“O sono é o último reduto de contestação”

Patrícia Portela estreou-se no Festival de Artes de Macau com “Parasomnia”, instalação visual e sonora, com uma dimensão performativa, que incita o espectador a desacelerar, a render-se a um estado que oscila entre a vigilância e a dormência. Um modo de questionar o lugar do sono num quotidiano rendido à imposição insone da produtividade, concebido por uma artista e escritora habituada a contornar as fronteiras da evidência.    

 

Texto: Sílvia Gonçalves

Fotografia: Eduardo Martins

 

No tempo lentíssimo da metamorfose, pontuado pela “Elegia” de Stravinsky, transfigura-se o corpo dormente de mulher, na transição de Vénus para Ophelia. Atirado para a penumbra da sala, sacode o espectador a trepidação que percorre, ainda, o corpo acelerado. Trava-se o movimento e a respiração até um estado de torpor, que oscila entre a vigília e a sonolência. Esperar, desacelerar, estar. O desígnio de uma instalação visual e sonora que potencia no público a libertação de um quotidiano cronometrado. Com “Parasomnia”, Patrícia Portela converteu a Casa do Mandarim num lugar onírico, rendido ao sono, ao sonho, e à evidência de uma existência espartilhada e entregue ao desperdício. No percurso da cenógrafa, encenadora, actriz e escritora – vencedora, em 2005, do Prémio Acarte/Madalena Azeredo Perdigão, da Fundação Calouste Gulbenkian – é quase sempre o texto a desencadear a realização performativa, que se traduziria depois numa sucessão de títulos. Com o último livro, “Dias Úteis”, lançado em 2017, inaugura a autora um percurso votado quase em exclusivo à literatura. Com o novo livro, cuja escrita será finalizada até ao final do ano, Patrícia Portela recua a 1998, ano que diz ter encerrado uma promessa de futuro ainda por cumprir, enquanto escancarava a uma geração que se acercava da maturidade as possibilidades infinitas da tecnologia. Com uma vivência hoje repartida entre Lisboa e Antuérpia, foi também em Macau que a condição de estrangeira se instalou na criadora. Num tempo em que se cristalizaram as únicas memórias que sobram da infância, impôs-se a errância como caminho, perante um mundo que era, afinal, um lugar infinito.

 

Que exercício é este, “Parasomnia”, uma instalação visual e sonora que se desdobra numa sucessão de salas, que parece incitar o espectador a desacelerar, a transitar entre um estado de vigília e dormência?

O “Parasomnia” é uma instalação sobre o sono, sobre o sonho, sobre a morte, sobre um estado entre estados. Um dos últimos espectáculos que eu fiz era “O Banquete”, que era sobre uma ceia, e onde se dá importância ou se amplifica o acto de comer. Nós hoje em dia comemos a correr e vamos embora, é uma coisa funcional, quase. E o “Parasomnia” vem na sequência deste banquete, de repente comer era algo muito delicado, e passávamos a tomar consciência de todos os actos que envolvem comer, o pegar num instrumento, o cheirar a comida, o servir a comida. Ao fazer esse projecto acabei por pensar: ‘então a seguir eu dormia’. E o projecto inicial era fazer um espectáculo que durasse o tempo de uma noite. Sendo que o sono, é uma espécie de ficção, achar que dormimos oito horas por dia e é uma coisa muito saudável, é uma coisa mais ou menos recente. Nós podemos dormir porque alguém está alerta para que nada aconteça na nossa ausência. E fascinou-me esse lado de te entregares a alguém, porque, para dormir, precisas de confiar em quem está à tua volta. Por outro lado, este lado cuidador, que envolve quem cuida de quem dorme. No fundo, o sono é uma desculpa para esse tal acelerar, que é esta ideia de que hoje consumimos tudo com muita pressa. Não repetimos um filme, não repetimos um livro, porque há tanta coisa para fazer e tanta coisa diferente. Temos a obsessão do novo, do original, do diferente. O que eu acho que quis fazer com esta instalação é ver o tempo, no fundo a primeira sala é sobre isso, é ter a experiência de ver o tempo passar. Não é só sentir, mas ver para poder sentir o tempo, mesmo quando se dorme. É o aproveitar os momentos de dormência, os momentos de vigilância, os momentos em que se pára e se é obrigado a pensar porque se está ocupado a olhar para o telemóvel.

