“Pintar é a minha maneira de recordar a cidade que pela primeira vez aqui vim encontrar”

Fotografia: Eduardo Martins

Havia homens de tronco nu a fabricar pólvora, mulheres a fazer rolos de conchas, miúdos e até crianças a colocar todos os materiais no papel, rapazes travessos a rebentar os panchões do Ano Novo. A exposição “A Indústria do Fogo de Artifício de Macau – obras inéditas de Lio Man Cheong” abre hoje no Art Space, na vila da Taipa, e vai por lá estar até 5 de Outubro, oferecendo um raro vislumbre da actividade que foi em tempos a espinha dorsal da economia da cidade.

 

Stacey Qiao

staceyqiao.pontofinal@gmail.com

 

PONTO FINAL – Porque escolheu a indústria do fogo-de-artifício para temas dos seus trabalhos?

Lio Man CheongSempre gostei de retratar os eventos e a história de Macau. Ainda muito novo, familiarizei-me com o fogo-de-artifício. Esta indústria costumava ser o pilar da economia local, com várias grandes fábricas a alimentar muita gente. Uma boa parte das famílias com menos recursos trabalhava na indústria: nas fábricas os homens fabricavam pólvora ou carregavam os produtos acabados, enquanto as mulheres e crianças encarregavam-se nas suas próprias casas dos procedimentos menos perigosos do fabrico de panchões. Eu tinha colegas de escola, amigos e vizinhos que faziam isso. E tudo isso causou-me uma impressão muito forte.

Pensa que o fogo-de-artifício tem um significado singular na cultura chinesa?

Claro que sim. Nós, chineses, rebentamos panchões no Festival da Primavera, em casamentos, e em muitas outras ocasiões. O fogo-de-artifício é indispensável em muitas celebrações. Especialmente para as crianças, o acender fogo-de-artifício no Ano Chinês é uma das memórias mais felizes partilhadas pela minha geração.

 

Como levou a cabo a pesquisa sobre esta indústria? Os movimentos e até as expressões faciais dos personagens retratados nas suas obras são muito vivos.

O livro “A Indústria do Fogo de Artifício na Taipa”, escrito por Lai Hung Kin, foi uma ajuda preciosa. O Sr. Lai vivia na Taipa e conhecia a indústria dos panchões a fundo. O livro tem também muitas fotografias antigas que captaram o processo de fabrico do fogo-de-artifício, e que são agora uma grande fonte de referência. Fiz-lhe muitas perguntas, e também a outros especialistas, para conhecer os procedimentos exactos.

 

Visitou alguns dos locais onde estavam instaladas essas grandes fábricas?

Fui uma vez às ruínas da Fábrica Iec Long para pintar à vista. Mas a fábrica estava há muito tempo abandonada e praticamente irreconhecível. Árvores e arbustos tomaram conta do local, e os vestígios de um passado próspero tinham desaparecido. Não pude deixar de me interrogar porque é que a indústria, outrora tão dinâmica, sumira num abrir e fechar de olhos. A indústria que antes tinha tornado Macau tão famosa em todo o mundo desapareceu tão inevitavelmente quanto o orvalho matinal, e achei isso uma pena.

 

As obras nesta exposição são todas aguarelas. Porque escolheu esta técnica?

Com a aguarela sinto-me mais confiante a reproduzir as expressões e os movimentos dos personagens e do meio envolvente. Mas também experimentei com tinta-da-china aguada antes de me decidir pela aguarela. Pintei então um longo rolo de mais de sete metros, mas o Sr. Lai fez-me saber que as cenas de produção ali retratadas não eram precisas; por exemplo, não podiam ser usados instrumentos metálicos no processo de fabrico da pólvora já que podiam gerar fagulhas e causar uma explosão.

Incorporou alguns elementos desse trabalho em tinta-da-china aguada nas aguarelas?

Sim, são perceptíveis as características da pintura chinesa nas pinceladas e em alguns traços.

