A pequena grande clínica de Paul Pun

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FOTO EDUARDO MARTINS

“É uma clínica muito pequenina, não é? Mas é só o início”. Assim vê Paul Pun a sua clínica de apoio a migrantes e não-residentes, que nasceu apenas da solidariedade e determinação. Pode ser pequena, mas os migrantes vêem-na como o seu hospital, confessa o secretário-geral da Cáritas.

TEXTO: André Vinagre

À entrada há um pequeno balcão de atendimento, seguido de um estreito corredor que dá para os dois consultórios da clínica, cada um preparado com uma marquesa e um computador. As portas já estão abertas, apesar de ainda se ultimarem os trabalhos de limpeza dentro do espaço. Ainda não há pacientes, diz Paul Pun que é porque as pessoas ainda não conhecem a clínica, que fica na Rua da Caldeira, na zona do Porto Interior. “Ainda temos de espalhar a palavra, já que pela lei não se pode publicitar uma clínica, tem de ser boca-a-boca, para já”. O secretário-geral da Cáritas explica que não pode publicitar a clínica, já que para isso é preciso uma autorização do Governo. Autorização, essa, que não chegou a requerer.

Colado no vidro do balcão de atendimento está um aviso para o qual Paul Pun aponta orgulhosamente e que diz que, devido à doação de um cidadão comum, cada não-residente vai pagar menos 30 patacas do que o valor inicialmente estabelecido. Cada não-residente pagaria 100 patacas por uma consulta e por três dias de medicação, mas devido a esta doação, os migrantes passam a pagar apenas 70. “Este patrocínio das 30 patacas também é muito bom. Haver alguém que se interessa assim pelos migrantes é muito bom”, confessa Paul Pun ao PONTO FINAL.

“Nos hospitais, os não-residentes pagam muito, além disso pagam também os medicamentos. Aqui, é mais barato e mais conveniente”, diz o secretário-geral da Cáritas Macau, explicando a importância deste seu projecto. Há até quem veja nesta pequena clínica um hospital: “É um projecto muito importante, para os migrantes isto é o hospital deles, nós dizemos que é pequeno, mas há migrantes que dizem que isto será o hospital deles”. “Hoje temos estas instalações, mas é um começo. Não é uma clínica grande, mas tudo começa por ser pequeno”, refere.

Para já, o espaço conta apenas com dois clínicos, a médica Chang e o médico Kun, que trabalham em regime de ‘full-time’. “Como a clínica é muito pequena, para já só temos dois médicos”, diz Paul Pun, explicando que quis que estes estivessem em ‘full-time’ para poderem ficar sempre na clínica. “Eu trabalhava no hospital, mas acabei por sair de lá. Foi quando o senhor Paul me perguntou se queria vir para aqui e eu fiquei logo interessado”, conta Kun. “Estamos felizes por ajudar os não-residentes e as pessoas com menos recursos financeiros, é importante”, acrescenta.

No futuro, o projecto de Paul Pun prevê a contratação de mais médicos, para que a clínica possa funcionar até mais tarde. Agora, está aberta das 9 às 18h30, todos os dias da semana. “Para já, esta clínica não pode receber muitos pacientes, mas no futuro esperamos receber bastantes, especialmente ao domingo, que é quando as pessoas não trabalham e podem vir cá”, refere Paul Pun.

Entre as principais carências da comunidade não-residente de Macau, destaca-se a área psicológica e, por isso, é um dos objectivos para a clínica: “O nosso objectivo é conseguir dar também apoio psicológico. No futuro precisamos de ter esse serviço”. “As empregadas domésticas precisam de apoio psicológico. Não é que elas tenham problemas, tem a ver com o seu estilo de vida. Vêm de longe, chegam cá, têm de se ajustar ao estilo de vida de Macau. Até as pessoas de Macau que vão para Taiwan ou para o interior da China, também eles têm problemas de adaptação, mesmo escrevendo na mesma língua e falando na mesma língua, eles também têm esses problemas”, sublinha, acrescentando que também a oftalmologia é necessária: “Várias empregadas domésticas pediram-me ajuda nesta área e vai haver um workshop para as ajudar a verificar a sua saúde oftalmológica”.

Esta clínica privada, cujo projecto é do próprio Paul Pun e não da Cáritas, foi “adoptada” em Maio deste ano e, desde então, já sobreviveu a um tufão, o que atrasou todo o processo. “Antes de abrir tivemos inúmeras dificuldades, por exemplo o tufão Mangkhut. Tivemos de pintar tudo outra vez e arranjar tudo, mas conseguimos”, sorri. “No Mangkhut, a água dava por aqui”, e aponta para meio da porta de um dos consultórios. O senhor Ho, um dos voluntários na clínica, completa: “Nós pusemos os sacos de areia lá fora, para evitar que a água entrasse, mas a água entrou pela sanita e pelos canos. A água veio de dentro, não pudemos fazer nada”. Sem contar com os fenómenos da natureza, quais as maiores dificuldades? “Arranjar dinheiro para os dois médicos e dinheiro para os medicamentos, estamos dependentes da caridade. Uma pessoa deu-nos a tal ajuda das 30 patacas, outra pagou-nos os primeiros cinco meses de renda. Depois teremos de encontrar outra solução”. “Talvez a Cáritas, no futuro, passe a gerir isto. Depois talvez nos candidatemos aos subsídios do Governo”, diz. Volta a olhar em volta e pergunta: “É uma clínica muito pequenina, não é? Mas é só o início”.

 

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