Ter uma consciência absoluta do tempo, da sua passagem?

É uma experiência, mesmo, do tempo.

É o tempo que conduz a esta reflexão sobre o sono, sobre o lugar que este ocupa num quotidiano cronometrado, sujeito ao escrutínio da produtividade?

Exactamente. Há muitos estudos que tentam tornar-nos eficazes, para nos mantermos acordados. O português é o campeão do café. Nós temos esta coisa de estar acordados, e ao mesmo tempo toda a nossa vida social é muito feita à volta de, nós, para nos divertirmos, temos que ficar até às quatro da manhã a beber copos e a fazer coisas muito divertidas, muito animadas e com muita luz. E se calhar partilhar uma noite em que nos contam uma história, ou que pura e simplesmente nos deixam dormir e nos deixam ficar a descansar, acaba por ser uma coisa impossível, uma coisa que não se faz ou que é demasiado íntima para se partilhar, ou pura e simplesmente uma pessoa não quer perder tempo com isso. Existe muito a cultura do ficar acordado.

 

 

De contrariar a dormência.

De contrariar a dormência, e até há um certo preconceito contra as pessoas que dormem muito, com aquela ideia que uma pessoa só pode ser preguiçosa. Mas se calhar, se trabalhares 16 horas de seguida com insónias, produzes muito menos que uma pessoa que acorda, faz três horas óptimas e depois vai passear, vai ver a vida. Eu acho que a nossa cultura do trabalho é uma cultura do desperdício. Aliás, a nossa vida é uma cultura do desperdício, de compra, deita fora, é tudo descartável. E o corpo não é descartável, por mais que nós tentemos pôr um emplastro para resolver o problema, pelo menos em relação ao sono ainda não se arranjou uma outra forma de resolver o problema do sono. Aquilo que o sono restaura, não se consegue restaurar de outra maneira qualquer.

É num plano horizontal que se materializa muito da nossa existência, o nascimento, o sono, o prazer, a morte. É esse regresso a um plano primordial e definidor que lhe interessa?

Sim. Nós temos muito esta discussão muito obsessiva sobre as culturas, mas tudo isto são ficções nossas, mal ou bem, são o resultado de uma série de ficções sobrepostas ou não, com mais direitos ou menos direitos. Mas estes funcionamentos básicos são inerentes a todos nós, de uma maneira mais acelerada, menos acelerada, de manhã, de tarde, a ‘siesta’, a vigília, o acordar cedo, o acordar tarde, o que for, toda a gente reconhece, toda a gente dorme. Toda a gente come, também. Eu queria, e acho que o “Parasomnia” faz isso, “O Banquete” já fazia, não olhar isto como uma função básica, não olhar isto como uma função científica, eu também gosto muito desta relação entre arte e ciência, mas não é o lado científico que me fascina.

Não é uma coisa meramente orgânica…

Não é uma coisa meramente orgânica, mas é o lado, por um lado, ritualístico disso, por outro, o lado que nos torna gigantes, este lado muito simples do quotidiano é que nos torna gigantes, porque é a forma como nós partilhamos o sono, como nós partilhamos a comida, o banho, que é uma sala nova, só fizemos aqui na Casa do Mandarim. É muito bonito essa relação com o corpo e com o resto do mundo, porque isto mexe, nós precisamos sempre de um terramoto para perceber que isto é vivo, o chão que nós pisamos é vivo. É voltar a essa coisa muito primordial, de alguma forma, mas que, ao mesmo tempo, encerra tudo aquilo que nós somos. Se estas funções não existissem, tudo o resto não funcionava desta maneira. Se não comêssemos, se não dormíssemos, também não éramos isto, não produzíamos estas coisas, é voltar a esse ritmo, que eu acho muito bonito. E aqui vê-se de uma forma quase extrema, que é, as pessoas entram totalmente aceleradas, e vê-se ao longo da peça, a desacelerar, desacelerar, a estar, as pessoas estão aqui. Acho quase chocante, para nós próprios, ser tão difícil estar. Na primeira sala, da Espera, vê-se a reacção das pessoas: mas isto mexe, mas isto não mexe, mas isto continua, mas isto é para ficar aqui a ver? Já estamos tão formatados para consumir, que aquilo tem que chegar a algum lado. E quando se percebe que, pronto, vamos entrar e vamos sair, isto não tem princípio nem fim.

