Jovens e Facebook: o problema de meter Macau na tese

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FOTO EDUARDO MARTINS

Uma psicóloga portuguesa propôs-se analisar o comportamento dos jovens utilizadores de Facebook dos Países de Língua Oficial Portuguesa. E quis incluir Macau. Mas teve algumas dificuldades para caracterizar a amostra local. Da leitura ficam algumas dúvidas não esclarecidas.

TEXTO: João Paulo Meneses

A psicóloga Teresa Paula Marques apresentou este ano na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa uma tese de doutoramento com o título “Estar Online, Viver Offline. Hábitos de utilização, ajustamento psicossocial, riscos/oportunidades online e comportamentos de risco offline/bem-estar, dos jovens utilizadores do Facebook da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e de Macau”. Teresa Paula Marques pretendia, com esta investigação, “explorar as diferenças motivadas pela cultura de origem ao nível dos hábitos de utilização do Facebook, com impacto nos riscos e oportunidades online, da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e Macau”.

O extenso trabalho tem diversos capítulos: num dos primeiros faz a caracterização dos jovens de cada um dos territórios em causa e mais à frente analisa os resultados de um inquérito online, com “uma amostra composta por 4572 jovens da CPLP e Macau, com idades entre os 14 e os 20 anos”, esclarecendo que “recolher amostra em todos os países da CPLP e em Macau poderia ter sido uma tarefa impossível de concretizar, não fosse a inestimável ajuda de muitas pessoas”. Apesar de não fazer parte da CPLP, “incluiu-se Macau por existir neste país uma considerável comunidade de língua portuguesa”.

No capítulo inicial da caracterização, a doutoranda foi – como revela – recolher dados a partir de um site (Geert Hofstede), onde é possível “identificar as dimensões culturais” dos países em causa. O problema é que Macau não consta dessa lista. Por isso, “foram tidos em conta os valores sobre Hong Kong”, dizendo a psicóloga que outro autor (K. M. Leng) fez o mesmo em 2013. O referido site também não tem dados da Guiné-Bissau, pelo que a autora usou os do Senegal. “A caracterização de Macau e da Guiné Bissau teve de ser efetuada tendo como referência outros países (Hong-Kong e Senegal, respetivamente), os quais apesar de serem apontados noutros estudos como culturalmente semelhantes, certamente terão algumas diferenças que não nos foi possível identificar”, reconhece no trabalho.

“Um colégio privado”

Mas é na parte em que trata do inquérito online “de auto-retrato” que ficam algumas dúvidas. A autora não identifica as escolas que colaboraram no estudo, dizendo apenas “Portugal: 11 Escolas Profissionais; 5 colégios privados; 11 Instituições de Ensino Superior; 2 Associações de Pais. Macau: 1 colégio privado. Moçambique: 2 Escolas Secundárias; 1 colégio privado. Brasil: 12 Universidades. Angola: 1 Escola Secundária; 1 Universidade. Cabo Verde: 1 Escola Básica; 1 Escola Secundária; 1 Universidade. São Tomé: 1 Escola Secundária; Príncipe: 1 Escola Profissional. Guiné-Bissau: 1 Escola Secundária. Timor: 1 Fundação”.

Pelo menos indirectamente, podemos conhecer um pouco mais desta lista através do extenso rol de agradecimentos que Teresa Paula Marques apresenta na tese. Ali são referidos nomes de professores e respectivas escolas de todos os países, mas não aparece – que se perceba – qualquer nome de Macau. Já não é a questão de saber se a autora contou ou não com ajuda local, mas aumenta a dificuldade em identificar o referido colégio.

Outro elemento que o PONTO FINAL quis aclarar diz respeito ao questionário: em momento algum se fala numa eventual tradução para chinês do texto, que a doutoranda publica na íntegra na tese. Deduz-se, pois, que os 4572 jovens responderam em Português, até porque, como explicou no início, “incluiu-se Macau por existir neste país uma considerável comunidade de língua portuguesa”.

Neste contexto teria sido interessante saber em que colégio privado de Macau os alunos respondem (unicamente) em português. Como é evidente, o PONTO FINAL tentou obter, junto da autora, esclarecimento para estas e outras questões, mas os primeiros contactos via Facebook e o repetido envio, posterior, de um email para a clínica que tem o seu nome, não obtiveram resposta.

Alguns números da participação de Macau

A curiosidade aumenta porque, revela a autora, “a amostra foi constituída por 4572 jovens entre os 14 e os 20 anos, sendo 74.6% de Portugal, 9.9% do Brasil, 5.6% de Macau, 3.9% de Moçambique, 1.9% de Guiné, 1.7% de S. Tomé e Príncipe, 1.1 % de Angola, 0.8% de Cabo Verde, e 0.1% de Timor”. Ou seja, quase 230 respostas chegaram de Macau. Todas do mesmo colégio?

Teresa Paula Marques revela-nos que 59% das respostas obtidas em Macau vieram de raparigas e 49% de rapazes, quase todos (84%) entre os 14 e os 17 anos. E que 16% dos que responderam a partir da RAEM tinham entre 18 e 20 anos. O estudo também nos fala da escolaridade dos participantes, ficando a saber-se que 94% dos que estavam em Macau frequentavam o ensino secundário (5,1%, o básico).

As conclusões

A partir dos dados disponibilizados no site em causa, Teresa Paula Marques conclui na parte da caracterização dos jovens, que “Macau revela uma elevada distância ao poder, é coletivista, masculino, baixa aversão à incerteza, orientado a longo prazo e é uma sociedade muito contida”, o que , com uma exceção, está em linha com as conclusões gerais: “os países da nossa amostra possuem maioritariamente uma elevada distância ao poder, são coletivistas, femininos (com duas exceções, o Brasil que tem características mistas e Macau que é masculino)”.

Nas restantes dimensões “observam-se níveis bastante diversificados, ou seja, aversão à incerteza (Portugal com os maiores níveis e Macau com os mais reduzidos), orientação a longo prazo (varia entre muito baixo nos países africanos, e elevado em Macau) e Indulgência (varia desde muito elevada nos países africanos e muito baixa em Macau).

Da análise de questionários online resultam ideias como a razão principal para estar no Facebook ser “manter-se a par da vida dos amigos” (77% Macau) e a segunda “saber notícias do teu país e do Mundo” (33%). Apenas 39% dos jovens tinha os pais adicionados na sua página, sendo que os jovens de Macau foram os que mais referiram adicionar os pais (56%) e os de São Tomé foram os que menos o fizeram (29%).

A tese, que se encontra online no Repositório da Universidade de Lisboa, foi aprovada com distinção por maioria, mas sem louvor, porque, revelou o jornal Correio da Manhã, um dos membros do júri que avaliou o trabalho não quis atribuir o louvor.

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Teresa Marques = “Supernanny”

O Correio da Manhã fez uma notícia sobre a tese de Teresa Paula Marques? É que a psicóloga foi durante algumas semanas a protagonista de um dos mais polémicos programas de televisão em Portugal, nos últimos anos, o “Supernanny”. Logo após a transmissão do primeiro episódio, emitido pela SIC, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens criticou o programa por considerar que existe um “elevado risco” de este “violar os direitos das crianças, designadamente o direito à sua imagem, à reserva da sua vida privada e à sua intimidade”. A SIC acabou por retirar o programa do ar, já não emitindo o 3º episódio, na sequência de uma decisão judicial. O programa mostrava crianças com comportamentos problemáticos, com a “Supernanny” a sugerir formas de os pais lidarem com a situação. J.P.M.

 

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