Juliana Devoy contesta relatório dos EUA e diz que autores desconhecem cultura local

FOTO_Abertura_eduardo martins (12).jpgA directora do Centro Bom Pastor entregou uma carta ao consulado-geral dos EUA em Hong Kong, depois da publicação do relatório de 2018 sobre o tráfico de pessoas, em que contesta as conclusões e afirma que os autores não conhecem a cultura local. Juliana Devoy defende ainda que o Governo de Macau deve mudar de abordagem no tratamento das vítimas e criar um programa de reinserção social obrigatório, em vez de recambiá-las para as mãos dos traficantes. Entretanto, até Novembro, há voluntários na rua em campanha contra o tráfico humano.

TEXTO: Cláudia Aranda

A directora do Centro Bom Pastor, Juliana Devoy, defendeu ontem a criação de um programa de reinserção social obrigatório para as vítimas de tráfico humano, em vez de serem reenviadas de imediato para o lugar de origem. Juliana Devoy falava à margem da conferência sobre as actividades de sensibilização contra o tráfico humano que estão a ser promovidas desde Setembro.

“O que temos tentado fazer desde há muitos anos é dizer ao Governo que eles têm que mudar a sua abordagem. As meninas devem ser obrigadas a ficar aqui por alguns meses e passar por algum tipo de programa, em vez de mandá-las de volta para o outro lado da fronteira para os braços dos traficantes”, afirmou Juliana Devoy.

A directora do Centro Bom Pastor defende que as vítimas de tráfico humano devem poder ficar em Macau por três ou quatro meses para “um programa que lhes permita reflectir e recuperar sobre o que lhes aconteceu”. Devoy defende que as vítimas resgatadas, sendo menores, e consideradas crianças pelas Nações Unidas, “devem ser tratadas como tal”. Devoy adiantou que, da última vez que se reuniu com Celeste Wong, presidente do Instituto de Acção Social (IAS), a direcção do organismo mostrou-se disponível para pensar sobre a questão.

O IAS, na última década, identificou 135 pessoas, todas mulheres, vítimas de tráfico humano, adiantou ontem Tang Yuk Wa, director-adjunto interino do IAS, durante o evento. O Centro do Bom Pastor, que tem um acordo com o Governo para receber as vítimas de tráfico humano menores de 18 anos, desde 2008 recebeu um total 62 menores, meninas, provenientes da China continental.

Entretanto, o número de vítimas resgatadas entregues aos cuidados do Centro tem diminuído. Depois de um pico em 2013, com 28 vítimas acolhidas, o número reduziu para cinco em 2014, quatro em 2015, três em 2016, duas em 2017 e uma este ano. “Se há menos meninas a serem traficadas para Macau ou se, simplesmente, elas não são apanhadas, não sabemos. Não há como saber, porque agora em vez de estarem nos casinos ou em redor de hotéis, elas têm quartos em apartamentos. Os traficantes também estão a ficar mais espertos”, sublinhou a irmã.

Do lado das autoridades, “há empenho e boa vontade”

Juliana Devoy revelou que entregou uma carta ao Consulado-Geral dos Estados Unidos da América em Hong Kong, logo a seguir à publicação do relatório de 2018 sobre o Tráfico de Pesssoas, lançado a 28 de Junho, pelo Departamento de Estado Norte-Americano, em que contestava as conclusões do relatório, acusando os seus autores de não conhecerem a realidade local. Neste documento, apesar de reconhecer “significativos esforços”, os EUA entendem que Macau “não cumpre na íntegra os padrões mínimos para a eliminação do tráfico humano”.

“Eu acho que eles não sabem nada sobre a cultura de Macau, o que eu estou a referir é que não é fácil para ninguém ou para a polícia avançar com uma acusação, porque as pessoas não denunciam. As pessoas têm que ter a garantia de que vão ser protegidas e, neste tipo de lugar muito pequeno, vão pensar duas vezes antes de fazerem uma denúncia”, disse a irmã. O mesmo acontece com as vítimas de tráfico, que não denunciam os traficantes e dizem que aqui chegaram pelos seus próprios meios.