 

 

O primeiro embate com esta instalação dá-se nessa Sala de Espera, onde o espectador é confrontado com um mural de vídeo, com um tempo lento, em que se observa a transfiguração de um corpo de mulher, numa sequência de figuras icónicas da história da arte, Vénus, Ariadne, a Ophelia dos Pré-Rafaelitas, figuras grotescas de Goya, pontuada por um trabalho sonoro que parte da “Elegia” de Stravinsky. O que ditou esta escolha, que tem no seu centro, a transição entre vida e morte?

Isto é tudo muito instintivo. É a primeira vez que fazemos com tantos performers, até Dezembro do ano passado, quando fizemos em Bruxelas, era uma instalação clássica, num museu, as pessoas entravam, servia-se um chá e era só isso. Isto tem vindo a aumentar, e desta vez temos estas figuras quase gregas, etéreas, fantasmagóricas, aquelas deusas que acompanham os rituais. Podia ser muita coisa, acho que é sempre tudo muito híbrido, há sempre uma leitura possível, podiam ser pinturas. É uma peça muito pouco racional, na maneira como se faz. Eu queria muito fazer uma coisa sobre o sono, e inicialmente até era uma coisa muito racional, que é esta ideia que no sono não nos vendem nada, ainda. Se calhar o sono é o último reduto de contestação. No sono ninguém nos vende nada, somos nós. No fundo, no momento em que nós não temos consciência, somos mais nós do que quando temos consciência. Quando temos consciência temos que nos medir. O dormir fica assim de repente um lado de resistência, de, aqui, só eu. E comecei a coleccionar quadros que não eram poses de modelos, e que eram só, do nascimento à morte, posições deitadas. Porque eu não queria mesmo o sono quando se está a dormir, queria esta coisa intermédia, que é, se eu adormecer perco o que estou a ver, mas se eu não adormecer também perco. É esta vigilância, esta dormência, este lado intermitente, em que nós não estamos a pensar, estamos meio acordados, meio a dormir, que me interessava, que é este lado em que ‘o que é que eu faço quando sou só este corpo?’. E então comecei a escolher só imagens de quadros, e isso interessava-me. Por um lado eu queria estudar esta ideia de percepção, ou seja, qual é o tempo em que um objecto se pode mexer, em que eu não veja mas saiba que ele se está a mexer, ao ponto de começar a ver que ele se mexe. Depois, associado a isso, é, até que ponto é que eu posso transformar um quadro noutro quadro, de forma a que o quadro nunca apareça na sua totalidade, mas que eu reconheça o quadro. No fundo, aquilo é cultural, é uma espécie de história da arte, que eu possa reconhecer o suficiente para dizer: ‘ah, está ali a Ophelia’, mas nunca está, porque, de repente, já é outra coisa qualquer.

A instalação foi crescendo, desde a sua estreia, em 2015, no Museu de Arte Contemporânea do Chiado. A Sala do Banho e a Sala de Embalar foram concebidas para Macau, para a sua inserção num espaço como a Casa do Mandarim?

É tudo uma mistura. Eu gosto muito deste projecto, porque não tem subsídios, não tem apoios, foi tudo um acidente. Primeiro recebi este prémio, que é o prémio SONAE, era uma das finalistas do Prémio SONAE Media Arte, que é um projecto que agora acontece no Museu do Chiado, todos os anos escolhem cinco artistas de media, para apresentar numa exposição colectiva, depois há um vencedor. Mas até lá o que eles dão é dinheiro para fazer uma obra. E foi assim que nasceu. Pus uma versão pequenina, fiz a Sala de Espera e a Sala do Sono. Convidaram-nos para vir para aqui, eu pensei, com este espaço, eu queria há muito tempo fazer também uma Sala de Banho. Fizemos uma banheira que não está cá, porque era absurdo trazê-la, mas fizemos uma banheira de um tronco único, de madeira, uma banheira de uma peça única, e portanto é um objecto que vai crescendo com as propostas, não tenho nenhum apoio para o fazer. O espaço pede-te algumas coisas e isso obriga-te a pensar na instalação e a instalação cresce. Para o ano vamos voltar para Lisboa, para um palácio, em princípio.

No programa lê-se que a obra se baseia no ensaio “Sobre o Sono, o Despertar e a Ausência de Sonhos”, de Acácio Nobre. Que figura é esta, presente no seu percurso artístico desde 2010, com a performance-concerto “A Colecção Privada de Acácio Nobre”, de que resultou um livro homónimo em 2016?

