Terminou com acordo, a cimeira mais aguardada

No encontro mais esperado do ano, os líderes dos EUA e da Coreia do Norte apertaram as mãos e acordaram a “total desnuclearização” da península coreana. Donald Trump passou a imagem de uma reunião de sucesso, mas alguns países apressaram-se a reagir com prudência.

EPA/KEVIN LIM

 

“Tantos jornalistas aqui, não me sinto muito confortável, mas enfim, é o que é”, disse Trump, passando a imagem de um líder bem-disposto, já em descompressão depois de um encontro histórico com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Na declaração inicial, Trump disse que deu “garantias de segurança” à Península coreana e que em troca recebeu a promessa de total desnuclearização do programa de armamento norte-coreano, considerando que as negociações correram “muito bem”, mas avisando que o processo é longo e que deverá ser necessário um segundo encontro com o seu homólogo coreano.

“A Coreia do Norte já está a destruir um grande local de teste de mísseis, acordámos isso já depois de termos assinado o acordo”, disse Donald Trump na conferência de imprensa que marcou o final do encontro com o Presidente da Coreia do Norte, e no fim da qual o líder norte-americano abandonou o território, dizendo que “não havia mais nada que pudéssemos ter feito”.

Na apresentação do acordo, Trump afirmou que as sanções vão permanecer em vigor até ser comprovado que a Coreia do Norte está a destruir as suas armas, vincando que “esse processo quando se começa basicamente está feito, porque deixam de poder usar as armas”. Nas respostas aos jornalistas, Trump defendeu que a Coreia do Norte “tem uma oportunidade como nenhuma outra” e afirmou que o líder norte-coreano” pode ser lembrado como alguém que trouxe uma nova era de prosperidade ao país”.

 

EPA/KEVIN LIM

 

Interrogado sobre o grau de confiança atribuível ao líder norte-coreano, Trump disse que é possível que se engane: “Posso estar aqui daqui a seis meses a dizer que me enganei, mas provavelmente não, arranjaria uma desculpa para não dizer que me enganei”, gracejou.

 

“NALGUM PONTO OS 32 MIL SOLDADOS [NORTE-AMERICANOS] VÃO VOLTAR A CASA”

 

Sobre as garantias de segurança, o líder norte-americano disse que não vai, para já, reduzir a presença militar norte-americana na península coreana, mas assegurou: “Nalgum ponto os 32 mil soldados [norte-americanos] vão voltar a casa e vamos parar com os jogos de guerra”. “Kim Jong-un mostrou-se muito firme e quer fazer isto tanto ou até mais do que eu, e quando aterrar [em Pyongyang] vai começar já o processo”, disse ainda Donald Trump.

 

EPA/KEVIN LIM

 

Questionado sobre a questão dos direitos humanos, Trump respondeu que a questão “foi discutida e será ainda mais debatida no futuro”, mas direccionou a resposta para as “muitas cartas e telefonemas” que recebeu pedindo o regresso dos restos mortais dos soldados norte-americanos mortos na Coreia do Norte, e assegurou que os restos mortais de mais de 6.000 soldados vão regressar aos Estados Unidos.

Trump admitiu ir a Pyongyang no futuro, e acrescentou que já convidou o líder norte-coreano para a Casa Branca “na altura apropriada, e ele aceitou”. A reacção dos líderes mundiais foi de satisfação pelos aparentes bons resultados do encontro entre os dois líderes, apesar de algumas manifestações de prudência. A China considerou que Washington e Pyongyang estão a criar uma “nova história” e sugeriu que o Conselho de Segurança das Nações Unidas acabe com as sanções contra a Coreia do Norte. Seul saudou o acordo como um “acontecimento histórico que põe termo à Guerra Fria”. Já o Irão avisou Kim Jong-un de que Trump é um líder capaz de retirar a assinatura dos acordos que fez. O Japão expressou o desejo de que a Coreia do Norte “se comporte como um país responsável”. A União Europeia classificou a cimeira como “um passo crucial e necessário” para a desnuclearização da península e Paris considerou que foi dado um “passo significativo”, mas afirmou duvidar que “tudo tenha sido alcançado nas últimas horas”.

Este foi o primeiro encontro entre os líderes dos dois países depois de quase 70 anos de confrontos políticos no seguimento da Guerra da Coreia e de 25 anos de tensão sobre o programa nuclear de Pyongyang. Este encontro histórico ocorreu depois de, em 2017, as tensões terem atingido níveis inéditos desde o fim da Guerra da Coreia (1950-53), face aos sucessivos testes nucleares de Pyongyang e à retórica beligerante de Washington.

A cimeira começou pouco depois das 9 horas de terça-feira, num hotel em Singapura, e resulta de uma corrida contra o tempo – com uma frenética actividade diplomática em Washington, Singapura, Pyongyang e na fronteira entre as duas Coreias -, em que houve anúncios, ameaças, cancelamentos e retratações surpreendentes. O encontro terminou com a conferência de imprensa de Donald Trump, que respondeu aos jornalistas durante quase uma hora. Agência Lusa

 

 

Agência de Energia Atómica pronta para verificações

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) está “pronta para realizar quaisquer actividades de verificação” sobre os complexos nucleares norte-coreanos, afirmou ontem o secretário-geral do organismo, que saudou o resultado da cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un.