Do lado das autoridades, incluindo as forças policiais, “há empenho e boa vontade”, defende. Devoy argumenta que, ao contrário do que o relatório Norte-Americano afirma, o Governo de Macau “faz tudo o que lhe pedem, em comparação com Hong Kong, que negam o problema. Então, por que havemos de estar ao mesmo nível de Hong Kong? Em termos de cooperação e de vontade para lidar com o tráfico humano, o Governo de Macau é o número um”, afirmou Devoy.

O centro tenciona a partir de agora também trazer a público que, além do tráfico sexual, há tráfico de mão-de-obra. Segundo a irmã, a “maioria das pessoas que trabalham em locais de construção podem ser maltratados, mas nunca se queixariam e, se alguém vir algo não vão denunciar, porque se o fizerem, qual a garantia de que a polícia vai protegê-los? Eles ficam vulneráveis a qualquer tipo de retaliação”, acrescentou.

Governo: em Macau, “a questão não é muito séria”

Para Tang Yuk Wa, o baixo número de vítimas resgatadas resulta do facto de “em Macau, a questão não ser muito séria”. Além disso, acrescentou, este é um crime difícil de identificar. “O que vemos é apenas uma parte do que aconteceu. Existem casos que não são conhecidos por nós. A razão é que um criminoso não contará voluntariamente aos outros: ‘Estou a cometer um crime’. Por exemplo, um viciado em drogas não dirá às pessoas: ‘Acabei de usar drogas’. Este é um exemplo”, argumentou o responsável, aludindo a que o consumidor de drogas também não denuncia o seu traficante.

O representante do IAS afirmou ainda não pretender fazer comentários sobre o relatório dos EUA, sublinhando, no entanto, que o Governo tem trabalhado bastante. “De facto, fizemos muitas coisas. Quando identificamos uma vítima, vamos ajudá-la, alojá-la durante a sua estadia em Macau, oferecemos aconselhamento, educação e formação e enviamo-la de volta para o país de origem. Nós fazemos muito para ajudar”.

Em termos de orçamento, este ano o Governo dedicou 1,8 milhões de patacas, valor que “cobre todos os serviços enquanto as vítimas permanecem em Macau”.

Na rua contra o tráfico humano, até Novembro

Algumas centenas de residentes em Macau já terão visualizado o vídeo produzido pelo Centro do Bom Pastor contra o tráfico humano intitulado “Quem é o próximo?”, no âmbito das acções de sensibilização para o problema, coordenadas pela assistente social Terry Chan. “Muitas destas pessoas que contactamos nunca ouviram falar de tráfico humano, o nosso trabalho é lembrar que o problema existe”, contam as voluntárias Ruby Wang e Sandra Dai, que na tarde do passado sábado, em torno do Largo dos Três Candeeiros, abordaram cerca de 25 pessoas, sobretudo mulheres, turistas e trabalhadores não-residentes, adolescentes e pessoas de meia idade. “Eles ficam surpreendidos em saber que há tráfico humano, porque Macau é um lugar muito calmo”, acrescenta Ryan Yang.

Os três voluntários, estudantes de Sociologia na Universidade de Macau, originários da China continental, ganharam o ano passado a competição que desafiava os estudantes a encontrarem soluções para a esta forma de “escravatura moderna”. A proposta vencedora incluía este tipo de actividades de rua, assim como a produção de um vídeo.

No fim-de-semana, o PONTO FINAL acompanhou os voluntários que mostram aos transeuntes o vídeo com a história de uma jovem apanhada numa rede de prostituição. “Vamos às paragens de autocarro, lojas de fruta, vamos onde há pessoas em fila, à espera, que têm alguma disponibilidade para nos ouvir”, explicou Ryan Yang.

A actividade decorre desde Setembro. Na página do Facebook do Centro, o vídeo, produzido pela empresa de comunicação Common Production, e patrocinado pelo hotel-casino MGM, está perto de atingir as cinco mil visualizações. Até Novembro, a equipa de voluntários vai continuar a ir para a rua. Depois dos Três Candeeiros, o grupo segue para a Taipa na próxima semana.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s