro que me façam confusão. Isso é a vida. Eu adoro estar confuso.