“Untitled at Fifty”: A arte livre e ilimitada de Ng Fong Chao

Com meio século de vida, o artista local Ng Fong Chao insere a sua reflexão sobre a vida e a morte na sua paixão pela arte e apresenta os resultados na nova exposição “Untitled at Fifty”. Apresentada pela Art for All Society (AFA), a exposição mantém-se até 25 de Novembro no Macau Art Garden.

 

Texto: Stacey Qiao

Fotografia: Eduardo Martins

 

Fazer cinquenta anos parece carregar um significado especial na cultura chinesa, é como entrar na “era da sapiência” e, nas palavras de Confúcio, “conhecer o mandato do céu”. Para Ng Fong Chao, que completou cinquenta anos este ano, o número simboliza um ponto de viragem na sua vida e na sua arte. A sua nova exposição, “Untitled at Fifty [Sem Título nos Cinquenta]”, apresenta-se actualmente no Macau Art Garden, onde permanece até 25 de Novembro.

“Há quatro anos, realizei uma exposição de pintura a óleo, que na época parecia um relatório de meia-idade. Quanto a esta exposição, penso que significa um ponto de viragem na minha exploração artística. Vou experimentar mais as formas de arte sem pintura. Para mim, a pintura é relativamente emocional, enquanto que as outras formas de arte são mais racionais. Tem de se seleccionar conscientemente os itens para criar o melhor efeito”, compara Ng.

A sua própria vida também está a passar por um ponto de viragem, confessa Ng. Tendo perdido o seu pai no ano passado e testemunhando o nascimento de seu filho pouco depois, Ng dedicou esta exposição ao pai, com quem raramente passava tempo desde a infância. As palavras inaudíveis do seu pai a morrer foram filmadas na video-instalação “Final Note”, e as mensagens de voz do seu pai e do seu filho, traduzidas em frases incompreensíveis por software de reconhecimento de voz, foram emolduradas na parede para formar a exposição “Speech Without Words”. “A obra de arte é uma resposta solene ao ciclo interminável da Vida e da Morte”, escreve Alice Kok, curadora da exposição.

O outro elemento do título, “Untitled”, é mais complexo do que parece, de acordo com Ng. “Untitled” pode parecer um quadro em branco, sem conteúdo ou temas. Mas eu na verdade escolhi-o porque não posso resumir cinquenta anos da minha vida em apenas uma ou duas palavras; representa as muitas coisas que senti e que queria expressar”, explica Ng. A exposição cobrem uma variedade de formas de arte, incluindo pintura, gravura, videoarte, instalação e fotografia.

“Desde que comecei a estudar arte, mantive a mente aberta. Ao aprender a história da arte, conheci a variedade de formas de arte, e percebi bem cedo que a arte não deveria estar limitada a uma determinada forma. Tudo o que se tem de fazer é encontrar a forma de arte certa para expressar as ideias”, partilha com o PONTO FINAL. “Não me preocupo se as pessoas acham que me falta ‘foco’ ou ‘concentração’, porque estou a gostar do processo criativo e também estou a acumular experiência ao longo do caminho – o que é crucial para gerar inspirações. Sabe, as inspirações não chegam do nada, tem de se alcançar um certo nível de prática e de experiência para se ser visitado pelas inspirações.”

Ng Fong Chao revela-se um firme crente na prática. O artista cria arte há décadas e ainda sente o forte desejo de procurar avanços artísticos, quebrar restrições e refazer criações anteriores. Uma das peças apresentadas, “Traversing – Mirage”, é uma recriação da série de fotografias conceituais de Ng de 2009, intitulada “The Prosperity Alarm of the Goldfish Tank in Nam Van Lake”.

“Eu projectei, dirigi e participei no projecto de 2009, pode chamá-la de arte performativa ou teatro performativo. Aluguei seis barcos e contratei barqueiros e cerca de vinte actores não profissionais para o projecto. Dirigi as suas acções através de ‘walkie talkies’. O que se vê aqui é apenas uma pequena parte das mais de 1.000 fotos tiradas na altura”. Em cima das fotos antigas, Ng repintou com aguarela para criar uma nova perspectiva. “Eu usei aguarela para sobrepor as criações anteriores. A nova série é mais sobre o lado visual, mas a sua natureza é consistente com o trabalho de 2009”, diz Ng.

Os adereços e figurinos desse projeto foram mantidos no estúdio de Ng e, desta vez, são miraculosamente transformados noutra peça de arte, uma grande instalação que ocupa metade do espaço da exposição. O trabalho quase todo completo, “Materialisation: My Studio”, mostra a colecção de adereços usados por Ng e objectos diários aparentemente inúteis.

“Todas as coisas à frente dos seus olhos são do meu estúdio. Algumas pessoas dizem que sou o tipo de pessoa que ‘não consegue largar’, mas essa nunca é a minha intenção. Eu mantenho tudo simplesmente porque gosto delas. Tudo o que eu vi por causa da arte, eu mantenho”, conta Ng Fong Chao. “Aqui estão alguns trabalhos que fiz na faculdade, a pá feita de plástico, o saco de plástico desgastado que testemunhou a mudança do meu estúdio por várias vezes, a cortina de contas feita de pedaços de papel que eu usava para limpar os meus pincéis, a Bíblia que ficou no meu estúdio por muitos anos… São os traços visíveis e originais da minha criação de arte”.

“Eu disse uma vez que a arte é tudo para mim. Não é felicidade que eu ganho com arte. O que ganho com a arte é a força para enfrentar a realidade, o lado negativo, pessimista e impotente da realidade. Eu não posso viver sem arte”, conclui o artista.

 

 

 

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