 

Os seus trabalhos parecem deixar uma impressão de ‘inacabados’, em particular pela ausência de uma moldura bem definida, o que é invulgar nas obras em aguarela.

Faço-o intencionalmente. Não preenchi todos os espaços, do mesmo modo que na pintura tradicional chinesa se deixam espaços em branco. São eles que fazem perdurar a imagem na mente de quem os vê.

 

Para além de aguarelas, também faz pintura a óleo sobre tela. Tem temas diferentes para técnicas distintas?

Em geral, a minha pintura é figurativa. Mas surgem diferenças consoante as diferentes técnicas utilizadas. Com aguarela, pinto por regra paisagens. Mas se me proponho ser mais criativo, então a pintura a óleo ganha preferência. Por vezes recorro também à tinta-da-china aguada para desenhar cenas e personagens imaginários, como acontece em desenhos de figuras históricas como Camilo Pessanha ou Matteo Ricci.

 

Há quem defenda que a aguarela, ou a pintura em geral, estão a perder a anterior posição dominante para formas de arte emergentes, como as instalações, a arte multimédia, etc.. Partilha dessa opinião?

Até um certo ponto, talvez sim. Há cada vez mais trabalhos produzidos através dessas formas de arte emergentes. Mas se olhar para a China interior, para Taiwan ou para os países do Sudeste Asiático, a aguarela é ainda muito popular. A razão talvez seja por ser mais fácil na iniciação, e também por ser mais fácil de ser apreciada. Eu julgo que a aguarela ainda tem um charme muito especial.

 

De todas as obras da exposição, qual é a sua preferida, aquela que lhe deu mais prazer pintar?

É a obra que retrata as fábricas de panchões mais famosas de tempos idos. De manhã, quando vou nadar, passo sempre em frente das paredes da Fábrica Iec Long. Essa imagem está como que impressa no meu cérebro. Mas na pintura, as paredes da Iec Long são também entrecortadas pelas fachadas de outras fábricas. Os patrões, os guardas com os seus cães, os porteiros – estão lá todos na pintura, como que saídos de um tempo passado. A técnica rendilhada é também aqui emprestada pela pintura tradicional chinesa, para se criar uma atmosfera de sonho. A realidade é misturada com a imaginação, e o presente desfocado pelas memórias do passado.

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Já o ouvimos dizer que “a pintura é a coisa mais importante da minha vida”. Lembra-se da primeira vez que pintou?

A primeira pintura que me lembro de ter feito foi um esboço de um general de outros tempos, Zhao Zilong. Eu era um grande fã de grandes heróis.

 

Quais foram os artistas que mais o influenciaram?

Quando era novo gostava muito da pintura de Chen Xianning, então um dos melhores artistas em toda a China. Ele é de Cantão e está actualmente radicado nos Estados Unidos. Absorvi muito da estrutura e das cores das suas obras. Outras influências incluem o aguarelista americano Andrew Nowell Wyeth.

 

Recentemente, qual foi a exposição de arte que mais o impressionou?

A exposição de pintura de Ilya Repin, em Moscovo, que era verdadeiramente mágica. As suas obras realistas, como Barge Haulers on the Volga, são fantásticas. Sim, é verdade que vi por diversas vezes impressões, serigrafias, mas poder olhar para os originais é bem diferente. Não conseguia deixar de olhar para eles. Uma outra exposição de Isaac Levitan era também espantosa.

 

Olhando para o passado, apercebe-se de que a sua criação artística tem passado por diferentes fases?

Sim, parece-me que sim. A princípio pintava as paisagens apenas como elas surgiam aos meus olhos. Mais tarde, juntei-lhes elementos de maior criatividade. Por exemplo, quando pintei a Rua do Almirante Sérgio o lugar estava muito diferente do que tinha sido, devido a todos os trabalhos de reconstrução e renovação. Por isso, reorganizei os elementos e dei livre curso à imaginação para me expressar melhor. Nesta presente fase, quero-me mais livre e ousado. Estou ainda a explorar novas possibilidades.

 

Tem sempre um tema bem amadurecido ou prefere seguir o instinto na selecção dostemas?