O Acácio Nobre também acho que é outro projecto que me vai acompanhar para o resto da vida. Também foi um projecto que não era suposto ser nem um projecto de teatro, nem um projecto literário nem coisa nenhuma. E eu cada vez mais acho que esses são os projectos que depois acabam por ter mais força, porque vêm de uma urgência exterior à urgência artística, estética ou política, vêm de outro sítio qualquer que junta essas coisas todas. E o Acácio Nobre era um hipotético construtor de puzzles geométricos, que acreditava que o mundo seria melhor se todo o mundo aprendesse a desenhar, porque se conseguíssemos olhar para o mundo com as mãos, perceberíamos todas as formas do universo. Porque desenhar é tomar atenção ao mundo. Sairmos de nós para vermos lá para fora, e mesmo quando é mais abstracto, que era o caso do trabalho do Acácio Nobre, é percebermos as ligações geométricas, formais e outras, do mundo. Este Acácio Nobre era um crente e, no fundo, é uma homenagem. Este projecto, que já teve a tal peça, já teve um audio-guia, uma instalação, e agora o livro, que é uma espécie de espólio, está entre a biografia e o catálogo, é uma reflexão sobre a obra de um homem que não se conhece, porque são tudo projectos que não foram concretizados, porque não lhe foi permitido concretizar os trabalhos. É uma espécie de reflexão sobre todos os pensadores, artistas, cientistas, jardineiros, que têm projectos que não são concretizados, porque são ou silenciados ou porque estão fora do seu tempo. Ou porque não são ouvidos, ou porque não têm condições para o fazer, e é uma reflexão sobre o que o mundo seria se desse ouvidos a essas pessoas.

O Acácio Nobre é uma figura ficcionada, que encerra essa possibilidade de concretização?

Não, é uma figura que existe, e é exactamente sobre isso.

Mas existe porque a Patrícia quer que exista?   

Eu tenho um espólio, tenho um baú e tenho projectos, se eles tivessem sido concretizados existiam na sociedade, e a sociedade transparecia o resultado desses projectos. Não tendo sido concretizados, existem na medida em que é passada a palavra. Ou seja, se eu não falar dele, ele não existe, obviamente. Eu ou quem quer que seja, e isso é válido para tudo.

 

 

Quase todos os seus livros foram desencadeados por performances e instalações. Mas o texto precede a instalação, é ele o elemento primordial que desencadeia a realização performativa?

Sim, sim. Essa é uma pergunta muito difícil, porque eu acho que começo sempre por desenhar e escrever, só que, até há muito pouco tempo, eram ambos instrumentos, não eram independentes. O que mudou é que durante muito tempo, sobretudo desde 1998, quando foi a primeira peça, curiosamente foi toda escrita e depois não tinha nenhuma palavra, ou seja, a escrita foi o motor do projecto, mas depois não ficou no fim, quase nada. Nós tínhamos um catálogo, que era a “Operação Cardume Rosa”, que estreámos no Mercado da Ribeira [em Lisboa], com o grupo O Resto, éramos os únicos que não tínhamos trabalho na Expo 98, éramos O Resto. Os outros projectos nasceram muito nos ensaios e escrevendo, era tudo ao mesmo tempo. Acho que, com o tempo, entrou em conflito, a literatura e a performance foram entrando em conflito, de alguma forma. Não foi necessariamente negativa, mas foram criando outro espaço, e “O Banquete” já foi todo escrito primeiro, o cenário todo feito primeiro, e ensaiado depois. Este nem sei muito bem de onde é que vem, vem comigo, anda comigo, debaixo do braço, e vai-se transformando. O que eu acho é que sempre escrevi, nunca olhei para a escrita como um projecto, nunca quis ser escritora. Tenho ainda imensa dificuldade em chamar-me de escritora, acho que sou reescritora, no sentido em que eu olho, é uma maneira de pensar, é uma maneira de investigar, não é uma maneira de criar nada. Não é uma coisa de falsa modéstia, não era esse o percurso mas, de repente, foi a literatura que tomou conta de mim, não tive hipótese. Agora, os “Dias Úteis”, que foi o último livro, já não tem nada a ver com projecto nenhum, com espectáculo nenhum.

O “Dias Úteis” é talvez a excepção neste trajecto, não é precedido pelo palco. Que momento traduz ele no seu percurso?

