No encontro entre realizadora e escritor, a aproximação ao gesto de Pessanha

Fotografia: Eduardo Martins

Rosa Coutinho Cabral seguiu no encalço da respiração de um poeta que atravessa a cidade que se impôs como lugar de criação, de vida e de morte. No centro da construção fílmica, que entende como ensaio, a realizadora colocou o escritor Carlos Morais José, que se atirou a um exercício de narração que acrescenta interrogação sobre uma figura que é hoje representação, mito e desassossego. A “Pe San Ié – O Poeta de Macau”, apresentado esta segunda-feira na Cinemateca Paixão, segue-se, a 10 de Novembro, “Camilo Pessanha – 150 anos depois”, documentário assinado pela mesma realizadora, igualmente enquadrado na extensão a Macau do DocLisboa.

 

Sílvia Gonçalves

 

“Posso dizer que acho tudo isto horrível? Não devíamos ter que fazer documentários sobre Camilo Pessanha”, atira o homem que, sob a luz difusa de um quarto escuro, questiona a pertinência de uma narrativa fílmica que segue o gesto do poeta ausente, que procura acercar-se do homem que a biografia e o texto académico não desvendam. “Não gosto do papel de abutre”, prossegue Carlos Morais José, no torpor do instante, arrastado, de acender o cigarro. O jornalista e escritor acompanha a realizadora num ensaio visual que se materializa na interrogação contínua, exercício sem rede que encontra articulação nas reminiscências da cidade pelo poeta habitada num outro tempo. “Pe San Ié – O Poeta de Macau”, estreado em Outubro no DocLisboa, apresentou-se esta segunda-feira na Cinemateca Paixão, para acrescentar inquietação à tentativa de aproximação a uma criatura, a um mesmo tempo, esquiva e impenetrável.

Homem que caminha na cidade, que atravessa planos sequenciais que traduzem dinâmicas quotidianas, modos de ser, silêncios. Carlos Morais José é fio condutor numa construção fílmica que rejeita a linearidade, que traduz uma leitura íntima de poeta, poema e circunstâncias. De uma figura que é omnipresença, que não é personagem, que traduz exposição, resulta desconforto? “A responsabilidade não é minha, é da realizadora, que escolheu usar-me como veículo para transmitir qualquer coisa que achou que devia ser transmitida no filme. Acho que é preciso ter muito cuidado para não ter esse papel de abutre, não andar a viver à conta dos cadáveres alheios”, diz Morais José ao PONTO FINAL, logo após a projecção de um filme de que só vira retalhos em bruto, consumido ainda pela percepção incómoda de se ver, inteiro, na tela.

E que exercício, este, de tentar caminhar sobre a sombra de um homem que é figura ausente? “Esse é o gesto do realizador, não é o meu, eu sou uma mera marioneta nisto. O que eu digo é aquilo que eu penso, mas o modo como depois é posto no filme tem muito mais a ver com o trabalho da realizadora do que comigo, eu sou um mero material. Não sei, não sei mesmo, não faço ideia que figura é a minha aqui”.

No escritor e jornalista, que em Setembro de 2017 tomou em mãos as celebrações que em Macau marcaram os 150 anos do nascimento de Pessanha, sobra uma identificação com essa noção de exílio voluntário que diz encontrar no poeta simbolista, e uma qualquer contaminação na escrita. “Sim, partilho essa noção de exílio voluntário, partilho o amor pela literatura e pela escrita, mas à parte disso, não somos nada parecidos. Não me sinto nada identificado com a figura dele, do ponto de vista pessoal, humano. Mas do ponto de vista literário, a minha escrita não tem nada a ver com a dele, ou terá uma influência que eu nem sequer detecto”.

