O senhor Chan fez Hong Kong – Macau em meia hora e foi depressa demais

foto manchete (3)
FOTO EDUARDO MARTINS

Depois de ter sido inaugurada por Xi Jinping, Chui Sai On, Carrie Lam e companhia, na manhã anterior, ontem foi a vez de o cidadão comum estrear o alcatrão que passa por cima (e por baixo) do delta do Rio das Pérolas. Os primeiros a atravessar a ponte cobrem-na de elogios e garantem que se acabaram os enjoos no barco para Hong Kong. O senhor Chan fez Hong Kong – Macau em apenas meia hora, tão rápido que teve de esperar por um lugar de estacionamento.

Texto: André Vinagre

Fotografia: Eduardo Martins

É o senhor Sun a estrear a Ponte Hong Kong – Macau – Zhuhai. É ele o primeiro a dar trabalho aos funcionários da alfândega do posto fronteiriço do lado de Macau que esperavam os primeiros a querer fazer a maior travessia do mundo sobre o mar. A circulação abriu às 9 horas da manhã e às 9h10 lá estava o senhor Sun, ao volante de um BMW preto, a fazer funcionar pela primeira vez a cancela que lhe daria depois acesso à nova ponte. Ao ser-lhe permitida a passagem, encosta à direita, onde o esperam várias dezenas de jornalistas. “Tenho a certeza de que vou continuar a utilizar esta ponte”, diz, acrescentando que ia apenas fazer a travessia mais pequena, até Zhuhai, para ir para uma reunião. “Às oito e tal já tinha chegado aqui para passar a ponte. Assim é mais fácil o transporte”, explica.

1 (1)
FOTO EDUARDO MARTINS

A manhã está nublada e, por isso, à vista desarmada, não se consegue ter uma percepção total do comprimento da ponte. No total são 55 quilómetros a atravessar o delta do Rio das Pérolas, seis dos quais por baixo do mar, num túnel subaquático. É a maior ponte sobre mar do mundo e, por isso, o senhor Wu também a quis experimentar. Depois de passar a cancela, são os agentes alfandegários que pedem ao senhor Wu para encostar, para que lhe possam investigar a carrinha. Enquanto decorre a vistoria ao veículo, o segundo automobilista a passar a ponte fala alegremente com os jornalistas e explica que só está ali mesmo para testar a travessia para Hong Kong, não vai fazer nada de especial à região vizinha. Da parte do senhor Wu, mais elogios: “Esta ponte é muito boa, as instalações são boas”. Um outro carro passou, mas não parou, perfazendo três os automóveis a avançar para a ponte na primeira hora. Entretanto, os autocarros que levam as pessoas de Macau para Hong Kong também vão saindo.

3 (1)
FOTO EDUARDO MARTINS

UMA VIAGEM “RÁPIDA DEMAIS”

Na zona do posto fronteiriço onde chegam os veículos a Macau, pelas 9h30 começam a surgir os primeiros carros, vindos de Zhuhai ou Hong Kong. O primeiro passa a cancela, abranda, acena aos jornalistas e segue viagem. O segundo é o senhor Chan. Pára o seu carro branco na via do meio, em frente à cancela de entrada, mas ela não sobe. Os funcionários da alfândega aproximam-se, afastam-se, conferenciam entre si e mantêm a cancela em baixo, enquanto outros carros vão passando e tirando ao senhor Chan o privilégio de ser o segundo a chegar a Macau vindo da ponte nova. Depois de 15 minutos, o senhor Chan passa e encosta ao lado dos jornalistas. A justificação para a demora prende-se com a rapidez com que fez a viagem entre Hong Kong e Macau: o automobilista tinha reservado um espaço no parque de estacionamento das instalações do posto fronteiriço para as 10 horas da manhã, mas como chegou cerca de 30 minutos mais cedo, teve de aguardar até que o seu lugar estivesse à sua disposição, explicou o próprio. “Esta ponte é muito rápida, muito mais rápida do que o que tinha previsto. De Hong Kong para cá demorei só 30 minutos”, disse, garantindo que, a partir de agora, sempre que tiver de vir a Macau o fará através da ponte HMZ. Depois das breves respostas aos jornalistas, seguiu para o silo de estacionamento, que estava completamente vazio. Na indicação dos lugares vagos, à entrada do auto-silo Este, o número passou depois dos 3000 para os 2999.

