Suplemento de Cinema Panorama: IFFAM apresenta programação preenchida com filmes “não tradicionais”, “inventivos” e “surpreendentes”

Empire Hotel
Filme de Ivo M.Ferreira “Hotel Império” (FOTO EDUARDO MARTINS)

Mike Goodridge, director artístico do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios – Macau (IFFAM, na sigla inglesa), quer que o evento atraia cada vez mais público, e para isso recorre à receita já utilizada na edição anterior: uma programação que aposta nos melhores e mais recentes filmes do ano. O programador, que diz que um dos grandes desafios o ano passado foi atrair publico, este ano quer lotar as salas. Mike Goodridge considera Macau o local “mais cinematográfico do mundo”, e lembra que cinema é, sobretudo, “contar boas histórias, de maneira autêntica, idealmente, por cineastas locais”.

TEXTO: Cláudia Aranda

“A receita” para a selecção de filmes a mostrar este ano no Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios – Macau (IFFAM, na sigla inglesa), cuja lista final a integrar as diversas secções foi ontem anunciada pela organização, mantém-se igual ao ano anterior: “trazer os melhores filmes do ano que conseguirmos, os mais novos e recentes”, afirmou ontem à imprensa Mike Goodridge, director artístico do festival. A terceira edição do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios – Macau realiza-se entre 8 e 14 de Dezembro. “No ano passado tivemos ‘The Shape of Water’, ‘Call Me by Your Name’, que ganharam óscares, penso que se pudermos todos os anos dar ao público de Macau uma antevisão dos filmes que vão ganhar os prémios da academia [de Hollywood] é muito bom”, disse o britânico que dirige o festival pelo segundo ano consecutivo.

Este ano o IFFAM inclui a novidade da secção dedicada ao Novo Cinema Chinês, focada em filmes em língua chinesa, uma tendência visível noutros festivais realizados na China, como o Festival Internacional de Cinema de Pingyao. Mike Goodridge concorda que esta é uma tendência que parece que veio para ficar, pelo menos assim espera, que continue. “O mundo da língua chinesa é um espaço cultural vibrante actualmente”, disse, dando como exemplo o filme ”The Pluto Moment”, de Zhang Ming, um dos seis escolhidos para integrar a nova secção de competição dedicada a “filmes excepcionais em língua chinesa”. Zhang Ming, de 57 anos, reconhece Mike Goodridge, “não é tão jovem assim, mas há tanta variedade no cinema chinês”. Filmes do interior da China, Taiwan e da Malásia integram a nova secção.

Sobre a longa-metragem produzida em Macau a ser exibida este ano no festival, e realizada em co-produção com Portugal, China continental e Líbano, “Hotel Império”, de Ivo M. Ferreira, o director artístico descreveu-a como um filme de um “realizador de classe mundial”, “absolutamente deslumbrante de se ver, que capta algo único sobre Macau, ele faz-nos querer ir pelas ruas da cidade, é simplesmente surpreendente”, afirmou.

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Mike Goodridge, director artístico do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios – Macau (FOTO IFFAM)

Objectivo, encher as salas de cinema

Para este ano o director artístico da terceira edição do festival tem como objectivo continuar a aumentar a adesão do público ao evento. “Um dos meus maiores desafios aqui foi ter a certeza de que as pessoas viriam ao cinema e acho que tivemos uma boa adesão no ano passado, eu diria 75% de capacidade, o que é incrível, muito além das minhas expectativas mais ousadas, mas queremos 100 por cento de assistência, queremos chegar ao ponto das pessoas terem que ser mandadas embora” por falta de espaço. Para o director, trata-se, apenas, de “criar toda aquela excitação em torno do cinema, que é o que um festival tem que fazer, e conseguir para atrair audiências”. Mike Goodridge mencionou a ideia de tornar este evento como que “um íman”, que atraia também gente de Hong Kong, Zhuhai e da região, sendo que esse é o desafio, “programar para criar uma coisa que ofereça algo a todos os públicos”.

