Proibição de entrada de dramaturgo Yan Pat-to pode “ensombrar cultura em Macau”

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FOTO Yan Pat-to

As autoridades de Macau impediram na segunda-feira a entrada no território do dramaturgo de Hong Kong, Yan Pat-to, convidado para uma palestra sobre teatro, alegando que o autor vinha participar em actividades que podiam comprometer a segurança ou ordem públicas. O Macau Theatre Culture Institute, um dos organizadores do encontro, afirma que voltará a convidar o escritor. Da federação de teatro de Hong Kong chega o apelo para que as autoridades de Macau apresentem uma justificação razoável, alegando que este tipo de atitudes podem “ensombrar a cultura em Macau”.

TEXTO; Cláudia Aranda

“Razões de segurança pública ou ordem pública”, é o que consta na notificação de recusa de entrada no território de Macau apresentada pelo Departamento de Imigração do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) ao dramaturgo de Hong Kong, Yan Pat-to, que vinha participar na passada segunda-feira numa conferência sobre “A nova escrita de teatro na Europa”. “Existem fortes indicações que você [Yan Pat-to] pretende entrar na RAEM para participar em certas actividades que podem comprometer a segurança pública ou ordem pública da RAEM”, lê-se no documento do Departamento de Imigração, escrito em chinês e inglês, ao qual o PONTO FINAL teve acesso.

Yan Pat-to contou ao PONTO FINAL que chegou a Macau, vindo de Hong Kong, “pelas 17h20 ou 17h25”. “Eles [na Imigração] disseram, ‘por favor, vá para outra sala, que você tem que preencher alguns formulários’. Eu fui e preenchi os formulários, e depois eles perguntaram, ‘por que veio a Macau?’, e eu disse, ‘vou falar numa palestra’. E perguntaram: ‘E qual é o conteúdo?’. E eu disse, ‘é sobre teatro’. Então, pediram-me para esperar. E eu esperei por duas horas. Finalmente, às 19h10, disseram que eu tinha o visto rejeitado. Regressei no Turbojet das 19h30”, descreveu o escritor ao PONTO FINAL.

Nenhuma justificação expressa foi apresentada para esta recusa. Mas “deram-me a notificação para assinar, que dizia que tinham fortes razões para recear que as minhas actividades pudessem pôr em causa a segurança. E eu perguntei: mas como é que eu posso criar problemas de segurança? Mas não responderam. Então perguntei se poderia regressar para Hong Kong sem assinar a notificação”. Disseram que não, que era uma notificação de rotina, escreveu o escritor mais tarde na sua página de Facebook. Mas, que, no fim, não se opuseram. “Finalmente não assinei a notificação”, prosseguiu Yan Pat-to, nas declarações ao PONTO FINAL.

Há pelo menos cinco anos que o dramaturgo visita regularmente o território, para falar sobre teatro, uma delas veio a convite do Instituto Cultural do Governo de Macau. Nunca tal lhe havia acontecido, nem aqui nem em parte nenhuma do mundo, disse.

PSP alega que está apenas a cumprir a lei

O CPSP não respondeu às tentativas de contacto do PONTO FINAL. Uma porta-voz na Secretaria para a Segurança remeteu este jornal para as declarações do CPSP à plataforma online All About Macau, na segunda-feira, que foi a primeira a dar a notícia, publicando-a no seu portal electrónico, no próprio dia. Ao All About Macau o CPSP alegou que “as autoridades inspeccionam e fiscalizam as actividades de entrada e saída da RAEM de acordo com a lei, de forma rigorosa e conforme procedimentos estabelecidos, e, com base nisso, toma a decisão de permitir ou recusar a entrada”. “Em relação a casos particulares, as autoridades não fazem nenhum comentário”, adicionaram.