 

EPA/MAST IRHAM

 

“A AIEA está pronta para realizar quaisquer actividades de verificação na Coreia do Norte que os países envolvidos possam requerer”, declarou Yukiya Amano num comunicado. Amano congratula-se também com o documento assinado pelos dirigentes norte-americano e norte-coreano sobre a desnuclearização da península coreana.

O país asiático abandonou no final de 2002 o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e, após o fracasso das negociações a seis (Estados Unidos, China, Japão, Rússia e as duas Coreias), os inspectores da AIEA foram expulsos em 2009. Desde então, a AIEA vigia apenas através de imagens de satélite e de outras fontes secundárias as actividades nucleares da Coreia do Norte, que desenvolveu um número não determinado de bombas atómicas e realizou seis ensaios.

 

China fala de “nova história” e lembra o seu contributo para a paz

A China considerou ontem que os Estados Unidos e a Coreia do Norte estão a “criar uma nova história”, depois da Cimeira de Singapura, e lembrou o seu contributo para a pacificação da península. “A China apoia, porque é aquilo que temos esperado”, afirmou o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang.

Geng lembrou o contributo da China para a resolução da questão norte-coreana, nomeadamente a proposta de “dupla suspensão”: o fim das manobras militares dos EUA e da Coreia do Sul na península coreana e, ao mesmo tempo, a paragem dos testes com armamento nuclear por parte da Coreia do Norte. “A proposta de suspensão por suspensão é a correcta e foi concretizada”, afirmou Geng, lembrando que Pequim “tem vindo a apelar aos dois lados para que mantenham o diálogo diplomático”. O porta-voz lembrou ainda a importância de os EUA “levarem seriamente e atenderem as preocupações com a segurança da Coreia do Norte”. “A outra parte deve também tomar medidas construtivas”, afirmou.

A China sugeriu ainda que o Conselho de Segurança da ONU suspenda as sanções contra a Coreia do Norte, face às actuais iniciativas diplomáticas de Pyongyang, após a cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un. “As sanções não são uma finalidade em si”, afirmou o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang, em conferência de imprensa. “Acreditamos que o Conselho de Segurança deve fazer esforços para apoiar as actuais iniciativas diplomáticas”, acrescentou.

No ano passado, o Conselho de Segurança aprovou de forma unânime a aplicação de sanções contra o regime de Kim Jong-un, face aos seus sucessivos testes atómicos, proibindo as exportações norte-coreanas de carvão, ferro, chumbo, têxteis e marisco. A China teve ainda de reduzir o fornecimento de petróleo e produtos petrolíferos refinados a Pyongyang. Pequim é o principal aliado diplomático e maior parceiro comercial da Coreia do Norte.

 

Ecos do Acordo

 

“Tivemos uma reunião histórica e decidimos deixar o passado para trás, estamos prestes a assinar um documento histórico. O mundo verá uma grande mudança. Gostaria de expressar minha gratidão ao Presidente Trump por fazer este encontro acontecer”.

Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte

“É um importante marco no avanço da paz sustentável e na completa e verificável desnuclearização da Península Coreana”.

António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas

 

“Congratulamo-nos com o facto de o Presidente Trump e Kim Jong-un terem realizado uma cimeira construtiva. Este é um passo importante para a estabilidade de uma região vital para o crescimento económico global e onde estão milhares de cidadãos britânicos e o Reino Unido tem interesses importantes”.

Boris Johnson, ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido

 

“Não vimos os documentos, creio que ainda não foram publicados. Mas o simples facto do encontro se ter realizado é positivo”.

Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia

 

“O principal objectivo, partilhado por toda a comunidade internacional e expresso pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, continua a ser a desnuclearização total, verificável e irreversível da Península Coreana. A declaração conjunta hoje [ontem] assinada pelos líderes dos EUA e da Coreia do Norte é um sinal claro de que este objectivo pode ser atingido”.

Federica Mogherini, Alta Representante para a Política Externa e de Defesa da União Europeia

 

“[O acordo de 12 de Junho] ficará na história mundial como um acontecimento que pôs termo à Guerra Fria”.

Moon Jae-in, Presidente da Coreia do Sul

 

“Duvido que tudo tenha sido alcançado em poucas horas, mas é um passo significativo”.

Nathalie Loiseau, ministra dos Assuntos Europeus de França

 

“Estamos face a um homem [Donald Trump] que revoga a sua assinatura”.

Mohammad Bagher Nobakht, porta-voz do Governo iraniano

 

“Esperamos que a Coreia do Norte se comporte como um país responsável na comunidade internacional”.

Porta-voz do Governo japonês

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