Acho que é um momento radical, agora tenho uma bolsa literária que se deve muito aos “Dias Úteis”. Agora a excepção é isto, o “Parasomnia” é a minha excepção, porque era Macau, não havia como não vir. Mas agora estou fechada entre quatro paredes, pela primeira vez na vida não estou a fazer 400 trabalhos, como normalmente nós todos fazemos nesta área, para poder depois fazer aquilo que gostamos e investir o dinheiro todo que gastamos no outro, e estou só a escrever, que é assim um luxo, absolutamente.

O “Dias Úteis” são sete contos, um para cada dia da semana. A escolha do conto foi consciente?

Lá está, nesse aspecto foi um projecto muito performativo. Eu queria falar muito sobre o macro e o micro, como é que uma pessoa vai para a padaria à procura do universo. Que eu acho que nós não somos grandes nas grandes acções. Nós temos cada vez mais este fascínio: a pessoa que assinou o tratado que dividiu o mundo ao meio, ou a pessoa que fez o tratado de paz, mas isso é feito depois do quotidiano das pessoas. Todos nós cometemos grandes actos e também grandes crimes no nosso dia-a-dia. Sempre me fascinou muito como é que nós pomos no mesmo corpo ter que dar de comer à criança, não ter dormido, votar no Trump, ir para a rua reclamar contra o clima. São tudo temas muito grandes, não são muito grandes, são da nossa vida, tem a ver com coisas muito quotidianas. Surgiu desta coisa do macro e do micro, tanto que o que foi mais difícil foi estruturar. Fui escrevendo coisas, porque queria falar da relação com o trabalho, da relação com a vida, da relação com o outro, da relação com a despedida, são sempre temas diferentes. Eu até nem sei se são contos, se lhes chamava contos, são contos na sua estrutura mas comunicam entre si, e poderiam ser a mesma pessoa ou não. Há pessoas que lêem aquilo como sendo a mesma personagem, há outros que acham que são várias, eu não sei. Mas acho que tem a ver com essa relação do que são dias úteis, e qual é o nosso papel, onde é que nós estamos. É uma reflexão, é uma pergunta, não é um manifesto, não é um plano de trabalhos, e isso eu só encontro na escrita, de facto. Se eu for sincera, gosto muito de escrever e de montar estas coisas. Acho que este projecto é muito específico, o da “Parasomnia”, mas acho que a minha voz, neste momento, encontrei-a na literatura. Não sei se era o que eu queria, há uma coisa que nem sei de onde é que vem, e que nem é necessariamente minha, mas que eu consigo canalizar para algum sítio, e tenho que a fazer.

Tem uma bolsa literária, está a trabalhar num novo livro, esse livro leva-a onde?

A 1998. O ano, quer dizer, ali, à volta. É o ano da Expo 98, é o ano do Nobel do Saramago, é Olivais [bairro de Lisboa], é à volta dos Olivais, que é de onde eu venho. Sendo que tem todo aquele mundo fantástico que eu vou trazendo. Eu sou da geração que viveu fascinada com o mundo digital e com a tecnologia da informação e com o futuro da internet. Eu tinha quase trinta anos quando tive um primeiro computador meu, que é uma coisa que hoje é impossível, a minha filha mexe no meu telefone com mais facilidade do que eu, que tenho um ‘smartphone’ há poucos meses. E isto muda radicalmente a nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo, mas eu achava que ia mudar mais radicalmente, e eu acho que não mudou assim tanto. É esta relação entre a promessa, no fundo, e se uma pessoa pensar em Lisboa, em 1998 e em 2018, havia uma promessa enorme que eu não sei se foi cumprida. Também não sei se a queríamos. Existem os primeiros emails e levam tempo, as pessoas vão lá escrever, e a pessoa responde dali a dois dias, e agora as pessoas zangam-se se não responderes num minuto. Há uma paranóia da informação, e curiosamente as pessoas nunca escreveram tanto. Porque estão sempre a escrever, a mandar mensagens, mas não sei se estão a ler. Acho que estamos todos a falar muito, estamos a ouvir pouco. É muito sobre o que era esta promessa.

 

 

 

E interessa-lhe a estrutura do romance ou isso ainda não está definido?