É por esta altura que voltamos a ver o BMW preto do senhor Sun. Desta vez no sentido oposto, pouco mais de 30 minutos após ter passado para Zhuhai, para onde ia em trabalho. Já dentro do terminal do posto, onde se compram os bilhetes para os autocarros, estão a portuguesa Paula Moreira e os primeiros brasileiros a atravessarem a nova ponte, Cátia e Carlos Lucas. “Somos provavelmente os primeiros brasileiros a atravessar a ponte. Estávamos a viajar na China e fomos até Hong Kong e depois para Macau e, por coincidência, estamos em Macau no dia da abertura da ponte”, dizem os dois irmãos. “Nós íamos voltar de barco, mas na possibilidade de voltar de ônibus, vamos voltar de ônibus para conhecer a ponte. Juntamos o turismo à utilidade”. Paula Moreira, que os acompanha, também vai apanhar o autocarro, mas só pela curiosidade: “Já se falava da ponte desde os anos 80 e agora eu quero vê-la, como toda a gente”.

4
FOTO EDUARDO MARTINS

Atrás, sentada num dos bancos de frente para o balcão onde se compram os bilhetes para atravessar a ponte de autocarro e de costas para um balde azul, que detém as pingas de água que vão caindo do tecto do novo terminal, está a senhora Leong, que confessa que só veio em passeio. A idosa veio passear a Macau e aproveitou para ficar a conhecer as instalações da ponte, tal como o senhor Kuok que, acompanhado da mulher, veio de França para visitar familiares em Macau. “Apanhar o barco em Hong Kong é muito complicado, assim é mais fácil”, refere.

2 (1)
FOTO EDUARDO MARTINS

“Não sabe falar muito, só um pouco. Macau muito tempo, muito amigo”, diz num português pouco claro mas compreensível o senhor Ian, que também não vai apanhar o autocarro, para já. “Muito bom”, completa também em português, referindo-se à ponte. Ainda assim, mostra-se apreensivo com o facto de não saber como ir do terminal de Hong Kong até Central e com a possibilidade de não conseguir comprar bilhete de volta para Macau em Hong Kong: “Ainda não há informação, por isso vim cá para tentar descobrir”. No futuro, a escolha parece recair sobre os autocarros da ponte: “De barco, tenho medo dos enjoos”, diz, acrescentando que “assim é mais fácil”. Já a senhora Chan foi das primeiras a chegar a Macau através do autocarro de Hong Kong e agora compra o bilhete para o regresso: “Queria experimentar a viagem”. Também a senhora Chan só tem elogios para a travessia: “A ponte é muito bonita, a experiência é boa. A viagem foi rápida e os terminais são amplos e confortáveis”. “A partir de agora escolho sempre os autocarros, é mais confortável e mais fácil”, refere.

5
FOTO EDUARDO MARTINS

De acordo com os dados oficiais, das 9 às 16 horas, registaram-se 8619 entradas e saídas do posto fronteiriço de Macau. Até às 15 horas, circularam um total de 113 autocarros entre Hong Kong e Macau, transportando 4742 passageiros. Entretanto, no auto-silo Este do posto fronteiriço, outros dois carros se juntaram ao do senhor Chan. A indicação electrónica deveria mostrar, pelas 15 horas, 2997 lugares disponíveis.

////////

“Não existe sinalização suficiente” na ponte, diz o director da DSAT

Depois de inaugurada a Ponte do Delta, Lam Hin San disse ao PONTO FINAL que a sinalização para os automobilistas na entrada para a ponte é insuficiente e garantiu que será colocada sinalização temporária: “Reparámos que não existe sinalização suficiente para os condutores e vamos imediatamente colocar sinalização temporária para que seja mais claro”. “Claro que há sempre espaço para melhorias e nós continuamos a monitorizar as operações diárias para fazer as mudanças necessárias, se for necessário”, disse o director da Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), que no evento estava na qualidade de chefe do grupo para os assuntos de Macau da comissão de trabalho conjunto das três regiões da ponte. Para Lam Hin San, de resto, corre tudo bem. “A abertura da ponte deixa-nos muito contentes e entusiasmados, porque no dia de abertura todas as operações correm bem, de forma eficiente”, referiu, acrescentando que “os utilizadores estão satisfeitos com este mega-projecto e com todas as instalações”. Relativamente à aparente calma que se fez notar no primeiro dia de funcionamento da nova ponte, o responsável explicou que “com o tempo, as pessoas vão habituar-se a esta nova infra-estrutura que vai melhorar a sua viagem”. “Demora apenas 25 ou 30 minutos até Hong Kong, por isso é muito conveniente”, disse. “É um dia feliz para toda a gente. Para Macau, China e Hong Kong”, concluiu. A.V.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s