Quando a migração não é uma escolha, mas antes uma fatalidade

A distância, a solidão, a ausência, sentidas por quem vive separado da família a milhares de quilómetros de distância são os temas centrais de “Migrações”, o projecto desenvolvido com trabalhadoras indonésias pelo Teatro Experimental de Macau, grupo local que integrou pela primeira vez o Festival de Artes de Macau. “Estes trabalhadores migrantes estão a fazer exactamente os que os nossos pais fizeram, por que nos achamos diferentes?”, questiona Nicole Wong, a encenadora e autora do texto.

Peça de teatro “Migrações”

 

Texto: Cláudia Aranda

Fotografia: Eduardo Martins

 

Para Anny, Ayu, Gina, Ratna, Zahrah, Mira, Galih e muitas outras mulheres e homens indonésios, a migração não é uma escolha, é uma fatalidade. É o destino que calha a quem é entregue a responsabilidade de sustentar as famílias deixadas em casa ansiando pelo regresso dos migrantes. Estas mulheres e homens emigram quando a vida, as crises económicas e financeiras, as catástrofes naturais, lhes tiram o chão e o tecto, e o sustento lhes escorre por entre os dedos como se fosse areia. Ninguém escolhe sofrer, ninguém quer migrar, acontece porque não há alternativa. Este é o sentimento e estado de espírito predominantes no grupo de mais de uma dezena de mulheres imigrantes, que subiram no fim-de-semana ao palco da ‘black box’ do Edifício do Antigo Tribunal para contarem as suas histórias.

A distância, a solidão, a ausência, sentidas por quem vive afastado da família a milhares de quilómetros de distância, são os temas centrais de “Migrações”, a terceira peça do projecto de teatro comunitário da companhia Teatro Experimental de Macau, sendo esta a primeira vez que o grupo integra a programação do Festival de Artes de Macau (FAM).

As protagonistas indonésias da peça “Migrações”, representaram ontem esta ideia de perda e separação entrelaçando os corpos, amparados entre si, cabeças nas barrigas da parceira, nádegas apoiadas em bancos, que ao lhes serem bruscamente retirados, como se de uma crise económica ou uma violenta tempestade se tratasse, as deixavam tombar no chão, desamparadas. Nesta situação de desespero, resta a migração como opção para pagarem dívidas e se reerguerem economicamente.

 

VIDAS REAIS LEVADAS A PALCO

 

As histórias de “Migrações” contadas em palco não são ficção. São excertos da vida real destas mulheres e um rapaz, filho de uma delas.

Enquanto filha mais velha de uma família de pescadores de Lombok, calhou a Anny a fatalidade de emigrar para sustentar a família. Deixou para trás pais e filhos. Hoje, com 43 anos, dos quais 14 vividos no território, tem pela primeira vez junto de si a mãe, de 75 anos, e a filha, de 21, que voaram da Indonésia para Macau, pela primeira vez, para integrarem a peça, a convite da companhia de teatro. “A minha mãe já não tem que se preocupar, já viu que tenho lugar onde viver, tenho muitos amigos”, diz Anny ao PONTO FINAL.

 

Peça de teatro “Migrações”

 

Avó, mãe e filha partilharam o palco nas actuações realizadas sábado e domingo para mostrarem as consequências da migração, dos filhos deixados a crescer sozinhos sem mãe. A avó e a mãe que envelhecem sem os filhos por perto. Anny confessa-se cansada, mas diz que não pode parar agora. Ao PONTO FINAL revela que ainda precisa de mais dois ou três anos em Macau. “Tenho que me aguentar até que a minha filha termine os estudos e arranje um bom trabalho”, conta Anny que trabalha num ‘Ciber Café’ em Macau.