 

“NUNCA TINHA VISTO NINGUÉM ABORDAR UM AUTOR OU ESCRITOR COMO A ROSA FAZ COM O CAMILO PESSANHA”

 

Serenado o assombro perante o embate com o objecto-filme, o escritor  descreve a leitura que faz da construção proposta pela realizadora. “Em termos ensaísticos, acho interessantíssimo o modo como a Rosa faz esta abordagem, que acho totalmente nova. Nunca tinha visto ninguém abordar um autor ou escritor como a Rosa faz com o Camilo Pessanha. Quanto ao resto, sou eu, não sei o que hei-de dizer, é um filme que me custa ver porque eu estou lá, é-me difícil falar sobre mim próprio”. De um exercício sem rede, marcado pelo improviso, sobra a interacção entre realizadora e escritor, ‘persona’ vinculada, pela opção estética que atravessa a construção fílmica, a personagem de filme ‘noir’. “Se havia ‘script’, estava na cabeça da Rosa, não estava na minha. Tudo o que eu digo é basicamente improvisado. Não havia um guião, não havia preparação de cenas do meu ponto de vista, do ponto de vista da realização com certeza que havia, porque tem que haver. Acho que também fiz de propósito para ver se a coisa não soava a um recitativo. Se a minha presença tem algum valor, acho que tem a ver com isso, no sentido de que eu não sou actor, se eu fosse querer representar, provavelmente saía algo de péssimo. Saiu o que saiu, saiu o que eu sou”.

Em entrevista publicada em 2017 no PONTO FINAL, Rosa Coutinho Cabral dizia querer seguir, no filme então em concepção, o gesto de um homem genial, infernal e encantador. Que homem encontrou, no caminho? “Eu acho que como eu me propus tentar cinematograficamente encontrar um fantasma, na verdade possivelmente nunca o encontrei. E portanto encontrei bocadinhos daquilo que imaginava que ele era. E realmente quando digo que tudo o que fiz foi conviver cinematograficamente, porque acho que foi o cinema que me devolveu esta genialidade, esta infernalidade e um lado de ruína que existe naquele sujeito, que é o Camilo Pessanha”, diz a realizadora. Um processo que não se dissocia do encontro com Carlos Morais José. “De facto tive a ajuda absolutamente sublime do Carlos Morais José. E como ele disse, eu não queria de maneira nenhuma que ele tivesse um discurso tipo de entrevista, muito preparado. Joguei no improviso com a maior confiança, sabendo que ele seria absolutamente capaz de o fazer”.

Também a cidade se impõe como fundamental no filme, na relação com o poeta, na ausência plasmada na urbe. “Há um momento em que eu digo que há uma presença decantada, é uma decantação do Pessanha, e é a cidade que também é decantada, porque sobretudo o que eu tentei fazer foi pôr em cena aquilo que eu imaginei ser o olhar do Pessanha, como é que ele veria, como é que ele ouvia, como é que as pessoas o olhavam. E portanto a cidade de repente adquire, embora quotidianamente e contemporaneamente, um outro tempo”.

Ao filme, a realizadora, que assume também voz de narradora, cola a designação de ensaio. “Ensaio por uma razão, isto é um filme muito baseado na minha ideia, no meu dizer. No ensaio é sempre a voz do sujeito e a vontade do sujeito, e também não pretendo chegar a verdade nenhuma, pretendo ensaiar, experimentar várias hipóteses, e nesse sentido é um ensaio”.

E nesse encontro com Carlos Morais José, a que Pessanha chegaram? “Eu não acho que chegámos a nenhum. Chegámos acho que a uma vontade que penso que é comum, que é que as pessoas leiam o Pessanha e conheçam a obra. E a coisa mais simpática de todas, quando passei o filme em Lisboa, é que depois muita gente disse: ‘Eu vou ler o Pessanha’. E isto foi extraordinariamente gratificante”.

Um filme-ensaio que traduz ainda, assinala Rosa Coutinho Cabral, uma interpenetração entre três vozes, a da realizadora, a de Morais José, e a do actor João Cabral, a quem cabe dizer os poemas de “Clepsidra”. “Pe San Ié”, co-produzido pela Arte 8 Macau e a Nocturno Filmes, segue agora o circuito dos festivais, com presença já assegurada nos “Caminhos do Cinema Português”, em Coimbra, já este mês, e no Oniros Film Awards, em Itália. Chegar a um público mais amplo é intenção vincada pela realizadora. “Com certeza que tem que chegar às salas”.

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