Está, e não é um romance, mas se calhar mais não dizia, porque é uma coisa muito física do livro. E que faz sentido, eu acho que faz sentido nos tempos de hoje porque, por outro lado, acho impossível ignorar a lógica da internet e da rede, nos tempos de hoje. O que quer dizer que não tem que se transportar isso para um livro, nem se tem que falar sobre isso no livro. Não é sobre isso, não é isso, nem é uma espécie de paródia, mas como é que nós, mais uma vez, respiramos o ar deste tempo, esta forma de pensar, que é mais rápida, de uma forma, mas é menos ramificada por outra, ou seja, ramifica-se numa direcção, mas desramifica-se noutra. No fundo é mais o que é que mudou na linguagem. Eu descobri imensos diários meus, eu sou muito mais rápida agora, e não é porque seja mais velha, nós tínhamos tempo, tínhamos outro tipo de tempo, quando não tínhamos internet. Isso não é bom nem é mau, mas é claramente diferente, claramente diferente de marcar um encontro, de olhar para o mundo, olhar para como é que se organiza o dia. E é pensar nisso, usar esta desculpa de um ano cheio de promessas, e que Lisboa ia ser moderna e óptima e ganhar o mundo, nós íamos ser muito ricos e muito belos e conquistar o mundo. Nós sabemos o que é o mundo, antes e depois das tecnologias, portanto podemos escolher. E eu acho que as gerações que vieram depois de nós, podem escolher, mas podem escolher de uma outra maneira. Já existia, não podem escolher viver num mundo onde isto não existia. E nós podemos, que é uma espécie de contradição, mas não é. Ou seja, nós podemos existir num mundo paralelo, não sei se é útil, não sei se vale a pena, e nem sequer sou a favor, não estou a fazer a apologia do vamos todos ali para a montanha, seria o mesmo que no tempo da electricidade a pessoa continuar a querer fazer uma lareira em casa. Não é não aceitar a tecnologia, mas é perceber o que é perceber o mundo antes e depois destas possibilidades. Isso eu acho muito bonito e acho que é o nosso dever pensar, porque nós atribuímos uma moral à tecnologia que ela não tem, mas para todos os efeitos ela conduz a moral de muita gente.

E há um tempo para o concretizar?

Tenho até ao final do ano. É uma bolsa da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, é uma bolsa que eu acho da máxima importância, que é para um ano. É um luxo que é absurdo, eu estou grata, todos os dias me lembro, ainda por cima caiu-me no colo no momento certo. Foram atribuídas 12 bolsas, concorreram quase 500 escritores. Portanto, outra grande responsabilidade, que uma pessoa pensa: ‘não dá para dormir’. De repente, deram-me dinheiro para fazer aquilo que eu queria, e eu concorri com um projecto que eu queria mesmo fazer e queria fazer agora. Eu sinto é mais uma espécie de ansiedade, se eu não estou à altura da possibilidade. A falhar, só posso ser eu, mas estou muito contente e estou a trabalhar imenso.

Qual é a sua ligação a Macau? Que esteve, de resto, no centro do espectáculo e livro “Wasteband”?

Eu vivi cá só dois anos, dos 8 aos 10. Durante muito tempo achei que não me tinha marcado coisíssima nenhuma, era uma coisa normal na minha vida. Mas curiosamente acho que me definiu como pessoa que nunca mais pôs o pé muito tempo num sítio só. Vivi em muitos sítios, neste momento acho que já vivi mais fora do que em Portugal, é uma constatação assustadora. Gosto muito de Lisboa. Curiosamente percebi, ainda há pouco tempo, que nunca considerei viver noutro sítio em Portugal. Ou vivia ali ou na Bélgica, Utrecht, Paris, Macau, e eu acho que tem a ver com Macau. A ideia de que o mundo é grande acho que vem daí. Quando regressei cá em 99, regressei com uma peça, essa mesma peça de 1998, que começava no Largo do Lilau, era a “Operação Cardume Rosa”. Quando vim cá em 99, que é um ano de transição, Macau já estava muito diferente. E é muito engraçado que eu percebi que a imagem que eu tenho da minha infância reporta aqui, ou seja, eu não tenho muitas imagens, memórias, anteriores aos oito anos, e não tenho muitas depois, depois já só tenho da adolescência. As minhas memórias de infância são todas daqui. De repente é um confronto, chegar aqui, reconheço o cheiro, reconheço a comida, isto é a minha infância.

Mais tarde, regressa a esse imaginário de Macau através da peça “Wasteband”.