 

QUANDO TE REVEJO NÃO ME ATREVO A SENTIR FELIZ

 

Em palco, a filha de Anny, Ella lamenta a ausência da mãe: “A minha mãe nunca foi minha”, diz.  Na conversa com o PONTO FINAL, Ella esconde o olhar triste por detrás do jibab, numa pungente sobreposição entre a realidade e a ficção. Faltam dois dias para Ella e a avó regressarem à Indonésia, deixando Anny para trás, sem certezas quanto à data de um novo reencontro. “Quando te revejo não me atrevo a sentir feliz, quando me deixas, tento controlar-me para não me zangar”, diz a filha, Ella, na peça.

Galih, filho de Gina, veio para Macau no encalço da mãe, empregada doméstica. Tal como o jovem de 24 anos conta na peça, conseguiu um trabalho como empregado de mesa na discoteca DD3. “Vim para visitar a minha mãe e percebi que podia ganhar um salário melhor aqui do que na Indonésia. Não preciso ficar muito tempo, quero juntar algum dinheiro para montar um negócio na Indonésia, é sempre melhor estar em casa, com a família, só preciso de algum dinheiro para voltar para casa”, diz o jovem, em Macau desde 2016. Gina, que veio em 2007, está feliz por ter o primogénito consigo, mas ainda vai precisar de mais uns anos de trabalho fora da Indonésia para sustentar o segundo filho.

 

Peça de teatro “Migrações”

 

“No nosso país é difícil arranjar um trabalho melhor porque não temos estudos, eu não tive escolha, no nosso país quem não tem dinheiro fica fora da escola, não é como em Macau que o Governo paga”, diz Anny.

As mulheres ainda têm menos hipóteses de ir à escola, o que lhes reduz as oportunidades. “O trabalho doméstico é para as meninas, enquanto os deveres de casa da escola são destinado aos meninos. Empregada doméstica por um dia, empregada para a vida toda”, canta Ayu, na peça de teatro, ela própria empregada doméstica em Macau desde 2000.

 

HISTÓRIAS DE GENTE INVISÍVEL

 

“Estas pessoas são o que nós chamamos em cantonense de ‘small people’, [“gente pequena”], mas queremos saber mais sobre as suas histórias, achamos que a migração é parte de nós. Neste caso a companhia de teatro queria ouvir a voz dos imigrantes de hoje”, disse ao PONTO FINAL Leong Ka Wai, a produtora da peça “Migrações”, do grupo de Teatro Experimental de Macau. A produtora explica que foi através da organização Peduli (Peduli Indonesian Migrant Workers Concern Group) que a companhia chegou ao contacto com os trabalhadores não-residentes indonésios e protagonistas deste peça. Outras protagonistas chegaram através do contacto com outras organizações.

Para Mira, Ratna e Anny, participar neste teatro permite-lhes contar a sua história às pessoas de Macau. “Há muitas coisas que aprendemos aqui”, acrescenta Lastri, 33 anos, que chegou a Macau em 2017, vinda de Hong Kong.

 

Peça de teatro “Migrações”

 

Entre o público que assistia ontem à peça de teatro incluíam-se patrões de empregadas domésticas, colegas e amigos, residentes locais que quiseram conhecer um pouco mais sobre uma comunidade praticamente invisível, ao contrário da população filipina residente no território.

Para o representante da organização indonésia, Peduli, Jos G. Young, conhecido por “George”, esta peça é importante porque chama a atenção dos locais para a comunidade. “Porque existe uma distância entre a comunidade indonésia, os estrangeiros e a comunidade local. Passo a passo, a comunidade local começa a estar mais esclarecida. Os empregadores estão mais compreensivos, há uma melhor comunicação, não apenas com os empregadores, mas também com as outras pessoas. Em segundo lugar, isto é também um bom trabalho para entender os outros em quem nunca pensamos, porque na vida das pessoas locais esta comunidade quase que não existe, elas estão em algumas famílias, como empregadas domésticas. Mas, às vezes, essas pessoas nem se lembram que as empregadas domésticas existem, portanto acho que é um bom trabalho”, afirma.