O All About Macau alude “à coincidência” entre a presença do Presidente chinês em Zhuhai para a inauguração, ontem, da Ponte do Delta, e o impedimento de entrada do dramaturgo em Macau. Yan Pat-to também não coloca de parte poder haver uma relação de causalidade. “Só posso especular, porque os jornais confirmaram que o presidente Xi estava em Zhuhai às seis da tarde. Poderia haver uma lista muito longa de pessoas a quem negar a entrada. Na verdade [no passado] muitas outras pessoas já viram a sua entrada recusada, mas a mim nunca me tinha acontecido”, disse. À pergunta, insistindo se acha que o impedimento está relacionado com a presença de Xi na vizinhança, o dramaturgo respondeu: “Eu acho que sim, mas nós nunca temos uma resposta, mas um dos oficiais de imigração a quem perguntei porquê impedirem a minha entrada, quando já estive tantas vezes em Macau, e ele disse que as regras mudaram”.

Escritor regressará a Macau, caso seja convidado

O autor afirmou que regressará a Macau, caso seja convidado. “Sim, eu só preciso ter certeza de que não é um momento crítico”, disse. Desta vez, o dramaturgo, nascido em Hong Kong em 1975, vinha como convidado do Macau Theatre Culture Institute e da International Association of Theatre Critics (Hong Kong), para uma palestra, a última de uma série de 10 dedicadas ao teatro ocidental, a realizar-se na segunda-feira, dia 22 de Outubro, entre as 19h30 e as 22h30.

A última vez que o autor esteve em Macau foi em Março de 2017. Na altura falou do “ensino de crítica de teatro na escola”, numa conferência de teatro organizada também pelo Macau Theatre Culture Institute, explicou ao PONTO FINAL Mok Siochong, director desta instituição. Mok Siochong afirmou ainda que a entidade poderá convidar o dramaturgo novamente, mas que não pretende reagendar a palestra cancelada devido ao impedimento de entrada no território do orador, Yan Pat-to. “Havendo algum tópico adequado para ele no futuro, podemos convidá-lo novamente, mas não para a mesma actividade. Quando ou qual evento será, nós não temos ideia ainda”, disse Mok Siochong.

À pergunta sobre que impacto este tipo de decisão pode ter na liberdade de expressão e dos escritores, Yan Pat-to afirmou que este tipo de atitude da parte das autoridades do território pode vir a refrear outros profissionais a aceitarem convites para virem participar em eventos, com receio de que as autoridades lhes neguem a entrada sem justificação.

Na sua página de Facebook, o Macau Theatre Culture Institute expressou “profunda consternação por Yan Pat-to ter sido impedido de entrar em Macau para participar na palestra, na segunda-feira. Apresentamos desculpas ao senhor Yan e a todos os participantes que se inscreveram na palestra. Encorajamos todos a continuarem a apoiar o crescimento da arte teatral em Macau e a defender a liberdade de expressão na arte, na crítica de arte e na liberdade da corporação cultural”, afirmam.

Também a Hong Kong Federation of Drama Societies, afirmou estar a prestar “extrema atenção” ao caso do impedimento de entrada no território de Yan Pat-to, e exigiu uma explicação das autoridades para esta decisão. Numa declaração publicada na página electrónica, a federação refere que “Hong Kong e Macau têm organizado actividades de intercâmbio da arte e da cultura, com vista a promover o desenvolvimento da arte das duas partes. Ontem [segunda-feira] Yan Pat-to dirigiu-se a Macau para participar numa palestra de teatro, que não causa nenhum dano a Macau, mas, inesperadamente, recusaram a entrada dele em Macau sem qualquer justificação racional. A nossa federação apela a uma explicação das autoridades relacionadas, por forma a esclarecer as dúvidas relacionadas com o impacto na liberdade da cultura e expressão, e para não destruir a amizade e confiança estabelecidas na área de cultura de Hong Kong e Macau”. A federação apela, ainda, aos trabalhadores da área da cultura de Macau para que, no futuro, as actividades relacionadas com o teatro não sejam canceladas por motivos similares, porque isso pode levar “a uma perda de confiança da parte dos participantes” e “ensombrar a área de cultura de Macau”.

 

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