Cartoonista chinês Badiucao e activistas do “Umbrella Movement” na Semana da Liberdade de Expressão em Hong Kong

BADIUCAO
BADIUCAO/HONG KONG FREE PRESS

A “Free Expression Week”, promovida pela primeira vez pelo Hong Kong Free Press (HKFP), abre a 3 de Novembro com a inauguração da primeira exposição internacional do cartoonista e artista plástico nascido na China, Badiucao, que usa a arte e as plataformas online “para desafiar a censura e a ditadura chinesas”. Nos dias 5 e 7 de Novembro são apresentados dois documentários sobre os protestos e protagonistas do “Umbrella Movement”, seguidos de sessão de perguntas e respostas com o líder estudantil e activista Joshua Wong.

TEXTO: Cláudia Aranda

A primeira exposição internacional individual do cartoonista político e artista nascido na China, Badiucao, que vive e trabalha na Austrália, vai ser inaugurada a 3 de Novembro, em Hong Kong, “cidade de resistência e da esperança”, como descreve o artista na sua conta online do Instagram. Com o título “Gongle”, o evento tem a abertura marcada para as 19h30, no primeiro sábado de Novembro, no espaço The Hive Spring, no número 42 da Wong Chuk Hang Road, em Aberdeen, sede do Hong Kong Free Press (HKFP), plataforma independente de notícias lançada em 2015. A abertura da exposição, com entrada gratuita, integra-se na semana dedicada à liberdade de expressão, “Free Expression Week”, promovida por três organizações que defendem a liberdade de imprensa, o HKFP, a Amnistia Internacional e os Repórteres sem Fronteiras.

Tom Grundy, director da plataforma HKFP, disse ao PONTO FINAL que esta é a primeira vez que a organização promove a “Free Expression Week”, que consiste numa série de eventos “sobre o tema da liberdade de expressão em Hong Kong e, também, sobre o estreitamento do espaço de liberdade de expressão na cidade, que já foi um bastião da liberdade de imprensa, e que ainda é, e queremos defender isso”, afirmou. O evento inclui a mostra de dois filmes, conversas com o activista líder do “Umbrella Movement”, Joshua Wong, e um painel de oradores, que vão ser transmitidas ao vivo, além da exposição de Badiucao, descrito como um artista “bastante controverso”, e que é colaborador do HKFP.

O evento acontece após as autoridades de Hong Kong terem recusado renovar o visto de trabalho do editor para a Ásia do Financial Times, Victor Mallet, a 5 de Outubro. Quando Mallet regressou a Hong Kong no domingo seguinte recebeu um visto de turista de sete dias. A decisão sem precedentes correspondeu à expulsão ‘de facto’ do jornalista e foi vista como “um sinal preocupante”. Uma palestra organizada pelo Clube de Correspondentes Estrangeiros (FCC, em inglês), que deu voz a Andy Chan, líder do Partido Nacional de Hong Kong, pró-independência, proibido em Setembro, foi tida como a razão para esta decisão. A Chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, numa conferência de imprensa, recusou justificar a decisão e disse que vinculá-la a Chan era “pura especulação”.

Caso Mallet “mudou as coisas para os jornalistas” e pode aumentar auto-censura

Foi o HKFP quem primeiro noticiou o caso do jornalista do Financial Times, a 5 de Outubro. Disse Tom Grundy que é uma “infeliz coincidência” que o caso de Victor Mallet tenha ocorrido durante os preparativos para a semana da liberdade, que já estava planeada antes da recusa da renovação de visto a Mallet. Para Tom Grundy, o caso do jornalista do Financial Times é uma mostra de que, “a cada poucas semanas parece haver algo que parece ser uma afronta ao princípio ‘Um País, Dois Sistemas’, que consagra um conjunto de liberdades em Hong Kong até 2047”, sublinhou o jornalista.

Tom Grundy acredita que o caso Mallet “realmente mudou as coisas para nós, os jornalistas em Hong Kong. Independentemente de você ser ou não censurado, estas situações motivam a auto-censura. Especialmente quando se tratam de jornalistas que dependem de visto, que vão hesitar ou fazer uma avaliação de risco se tiverem que escrever uma história sobre a independência. Quando as autoridades não admitem que houve uma decisão política para retirar Victor Mallet e não clarificam quais são as regras para se reportar sobre este tópico controverso, alguns jornalistas podem ficar preocupados”, alertou Tom Grundy.

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BADIUCAO/HONG KONG FREE PRESS

Activistas do “Umbrella Movement” em destaque

Na segunda-feira, 5 de Novembro, às 19h30, é exibido no mesmo espaço o documentário “Umbrella Diaries: The First Umbrella”, que mostra a génese dos protestos do movimento “Occupy Central” do ponto de vista dos activistas e de residentes de Hong Kong. A sessão inclui perguntas e respostas com o realizador James Leong e um painel composto por representantes da Amnistia Internacional, da Associação de Jornalistas de Hong Kong e dos Repórteres Sem Fronteiras, sobre a liberdade de expressão e de imprensa em Hong Kong desde 2014, ano em que eclodiu o “Umbrella Movement”. Os protestos pró-democracia de 2014 levaram milhares de estudantes às ruas de Hong Kong a exigir o sufrágio universal, com a polícia a entrar em confrontos com os manifestantes. Em Julho de 2017, o Presidente Xi Jinping declarou existir uma “linha vermelha”, que exclui todas as sugestões de independência para Hong Kong, na cerimónia do 20º aniversário do retorno de Hong Kong, em 1997, à China. Desde então, a “linha vermelha” tem vindo a estender-se a todas as sugestões de auto-determinação, refere a plataforma anti-censura “Global Voices”.

Na quarta-feira, dia 7 de Novembro, é apresentado “Exit to Kai Tak”, um outro documentário centrado no período pós-movimento “Umbrella”, seguido de uma sessão de perguntas e respostas de 30 minutos com o activista Joshua Wong e o co-produtor Jonathan Young. Em vez de recontar a história do evento, o filme centra-se nos seus protagonistas, entre eles Joshua Wong.

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BADIUCAO/HONG KONG FREE PRESS

Sátira e “humor negro” de Badiucao em Hong Kong

Badiucao tem usado a sua arte para “desafiar a censura e a ditadura na China”, defendendo que, “na ausência de liberdade de expressão e democracia, a história é constantemente adulterada”. Para confrontar a versão oficial dos acontecimentos, o artista usa a arte e a internet, nomeadamente através da sua conta no Twitter @badiucao, para “desconstruir a arrogância e o autoritarismo da ditadura”.

“Gongle”, título da exposição, “é uma comédia de humor negro sobre Hong Kong, China e o mundo”, lê-se na descrição sobre a exposição. Badiucao, conhecido pela sátira acutilante, inclui nesta exposição retratos de líderes políticos, nomeadamente de Xi Jinping e de Carrie Lam. Nesta sua exposição, o artista aborda os temas do autoritarismo e da liberdade de discurso numa época em que “a liberdade de expressão está debaixo de fogo”. “Gongle” é um jogo de palavras, em chinês, sobre o esforço da Google para entrar novamente na China, que cria metáforas para a liberdade de expressão. A ferramenta de busca do Google está bloqueada na China desde 2010, ano em que a empresa se retirou do mercado chinês, supostamente devido a preocupações éticas relacionadas com as leis de censura.

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