Acordo genérico deixa analistas cautelosos

Singapura, 12 de Junho. Um local e uma data para sempre associados ao primeiro encontro entre um presidente norte-americano e um líder norte-coreano. Kim e Trump comprometeram-se ontem com a “total desnuclearização da Península Coreana” e estabeleceram as bases para uma relação diplomática esfriada há quase sete décadas. Ainda que o dia tenha terminado num clima de optimismo, ditado pelo Presidente Trump, analistas ouvidos pelo PONTO FINAL mostram-se cautelosos quanto às futuras negociações.

 

Catarina Vila Nova

 

Escassos passos separavam Donald Trump e Kim Jong-un do centro do palco onde os dois líderes se encontraram para um aperto de mão “histórico”. Durou 12 segundos, durante os quais foi possível vislumbrar uma troca de palavras entre os governantes que depois se viraram para as câmaras com um semblante carregado. O palco foi Singapura, Estado que ontem assistiu à assinatura de um acordo, também ele classificado como “histórico”, entre os Estados Unidos da América e a Coreia do Norte. Nele, os líderes comprometeram-se com a “total desnuclearização da Península Coreana”. Para Carlos Frota, antigo embaixador de Portugal em Seul, o acordo carece de um mecanismo de salvaguarda das intenções ontem estabelecidas, enquanto que José Manuel Duarte de Jesus, antigo embaixador de Portugal em Pyongyang, defende que o sucesso futuro da cimeira será uma “obra da diplomacia”. Francisco Leandro, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, vê a Coreia do Norte como o grande vencedor da cimeira, que obrigou “a sentar a grande potência hegemónica mundial à mesma mesa”.

No entender de Carlos Frota, “são quatro promessas vagas e uma promessa de negociações a seguir” o que ontem se celebrou em Singapura. “Há uma reafirmação de princípios que já se conheciam, mas depois não há mecanismos nenhuns de salvaguarda”, afirmou o antigo embaixador. Porém, ressalva o antigo diplomata, a cimeira veio consolidar um “clima de distensão” e criar expectativas quanto a uma futura abertura da Coreia do Norte. “Toda a gente hoje considera que não é muito provável que se volte à conflitualidade verbal que poderia conduzir a outra coisa mais séria e criou uma expectativa de que a Coreia do Norte pode abrir-se realmente”, considerou.

Francisco Leandro entende que este é um “acordo genérico”, no qual foram definidas intenções e as “grandes balizas que é preciso trabalhar”. No entanto, para o especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, este é um aspecto positivo porque “ao ser mais genérico permite agora um trabalho diplomático para resolver as questões de fundo”. “Este acordo deixa-nos com mais esperança na resolução definitiva do problema”, apontou o professor da USJ. Agora, relembra o académico, o processo negocial vai continuar, centrado em questões práticas como o que se entende por desnuclearização, conceito este deixado ontem em aberto no acordo assinado. Até ao fecho desta edição, este ainda não tinha sido oficialmente divulgado nem pela Administração Trump nem pelo regime de Pyongyang, sendo que a transcrição que foi tornada pública foi obtida através de fotografias do acordo.

 

“A COREIA DO NORTE NÃO PODE SUBSISTIR SE NÃO FOR UMA POTÊNCIA NUCLEAR”

 

Para Duarte de Jesus, antigo embaixador extraordinário e plenipotenciário de Portugal em Pyongyang, que este mês lançou o livro “Coreia do Norte – A última dinastia Kim”, o processo de desnuclearização da Coreia do Norte não pode começar enquanto Kim sentir a ameaça nuclear na região. Isto porque, recorda o antigo diplomata, ainda que nem todos os países desta área sejam potências nucleares, estes albergam bases que podem ser utilizadas pelos EUA. “São países que são potencialmente nucleares porque têm toda a estrutura preparada para isso”, considerou. Neste sentido, o antigo diplomata entende que “a Coreia do Norte não pode subsistir se não for uma potência nuclear uma vez que está isolada”.

 

 

As sanções económicas, que eram, na óptica de Duarte de Jesus, “um dos aspectos mais importantes para o Kim Jong-un”, não surgem explicitamente mencionadas no acordo, contrariamente ao previsto pelos analistas. Ainda assim, o diplomata entende que esta promessa pode ser lida nas entrelinhas quando os dois líderes se comprometeram a cooperar na “promoção da paz, prosperidade e segurança da Península Coreana e do mundo”. “Para o Kim Jong-un, o que é fundamental é acabar o boicote ao país. Agora, a abertura de um regime daquele género pode trazer com ele o fim desse mesmo regime porque se mantém dentro daquele espírito mítico-religioso que o envolve”, apontou.

Até lá, o trabalho recairá sobre os negociadores norte-coreanos e americanos, com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, a ter anunciado ontem no Twitter que hoje seguiria para Seul e depois para Pequim para “continuar a montar a equipa para alcançar a desnuclearização da Península Coreana”. “Tudo isto agora vai ser uma obra da diplomacia. Nós sabemos que o Presidente dos Estados Unidos tem dado cabo sistematicamente da diplomacia americana e, para que isto funcione, vai ser uma obra fundamentalmente da diplomacia americana, que está muito por baixo nesta altura”, alertou Duarte de Jesus.

 

“OU SE QUER PÔR NO BANCO DOS RÉUS O REGIME NORTE-COREANO OU SE QUER CONVIDÁ-LO AO CONVÍVIO DA COMUNIDADE INTERNACIONAL”

 

Na conferência de imprensa que sucedeu à cimeira, Trump declarou que a questão dos direitos humanos foi “largamente discutida” durante as conversações, afirmando que as mais de cem mil pessoas nos ‘gulags’ norte-coreanos estariam entre os principais vencedores. Francisco Leandro classifica esta declaração como uma “mensagem à Trump” destinada a consumo interno. “As alterações de condições de vida da Coreia de Norte têm muito a ver com a evolução do regime e tudo isso é um processo que vai demorar muito tempo, se houver entendimento nas questões fundamentais que são, neste momento, a segurança de toda a península e a questão da desnuclearização”, apontou o académico.

Já Carlos Frota recorda que os direitos humanos não eram objecto da agenda do encontro de ontem “porque se fosse, a cimeira não tinha tido lugar”. “Ou se quer pôr no banco dos réus o regime norte-coreano ou se quer convidá-lo ao convívio da comunidade internacional. Aqui há que fazer escolhas e aqui a escolha que foi feita foi para a prioridade das prioridades porque senão havia conflito com consequências incalculáveis”, apontou o antigo embaixador.

Duarte de Jesus, por sua vez, questiona se Trump “será a pessoa mais indicada para invocar direitos humanos”. “Não me parece que os Estados Unidos com o Presidente Trump sejam o arauto dos direitos humanos. De resto, o Estados Unidos, frequentemente em política internacional, usam os direitos humanos consoante os seus interesses daquela ocasião”, declarou o antigo diplomata. Duarte de Jesus acrescenta ainda que, enquanto sobreviver a ditadura de Kim, “não parece que vá haver grandes modificações em termos de direitos humanos”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s