Para além de “Hotel Império”, o outro filme português a integrar o festival é “Diamantino”, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, descrito pelo programador Mike Goodridge como “um filme português que adora”. Diamantino “é uma delícia absoluta, louco, mas brilhante”. Esta co-produção entre Portugal, Brasil e França, vencedor do Grande Prémio da Semana da Crítica do Festival de Cinema de Cannes de 2018, é um dos seis filmes fora de competição que integram a secção “Flying Daggers”, que destaca “o melhor no actualidade do cinema internacional de género”. “É este tipo de filmes que procuramos, até mesmo ‘A Fábrica de Nada’ [de Pedro Pinho], apresentado no ano passado, que é um filme de três horas, mas é incrível, inventivo, e é isso que buscamos, não escolhemos as obras por ser originário de um país em particular”, respondeu, à pergunta sobre a razão para não haver este ano filmes em competição em língua portuguesa, do Brasil, por exemplo. Não há filmes em língua portuguesa em competição, “mas existem em espanhol, dois mexicanos e um argentino”, acrescentou. Dois destes estão na lista dos que concorrem pelo prémio do Júri, “White Blood”, da Argentina, da realizadora Barbara Sarasola-Day, e “The Good Girls”, do México, de Alejandra Márquez Abella.

As recomendações do programador

Há 11 filmes que vão competir pelo prémio do júri presidido por Chen Kaige, que foi o único realizador chinês vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1993, com o filme “Adeus Minha Concubina”, de acordo com o ranking online dos vencedores em Cannes. Nesta lista, o programador distingue a “variedade” e destaca filmes como “The Man Who Feels No Pain”, de Vasan Bala, da Índia, “uma comédia de acção”, e “School’s Out”, francês, de Sébastien Marnier, “uma espécie de filme de horror sinistro”, descreve. “Não são os filmes tradicionais, os filmes dramáticos tradicionais, vou ter que explicar ao júri isso, que há uma verdadeira variedade de coisas aqui”, que têm de ser vistas e avaliadas “como um primeiro filme e uma obra de arte, na mesma linha que um complicado drama familiar”, disse.

Entre os filmes fora de competição que o programador recomenda, e até arrisca a aposta de que possam vir a ganhar óscares, incluem-se “Green Book”, o filme que abre o festival no dia 8 de Dezembro, que venceu o Grande Prémio do Público no festival de Toronto. Destaque também para o filme “Roma” (EUA/México), na secção não competitiva “Best of Fest Panorama”, este filme de Alfonso Cuarón foi o primeiro da Netflix a vencer um dos principais prémios de cinema, o Leão de Ouro do Festival de Veneza.

O director artístico e programador destaca ainda filmes como “The Favourite”, de Yorgos Lanthimos, uma co-produção Reino Unido e Irlanda, na secção Gala, e “Mary Queen of Scots”, de Josie Rourke, do Reino Unido, na secção Hollywood Special Presentation.

Macau o local “mais cinematográfico do mundo”

Mike Goodridge, que considera Macau o local “mais cinematográfico do mundo”, surpreende-se como, ao contrário de Hong Kong, que está a apenas uma hora de distância, mas tem uma história sólida e consolidada no cinema, como aqui no território essa indústria ainda é tão incipiente. “Deixa-me perplexo, mas ainda assim há pessoas que querem fazer filmes, gostava que houvesse mais infra-estruturas, sei que o Governo está a trabalhar nisso.” Mas, realça, trata-se sobretudo de “contar boas histórias e encontrar boas histórias para contar, sabemos que há muitas histórias aqui, é apenas uma questão de que sejam contadas de maneira autêntica por cineastas locais, em vez de alguém vir de fora e filmar de certa maneira”.

Quanto à sustentabilidade futura do festival, o programador sublinha a “juvenilidade” do evento. “Nós somos muito jovens. Esta é a minha segunda vez como director. Acho que qualquer festival de cinema leva 5 a 10 anos”, disse, lembrando que o festival de cinema de Cannes, nascido em 1946, tem já 72 anos, e Veneza tem 86 anos. “Macau é novinho em folha, então a questão é, por quanto tempo podemos continuar até que as pessoas nos comecem a levar a sério? Eu acho que Macau é um destino perfeito para um festival de cinema, mas é preciso cimentar as audiências e o seu posicionamento, é uma questão de boca a boca, ao longo dos anos, é sobre convidados estrangeiros falarem a outros amigos estrangeiros e recomendarem que eles têm de vir a Macau. Isso leva anos a construir, é um desafio, espero que o Governo conceda o tempo necessário para que o evento se solidifique”, afirmou.

O cartaz completo do festival, com horários e locais de exibição, não foi anunciado. Hoje são colocados à venda os bilhetes para o IFFAM, que se realiza de 8 a 14 de Dezembro.

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