Deixo-me sempre guiar pelo coração e desenho aquilo que mais me comove num dado momento. É o caso do Canídromo. Estava por lá a passar uma noite e vi as luzes dos néons a serem reflectidas nas poças de água, uma efeito extremamente belo. E com a notícia do seu encerramento, senti a nostalgia a crescer. Não gosto de corridas de cães. Nunca vi uma sequer. Mas o Canídromo transporta-me para memórias da minha infância. Era ali que muitas escolas desenvolviam as suas actividades desportivas. Até os jogos de futebol entre Macau e Hong Kong era ali que se realizavam. Por isso, representa para mim a energia e a felicidade da minha juventude.

 

Muitos dos seus trabalhos são sobre a cidade do passado, o que evoca justamente um sentimento de nostalgia a quem as vê. Sente-se muito preso ao passado?

Vim para Macau com 10 anos e a cidade era então muito diferente. A comunidade era muito coesa, e o calor humano muito mais intenso. Conheciam-se todos os vizinhos, brincava-se com outras crianças na rua, fazia-se amizades com gente das redondezas. Tudo isso deixou de acontecer. Hoje não sabemos sequer o nome da pessoa que vive na porta em frente. É claro que o desenvolvimento é inevitável e que não há maneira de o parar. Só nos resta tomar as coisas como elas são e adaptarmo-nos às circunstâncias. Mas a história não devia ser simplesmente enterrada e esquecida. Para mim, pintar é a minha maneira de recordar a cidade que pela primeira vez aqui vim encontrar. A arte, tal como os escritos, desempenha um papel muito importante na preservação da memória colectiva.

 

De volta às indústrias pilares de há meio século, propõe-se retratar outras, como a da construção naval, do incenso ou dos fósforos?

Gostaria, sim. Mas ainda não senti o chamamento. Provavelmente esperarei por um momento de inspiração.

 

Por falar de construção naval, o que pensa da recente discussão pública em torno dos estaleiros de Lai Chi Vun? Pensa que deveriam ser protegidos?

Numa perspectiva puramente artística e cultural, julgo que deveriam ser conservados. É o único estaleiro antigo ainda intacto em Macau ou Hong Kong. É também um sítio fantástico para desenhar. O público merece ter lugares onde possa aprender a história da cidade onde vive.

Fotografia: Eduardo Martins

No contexto dessa discussão, o Governo tem sido frequentemente criticado por inacção na protecção do património. Qual é a sua opinião sobre isso?

O Governo tem muita margem para melhorar. Apenas uma pequena parcela das receitas dos casinos faria toda a diferença nas chamadas indústrias culturais. Em particular, o governo podia investir mais na educação artística. Em comparação com Hong Kong, Macau tem ainda muito por fazer nesta área.

 

Há muito que se fala na necessidade da existência de uma Escola de Artes…

Concordo que uma escola de artes é necessária. Há muitos jovens, e até pessoas mais velhas, interessados em prosseguir estudos de belas artes. À noite dou aulas no Museu de Arte de Macau, e a maioria dos alunos são adultos que querem melhorar a sua técnica, ou simplesmente retirar prazer da aprendizagem.

 

O que pensa das dificuldades sentidas pelos artistas mais jovens? Em tempos trabalhou em publicidade: sentiu o mesmo dilema entre prosseguir uma actividade artística ou comercial?

Eu trabalhei para o cinema ao longo de mais de uma década, pintando grandes posters para atrair o público às salas. Mas nunca vi esse trabalho como contraditório face aos meus sonhos. Encarei-o antes como uma oportunidade preciosa para melhorar a minha técnica. O meu conselho a jovens artistas em dificuldades é o seguinte: não pensem demasiado, concentrem-se no trabalho e desenvolvam as técnicas essenciais. Com técnicas sólidas, fica-se melhor preparado para ir em busca dos sonhos. Se se gosta de arte o suficiente, todos os passos serão de aproximação ao ideal artístico de cada um.

 

 

 

 

 

 

 

 

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