É de 2003 e eu queria à força trazê-la a Macau. É o primeiro projecto que, no fundo, define aquele trabalho que faço hoje, em termos de performance, é o “Wasteband”, que eu chamo a minha peça-manifesto. Que é uma das poucas em que eu entro, como performer, actriz, e conto uma história que se passa em Macau em 1969, na Avenida da Praia Grande, que foi onde eu morei.  

Foi o recuperar de um lugar do passado?

Sim, aliás a história é muito bonita, fui recuperar um ritual da lua, em que supostamente as pessoas reuniam-se todas num determinado dia, na praia, em Lua Cheia, à espera que a lua caísse, havia redes na praia, as pessoas esperavam, e, se a lua caísse, porque a lua pertence ao mar, as pessoas contavam histórias, bebiam chá, jogavam mahjong, e depois se a lua não tivesse caído nesse dia, juntávamos os trapinhos e para o ano voltávamos a repetir o ritual no mesmo dia. E durante anos e anos eu achava que tinha visto este ritual, e pesquisei imenso, e acabei por saber imenso sobre os rituais, e sobre o Festival da Lua e sobre a Festa do Dragão. E depois resolvi fazer o que era mais fácil, que era perguntar aos meus pais se se lembravam desse ritual, e eles disseram que não. E portanto é uma imagem que eu tenho da infância, que era em Lantau, que hoje é um aeroporto. Eu regresso à minha infância, regresso a Macau, com algo que não aconteceu. É um mistério para mim, mas depois percebi que é esta a história que eu tenho que contar.

 

 

Transitou sempre entre vários lugares, estudou na Holanda e na Dinamarca, vive entre Portugal e a Bélgica, fixou-se em Antuérpia. O que é que resulta, na dimensão artística, dessa transitoriedade, dessa condição de estrangeira?

Isso também é outra questão que eu acho que só me apercebi há muito pouco tempo. Eu acho que estou sempre a ver, como diz o Sérgio Godinho, o mundo com a cabeça ao contrário. Até porque não dá para ser muito convencido nem ter muitas certezas quando se vive em vários mundos. Muitas vezes acontece-me estar num sítio, no lançamento de um livro, e sou a maior, porque nós nos lançamentos dos livros somos os maiores, acabamos de parir uma obra prima, mesmo que assim não seja (risos). E sou elogiada pela forma como escrevo, e a seguir apanho um avião para Antuérpia, vou à farmácia comprar não sei o quê e fico dez minutos toda aflita porque troco a estrutura gramatical, e sou a imigrante não integrada. E isto pode acontecer no mesmo dia. Isso permite-me perceber que isto é tudo muito frágil. O que é isto de estar nos vários lugares, e o que é que transita que é comum, e o que é que inevitavelmente perdes, que há um lado meu que não existe na Bélgica, mas curiosamente em Portugal também há um lado meu que não existe. E isto pode ser uma enorme frustração, pode ser uma vantagem, e pode ser, mais uma vez, o hífen, que é, se calhar tens que habitar ali um espaço que te permite viver, não os dois ao mesmo tempo, mas viver entre os dois e aceitar a condição, as limitações. Eu acho que a beleza dos seres humanos são os seus limites, não são as suas capacidades extraordinárias. Portanto, acho que sim, acho que essa transitoriedade deu-me essa lição de saber que nós chegamos onde podemos chegar e a mais não somos obrigados. Eu acho que sim, que não somos obrigados a mais, mas temos que ter a noção que o céu não é o limite, há limites muito mais terrenos e temos que fazer o nosso melhor.

Como é que analisa a criação artística em Portugal, na qual também se insere, e o papel do Estado no apoio às artes? Houve recentemente a manifestação “Apelo pela Cultura”, em várias cidades portuguesas, a exigir 1% do Orçamento do Estado para a Cultura, já em 2019.

