“Quase tudo o que é contado no romance é verdadeiro”

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FOTO EDUARDO MARTINS

José Rodrigues dos Santos, antigo jornalista da TDM e um dos romancistas de maior sucesso em Portugal, revela ao PONTO FINAL que “A Amante do Governador”, o seu mais recente livro, lançado no final de Outubro, “é uma homenagem à presença portuguesa na Ásia e aos filhos que aí deixou”. E conta que Jorge Lobo, uma das personagens centrais do romance, é em parte inspirada por Jorge Rangel.

Texto: João Paulo Meneses

Fotografia: Eduardo Martins

Os anos que viveu em Macau foram suficientes para o contexto do livro (nomes e localização das ruas, nomes de pessoas e pequenos diálogos em cantonense) ou também aqui teve de ‘estudar’?

José Rodrigues dos Santos: Ter vivido em Macau foi fundamental, claro, para me situar no espaço e no espírito da época. Vivi em Macau entre 1979 e 1983 e a cidade era naquela altura muito diferente do que é hoje, tanto na arquitectura como na ambiência social, cultural e política. Estaria mais próximo de Macau de 1940 do que de Macau de 2018.

Por falar nisso, para gravar a promoção em cantonense precisou de ajuda ou ainda se lembrava?

JRS – Precisei de ajuda. Lembrava-me de algumas coisas, é evidente, mas não chega. Além disso, de certeza que as tonalidades que usei em muitas palavras estavam erradas. O cantonês é, como sabe, muito subtil a esse respeito.

Que fontes usou para a reconstituição da época? Esteve em Macau de propósito?

Usei as fontes históricas tradicionais, como livros e jornais da época, e entrevistei pessoas que viveram naquele tempo. Não me foi necessário visitar Macau de propósito, pois já conhecia bem a realidade, mas aproveitei uma ida a Macau para um festival de literatura [o Rota das Letras, em 2017] para espreitar especificamente alguns sítios, como as ruínas do Grande Hotel, em 1940 o mais alto edifício do império português e parcialmente ocupado pelos japoneses durante a Segunda Guerra.

Seria possível escrever este livro sem ter vivido em Macau?

Era possível escrever um livro, mas não seria de certeza este livro. O conhecimento de Macau permitiu-me uma maior profundidade na compreensão da realidade da colónia, o que facilitou o trabalho de reconstruir toda uma época e um lugar. Conheço o tipo de relação existente entre os portugueses, os chineses e os macaenses naquele tempo, sei o que era o Clube de Macau e o Clube Militar, sei quem são os Senna Fernandes, os Assumpção e os Sales, sei o que é o Colégio de Santa Rosa de Lima e o Tap Seac, sei tudo isso porque vivi tudo isso. É diferente um escritor escrever sobre uma realidade que viveu, embora não no tempo da acção, do que sobre uma realidade que apenas conhece por livros e documentos. E muita da minha vivência infiltrou-se no romance. Por exemplo, “A Amante do Governador” fala-nos de pessoas de Macau de 1940, como o governador Teixeira, o director dos Serviços de Economia, Pedro Lobo, o doutor Vargas do Conde de São Januário ou o grande cantor Art Carneiro (pai de Roberto Carneiro, ministro da Educação no tempo de Cavaco Silva), mas inseri também personagens inspiradas em pessoas do meu tempo, como o doutor Ritchie, o doutor Leão, o comandante Jesus, o capitão Nobre, o Johnny Reis… Até o personagem Jorge Lobo, inspirado no Pedro Lobo de 1940, em bom rigor é uma mistura desse Pedro Lobo com Jorge Rangel, homem do meu tempo com um perfil muito semelhante ao de Pedro Lobo. Daí que o “meu” Lobo se chame Jorge Lobo.

Contabilize por favor um número aproximado (virtual) de horas (dias) que levou a escrever o livro. Toda a pesquisa relacionada demora mais ou menos do que a acção de escrever?

Não sei fazer essas contas. E, em bom rigor, não têm a menor importância. Só sei que deu muito trabalho, mas como me apaixonei pelo tema não foi verdadeiramente trabalho, foi puro prazer.

O livro parece tão realista que, para o leitor, é impossível perceber o que aconteceu ou o que é ficção. Na sua cabeça, enquanto autor, essa ‘confusão’ nunca existiu?

Quase tudo o que é contado no romance é verdadeiro. Até as operações do grupo Spitfire da PSP, os combates na ilha da Lapa ou os confrontos entre portugueses e japoneses que o cônsul japonês solucionou a gritar “Banzai!”. O que é ficcional é a história da amante chinesa do governador e a história da russa com Lobo. Mas mesmo isso nem é muito ficcional. Quantos governadores portugueses não tiveram amantes chinesas? Quantas dançarinas russas não se envolveram com portugueses em Macau? E não era Pedro Lobo um mulherengo? Portanto, até a ficção do livro não é verdadeiramente ficção, é a verdade mascarada com nomes inventados. As amantes chinesas existiram e as dançarinas russas também.

Um caso em particular: tudo o que lemos sobre a pessoa do governador Artur [Gabriel] Teixeira é ficção ou pôde estudar a figura e inspirar-se nela?

O essencial do que é contado sobre o governador é verdadeiro – à excepção, repito, da história da amante chinesa nos termos que expliquei. Claro que mudei algumas coisas. O verdadeiro governador Teixeira era um homem da Marinha e o “meu” governador Teixeira era um general do Exército. Mas o filho do verdadeiro governador Teixeira, que viveu em Macau naquele tempo e se recorda muito bem do que aconteceu, leu o livro antes de ser publicado para que eu me assegurasse de que o romance respeitava a essência do que o pai fora e fizera.

O livro é também uma metáfora à forma como os Portugueses estiveram quase 500 anos em Macau (e a curiosa coexistência com os Chineses)?

Não é uma simples metáfora, é uma homenagem à presença portuguesa na Ásia e aos filhos que aí deixou, fruto da miscigenação com as populações locais. Não foi só Macau. “A Amante do Governador” mostra também em algum pormenor a realidade dos portugueses de Hong Kong, de gente com nomes como Jack Telles e Rick Remédios. E a trilogia do Lótus, que precede este romance, aborda a realidade dos portugueses de Xangai, hoje desconhecida.

A sua escrita, em que os (muitos) capítulos correspondem a mini-histórias que se vão cruzando, parece-me muito televisiva. Faria sentido pensar numa adaptação televisiva ou isso nunca lhe passa pela cabeça enquanto escreve?

Todos os meus romances são visuais. No fundo faço grandes produções cinematográficas usando apenas as palavras. Com essas palavras, cada leitor se torna realizador porque cada um constrói o filme na sua mente. Mas uma adaptação para cinema ou televisão requer interesse de uma produtora e meios financeiros para a realizar. Isso já não é o meu campeonato. Talvez a TDM se interesse.

Voltar a escrever sobre Macau está nos seus planos?

Não pensei nisso. Escrevo sobre o que me apetece. Se me apetecer voltar a escrever sobre Macau, porque não?

 

 

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