George acredita que este processo de conhecimento e entendimento pode influenciar positivamente as condições de trabalho dos trabalhadores. “Porque alguns patrões vêm ver a peça, e tornam-se mais condescendentes, nas actuações anteriores os empregadores também vinham ver o que as suas empregadas andavam a fazer nas folgas, alguns tinham desconfianças e deixaram de ter”.

No entender de George, a peça também mostra que a migração não é a saída para os problemas, é apenas uma solução temporária. Até porque a migração resolve as dificuldades financeiras, mas cria problemas nas famílias, as relações entre mulher e marido fracturam-se e os filhos afastam-se”.

 

“A MIGRAÇÃO É PARTE DE MACAU. PORQUE NOS ACHAMOS DIFERENTES?”

 

Foi com o desejo de conhecer o que vai na alma e de dar voz a esta comunidade de empregadas domésticas, quase desconhecidas, mas que partilham da intimidade das casas, que consolam as crianças e cuidam das famílias, que a encenadora e autora do texto da peça, Nicole Wong (Wong Weng Chi), 33 anos, formada em jornalismo e em teatro, em Taiwan, começou a escrever histórias sobre migrantes por forma a dar-lhes protagonismo através de uma plataforma artística.

“Migrações” é a continuação de um trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Teatro Experimental de Macau desde 2014. Com o apoio do subsídio do “Programa de Apoio a Projectos Artísticos Comunitários”, a companhia começou a desenvolver um projecto de teatro comunitário focado nos grupos desfavorecidos e com menos recursos. “Our Own Story” e “Our Bodies” foram as peças apresentadas em 2016 e 2017 já contando com a participação de trabalhadores migrantes indonésias. “Este ano quis pegar na origem do problema, a razão para estas trabalhadoras emigrarem, é uma questão económica, política?”, diz Nicole Wong. A dramaturga, que é também filha de pais de Hong Kong e China continental, quis focar-se nas relações familiares, na distância que se cria entre pais e filhos. “Estes migrantes vêm, tal como os nosso pais e avós vieram para tentar sobreviver, eles estão a fazer exactamente o que os nossos pais fizeram, porque nos achamos diferentes? Porque achamos que temos um ‘status’ diferente? Essa é a questão que eu quero colocar”.

 

Peça de teatro “Migrações”

 

Nicole Wong acredita que há cada vez mais pessoas alertadas para esta questão. O facto da peça ter integrado o FAM também ajuda a promover o tópico. Foi a curiosidade em conhecer um pouco mais sobre a comunidade indonésia que levou Sou Sok Weng, psicóloga escolar, nascida e formada em Macau, a juntar-se ao grupo de teatro, integrando a companhia desde há três anos. “Este tipo de programas com as comunidades são muito raros, a comunidade indonésia é muito especial porque eles vivem no mesmo lugar que nós, em Macau, mas nós não nos conhecemos uns aos outros, é tão estranho”, diz. “Tenho muita curiosidade em perceber o que faz estas pessoas deixarem as suas terras, às vezes pode levar anos até que voltem a ver os familiares, eu queria saber a razão e conhecer este grupo”, prossegue.

Sou Sok Weng é, também ela, filha de pais imigrantes. “Os meus pais vieram da China continental, na verdade pelas mesmas razões que estas indonésias, porque naquela altura as condições de vida na China eram muito más, porque eles queriam ter uma vida melhor vieram para Macau”.

Na peça, Sou Sok Weng, diz que os pais são como os peixes, que seguem rotas migratórias, deixando-se conduzir pelas correntes, e que também vieram para Macau à procura de um caminho. “Ninguém pode escolher o seu destino, tal como os peixes, eles seguiram a corrente”, acrescenta. Ao PONTO FINAL, a actriz afirma que “quis trazer este exemplo dos meus pais logo no início da peça, porque nós partilhamos as semelhanças entre nós”.

A psicóloga escolar com formação na Escola de Teatro do Conservatório de Macau acredita que, se a vida não tivesse melhorado aqui em Macau, os pais provavelmente teriam procurado um outro lugar, novamente. Mas, aqui a qualidade de vida é boa”, conclui.

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