O Estado tem obrigação de apoiar incondicionalmente, em todas as direcções, e em muita variedade. Eu sou o resultado claríssimo de uma política muito diferente da que se exerce hoje, por muito que se esteja a tentar mudar alguma coisa. Eu era uma miúda, tinha 20 anos, e recebi meia-dúzia de patacas, e pude fazer um projecto que era a “Operação Cardume Rosa”, eu e toda a minha geração. Sim, pode-se criticar que havia muito pouco para muita gente, as condições não eram as melhores, havia grande disparidade, com certeza. Sou muito crítica em relação ao ‘naquela altura havia dinheiro e agora não há’, não é verdade. Não é verdade e acho que temos que parar de discutir isso. O que eu acho que é um problema do Estado é esta coisa de querer controlar a criação artística, isso é a morte do artista. Hoje existe muita esta coisa, muito a nível de apoios europeus e apoios nacionais, existe a agenda. Não tem que haver o ano do Einstein e de repente há 400 projectos sobre isso. Acho que os projectos devem ser muito mais estáveis. A arte não deixa de existir se houver mais ou menos dinheiro, não é essa a questão, agora o acesso a ela, diminui consideravelmente se não houver apoio. Tem que haver muito mais dinheiro, muito mais condições, e até muito mais espaço para haver 400 peças peças horrorosas, para poder haver uma óptima. Não se deve premiar só os que alguém considera bons, mas sim premiar que exista muito, para que haja a oportunidade de florescer essa reflexão.

Não parece encaixar em categorias finitas e estanques, dilui as fronteiras da literatura, que aproxima continuamente do palco, da instalação. Onde prefere posicionar-se, é sobretudo na dimensão da escrita?

Durante muito tempo eu sentia-me muito infeliz por não pertencer a lado nenhum. Quando estava num sítio, diziam-me: ‘ah, mas tu escreves tão bem, devias fazer livros’. Quando fazia livros: ‘ah, mas as peças são mais interessantes’, e havia uma grande frustração nisso. Exactamente por causa destes formatos, também da própria sociedade, que te impõe que tu tens que ser uma coisa. O que é que tu fazes? Quem é que tu és? Eu própria também me censurava nessa vontade. Curiosamente são os apoios, são instituições como a Gulbenkian, que para mim foi fundamental, que apoiaram este disparate, porque estes projectos não se escrevem por formulário, mas há um lado de crença, de ‘olha, é uma pessoa cheia de vontade, deixa lá ver o que ela faz’. E eu acho que sou muito o resultado dessa sorte, de alguma forma, desse apoio, da ZDB [Zé dos Bois, em Lisboa] também. Eu sempre tive uma casa, sempre tive um tecto, com mais ou menos condições, para fazer as coisas. E só muito recentemente, curiosamente quando escolho a literatura como poiso, assumo com alguma… tranquilidade é excessivo, mas até com algum carinho, pronto, mais uma vez, sou este hífen. Não sou isto, não sou aquilo, mas habito este hífen, e melhor, não sou a única, porque eu acho que a coisa da variedade e da pluralidade e do apoio da diversidade, até da coisa mais disparatada, é nós podermos encontrar alguma coisa, não aquilo que eu já estava à espera, mas algo que me desconcerte mas que, ao mesmo tempo, me diga coisas que eu já tinha pensado.

A literatura é agora um lugar de conforto?

Neste momento é, o que não quer dizer que não seja daí que se vá parar a outros sítios, outra vez. Ou seja, se me perguntassem há um ano atrás, eu ainda estava nestas instalações. E agora desemboquei na literatura porque tenho um grande ‘sim’, tenho um grande editor também. Tenho essa possibilidade de fazer as coisas ao meu tempo, ao meu ritmo, e portanto é aproveitar. Sim, agora habito o hífen com alguma vontade, mas durante muito tempo foi mesmo uma frustração: porque é que não sou só uma coisa? Mas depois nunca ficava feliz só num sítio, por isso é natural que em breve também surja uma outra obra. Tenho imensa vontade de fazer um filme, porque acho que a imagem em movimento, plana, é algo muito fascinante. Projectada em grande e projectada não num ecrã luminoso, acho que não tem a mesma beleza de uma projecção numa sala escura. Se acontecesse eu adorava. Em vida ainda gostava muito de fazer um concerto, não quero cantar nem tocar, não tenho qualquer talento. Não sei o que isto ainda quer dizer, mas um concerto e um filme, se calhar ainda acontece. Mas agora já tenho alguma tranquilidade em seguir o caminho que me vai aparecendo e ter esse respeito pelas ideias, mas durante muito tempo era mesmo um drama, exactamente por esse excesso de compartimentação em que nós vivemos, achava que tinha que ser só uma coisa e devia ficar ali. E é um disparate, tenho 40 anos, se tudo correr bem, ainda tenho metade da vida pela frente. Portanto, não preciso de ser uma coisa só, porque ninguém é uma coisa só.

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