A viola campaniça contemporânea e “sem formalismos” d’O Gajo, amanhã no LMA

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O Gajo, alter ego do músico João Morais (FOTO EDUARDO MARTINS)

O evento “Macau Jazz – Sunday Sessions” regressa amanhã, uma quarta-feira, para um concerto de viola campaniça interpretado por O Gajo, o alter ego do músico João Morais. A sessão no LMA, a partir das 22 horas, é dedicada ao trabalho do músico a solo e ao disco lançado o ano passado, “Longe do Chão”. A entrada é livre. Seguir-se-á uma “jam session”, à semelhança das noites de jazz que preencheram os domingos ao longo de vários meses na Associação de Música ao Vivo (LMA, em inglês).

Texto: Cláudia Aranda

Fotografia: Eduardo Martins

João Morais, que tem um passado de 30 anos no punk rock, “sempre na guitarra eléctrica”, há uns três anos encontrou um instrumento popular português, “mais acústico”, que o fez ligar-se àquilo que ele descreve como a sua “ancestralidade”. “Não sei se foi a maturidade que ganhei com os anos, mas quis relacionar-me com a viola de forma um pouco mais pura, ou seja, tirar os efeitos, as distorções, tentar que aquilo que eu faço e que o que sai da viola seja o menos processado possível, então, daí ter agora um instrumento acústico com um som completamente puro. Deixei de tocar a guitarra eléctrica, pelo menos para já”, revelou o músico ao PONTO FINAL.

Sobre o projecto a solo O Gajo, o seu alter ego, João Morais explicou que este trabalho, com uma linguagem mais contemporânea, resulta da sua vontade de explorar dimensões ainda desconhecidas deste tipo de viola popular portuguesa, que é a campaniça. “O que eu fiz e o que me fez desenvolver o trabalho por este lado é que eu procurei um instrumento tradicional português, mas não o quis relacionar com o Alentejo, porque eu não tenho qualquer relação com o Alentejo. Eu como vivi e nasci em Lisboa, pensei, ‘preciso de um instrumento tradicional para adaptar à minha linguagem, que é mais urbana, que tem mais a ver com referências anglo-saxónicas, americanas’. Portanto, basicamente, o que eu desenvolvi no trabalho da campaniça foi adaptá-la à minha linguagem, não tive qualquer interesse em relacioná-la com o Alentejo, e, por isso, é que se distanciou tanto do que se fez até aqui”, adiantou o músico.

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O Gajo (FOTO EDUARDO MARTINS)

O Gajo, um músico sem formalismos

O nome O Gajo, pretende ser isso mesmo, uma palavra do calão, que o músico usa para expressar informalidade, “porque não sou uma pessoa formal, onde quer que o projecto seja apresentado, O Gajo mostra que não há formalismos”.

O concerto amanhã na Associação de Música ao Vivo (LMA, na sigla inglesa), na Avenida do Coronel Mesquita, é dedicado ao projecto a solo O Gajo e ao disco lançado o ano passado, “Longe do Chão”. O evento “Macau Jazz – Sunday Sessions” começa a partir das 22 horas e a entrada é livre. O concerto no LMA, acompanhado por José Anjos, surge por iniciativa do designer Henrique Silva (Bibito) e o advogado Rui Simões, que quiseram aproveitar a oportunidade do músico estar em Macau, onde apresentou no sábado passado, na Casa Garden, da Fundação Oriente, o projecto “O Navio dos Loucos”, com poesia de José Anjos. Henrique Silva acrescentou que está a chamar músicos para se juntarem ao evento para uma ‘jam session’, à semelhança dos domingos de jazz que aconteceram ao longo de vários meses no LMA. José Anjos, músico e poeta, já cá havia estado em 2017 com o projecto “No Precipício Era o Verbo” com o músico Carlos Barreto, o filósofo António de Castro Caeiro e o actor André Gago, no Teatro D. Pedro V, para o evento “Junho, Mês de Portugal”.

“Vou apresentar umas músicas minhas e depois é possível que possa haver interacção com outros músicos, acho que a viola campaniça é um instrumento que se relaciona bem com outras linguagens musicais, por isso estou convicto que vai funcionar bem”, disse João Morais ao PONTO FINAL.

Músico João Morais
O Gajo (FOTO EDUARDO MARTINS)

João Morais reinventa a campaniça e cria linguagem nova

O Gajo tem a particularidade de explorar uma linguagem mais contemporânea no uso da viola tradicional alentejana. João Morais explica que, do conhecimento que tem, de quando se cruza “com outros tocadores de viola campaniça, e inclusivamente com pessoas que estudam estes cordofones tradicionais – porque o projecto tem uma linguagem contemporânea e nova e suscitou a atenção e o interesse das pessoas envolvidas com estes instrumentos -, não há propriamente ninguém a explorar a viola campaniça com esta linguagem tão contemporânea. Estão sempre mais relacionados com a linguagem tradicional e muito mais no Alentejo. Se formos mais para o Norte do país, já encontramos as Braguesas e as Amarantinas, que são as familiares deste instrumento. Mas, que eu saiba, não há outros”, afirmou, fazendo a ressalva, que tão pouco conhece toda a gente que anda a trabalhar este instrumento.

A inspiração, disse, foi buscá-la não à música mas à sua formação artística. “Acho que sou tudo menos um conservador, o que pretendo é explorar os espaços que não foram desenvolvidos ainda e não aqueles espaços que já todos conhecemos e reconhecemos. E, portanto, a minha ideia será sempre explorar o outro lado. Esta viola, se já estava tão explorada a nível tradicional, o que fazia sentido para mim era explorá-la de forma nova e contemporânea. Tem a ver com a formação que tenho e não tanto a música, se bem que há bandas que me influenciam, e sou, acima de tudo, inspirado por música. Mas o ambiente que me rodeia também contamina aquilo que eu faço, é como quem quer pintar, esculpir, criar qualquer coisa nova, tem que conhecer o que se passa, mas tentar superar o que se fez até aí”, afirmou.

João Morais começou a tocar aos 15 anos, influenciado pelo punk, rock e heavy metal. Numa primeira fase, entre 1988 a 1995, tocou numa banda “que teve alguma visibilidade dentro do circuito, que se chamava ‘Corrosão Caótica’”. Os “Gazua”, no entanto, “foi talvez a banda com quem estive mais tempo e que se enquadrava nesta linguagem mais punk rock cantado em português”, disse. O músico tenciona editar o seu segundo disco em Janeiro de 2019, intitulado “As quatro Estações d’ O Gajo”, que deverá ser apresentado oficialmente na entrada do mês de Dezembro.

 

 

 

 

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